Mostrando postagens com marcador Reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexões. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de fevereiro de 2012

meu lado B________________



Comida pegando fogo de tão quente. Pergunto: pra quê? Como curtiria os excessos? Imagina um pão entupido de manteiga, margarina ou lá que seja maionese. Mais uma vez pergunto: pra quê? Não é melhor o equilíbrio? Outra coisa, gente sem-noção. Não curto. Acho que não preciso explicar os porquês. Sem-noção é adjetivação de inconveniência. Dispensável, todos entendem (exceto os sem-noção, esses nunca respeitam os limites do outro). Até que gosto da noite (juro!), mas a madrugada pra mim só tem sentido se for pra dormir ou mergulhar nos braços amantes. Nos últimos longos tempos, tem servido apenas para dormir... Quando quero a quietude como inspiração, busco o momento em qualquer lugar apropriado, e não ao socorro precípuo da madrugada. Não curto de jeito nenhum os lugares altos, o odor impregnado de nicotina, a louça largada dentro da pia, bem como meias furadas, chá de boldo (embora ame chás!), arroz queimado, bolo solado, remédios pra dormir, remédios de qualquer jeito, pássaros engaiolados, insetos, livros de auto-ajuda, paisagens sem árvores, fé sem atitude, atitude sem viço de coerência, música eletrônica, roda de pagode, ambientes sem janelas, quartos escuros, escada sem corrimão, chats (um saco!), unhas grandes, pêlos rapados, tintura no cabelo, andar de moto, atravessar ruas com sinal aberto, calor em excesso, frio em excesso, duvidar em excesso e o exceder no excesso. Embora tenha falado dos excessos, convenhamos, não oferece prazer ao paladar um pão sem manteiga. Conveniências à parte, que se registre que gosto de samba e dos batuques de percussão! No entanto, não é assim que me coloco ante os partidos de direita, os guetos como diminuição geográfica identitária e o Deus implacável da religião. Saiam de retro! Distância quero de toda forma de mentira, de toda forma de covardia, bem como da preguiça, do descaso, da grosseria, das verdades impostas, da meia-verdade, do egoísta, do ególatra, de gente problemática, de gente que diz mas não faz e de gente que ultrapassa o direito da existência do outro. Não gosto também de gente que se vitimiza só pra buscar uma atenção como esmola. Penso que é tão insuportável quanto o ser vaidoso (não pela estética, mas em razão do sentir-se superior aos demais). No desafio do que não curto, afirmo que não suporto projeções: o cara é, por exemplo, mentiroso e crê que todos são assim também. A mulher é infiel e crê que todas e todos são assim também. Isso pra mim é projeção. Pra mim não é questão de mau-gosto e sim de injustiça para com quem não for assim. Crianças adultas e homens infantilizados também não me soam bem. Há que se respeitar as estações da vida sem medo de ser o que se é em cada uma delas. Passaria o dia inteiro pensando em muitas outras coisas que não me atraem (às vezes, até me causam indignação) e cuja lista entesa como um arco e flecha: tudo o que é “fake”, a desesperança, a VIL-olência, a sequidão de sonhos, os estereótipos, os barulhos inchados de desrespeito, a aridez de idéias, o não-ser, etc. O que, todavia, colocaria como "top of tops", ou seja, como o que me causa maior distanciamento do meu bem-querer, seria o amor sem entrega e o amor como produto (pra não dizer "coisa") de um capitalismo internalizado como uma espécie de “modo de ser com as pessoas”. Há que se ter respeito. O outro – o qualquer outro para além de minhas fronteiras! – pode ser alguém com aspirações completamente diferentes... Pelo que já me expus, dei-me como cara à tapa a muita gente. Um aviso, porém: não me leia interpretando pra si o que é apenas meu próprio olhar de mundo, de vida, de mim mesmo... De repente, você curte pão ensopado de margarina e não tá nem aí para as taxas de colesterol LDL ou HDL, bebe em excesso, curte um bom pagode na roda de amigos, troca de namorado(a) como quem troca de camisa, enxerga o amor como mera satisfação fisiológica e até se esconde nos estereótipos pra se auto-proteger. "Cada um no seu quadrado", canta a sabedoria simples das massas. No entanto, em meio às linhas entrelaçadas do meu pensamento exposto nu e cru, eis-me numa leitura-de-mim conforme meus próprios sinais em forma de letras e na textura de palavras. Eis-me sendo assim no lado B da vida (sobre o lado A, antagônico a este, o das minhas paixões e curtições, direi mais tarde em outros tecidos de palavras costuradas)!



quarta-feira, 2 de março de 2011

Avisando que preciso de tempo...



Sabe quando você percebe que há flores não cuidadas no jardim? Sabe quando as semeaduras, por si só, não tecem a fertilidade do solo nem trazem água pra dentro das canaletas? A palavra é quase certa que me distrai. E digo quase porque sei que já me colocou de ponta a cabeça em textos afora. Ando distraído, confesso. Mas não é difícil pensar que há uma quantidade enorme de ações pra serem executadas com palavras e significado. Tenho, literalmente, uma dúzia de excelentes obras pra serem lidas, uma a uma aguardando a sua vez. Ontem, irresistivelmente, puxei das prateleiras da Saraiva a obra “Ostra feliz não faz pérola”. Quase quinze minutos devorando a obra, de pé. Segurei-me, mas não resisti. Comprei. O ‘Farelos & Sílabas’, de vez em quando, me suspira idéias e me inspira o desejo das saudades. Saudades de quem precisa atualizar as linhas, os fatos, o prazer de parir palavras...

Há flores não cuidadas nos textos que ando produzindo, quase sempre deixando-os à margem. O tempo é curto, confesso pra minha ansiedade e meu sereno desespero. Não convenço. Não começo. Não saio do papel. As palavras me traem com consentimento. Prossigo. Persisto. Nem sempre consigo. Quem não recebe meu consentimento é o tempo, que não titubeia; que, mesmo curto, avança impávido e, às vezes, impiedoso...

Debaixo da sombra das paredes nesta selva de pedra, após os contratos redigidos, mergulhei num estudo sobre a nova ortografia, projetos traçados que o meu futuro compartilhará no momento oportuno. As horas foram engolindo o tempo e o tom de meu vigor. Umas gotinhas de cansaço molharam alguns sonhos. Ao fim do dia, voltei pra casa pensativo, dentro do metrô. Meu pensamento naquele instante estava descalço, surrado pelas reflexões. E tem estado assim ultimamente...

À noite, na companhia do travesseiro e dos lençóis, tem horas que um friozinho assopra ventinhos pra lá de gelados. Acho que já era madrugada quando meu peito e algumas necessidades vitais quase morreram de frio. De repente, lembro que o pensamento voou da cama e me recordou o último ato de “La Bohème”, de Puccini, com Rodolfo gritando e soluçando por sua amada Mimi, que morria de frio no quarto. Do lado de fora de mim, no entanto, nada se comportava gélido ou morto. Ao contrário, estávamos eu e as idéias descalças e confortavelmente vivas. Estranho tudo o que disse, mas penso que somos parte de um todo, de um grande jardim dentro de nós... Deve ser por aí mesmo! Creio que me assisti criando brotos, rasgando alguma parte de mim pra folhas novas nascerem...

