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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Frases soltas no ar, o simples sem complexidade

Apenas porque eu quis pensar um pouco mais. Apenas porque não sou dono das verdades, apenas a minha, e olha lá. Apenas porque parado não dá pra ficar, nem com os pés, menos ainda com o pensamento. Apenas porque eu, às vezes, me canso da anormalidade e surto como ser normal. Apenas porque a vida vale mais que as aves no céu. Apenas porque os conceitos, os dogmas e as idéias não podem ir contra a simplicidade das coisas nem contra o direito de ninguém. Apenas porque eu, às vezes, também sou sonhador e fujo dos que tornam tudo difícil. Sabe, coisas de quem insiste que ainda pode dar fé. Mas fé em alguma coisa melhor que, às vezes, nem sei se virá mesmo ou é só mais um surto de minha normalidade teimosamente pensante...









Extraídos da obra “No caminho do arco-íris”, organizado por Lea Carvalho. RJ: Editora Metanoia, 2010.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Estigmas, liberdades e radicalidades



Se eu fujo dos clichês, dos estigmas, dos rótulos e das comparações, então não sou o que esperam de mim. A vida toda esperaram muito de mim. Nunca me perguntaram o que eu esperava de mim. Crescer com uma obrigação imposta – mesmo no silêncio das projeções (dos familiares, principalmente) – é um martírio. Sim, pois a imposição do bom mocismo quando introjeta na psiquê é avassaladora pra quem dela se serve. É por isso que quem cresce livre desses fluxos de imposição familiar ou moral, de fato, respira mais aliviado. A razão é simples: não há fardos ou cobranças ditando o comportamento. O sujeito segue livre, leve e solto na sua construção pessoal existencial. Considero tudo isso um privilégio, um presentão chamado liberdade. Liberdade para ser.

Agora, quem nunca esteve nem aí para os tais fluxos de imposição – ou seriam “formatação”? –, fazendo justamente o que dele (ou dela) não esperariam, não se importando com mais nada, recebe de cara a tarja “ovelha negra”. Antes que as palavras soem comoventes, digo que há um bom sentido em ser ovelha negra. Bem-aventurados os que, rotulados como ovelhas negras, conquistaram suas alforrias! É verdade. O sujeito sabe que a cadencialidade das suas atitudes transgressoras lhe abrirá as portas da liberdade. O resultado, de certa forma, é que o sujeito está safo! Estar safo não deixa de ser uma implicação de liberdade, se é que me entendem...

Do contrário, se o sujeito preferir a maciez da estigmatização de bom mocismo – que não deixa de ser perversa, porém de forma aparentemente indolor –, fazendo sempre o que esperariam que fizessem, algumas vezes por se acostumar com o hábito viciante dos méritos e congratulações (“Ah, como ele é maravilhoso!”, “Como gostaria que meu filho também fosse assim!”, “Este é o genro que toda a sogra adoraria!”, etc), neste caso, o caminho para a liberdade – a liberdade do ser! – será mais pedregoso justamente pelo vício das performances politicamente corretas e até perversamente louváveis numa sociedade comportamentalista. Eis a razão de ter dito aqui num post de ano passado, se não me engano: por pior que seja você, prefira mil vezes ser você-você-mesmo a ser um não-você.


Falo por experiência própria em todos os aspectos que ressaltei logo acima, tanto na questão da estigmatização de bom mocismo e nos vícios meritórios que seguem por tabela como também na desvantajosa acomodação em ser um não-eu. Evidentemente não gostaria de imprimir nestas linhas uma conotação de pobre coitado. Pelo contrário! É por isso que folgo em dizer que nada se compara ao prazer de sermos e fazermos o que nos der na telha, como fruto de decisões maduras de quem assume todas – disse e repito: todas! – as conseqüências.

O prazer de vivermos na verdade, absolutamente livres dos rótulos impostos, errando e acertando durante nossa existência, fazendo merda quando bem quisermos, mas também solidificando alicerces em muitos aspectos, é uma graça que todos poderiam curtir na sua própria experiência. O poder libertador de uma vida que se impõe pela sua verdade é uma das poucas coisas que são eternas. A amizade que se prova nos tempos de angústia e o amor que de tão grande ultrapassa as fronteiras do desejo, pra mim, são as outras coisas que considero eternas. Não morrem, mas se eternizam na memória de várias gerações.

