quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diálogo sob o lençol de estrelas



São vários minutos da manhã, diz o relógio. Trinta e sete pra ser mais exato. As horas não importam, nem mesmo elas são correntes. Há tempos deixei as correntes. Não foram todas retiradas de uma só vez. Não, não foram. Houve vácuo e, no meio de suas idas-e-vindas, tempos e circunstâncias, fases e nuances proporcionadas pelo crescimento das coisas em mim.

Celeste, nome fictício para uma amiga querida de longa data, gosta muito de me instigar o pensamento daquelas certezas que os bem-aventurados se alimentam: o viver com asas. Ela mesma me sugere que as coisas se agigantam dentro de nós; às vezes, diz, agigantam-se pra baixo, para além do que é visível tal como uma raiz. Estávamos, há um tempo atrás, na porta do Teatro João Caetano, diante da histórica Praça Tiradentes, no Centro do Rio, quando me chama a atenção para algo que não percebia:

- “Olha só como é bela, amigo!”

Não entendi, mas questionei seguro de alguma coisa realmente linda – em se tratando de Celeste, algo embevecido de beleza etérea. O que é belo neste momento?, perguntei.

“Meu Deus! Você não consegue ver como essas árvores são belas!? Olha só o tamanho da raiz daquela ali! Eu ficaria horas contemplando... sim, gastaria horas perdida num abraço ao redor dela!”.

"o essencial que não se vende, mas se encontra em qualquer lugar pra quem sabe enxergar, e não apenas ver"

Não imaginem que seja fantasia porque, à vista do que já testemunhei em mais de uma década de amizade, estou certo que faria sim! Ela é humana demais pra se negar a própria natureza. Um ser humano imune aos conflitos da maioria.

“‘Maioria’? O que eu tenho a ver com a maioria? Dane-se a maioria. Eu quero é o instante de minha própria realidade!”, são palavras do que chamaria discipulado transpirante, algo super natural quando estou ao seu lado. O cenário se iluminava - melhor dizer que se engrandecia - durante o papo que tivemos assentados num banco da parada de ônibus.

E foi ali que filosofamos ares e olhares sobre o significado do viver satisfeito. Que conjunto de palavras desafiadoras! Sob a imensidão de um lençol azul-marinho cheio de estrelas, do outro lado da praça, quase em frente ao Teatro Carlos Gomes, tecemos nossas histórias com sementes que abríamos de sonhos acordados, falando de lutas travadas e felicidade semeada no campo do agora. O resultado nos pareceu um ‘desafio’ desses que se mata como os leões do dia a dia.

"Nem sei se ela saberia me falar do “para-si”, de Sartre, mas fato é que a sabedoria daquela mulher me dava certeza da não-necessidade."

“As pessoas estão perdendo a sensibilidade do que é essencial”, me dizia pra, logo em seguida, completar: “o essencial que não se vende, mas se encontra em qualquer lugar pra quem sabe enxergar, e não apenas ver, meu amigo.”

Embora, talvez, a resposta me parecesse óbvia – porque intimidade, de fato, ‘é uma merda’, como dizia Caetano – quis instigar o profundo daquelas palavras quando perguntei, sulcando a terra: você tem encontrado o essencial?

“Lógico!”, me respondeu com os olhos arregalados pelo espanto com o peso da simplicidade daquelas palavras. – “Lógico que sim! Glória a Deus! Eu sou uma mulher realizada porque me realizo na essência das coisas que conquisto, meu amigo!”.

E sem que perguntasse, resolveu completar o que parecia um discurso aos céus:

- “Sou realizada como indivíduo, única em todo o universo, na cama, não importa com quem desde que seja aquele a quem eu tenha querido, na minha fé que não é propriamente minha, mas eu a reconheço como Dom porque não sei existir sem o fôlego de Deus!”.

Sorria com o tom daquelas palavras. Creio também que não seria o único a sorrir diante de tanta revelação. Mal sabia ela que analisava o compasso, a melodia e o acorde daquelas palavras, quase condicionando o discurso para uma convergência ao existencialismo sartriano. Nem sei se ela saberia me falar do para-si, de Sartre, mas fato é que a sabedoria daquela mulher me dava certeza da não-necessidade. Pra quê, afinal de contas? Minha reação instintiva, sabe-se lá por qual loucura que me acendeu aquela lucidez toda, só veio a aumentar. E teve uma hora naquele 'campo do agora' que não quis mais sorrir, e pus-me a rir num ímpeto de glória com o brotar daquelas certezas. Ouvi-la parecia um despejar de coraçõezinhos cadentes chuviscando daquele lençol do céu acima de nós.

“Você está rindo do quê? De mim?!”, me questionou tomada de absurdo. Ao que respondi: não, não é de você. É da fartura de sementes!

“Quais?”, era a sua dúvida.

As que saíram de sua mão no campo deste ‘agora’, respondi-lhe mergulhando de ponta-cabeça naquela profundidade abissal.

- “Ah, bom! Pensei que você também fosse desses que não sabem enxergar o essencial... que tristeza seria, meu amigo!”


Nota: o nome fictício apenas resguarda alguém a quem não consegui contactar a tempo para autorizar a divulgação no post. Apenas isso.

10 comentários:

Wagner L. Moreno disse...

o essencial comentado no texto é muitas vezes esquecido ou despercebido! uma pena pra nos mesmos

http://infocasa.blogspot.com

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Sabe, Wagner, eis uma das razões por que é tão difícil encontrar gente com olhos e visão, sobretudo aquela que vê o essencial.

Uma pena para todos os seres humanos, diria. Como pessoas assim fazem falta. À vida!

...

Kazé disse...

Deus!
Só posso agradecer a encruzilhada do destino que me trouxe até a sua porta.
Obrigado.

HSLO disse...

O essencial sempre fica para um outro momento...as pessoas esquecem que temos algo de essencial dentro do nosso ser.


Abraços

T disse...

eu fico mais do que feliz quando encontro um blogger de qualidade como o seu. Coisa rara.

Robson disse...

Esses momentos transcendem todo o entendimento...Literalmente.
Abraço

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Kazé: Espero que entre por ela... e fique! Reciprocamente, obrigado!

...

[Farelos e Sílabas] disse...

...

HSLO:

E cabe a nós estimularmos o essencial em nós e naqueles pra quem somos especiais também! Vir aqui e demonstrar que já identificou o primeiro passo é um bom sinal. O essencial é fundamental. Valeu, amigão!

...

[Farelos e Sílabas] disse...

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T:

Apenas uma letra. Apenas um ser humano. Graças a Deus por tudo isso! Aí está o essencial! Volte e compartilhe mais letras, palavras, impressões, não importa!

...

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Robson:

E nos fazem perceber que ainda há sinais de vida (e não mera sobrevida) na Terra!

Abração!

...

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