Mas este mergulho pra dentro das emoções é o que me aponta a certeza do crescimento, o de me perceber vivo e produzindo novas fases dentro de mim. Este foi um tempo só meu, um tempo de certezas sendo fecundadas!

Há, porém, certezas e certezas. Uma delas é a que percorri cantos vazios e outros floridos nos meus jardins de alma. E há apelos sendo feitos tanto quanto há reivindicações justas e necessárias de um homem de quase meia-idade. E o que eu digo diante de tudo isso? “Está tudo acabado entre nós!”, como dito por Rodolfo à Mimi em “La Bohéme”? É pra ser assim?

Não, não pode ser assim!

Eu preciso conduzir a roda viva da vida por entre os cantos que aprecio e por aqueles outros não percorridos. E que se dane se atravessei os anos distraidamente, cego-de-mim, se engoli etapas, se me recusei a dançar com a vida quando mais jovem, se tanta coisa eu quis em outros tempos mais obscuros de negação de minhas verdades, se tanta coisa que não é nada se eu comparar ao que ainda pode ser e me fazer cada vez mais feliz!

Não quero terminar o texto e ficar triste ou perplexo!

Eu só peço um tempo, uma necessidade latejante de reavaliar algumas coisas, catar folhas secas e limpar as cores vivas de minha natureza. Desde ontem a idéia me persegue: eu preciso cuidar {mais} de mim e das {muitas} ações que nascem de meu ânimo e de minha esperança particular. Dessa vez até meu corpo e todo o imenso coral de testosterona que por ele canta, me pedem atenção!...

Quero dar-me tempo pra umas coisas e nem tanto pra outras. Decidi que perco a inteireza do necessário tempo nos programas de relacionamento social. Necessário pra mim, quero dizer. Não irei excluir o twitter e o facebook {tal como o fiz com o Orkut há mais de um ano atrás}, mas um afastamento premeditado e coerente com os rumos que desejo me conduziriam ao tempo que quero de volta pra mim. É um reinvestimento do tempo que me concedo. Nada muito novo, já tomei medidas assim outras vezes. Decidi que preciso de reajustes, algumas podas, uns amassos firmes!

Sair aos poucos, de fininho, à francesa, é interessante? Quem sabe... Eu ainda não sei, apenas considero.

Só não quero pegar os amigos de surpresa. Talvez, por isso mesmo, cuide pra que essas idéias germinem em palavras exatas, nada furtivo ou incoerente com o carinho que sinto pelo que faço e por todos os amigos que tenho no universo virtual. Talvez o faça para os próximos dias, quem sabe depois do Carnaval ou do sono que se perdeu na cama...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma crônica sem pretensão alguma de matar a sede


Sabe quanto tempo um plástico dura pra se decompor? Não sei dizer exatamente, mas é coisa de séculos! A resistência do material frente às intempéries e a todas as demais formas de erosão natural é algo que me chama a atenção. A coisa dura porque é resistente. E é resistente porque sua constituição – aquilo que realmente é desde o âmago! – favorece a integridade do material por anos e anos.

Nesse calor de matar carioca, tão acostumado aos quarentinha graus dos verões, não tenho outra alternativa senão me refugiar nos pensamentos. Eles me refrescam. É a explicação. Fico mergulhado em mil pensamentos sobre a descartabilidade e a resistência nas relações – qualquer uma, desde que humana – enquanto giro lentamente a garrafa de água mineral nas minhas mãos. O plástico, a sua textura e sua utilidade me inspiram numa série de vaivens de idéias e de algumas projeções também. Eu mesmo queria ser assim, mais resistente às intempéries por natureza. Mas não sou. Isso é bom, não chega a ser ruim. Saber que, diferentemente das garrafinhas de água mineral, preciso desenvolver meu potencial para criar possibilidades e assim caminhar por elas, acaba me pondo no meu eixo original. Ser humano é reinventar-se, é renascer a cada inconstância, é desabrochar sem perder a gana de florescer, tenha ou não tenha mais primaveras na estação. Acho que o eixo se equivale a tudo isso...

Mas nem tudo que é plástico é garrafinha. A maior prova disso está no mundo das virtualidades, o universo pra dentro do qual o limite de uma relação está a um toque dos dedos. É pelos caracteres que o programa impinge na tela que muita gente constrói seus encantos e suas muralhas. Eu, por exemplo, que sou forte, gostoso, acabei de pintar meus olhos de azul (baratinho, baratinho, graças ao photoshop!) e retocar uma dezena de imagens só pra ficar com peitoral definido, cabelinho empinado em gel e óculos rayban. Tá vendo só! Eu me pegaria, caso me desse mole. Olhando para as imagens, a imaginação instiga a curiosidade. Não agüentei e acabei pegando MSN e facebook da criatura, no caso, eu mesmo (ou o “suposto eu”). Não poderia perder a chance de ficar comigo mesmo, justifico-me. Depois que me vi de cuequinha branca numa pose pra lá de sedutora, as cabeças pensaram ao mesmo tempo e a uma só velocidade: deve ser um tesão na cama! ‘Quero você!’, me disse a mim mesmo num bate-papo pelas madrugadas. ‘Você é um carinha raro, tudo o que sempre esperei!’, reafirmei pra parecer mais convincente. Não é que deu certo!? Marcamos nosso primeiro encontro neste final de semana! Tudo transcorreu conforme o ritmo dos processos que nós mesmos construímos, alguns mais sagazes nessa caçada; outros, menos. E, casos mais raros, alguns mais ingênuos e românticos demais, coisas fora de moda na vanguarda dos relacionamentos plásticos. Que tolice! “Un non-sens absurde”, me diria a perspicaz Simone de Beauvoir. Obviamente tudo isso não passa de uma ficção pra lá de absurda. Por outro lado, absurdo ou não, a gente vai plastificando nossas relações {e nossos relacionamentos} à medida que adere esse ‘modo de existir’ como estanque às carências photoshopadas. Nem sempre somos água mineral, somos garrafinhas plásticas mesmo!

Hoje, esperando um carro na rua, encontrei-me com Fernanda. Nome fictício, claro. Não somos amigos, mas nos tornamos muito próximos pelas razões do dia a dia: a gente mora no mesmo bairro, temos vários amigos em comum e costumamos pegar ônibus juntos. Conversa vai e vem, ela me pergunta se poderia tirar uma dúvida sobre questões de direitos de herança e doação de imóvel. Tiradas as dúvidas, me conta sobre o desejo de fazer testamento em prol de sua companheira de vinte anos de relação. Explicando-lhe sobre direitos homoafetivos, nos ativemos ao ponto crucial de todos aqueles relatos: o carinho, o respeito e o companheirismo, fruto daquele amor que ardia duas décadas depois de iniciado. Tem segredo?, quis perguntar, mas desisti pela certeza da resposta que é particular de cada um. Cada um precisa saber, no mínimo, se está disposto a um relacionamento que mostre a cara {e o coração!} sem photoshop. “Sabe qual o segredo?”, ela me perguntou para surpresa de minha discrição. Gostaria de saber, respondi. “É saber que uma igualzinha a que eu tenho não encontrarei mais!”, resumiu na sua poesia de valor.