De uns aninhos pra cá passei a pensar a vida e a mim mesmo de uma nova maneira. Mergulhei pra dentro dos significados da “metanoia” dos gregos. Pra quem gosta de histórias, essa palavrinha foi pronunciada pelo Cristo num diálogo que teve com um sujeitinho covarde chamado Nicodemus, que o procurou às escondidas por temer os rótulos que receberia dos outros. Ele era alguém da elite, acostumado nas práticas de bom mocismo impostas pela sua religião, adepto dos clichês “modus operandi” que até hoje muitos aderem – “dize-me com quem tu andas e eu te direi quem és”, “quem com porcos se mistura, farelos come”, “pau que nasce torto nunca se endireita”, entre outros –, mas doido pra conhecer o Cristo de perto em razão de sua fama transgressora e ao mesmo tempo pacifista. O encontro está registrado por João no seu evangelho. O barato daquele encontro resultou na palavrinha “metanoia”, quando Cristo lhe diz que seria necessário que ele nascesse de novo pra poder entendê-lo e, por consequência, entrar no clima daquela radicalidade pelo amor. A expressão foi traduzida de “metanoia”, que é uma aglutinação de “meta” [novo] e “noia” [pensamento, conhecimento], ou seja, seria necessário que ele passasse a pensar a vida de uma outra forma, sem clichês mas apenas com sua verdade.


Se eu disser que falei meu primeiro palavrão aos trinta anos, poucos acreditarão. Se eu disser que nunca fiquei alcoolizado, mesmo depois dos trinta, provável que também não acreditem. Se eu disser que nunca entrei numa boate, aí terão certeza que estou mentindo! Se eu disser que, por várias vezes, inclusive recentemente, já evitaram de vir falar comigo em razão de suposto receio pela ‘falta de assunto’, acreditem, é fato. E tudo isso por quê? Porque o peso das estigmatizações dificulta o florescimento das nossas próprias idiossincrasias.

É por isso que não afirmo pra ninguém que sou um camarada bonzinho, que sou romântico, que envio flores, que choro em público ao falar de amor, que choro reservado ao ouvir canções de fossa, que jamais fiquei por ficar com quem quer que seja pelo valor que todos os seres humanos têm pra mim ou, pior ainda, que sou pra casar. Dez ou onze entre nove ou dez dos meus amigos mais íntimos dirão sem pestanejar que sou exatamente assim, sem pôr nem tirar. De uma maneira filosoficamente teimosa digo que estão todos errados, mesmo envidando patéticos e desajeitados esforços contrários... Como eu bem sei que é viciante o processo de adequação ao que esperam que sejamos, fujo - ao menos tento fugir! - dos clichês.

Antes que me polarizem como anarquista, explico meu ponto de vista defendendo categoricamente que pessoas são pessoas. E só. Eu sou mais uma que me distingo pelo que sou dentro daquilo que Marisa Monte identifica como infinito particular. Eis por que costumo dizer – e nem sempre sou compreendido no cerne – que eu não tenho virtudes e que, portanto, não sou o que esperam de mim! Meus limites são fruto da minha liberdade! Os meus amigos e todos e todas que de fato gostarem de minha companhia - inclusive pretendentes - saberão quem sou pela proximidade na troca de nossas energias. Simples e radical. Coisa de gente livre. De tudo, até dos estigmas!


+ + +



E pra quem pensar que a força de minha verdade é mais forte que a solidez do amor, o que seria um contra-senso, pois vida em mim se dá pela via do amor, afirmo que sou mais um radical que sonha e que respira pelo amor.

Os porquês de minha radicalidade confessa lancei em farelos soltos enquanto me despedia deste post. Deu no que deu.

Eu confesso que...

Sou radical pelo amor que me irrompe as veias, me sacode os braços na direção do meu próximo – qualquer um! – e me torna sensível ao mundo que me cerca. Sou radical pelo amor que não me cala o sentimento, mas grita em muitos silêncios dentro e fora de mim.

