
Sábado colorido de várias tonalidades de chumbo. Tal como a vida. Mas, e daí? Eu amo viver nem que seja pra aguardar o renascimento, quando houver. Sim, estou embriagado de Clarice Lispector. Resolvi apresentá-la a uma amiga (a outra já a conhecia). Encontro marcado. Horas e ponteiros na nossa direção. Nós fazemos o tempo. Não, não precisa avisar aos que não souberem. Parei de me importar, o que eu preciso é o agora. De fato, Clarice mexe com a gente. Dá uns nós em qualquer sílaba, quem disse que palavra também não engasga? Eu fico mudo quando a linguagem me destrói. Às vezes sou vencido pela palavra. Emudeço. Tem gente que saberá do que falo.
Não imaginava que iria me apaixonar mais ainda pela aura de Clarice. Ela é danada (“arretada”, como escreve acerca dela meu Serginho), mas dana-se quem pensa o contrário. É dessas que nos esclarece: ‘eu sei o que faço neste mundo: incumbida!’ Não há como não querer senti-la. Mergulhei no seu mundo durante três horas na exposição do Centro Cultural Banco do Brasil. Vi seus retratos particulares, catei os detalhes nos seus documentos, perscrutei seu título de eleitor, a seção em que votava, o passaporte, os boletins, cartõezinhos do INSS, cartas escritas aos 21 anos de idade ao presente Getúlio Vargas pedindo que fosse-lhe deferido o pedido de naturalização como brasileira (o que foi aceito). Encantei-me com a sintonia que nós dois – ela e eu – temos em nossa peculiar história: graduamos no mesmo curso e na mesma Faculdade Nacional de Direito, nasci no dia em que ela deixou de existir (embora o seja sempre, o que é mui diferente), só mudando o ano. Ela costumava emendar o texto da mesma forma que eu no final de meus escritos (crônicas e poesias), sempre puxando setinhas com caneta e bagunçando o coreto de tal forma que ninguém – exceto nós mesmos – entenderíamos os nossos originais. Amei o carinho dela para com o filho caçula, lá pelos idos de 1969, quando o menino ainda era adolescente e fazia intercâmbio nos EUA: “A pessoa que mais te quer neste mundo”, assim assinava no final das cartas cobertas de maternidade. “Não traga gato para este apartamento, exceto se já estiver treinado para os pipis” – foi o bilhete escrito à caneta numa margem de outra correspondência para o filho Paulinho. Ria nos detalhes. Nem me importava com os demais vendo minha autenticidade incorrigível – a liberdade de ser-me. Ouvi-a dizer que, certa feita, pegou um táxi e foi até a Feira dos Nordestinos, no Campo de São Cristóvão, só para sentir o clima do que precisava para uma próxima obra. Pois ao sair da exposição, não é que passei pelo mesmo lugar! Mas nada poderia sentir pela exaustão do que já tinha absorvido. Digerir Clarice não causa náuseas. É um empanturramento satisfatório. Eu é que o diga na constatação da palavra: ela está, nunca foi!
Nota: na imagem acima, Clarice durante a entrevista. Maravilhoso poder ouvi-la num telão enorme. Sentados em puffs ou espalhados pelo chão, como foi meu caso, a maioria dos visitantes se emocionou durante muitas de suas falas e divagações. Que vontade de aplaudi-la. Contido e já de pé, preferi simplesmente suspirar e dizer: sou teu fã, louca em absoluta sanidade perfeita!