Claro que não iria esmiuçar aquela história, até porque não sou psicanalista nem teria razão pra fazê-lo mesmo que o fosse. Precisei saltar antes dela, acabei me despedindo e felicitando-lhe pela certeza de ter encontrado alguém de verdade, de carne e osso, de pele cansada e olheiras nas noites mal dormidas, de coração pulsante nas euforias e nos limites da emoção, de acertos e de equívocos que ultrapassam o desejo instintual numa madrugada e o frisson dos gemidos paridos nos vaivens dos quadris. Na pressa, na hora de saltar, esbarrei e deixei cair a garrafinha de água mineral. Ela se adiantou, segurou e me devolveu. “Cuidado pra não cair de novo!” E completou em seguida: “É assim que digo pra mim mesma quando estou nos braços da mulher que escolhi pra amar!”. Hã? Como assim? “A gente cai em tentação todo o dia, mas não é por isso que eu vou largar meu investimento mais seguro, a minha vida!”, filosofou. Ela é a sua vida?, perguntei só pra questionar. “Não, eu é que não encontro vida, vida de verdade, longe do prazer da companhia dela!”. Sorri. Saí com a garrafinha vazia mas com os pensamentos mergulhados em mil idéias. Alcei voo numa certeza enquanto atravessava a Avenida Passos, no Centro. Amores de plástico não matam a sede durante toda a estação. É preciso ser água mineral pra nós mesmos e para os outros. Com ou sem gás? Ah, isso já dá pano e letra pra uma nova crônica...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Estigmas, liberdades e radicalidades



Se eu fujo dos clichês, dos estigmas, dos rótulos e das comparações, então não sou o que esperam de mim. A vida toda esperaram muito de mim. Nunca me perguntaram o que eu esperava de mim. Crescer com uma obrigação imposta – mesmo no silêncio das projeções (dos familiares, principalmente) – é um martírio. Sim, pois a imposição do bom mocismo quando introjeta na psiquê é avassaladora pra quem dela se serve. É por isso que quem cresce livre desses fluxos de imposição familiar ou moral, de fato, respira mais aliviado. A razão é simples: não há fardos ou cobranças ditando o comportamento. O sujeito segue livre, leve e solto na sua construção pessoal existencial. Considero tudo isso um privilégio, um presentão chamado liberdade. Liberdade para ser.

Agora, quem nunca esteve nem aí para os tais fluxos de imposição – ou seriam “formatação”? –, fazendo justamente o que dele (ou dela) não esperariam, não se importando com mais nada, recebe de cara a tarja “ovelha negra”. Antes que as palavras soem comoventes, digo que há um bom sentido em ser ovelha negra. Bem-aventurados os que, rotulados como ovelhas negras, conquistaram suas alforrias! É verdade. O sujeito sabe que a cadencialidade das suas atitudes transgressoras lhe abrirá as portas da liberdade. O resultado, de certa forma, é que o sujeito está safo! Estar safo não deixa de ser uma implicação de liberdade, se é que me entendem...

Do contrário, se o sujeito preferir a maciez da estigmatização de bom mocismo – que não deixa de ser perversa, porém de forma aparentemente indolor –, fazendo sempre o que esperariam que fizessem, algumas vezes por se acostumar com o hábito viciante dos méritos e congratulações (“Ah, como ele é maravilhoso!”, “Como gostaria que meu filho também fosse assim!”, “Este é o genro que toda a sogra adoraria!”, etc), neste caso, o caminho para a liberdade – a liberdade do ser! – será mais pedregoso justamente pelo vício das performances politicamente corretas e até perversamente louváveis numa sociedade comportamentalista. Eis a razão de ter dito aqui num post de ano passado, se não me engano: por pior que seja você, prefira mil vezes ser você-você-mesmo a ser um não-você.


Falo por experiência própria em todos os aspectos que ressaltei logo acima, tanto na questão da estigmatização de bom mocismo e nos vícios meritórios que seguem por tabela como também na desvantajosa acomodação em ser um não-eu. Evidentemente não gostaria de imprimir nestas linhas uma conotação de pobre coitado. Pelo contrário! É por isso que folgo em dizer que nada se compara ao prazer de sermos e fazermos o que nos der na telha, como fruto de decisões maduras de quem assume todas – disse e repito: todas! – as conseqüências.

O prazer de vivermos na verdade, absolutamente livres dos rótulos impostos, errando e acertando durante nossa existência, fazendo merda quando bem quisermos, mas também solidificando alicerces em muitos aspectos, é uma graça que todos poderiam curtir na sua própria experiência. O poder libertador de uma vida que se impõe pela sua verdade é uma das poucas coisas que são eternas. A amizade que se prova nos tempos de angústia e o amor que de tão grande ultrapassa as fronteiras do desejo, pra mim, são as outras coisas que considero eternas. Não morrem, mas se eternizam na memória de várias gerações.

De uns aninhos pra cá passei a pensar a vida e a mim mesmo de uma nova maneira. Mergulhei pra dentro dos significados da “metanoia” dos gregos. Pra quem gosta de histórias, essa palavrinha foi pronunciada pelo Cristo num diálogo que teve com um sujeitinho covarde chamado Nicodemus, que o procurou às escondidas por temer os rótulos que receberia dos outros. Ele era alguém da elite, acostumado nas práticas de bom mocismo impostas pela sua religião, adepto dos clichês “modus operandi” que até hoje muitos aderem – “dize-me com quem tu andas e eu te direi quem és”, “quem com porcos se mistura, farelos come”, “pau que nasce torto nunca se endireita”, entre outros –, mas doido pra conhecer o Cristo de perto em razão de sua fama transgressora e ao mesmo tempo pacifista. O encontro está registrado por João no seu evangelho. O barato daquele encontro resultou na palavrinha “metanoia”, quando Cristo lhe diz que seria necessário que ele nascesse de novo pra poder entendê-lo e, por consequência, entrar no clima daquela radicalidade pelo amor. A expressão foi traduzida de “metanoia”, que é uma aglutinação de “meta” [novo] e “noia” [pensamento, conhecimento], ou seja, seria necessário que ele passasse a pensar a vida de uma outra forma, sem clichês mas apenas com sua verdade.