Sou radical pelo amor que me enche o peito de esperança, as letras de significados doces e meus amanhãs com o recomeço. Sou radical pelo amor porque me visto de singularidade, mas não projeto em mais ninguém minha singularidade porque sei que projetar é destruir a beleza única do outro.


Sou radical pelo amor que torna meu ordinário o extraordinário de todos os momentos, que o faz belo por me importar. Sou radical pelo amor que me faz eleger o Bem cotidianamente nas coisas mais simples, reconhecendo que todo o processo é uma mística que só me inspira, nunca me cansa.

Sou radical pelo amor que me remete ao valor de todas as coisas, as que compreendo e as que ainda não sei como discernir. Sou radical pelo amor que nunca é pobre ou fraco, mas, às vezes, apenas tímido ou silencioso, incapaz de se encolher ou tornar-se indiferente.

Sou radical pelo amor que me compromete a toda atitude construtiva e que sacia não apenas a mim, mas ao outro. Sou radical pelo amor que dá sentido à Vida que há em mim, pondo sóis nas minhas janelas mais secretas, iluminando meu chão e todo o alicerce do ser.

Sou radical pelo amor porque é nele – o Amor! – que me banho o corpo, a mente e os afetos todos os dias. Por que não se banhar com companhia? – perguntaria qualquer curioso. Porque a porta está entreaberta, sem muita exposição, mas suficientemente convidativa para quem discerne o valor simples das coisas e a profundidade dos laços que se firmam nesse amor, o mesmo do qual sou eternamente radical...

E por falar em amor radical, segue um beijo para além das estrelas na bochecha de meu paizinho. Ontem, exatamente ontem, fez um ano que sepultei o seu corpo, e recomecei a aprender a percebê-lo nas coisas mais simples das lições que ele eternizou em mim. Saudades daquelas igualmente radicais!


Nota de rodapé: dedicado a todos que sabem, na profundidade dos significados, o que é amar sem impor ou esperar condições e, por isso mesmo, podem dizer que são de fato românticos, eternamente românticos... as I am (I suppose)...


terça-feira, 6 de abril de 2010

Rabiscos de mim


Eu não sou pra fazer média. Eu não sou pra tecer juízos. Eu não sou pra estabelecer parâmetros. Eu não sou de muitas pretensões. Tenho tão pouco, mas o que tenho e sou é somente meu. Não houve furto, cópia ou imitação...

Eu não sou imediatista. Eu não sou exclamativo. Eu não sou de poucas horas. Eu não sou pra ocupar meros instantes. Eu não sou de rompantes. Eu não sou de casuísmos. Eu não sou de não-me-toques. Eu não sou das meia-verdades. Só a minha que me veste sob medida!

Eu não sou das noitadas sem sentido. Eu não sou superlativo ou absoluto. Eu não sou das histórias ditas mirabolantes. Eu não sou dos caminhos que os outros seguem, vão-com-os-outros. O que não sou, não sou. É fácil. Não há mistério. É só vir e ver.

Eu não sou o que esperam. Eu não sou amante dos extremos. Eu não sou solitário. Eu não sou pra casar. Eu também não sou pra ficar. Como se vê, não sou clichê! Considero tudo isso metódico e formatado, um reducionismo pobre que não me serve. Eu sou o que sou pra mim e para os campos...

Quer saber? Eu não sou pra-qualquer-coisa, só sei amar. E porque amo, não maltrato. Não faço da vida ou dos humanos meus rascunhos descartáveis. Gosto de papéis, rabiscos e rascunhos. Mas sei distingui-los das pessoas e de suas importâncias...

Eu não sou simplista, mas apenas simples. E tenho história. Começo, meio e um dia o recomeço. Não o fim, porque sei amar. O amor jamais acaba. Nem ele, nem seus promovedores...

Eu sou apenas assim. E nessa constatação prossigo. Procuro um campo fértil. Não qualquer um! Que seja de idéias e sentimentos profundos. Minha vocação é [ser]mear...

* * *

A nota de rodapé é para o caos provocado pela chuva...