Se eu disser que falei meu primeiro palavrão aos trinta anos, poucos acreditarão. Se eu disser que nunca fiquei alcoolizado, mesmo depois dos trinta, provável que também não acreditem. Se eu disser que nunca entrei numa boate, aí terão certeza que estou mentindo! Se eu disser que, por várias vezes, inclusive recentemente, já evitaram de vir falar comigo em razão de suposto receio pela ‘falta de assunto’, acreditem, é fato. E tudo isso por quê? Porque o peso das estigmatizações dificulta o florescimento das nossas próprias idiossincrasias.

É por isso que não afirmo pra ninguém que sou um camarada bonzinho, que sou romântico, que envio flores, que choro em público ao falar de amor, que choro reservado ao ouvir canções de fossa, que jamais fiquei por ficar com quem quer que seja pelo valor que todos os seres humanos têm pra mim ou, pior ainda, que sou pra casar. Dez ou onze entre nove ou dez dos meus amigos mais íntimos dirão sem pestanejar que sou exatamente assim, sem pôr nem tirar. De uma maneira filosoficamente teimosa digo que estão todos errados, mesmo envidando patéticos e desajeitados esforços contrários... Como eu bem sei que é viciante o processo de adequação ao que esperam que sejamos, fujo - ao menos tento fugir! - dos clichês.

Antes que me polarizem como anarquista, explico meu ponto de vista defendendo categoricamente que pessoas são pessoas. E só. Eu sou mais uma que me distingo pelo que sou dentro daquilo que Marisa Monte identifica como infinito particular. Eis por que costumo dizer – e nem sempre sou compreendido no cerne – que eu não tenho virtudes e que, portanto, não sou o que esperam de mim! Meus limites são fruto da minha liberdade! Os meus amigos e todos e todas que de fato gostarem de minha companhia - inclusive pretendentes - saberão quem sou pela proximidade na troca de nossas energias. Simples e radical. Coisa de gente livre. De tudo, até dos estigmas!


+ + +



E pra quem pensar que a força de minha verdade é mais forte que a solidez do amor, o que seria um contra-senso, pois vida em mim se dá pela via do amor, afirmo que sou mais um radical que sonha e que respira pelo amor.

Os porquês de minha radicalidade confessa lancei em farelos soltos enquanto me despedia deste post. Deu no que deu.

Eu confesso que...

Sou radical pelo amor que me irrompe as veias, me sacode os braços na direção do meu próximo – qualquer um! – e me torna sensível ao mundo que me cerca. Sou radical pelo amor que não me cala o sentimento, mas grita em muitos silêncios dentro e fora de mim.

Sou radical pelo amor que me enche o peito de esperança, as letras de significados doces e meus amanhãs com o recomeço. Sou radical pelo amor porque me visto de singularidade, mas não projeto em mais ninguém minha singularidade porque sei que projetar é destruir a beleza única do outro.


Sou radical pelo amor que torna meu ordinário o extraordinário de todos os momentos, que o faz belo por me importar. Sou radical pelo amor que me faz eleger o Bem cotidianamente nas coisas mais simples, reconhecendo que todo o processo é uma mística que só me inspira, nunca me cansa.

Sou radical pelo amor que me remete ao valor de todas as coisas, as que compreendo e as que ainda não sei como discernir. Sou radical pelo amor que nunca é pobre ou fraco, mas, às vezes, apenas tímido ou silencioso, incapaz de se encolher ou tornar-se indiferente.

Sou radical pelo amor que me compromete a toda atitude construtiva e que sacia não apenas a mim, mas ao outro. Sou radical pelo amor que dá sentido à Vida que há em mim, pondo sóis nas minhas janelas mais secretas, iluminando meu chão e todo o alicerce do ser.

Sou radical pelo amor porque é nele – o Amor! – que me banho o corpo, a mente e os afetos todos os dias. Por que não se banhar com companhia? – perguntaria qualquer curioso. Porque a porta está entreaberta, sem muita exposição, mas suficientemente convidativa para quem discerne o valor simples das coisas e a profundidade dos laços que se firmam nesse amor, o mesmo do qual sou eternamente radical...

E por falar em amor radical, segue um beijo para além das estrelas na bochecha de meu paizinho. Ontem, exatamente ontem, fez um ano que sepultei o seu corpo, e recomecei a aprender a percebê-lo nas coisas mais simples das lições que ele eternizou em mim. Saudades daquelas igualmente radicais!


Nota de rodapé: dedicado a todos que sabem, na profundidade dos significados, o que é amar sem impor ou esperar condições e, por isso mesmo, podem dizer que são de fato românticos, eternamente românticos... as I am (I suppose)...


domingo, 4 de abril de 2010

A todos e a todas neste domingo


Passo por aqui como quem se achega, acena aos amigos, aproxima-se e se assenta o mais próximo. Faço do momento – como sempre me é oportuno - o encontro. E numa espécie de encanto, mágico e sublime pela oportunidade de vir aqui, rabisco palavras extraídas do pensamento pra sorrir nas letras o desejo do que [me] apelido de ‘agora’: feliz Páscoa a todos!

Mesmo sabendo que a data celebra a Tradição cristã nas leituras históricas da paixão, morte mas sobretudo Ressurreição do Cristo, permanece a boa intenção de revisitarmos lições de amor com alguém que só amou. E ponto final.

Se foi condenado por justamente amar, sobretudo os excluídos daquela sociedade (publicanos, samaritanos, meretrizes, leprosos, cobradores de impostos à Roma, etc – e, por extensão, a qualquer que se sinta rejeitado ou excluído), já é um outro aspecto que me foge ao interesse do instante. Quero apenas enfatizar naquele exemplo, muitos e muitos outros – de todas as épocas! – que só amaram e receberam em si mesmos os frutos de tão elevada conjugação verbal-relacional!

Amar nem sempre é fácil, todos sabemos. Amar, às vezes, dói. Há gente que ama e é compreendida. Há gente que ama e não é compreendida. Amar não deveria ter limites, pois quem ama de verdade, ama pela decisão de amar apesar de. Amar traz sempre bons frutos, mesmo que os espinhos machuquem ao longo do processo de frutificação. Por isso mesmo o “amar” não é pra menininhos e menininhas tolos, é pra gente que sabe o que ta fazendo. Como diz meu amigo Márcio Retamero, “a vida não é um comercial de margarina!”. Neste sentido, amar é para os fortes, para os teimosos e perseverantes. É também para os declarados loucos pela incompreensão racional que relativa todas as coisas, mas não consegue relativizar o amor. Amar é. Cada um decida o quê!

Amar é afeto... é acolhimento... é respeito... é refrigério... é perdão e reconciliação... é dar nova chance e sempre dar nova chance... é aprender nas virtudes e nos limites... é Ressurreição e Vida em nós, e é tanta coisa a partir disso!

Tal como iniciei, assim me despeço: Feliz Páscoa! A todos e a todas!


Notas de rodapé: em memória de meu paizinho que me deixou na Páscoa passada, mas ressurgiu numa força estupendamente inspiradora nas boas lembranças, nos aprendizados que agora discirno na pele como bom filho que ele um dia me disse com todas as letras que sou...

Uma homenagem ao poema que é verso rezado na esperança, uma lição que me inspirou neste momento. A oração de São Francisco de Assis na bela voz da diva Ana Carolina.




Queridos, estamos na tarde de domingo de Páscoa. Preciso sair para uma palestra que darei daqui a instantes sobre o Evangelho nas letras de Renato Russo, na Comunidade Betel do Rio de Janeiro. Praia de Botafogo, 430, sobreloja, Rio de Janeiro, bem em frente à paradisíaca Enseada de Botafogo. Beijão em todos!

Alguns vão perceber que a imagem acima já foi tema de artigo no ano passado. Ok, vocês venceram... rs. Páscoa pra mim tem tudo a ver com vida e a celebração que fazemos dela. Eis a razão de ser da imagem na ilustração deste post. Ela exemplifica o sentido que empresto ao tema. Ah, sim, a imagem original intitula-se “Heartbeat”. Retirei-a de um postcard, mas não continha os dados do autor.

terça-feira, 30 de março de 2010

Palavras recôncavas, versos trôpegos



Jogo as cartas sobre a mesa que me sustenta. Já chega! Por que tão longa espera? Por que as horas passam voando e o dia alcança tantos anos sem trazer a companhia da noite? Quem foi que nos disse que há verdades na verdade? Quem espera sempre alcança! É clichê ou chiclé? À vista do meu mais próximo desejo, com que me presentearei? Trajes finos, meu desenlace com a certeza, o atônito da esperança e todo o valor depositado na simplicidade. Se possível, ainda, um olhar esquivo de quem ainda não sei... Há um emaranhado de divagações aqui dentro do peito. Sou um homem de sorte? Depende do momento. Há tanta sorte controversa no mundo: uns têm tão pouco; outros, tanto têm quanto mais querem ter! E quem me tem, ou, antes, quem supõe que me terá?

Se me tiver, que será de mim?

Basta! Seria o fim do quase-sempre ou do apenas-começo? Não tenho uma resposta imediata. A hora já avança, salta pelas janelas e corre por entre as minhas verdades. Não adianta tentar segurar, se é a hora da verdade não pode ser prisioneira! Da janela, lá se vai, e corre faceira, e escorrega, e cai, e levanta, tal como a certeza do que não vejo. Eu não sei partir. Eu já nem sei permanecer. Não sei ser como as horas. Só sei das minhas verdades que ora vão, ora vêm. Vou abrindo janelas e mais janelas no meu peito. E o que sei é tão pouco, pouco demais numa vida inteira, nesta longa espera...

Se soubesse o tanto e o muito, eu acreditaria em mim?

Chega! Não creio mais em amores perfeitos, acabados, inatingíveis... Não sei mais pregar mentiras pra mim nem pra mais ninguém. Desaprendi algumas tarefas simples, coisas lá de trás dos dias de menino, das tardes adolescentes, das noites adultas... Não faço mais dever de casa. Não tenho ás nas mangas. O que carrego é mais que saudade. É fome de presença, uma palavra desconhecidamente em negrito. Mas não qualquer uma! É a tua que ainda não decifro, por isso nunca chega, nem pode ficar porque não sei se um dia existirá.

Mas se um dia existir, não será um belo aprendizado?

Aquieta-te, palavra intransitiva! O silêncio irrompe o momento. É tudo presságio, mais uma verdade que corre e escapa. As palavras conspiram detalhes que, dizem, não posso saber. Tem certas coisas que o dicionário não interpreta. É preciso conjugar no toque, no cheiro, na pele, esses lances de conjunção verbo-nominal. Não tenho parênteses, sou de família reticente. Reticências à parte, que detalhes me nocautearão? No texto, na vida e na dúvida, que seja pró-réu! Eu me confesso desajeitadamente incerto, trôpego como estas linhas em versos. E quem saberá ao certo? Será um nome não apresentado? Um aviso ou encomenda? O que trará no improviso? Uma palavra recôncava? Um dorso esculpido? Quem sabe, o olhar? O sorriso, talvez?

Eis as cartas! Onde o pronome próprio?


"Posso ser generoso pelo egoísmo.
Posso ser amoroso pela tirania.
Posso ser educado pela vergonha.
Vê só o quanto uma virtude esconde uma maldade”
(Fabrício Carpinejar, em "Acácia ou eucalipto?").

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mudanças e transforma-[ações]

Domingo encontrei-me com um antigo aluno, na verdade, um amigo daqueles que a gente não vê há algum tempo. Chegamos a trabalhar juntos numa ONG há três anos atrás. Após o papo habitual de como-vai-isso e como-anda-aquilo, recebi uma sentença: “Você está muito melhor agora!”. Como assim? Perguntar não ofende, principalmente quando eu mesmo me perguntei logo depois que ele se foi. Não costumo ser curioso, por isso não quis perguntar a ele os motivos da sentença. Parecia claro falar de mudanças em mim. Mudanças pra melhor, disse. Outra pergunta me ecoou nos porões da alma: e como deveria ser antes ou, quem sabe, como aparentava ser antes?

Gozado como a gente muda conforme a sede de verdade. Minha sede era pela minha verdade. Considerando o ambiente familiar, passei anos e anos vivendo a verdade imposta pra mim. Inquestionável, num certo ponto. E por quê? Apenas porque algumas construções são difíceis de serem derribadas. Quando a gente constrói idéias sobre fé, moral, verdade, absolutizando o sentido conferido a elas, pouco espaço sobra para o pensar diferente. A coisa rola simplesmente porque é assim, e, em sendo assim, ‘funciona’. É uma espécie diazepânica de comodismo.

Ontem resolvi rabiscar uns pensamentos sobre mudanças. Cheguei a compartilhar um deles, a pedido de minha querida amiga Léa, que escreve seu livrinho (como ela mesma o chama) e precisava de algum farelinho por lá. Penso que toda mudança é uma trans-FORMA-ação. Sim, uma ação que vai além de, que ultrapassa algum limite, o limite da forma original. A gente só muda o mundo quando muda o olhar do mundo da gente. Que puta viagem! E foi uma viagem dessas que fiz à procura de minhas próprias verdades. Aquelas mais suadas, porém feitas por mim e sob minhas medidas. Acreditem, tinha passado dos meus trintinha (com cara de vinte e cinco!). Não me arrependo; aliás, do que me arrependeria? Derrubei muros enormes. Não foram desde sempre. Arranquei peles que me vestiam a pele. Acho que as vesti nas muitas estações da vida. Criei tsunamis dentro de mim que nem mesmo sei como não sucumbi. Recebi adjetivações nada gentis, mas a minha sorte é que não entreguei verbos nem pronomes aos bandidos. Caí no conceito de alguns (e como festejei tudo isso! Que delícia cair do conceito de alguém! Como isso nos torna absolutamente livres, tão livres como livre deve ser um ser humano verdadeiramente humano!). Como resultado de tanta ebulição, produzi raízes gigantescas pra todos os lados! Amigos passei a tê-los em razão de simplesmente existir. Isso deve bastar aos amigos. Nada em troca. Nada pra barganhar. Não tenho amigos porque sou gentil, rico ou famoso. Tenho-os porque eu sou assim, eu-eu-mesmo e ponto. Que dádiva! Quanta liberdade!