Chove sem parar neste Rio de Janeiro. Chove todo tipo de chuva. É água, e não pouca. É sangue. É choro. É homem. É mulher. É criança e velho também. A chuva cai e molha o caos pela cidade. Vidas se foram água abaixo, que desolação!

De tanto que chove, é enchente engolindo as ruas, é desmoronamento amassando as histórias, é grito que a terra encobriu, é de luto que muitas casas se vestem... É tanta coisa, mas não preciso ligar a TV pra ver. Por aqui também chove sem parar. Eu falo do lado de fora da tela. Falo e me molho com a solidariedade comovente...

Não farei perguntas retóricas. Não questionarei as autoridades civis. Estupefação pelos que constroem casas nas encostas? Indignação por conta da população que teima em lançar garrafas pet, papéis e sacos plásticos os mais variados nos rios e nos bueiros? Estranheza pela inabilidade – ou omissão! – das políticas públicas de prevenção? Numa mata em chamas, ou antes, submersa nas águas de abril, salvemos os pássaros e todos os animais. Sejam os racionais, os irracionais e também os incompetentes. Depois, quando a chuva parar, aos sermões – para aqueles que o queiram – e às reivindicações necessárias.

São 22 horas. Ainda estou encharcado, triste e comovido.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sobre colos, versos e algumas palavras


1º Momento:

Eu faço versos pra deitar no colo, deixar palavras quentinhas com os sufixos de aproximação. Não me envergonho disso nem de um dia ter criado palavras mudas. Tem dias que a gente simplesmente engasga com a letra, não rabisca nem saliva no céu da boca. Nesses dias o melhor a fazer é sorrir e não se preocupar com nenhuma divagação. Tornar-se criança. Brincar com as horas. Abraçar o tempo. Fechar os olhos e fabricar uma escada de pensamento, subir por ela e não se prender a nada.

Do alto de uma semana tão reflexiva, dita Santa, quero apenas deitar meus versos sobre as pernas de meu semelhante, meu igual. Não desejo muita coisa senão intimidade suficiente pra esboçar um pequeno texto. Não precisa ter vírgula, ponto, aspas, travessão, nada disso. Eu me conformo com as reticências, três pontinhos inseparáveis, e um sorriso indecifrável. O contexto eu dou conta!

- Desce daí, menino! – chama a consciência. Volta aqui e termina os teus passos aqui embaixo!

- Não posso agora, a palavra não quer descer!

- Volte com ela, mas não deixe a frase aflita...

- Fica fria! Concentre-se! Faça uma oração daquelas substantivas adjetivas!

- E se eu fizer, que me ocorrerá?

- Te darei colo, e não apenas um, e versos deitados e fáceis de carregar.

- Isto é uma promessa ou puro advérbio?

- Uma certeza indefinida!

- Tipo...

- Feche os olhos e sintaxe!

- Fechei!

- Sintaxe!

- Senti!


2º Momento:

Ah! Quem me dera todos os dias deitássemos versos no colo uns dos outros e subíssemos escadas de pensamento! E não apenas isso, mas levássemos o bom da palavra, muda ou eloqüente, a bons termos! “Amai-vos uns aos outros assim como”, inspira o momento. Amar não é o mais difícil, é apenas um caminho. Quantos egoístas não amam à sua maneira? Tudo, porém, ganha voz quando a palavra engravida do “assim como eu vos amei”. O sentido muda, mas não se torna mudo. As fronteiras gr-AMAR-ticais desaparecem e as palavras se aproximam, finalmente. Não se ouve mais dizer em condições ou meras circunstâncias. Ama-se porque se fez ouvir que a medida do amor é amar sem medida. É assim que a gente sobe e desce naquelas escadas de pensamento e não se prende a mais nada. Nem à palavra, nem ao momento. A gente forma verso é na ação do amor...


3º Momento:


Eu fui por aí lavar os pés das palavras que encontrar. Ontem, encontrei algumas reluzentes, me constrangi diante da sabedoria. "Você deve ser a própria mudança que deseja ver no mundo." "A liberdade não tem qualquer valor se não incluir a liberdade de errar." "Minha vida é minha mensagem." (Mahatma Ghandi)

A língua, indubitavelmente, é rica em gr-AMAR-tica!