Acho que me revolucionei. Não, estou certo que estou me refazendo. Transformando-me. Dia a dia, um pouco mais. Sinto-me nu diante da porta aberta do quarto. Sigo pela sala e debruço na janela. Avisto alguém do lado de lá. Estão me olhando da janela, a janela de seus olhares curiosos. Qualquer uma. Qualquer um. Olhando-me nu e inteiro. Quem se importa? Eu? Que nada! Já me transformei para além desse detalhe...

Por falar em transformação... uma reflexãozinha de Rubem Alves.

Há tempos não postava nada dele por aqui...


“(...) A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. (...) É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.”

quarta-feira, 3 de março de 2010

Preconceitos e alguns juízos intolerantes


Pensando sobre um tema muito em voga no momento – exclusão versus inclusão -, acabei me lembrando dos vários artigos e posts que li nos últimos dias sobre a questão. IN-cluir é pôr dentro de alguma coisa, é chamar pra perto. EX-cluir é justamente o contrário. Não há como forçar a barra com pretensas posições que não sejam ‘IN’ ou ‘EX’-cluir quando se fala em aceitação ou respeito à diversidade. No entanto, vale aqui questionar se toda EX-clusão é de fato oriunda da ojeriza, do descarte ou da fobia ou se é uma questão mais direcionada à ignorância (de fatos, de detalhes desses fatos ou dos outros mundos para fora do nosso-próprio).



Andei instigado a falar mais um pouco sobre essa questão em razão de vários comentários que li nas minhas viagens blogueiras por outras praias. Recentemente na mídia soube de vários ataques vindos de religiosos cristãos fundamentalistas, tanto no Brasil quanto em Uganda, vociferando seu ódio disfarçadamente puritano contra os gays. Há pouco tempo atrás um participante de um reality show foi acusado em massa pela militância LGBT por ser ‘homofóbico’. Cheguei a receber mail pedindo pra reverberar repúdio e tal. Descartei na hora. Revanchismo não leva a nada. Pior, após avaliar e discernir os fatos, separando pré-CONCEITO de ignorância (desconhecimento), não julguei que a militância tivesse razão no caso do tal participante do programa de TV. Não se trata de um achismo, mas uma convicção respaldada. Não sou amador, por isso não compro brigas sem fundamentos consistentes. Lembro-me bem do episódio envolvendo uma psicóloga aqui no Rio, que rendeu muitíssimo mais que as declarações do tal participante do reality na TV. O caso foi discutido na mídia e nas altas instâncias do Poder Judiciário e do Conselho Federal de Psicologia. O posicionamento da juíza federal na ocasião foi brilhante. Acabou me inspirando num artigo que foi veiculado por mailing de todas as militâncias país afora. Nele sim reverberei a homofobia, pois fundamentos existiam – e muitos! Os fatos falavam por si: depois de sérias advertências e várias desobediências, a tal psicóloga que se dizia vítima de um suposto e psicótico gayzismo foi seriamente ameaçada pelos órgãos competentes a perder de vez seu registro caso continuasse a semear sua intolerância, fruto do desamor. Naquele caso não se tratava de ignorância, mas de uma vontade deliberada - e insana - de aniquilamento - boçalmente dita "cura" ou "reversão" - dos gays. Todos eles!


É preciso separar os fatos e analisar as declarações em suas devidas circunstancialidades. Se assim não fosse, todos – repito: todos! – os programas humorísticos na TV e várias peças premiadas de teatro de comédia estariam na berlinda correndo sério risco de serem tirados do ar ou retirados de cartaz, situação esta que respingaria nos respectivos autores, produtores e roteiristas. E não é o que ocorre porque é preciso discernir fatos de fatos. Como se vê, não bastam a emocionalidade corporativista nem a histeria insana.

Mas vamos à análise do preconceito...


Do ponto de vista de sua origem, de sua etimologia, a palavra preconceito significa pré-julgamento, ou seja, ter idéia firmada sobre alguma coisa que ainda não se conhece, ter uma conclusão antes de qualquer análise imparcial e cuidadosa. Na prática, a palavra preconceito foi consagrada como um pré-julgamento negativo a respeito de uma pessoa ou de alguma coisa.

Um problema grave, que merece muita atenção, é a verificação dos mecanismos do preconceito. É muito raro que alguém reconheça que tem posição preconceituosa em relação a alguma coisa. Muitas vezes, o preconceituoso não percebe que age dessa forma, pois, como adverte o professor Goffredo Telles Júnior, o preconceito geralmente atua de forma sutil, sinuosa, levando uma pessoa a tomar como premissa, como ponto de partida, aquilo que deseja que seja a conclusão.

Evidentemente, o fato de alguém não gostar de alguma coisa, não desejar a companhia de uma pessoa determinada, recusar uma idéia, uma teoria ou um padrão estético, nada disso é suficiente para que se afirme que aí existe preconceito. E assim como não se deve aceitar a atitude preconceituosa, desprovida de racionalidade e sem o suporte moral de uma avaliação cuidadosa, é indispensável, também, que se respeite a liberdade de escolha de cada um.

Por isso mesmo, por exemplo, não gostar de uma escola de pintura, de um gênero musical ou mesmo de um autor ou intérprete faz parte dos atributos da liberdade humana e é direito fundamental que deve ser respeitado. Mas quem exigir - seja nos discursos, seja nas práticas - que as demais pessoas tenham as suas mesmas preferências ou idiossincrasias, afirmando sempre que tem razões objetivas para que todos o acompanhem reconhecendo certas manifestações como boas e outras como más, corre sério risco de estar dando acolhida ao famigerado preconceito.

A ignorância é uma das mais ricas sementeiras de onde nascem preconceitos. Mas a presa mais fácil do preconceito é o ignorante que não sabe e não quer saber, é aquele que está satisfeito com a sua ignorância. A intolerância, hoje tão disseminada, é mais um desses venenos. O egoísmo também anda muito próximo da intolerância, não pode ser ignorado. O egoísta não se preocupa com a justiça de suas atitudes, de suas palavras e de seu comportamento. É bom o que lhe convém e é mau o que lhe causa embaraço ou prejuízo.


Por fim, outro fator que atua na vida social como gerador de preconceitos é o medo, a começar pelo medo de si projetado no outro a quem deseja aniquilar.

O preconceito não tem justificativa moral nem jurídica e é essencialmente mau e pernicioso. E por quê? Porque o preconceito estabelece a desigualdade entre as pessoas, sacrifica valores fundamentais, justifica agressões à dignidade da pessoa humana e, por isso tudo, é expressão de uma perversão moral que deve ser, incansavelmente, denunciada e combatida.


O preconceito [a homofobia] é uma ameaça à humanidade!

O preconceito agride a igualdade essencial de todos os seres humanos e por isso é necessário criar barreiras às suas investidas. Mas de uma coisa devemos ter consciência: não basta fazer novas leis para eliminar a presença e a interferência maléfica do preconceito. Pode ser útil colocar nas leis a proibição das ações preconceituosas e criar penalidades para quem agride a dignidade humana levado por preconceito, mas, acima de tudo, é preciso que no interior de nossas consciências tenhamos um firme compromisso com a defesa da dignidade humana e da igualdade essencial de todos os seres humanos. É bom que se repita em alto som: de todos os seres humanos, iguais ou simplesmente diferentes a nós!

Inspirado na obra “Policiais, juízes e igualdade de direitos”, Dalmo de Abreu Dallari, jurista e professor universitário.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Notas de caderno no final do mês


Último dia de fevereiro, o mês mais curto. Passa tão rápido que não se compara aos outros meses do ano. Quando a gente nota, passou. Quando a gente se dá conta, foi-se. Os anos são como fevereiro. Passei anos de minha vida reverberando discursos que não eram meus, seguindo cartilhas de bom mocismo, pensando a existência sob forte influência maniqueísta, considerando as coisas como “certas” ou “erradas”, “boas” ou “más” por uma questão de interferências morais e religiosas, diminuindo possibilidades por um simplismo arrogante, pois, apesar de tudo, era convicto de estar correto naquilo que defendia. Mas a vida é um espetáculo de verbos, um constante gerúndio, um ‘estar-sendo’ que nos estimula porque não se revela antes do tempo necessário. Eu cresci juntamente com o tempo verbal. Mudei alguns conceitos conforme a experiência de vivê-los. Como disse, questão do tempo - o meu tempo - necessário. Significa que já aprendi? Não, de forma alguma. O amanhã pertence a cada um de nós que o viveremos!


Mas é-foi-tem-sido preciso cair e levantar seguidas vezes. Existir é percorrer uma longa estrada. É não parar, mas prosseguir adiante. É-foi-tem-sido produtivo crescer por dentro e pra fora nas experiências. Elas não são “boas” ou “más”. São apenas experiências. Assim é tudo no trajeto desta estrada-existencial. Nada é em si mesmo “bom” ou “ruim”, depende de quem vê. E o que vemos nem sempre é o que vemos. Eis-nos uma questão eminentemente interpretativa. Nossa mente absorve o padrão de formação como uma espécie de “chão”. A gente se defende por medo de perdê-lo (falo do “chão”). Assim é que muita gente não ousa questionar por medo. Medo de perder sua própria identidade. O medo faz parar. Interrompe o fluxo de crescimento por dentro. Limita. Impede. Bloqueia.

“Não tenho medo de voar”, aponta a firmeza avassaladora de Clarice em suas obras. “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”, completa os versos fortes de Maria, Maria. É preciso ousar desacreditar. Às vezes, é preciso desconstruir pra construir um “novo”. Refazer como um recomeço. Andar confiantemente, transformando o mundo com a renovação constante da mente com vistas a uma experiência do “novo”, do “diferente”, do “desconhecido” e – por que não? – do divino no outro, seja quem for, tenha o que tiver...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Apontamentos de uma subcultura


Seria eu um subversor da subcultura? Trato a questão como subculturalmente, pois desde os ensinos de antropologia na faculdade, aprendi que a subcultura está intimamente ligada a grupos de pessoas com características distintas de comportamentos e credos que os diferenciam de uma cultura mais ampla da qual elas fazem parte.

Não creio que seja assim. Só por que prefiro falar de política, Kant, Foucault ou Sartre a ter que ouvir colegas admirados por Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga e Madonna?

Não creio que seja assim. Só por que gosto de futebol, assisto a programas esportivos no Sportv, no Premiere Combat, fico antenado com o que rola nos Jogos de Inverno em Vancouver e dispenso qualquer conhecimento sobre os melhores electronic-trancy-house-psy-techno-remix, onde a DJ Ana Paula se apresenta, onde o DJ-fulano-de-tal tocou na última pool?

Não creio que seja assim. Só por que detesto looks com roupas apertadas, tintura no cabelo (Argh!!!), depilação (Argh!!! Argh!!!), sobrancelha feita (Argh!!! Argh!!! Argh!!!) e ainda por cima torço o nariz se tiver que usar alguma coisa de cuja etiqueta – grife! – todos se lembrem mais que propriamente quem a vestiu?

Não creio que seja assim. Só por que entendo que promiscuidade é uma química explosiva que auto-destrói o ser, diluindo-o aos poucos, e que amor é um excelente investimento (pra vida, pra si, pra todos) e que requer seriedade, conquista e a-FIM-nidade, não havendo espaço para a auto-afirmação do desejo com o descompromisso e as apelações fast-foodianas?

Seria um subversor da subcultura ou a favor da contracultura?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Apontamentos em pleno carnaval II


Terça-feira de carnaval selou o início do fim dos festejos (não da alegria!) dos foliões. Num dia pra lá de quente, com temperatura em 41,8ºC, mais de cem blocos de rua saculejaram todos os cantos desta cidade. Entre sorrisos estampados e marchinhas na ponta da língua, multidões deram às caras, superando as estatísticas de público nos anos anteriores. Na Avenida Atlântica, altura de Ipanema, não se via o asfalto tamanha a concentração de gente. Aqui, diferentemente das outras cidades, a maior parte dos foliões fica trajado em sungas e biquínis. Afinal, não nos esqueçamos: somos uma cidade praiana e saariana! Combinação perfeita para a menor quantidade de roupa possível...

Lamentavelmente, em que pese a necessária alegria que constrói sorrisos durante o carnaval [fazendo dele o que é!], sempre surgem uns e outros tentando ganhar vantagem – infelizmente, pela violência brutal – sobre a boa vontade dos foliões. Alertado por um amigo, testemunhei o episódio de um rapaz que tinha acabado de ser atacado por ladrões durante o trajeto da Banda de Ipanema, levando-lhe o celular. Nada de anormal num relato tipicamente urbano se não fosse o fato de ter sido atingido na jugular, importante veia que faz drenagem ao cérebro. Como em todas as vezes que testemunho situações de risco contra a vida – já foram umas quatro ocasiões – instintivamente corri na direção do ferido para socorrê-lo. Não adiantaram os gritos preocupados de alguns amigos, que pediam em vão para não me aproximar daquele cenário. Tentei acalmar as pessoas que, nervosas, gritavam pedindo socorro a esmo. Enquanto isso, o rapaz esvaía em sangue diante de mim dizendo a quem o ouvia: “- Me ajudem!”. Em questão de segundos, a viatura da polícia militar se aproximou e levou o ferido banhado em sangue para o pronto-socorro. Preocupado, fiquei o final de semana sem saber notícias daquele jovem. Hoje, meu amigo Carlos Savil é que me indicou a reportagem do G1. Graças a Deus, li que o rapaz saiu do estado grave e permanece internado em franca recuperação.