Me cingi de versos, ‘passarei por cima’ (*) do final de semana em trovas pascais!


Nota de rodapé: (*) Páscoa, do hebraico “pesach”, ou seja, passar por cima [lit.]

terça-feira, 30 de março de 2010

Palavras recôncavas, versos trôpegos



Jogo as cartas sobre a mesa que me sustenta. Já chega! Por que tão longa espera? Por que as horas passam voando e o dia alcança tantos anos sem trazer a companhia da noite? Quem foi que nos disse que há verdades na verdade? Quem espera sempre alcança! É clichê ou chiclé? À vista do meu mais próximo desejo, com que me presentearei? Trajes finos, meu desenlace com a certeza, o atônito da esperança e todo o valor depositado na simplicidade. Se possível, ainda, um olhar esquivo de quem ainda não sei... Há um emaranhado de divagações aqui dentro do peito. Sou um homem de sorte? Depende do momento. Há tanta sorte controversa no mundo: uns têm tão pouco; outros, tanto têm quanto mais querem ter! E quem me tem, ou, antes, quem supõe que me terá?

Se me tiver, que será de mim?

Basta! Seria o fim do quase-sempre ou do apenas-começo? Não tenho uma resposta imediata. A hora já avança, salta pelas janelas e corre por entre as minhas verdades. Não adianta tentar segurar, se é a hora da verdade não pode ser prisioneira! Da janela, lá se vai, e corre faceira, e escorrega, e cai, e levanta, tal como a certeza do que não vejo. Eu não sei partir. Eu já nem sei permanecer. Não sei ser como as horas. Só sei das minhas verdades que ora vão, ora vêm. Vou abrindo janelas e mais janelas no meu peito. E o que sei é tão pouco, pouco demais numa vida inteira, nesta longa espera...

Se soubesse o tanto e o muito, eu acreditaria em mim?

Chega! Não creio mais em amores perfeitos, acabados, inatingíveis... Não sei mais pregar mentiras pra mim nem pra mais ninguém. Desaprendi algumas tarefas simples, coisas lá de trás dos dias de menino, das tardes adolescentes, das noites adultas... Não faço mais dever de casa. Não tenho ás nas mangas. O que carrego é mais que saudade. É fome de presença, uma palavra desconhecidamente em negrito. Mas não qualquer uma! É a tua que ainda não decifro, por isso nunca chega, nem pode ficar porque não sei se um dia existirá.

Mas se um dia existir, não será um belo aprendizado?

Aquieta-te, palavra intransitiva! O silêncio irrompe o momento. É tudo presságio, mais uma verdade que corre e escapa. As palavras conspiram detalhes que, dizem, não posso saber. Tem certas coisas que o dicionário não interpreta. É preciso conjugar no toque, no cheiro, na pele, esses lances de conjunção verbo-nominal. Não tenho parênteses, sou de família reticente. Reticências à parte, que detalhes me nocautearão? No texto, na vida e na dúvida, que seja pró-réu! Eu me confesso desajeitadamente incerto, trôpego como estas linhas em versos. E quem saberá ao certo? Será um nome não apresentado? Um aviso ou encomenda? O que trará no improviso? Uma palavra recôncava? Um dorso esculpido? Quem sabe, o olhar? O sorriso, talvez?

Eis as cartas! Onde o pronome próprio?


"Posso ser generoso pelo egoísmo.
Posso ser amoroso pela tirania.
Posso ser educado pela vergonha.
Vê só o quanto uma virtude esconde uma maldade”
(Fabrício Carpinejar, em "Acácia ou eucalipto?").