A união realmente fez a força naquele episódio. Salvou não apenas um sorriso, mas a riqueza de uma vida!

Como a alegria não pode parar, lembrei agora que entramos na quarta-feira de cinzas! “O que fazer?” é apenas uma retoricazinha pra relaxar e organizar algumas tarefas domésticas.

O que sei é que logo mais o Rio de Janeiro – e o Brasil – só falará no resultado da apuração do desfile das escolas de samba do grupo especial. Enquanto isso, vou separando os e-mails para responder. Tenho, ainda, algumas obras que enfileirei para iniciar a leitura. Preciso retomar os rabiscos das minhas crônicas [segredo!]. Xi, a lista de atividades apenas começa a tomar forma antes que o cotidiano volte amanhã reivindicando seus direitos maritais...

Que ele – o cotidiano – fique na sua, quero dizer, na dele. Ainda se pode descansar mais um pouquinho por hoje. Com sorrisos nos últimos dias do horário de verão...


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Apontamentos em pleno carnaval



Pleno domingo de carnaval. Cidade do Rio de Janeiro, berço do samba. Marchinhas nas avenidas. Blocos arrastando multidões. Ontem, eu mesmo acompanhei a histórica Banda de Ipanema no seu 46º aniversário. Foliões não faltaram. Vestidos de todos os trajes possíveis. As drag queens fizeram enorme sucesso. Os heróis das histórias em quadrinho também. A Farme de Amoedo, badalada rua de Ipanema, virou uma private rave party depois que a famosa Banda passou. Eram milhares de pessoas aglomeradas – pra não dizer comprimidas! – por toda a rua. Muita gente bonita e perfeitinha por metro quadrado. Como tudo por ali parecia uma vitrine de personas estereotipadas demais pra mim, saí daquela aparente perfeição estética para ver rostos comuns e sobretudo abraçar a brisa salgada do mar. Caminhei até a praia e me encantei ao encontrá-la superlotada quase perto das 23h. Descalço na areia, assisti a uma partida de beach volleyball. Depois, como me disse um amigo auto-intitulado filho de Iemanjá, fui lavar os pés nas águas da rainha do mar. Reis e rainhas à parte, pra mim, o carnaval converge para o maior espetáculo que é assistir a alegria no sorriso dos foliões. A alegria é contagiante e nos reimprime boas lembranças. Gosto disso tanto quanto gosto de me banhar nas ondas da esperança. Voltei pra casa num metrô que quase saiu do trilho tamanha a fanfarra dos passageiros cantando (e tocando) todas as marchinhas conhecidas. Na estação da Praça Onze, ao lado da Marquês de Sapucaí, o indivíduo que não estivesse fantasiado era a exceção. Eu, que já sinto-me exceção por natureza, mais excetuado me tornei. Ao menos, naquele contexto. Não havia fantasias em mim. Nunca houve senão as do coração. “Um dia, se Deus quiser, eu vou... eu terei... eu...”, essas coisas dos baús da psiquê humana. Sob a cortina de céu estrelado adormeci horas depois que cheguei em casa. Ao acordar, a luz coriscante deste verão saariano me pôs de pé num segundo. Ao longo de toda a semana, não se vê uma nuvem esquecida no firmamento. Céu de brigadeiro, dizem os mais antigos. Não é diferente nesta manhã de domingo. São as cores do cenário deste carnaval. Céu azul. Rostos bronzeados de alegria. Clima de paz. Tudo parece democraticamente colorido, sem puxar a tonalidade para nenhuma tribo. Como tem que ser quando se abrem as alas para todos passarem! Bom carnaval a todos!



Notas de rodapé: Créditos para as imagens captadas na máquina do Rodrigo Soldon. [*][*][*]Assim que der, durante o carnaval responderei aos e-mails dos queridos.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O tempo debaixo do céu



Há tempo pra todas as coisas, pra todos os propósitos e pra todas as intenções. Há tempo para erguer e derribar verbos (e todas as demais construções humanas). Há tempo para a aproximação e o distanciamento. Há tempo para comemorações e lamentações. Há tempo para sentidos e não-sentidos nas coisas e nas pessoas também. Há tempo para maior ou menor compreensão dos fatos (às vezes, total ausência de compreensão). Há tempo para ganhar e perder (depende de quem vê). Há tempo para as estações e o intervalo entre elas. Há tempo para dizer com palavras e delas não fazer significado algum. Silêncio. Há barulhos por dentro quando se cala o de fora. Tudo é possível, mas há que se ter tempo. Sem tempo, as coisas. Com tempo, os fatos. No tempo, as horas. Dentro delas cabem todos os sonhos e os segredos também (só não cabem as saudades; elas são como gotas do amor que não se podem conter...).


Ainda sobre o tempo...


“Quanto mais o tempo vai passando e a vida vai ensinando a gente, enquanto nos depura no crisol do existir em meio à contradição; e, também, quanto mais se vai sabendo e sentindo, aprendendo e amealhando informações e experiências — tanto mais quase tudo vai ficando pequeno e até ridículo.

Ora, com o tempo tudo vai se desgastando, e, com o desgaste, tudo vai diminuindo, até que fica apenas o caroço ou a semente do ser.

Sim! E cada vez se fica mais sem fantasias!

A contradição é que quanto mais você fica naturalmente atento a tudo, peneirando o que fica e o que sai de sua vida, mais você se abre para as crianças e as crianças para você; do mesmo modo que as pessoas simples de coração passam a ter grande prazer em sua vida.” (Caio Fábio, in “A Palavra, o Espírito e o Tempo!”)

sábado, 30 de janeiro de 2010

O aviãozinho e os nossos rumos



Vai-se. Foi-se. É só mais alguns dias. Falo pensando na coriza que não me larga. A gripe que não me deixa. Os chazinhos de limão que bebo antes de dormir. O desgaste com o vai e vem dos técnicos da empresa telefônica. As reflexões do “por que não deu certo!?”. O pensamento numa certa imagem. O timbre calmo da voz. O calor deste verão superaquecido. O aperto no metrô na hora do “rush”. A juventude que pouco ou nada se doou a si mesma. O “e agora, José?” de Drummond (e de todos nós, inconformados). Coisas boas e outras as quais apelidamos de não muito boas. Tudo uma trajetória só. A gente cresce pra dentro e por todos os lados. A vida se auto-interpreta. É preciso saber ler nas entrelinhas. O aviãozinho flagrado nesta imagem segue como minha trajetória. E as minhas reflexões também. Enquanto a gente observa voar, segue seu rumo. Vai. Ao ir, foi-se. Contudo, há de surgir em forma de resposta quando menos se esperar...

Related Posts with Thumbnails