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O tempo debaixo do céu



Há tempo pra todas as coisas, pra todos os propósitos e pra todas as intenções. Há tempo para erguer e derribar verbos (e todas as demais construções humanas). Há tempo para a aproximação e o distanciamento. Há tempo para comemorações e lamentações. Há tempo para sentidos e não-sentidos nas coisas e nas pessoas também. Há tempo para maior ou menor compreensão dos fatos (às vezes, total ausência de compreensão). Há tempo para ganhar e perder (depende de quem vê). Há tempo para as estações e o intervalo entre elas. Há tempo para dizer com palavras e delas não fazer significado algum. Silêncio. Há barulhos por dentro quando se cala o de fora. Tudo é possível, mas há que se ter tempo. Sem tempo, as coisas. Com tempo, os fatos. No tempo, as horas. Dentro delas cabem todos os sonhos e os segredos também (só não cabem as saudades; elas são como gotas do amor que não se podem conter...).


Ainda sobre o tempo...


“Quanto mais o tempo vai passando e a vida vai ensinando a gente, enquanto nos depura no crisol do existir em meio à contradição; e, também, quanto mais se vai sabendo e sentindo, aprendendo e amealhando informações e experiências — tanto mais quase tudo vai ficando pequeno e até ridículo.

Ora, com o tempo tudo vai se desgastando, e, com o desgaste, tudo vai diminuindo, até que fica apenas o caroço ou a semente do ser.

Sim! E cada vez se fica mais sem fantasias!

A contradição é que quanto mais você fica naturalmente atento a tudo, peneirando o que fica e o que sai de sua vida, mais você se abre para as crianças e as crianças para você; do mesmo modo que as pessoas simples de coração passam a ter grande prazer em sua vida.” (Caio Fábio, in “A Palavra, o Espírito e o Tempo!”)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sobre a tragédia no Haiti




O viver ainda que


“Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver”.



Cora Coralina in “Assim eu vejo a vida”



O olhar a partir de mim


Creio tanto na vida que me impossível deixar de ver luz ainda que todos só enxerguem o caos. Olhar a vida com bons olhos é interpretar o mundo a partir de mim...



A imagem


Redjeson Hausteen Claude, a criança de dois aninhos salva em meio aos destroços provocados pelo terremoto no Haiti, uma das piores tragédias mundiais nos últimos cem anos. O detalhe é que o emocionante resgate se deu dias após a tragédia quando as chances de encontrar-se sobrevivente diminui a menos de 20%... um milagre!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nas reticências...


A primeira delas__________

Sou um isso. Constante. Um amante. Tanto da justiça quanto das letras, da política em prol das minorias e dos convites à singularidade da vida. Não sou qualquer vida. Sou a minha própria. Íntegro. Inteiro. Sem coisificações. Exceções. Senões. Bemóis. Emotivo à raiz de mim. Atraído pelos seres altos na simplicidade, na pacificação e na generosidade. Errante-e-aprendiz. Um binômio. No meu bolso, apenas algumas moedas. E sonhos de sobra!





A que vem depois__________

Já escrevi muito, em muitos textos em vários perfis.
Já cansei de responder aos outros-fora-de-mim.
“Quem sou eu” agora é pergunta retórica:
Sou uma antítese. Um anti-herói.
Diferente entre os diferentes.
Reexistindo tardiamente.
Fora dos padrões.
Blasé. Mas,
De pé.
Por
Fé

domingo, 26 de julho de 2009

Palavras pra fazer sentido





Ontem, assistindo a uma entrevista com a extraordinária Marina Colasanti, inebriei-me com seus versos compartilhados numa composição com Ivan Lins. Viajei pra dentro do significado que as palavras emprestam aos versos, encontrei-me nelas. O eco do sentido que me causou não parou mais. Perfeitas. Perfeitas. Perfeitas...

“Em todo lugar sou estrangeira, menos na minha casa. E mesmo na minha casa nenhum habitante sabe que o gosto justo da água é aquele daquela água que na minha terra se bebe”.

Pra mim, toda palavra se alimenta do que se sente. Não se preocupa em ser entendida. Se faz degustar experimentando. Cada um sabe o saber que terá. Por isso mesmo a palavra assume significados diferentes para cada indivíduo que dela prova. Quanto maior o apetite, melhor a fome do sentido. O problema, às vezes, é que nem todos tratam a palavra com o devido respeito. Num mundo tão competitivo e hedonista, mais vale o prazer que do tato se tem do que propriamente o que se pode saber da palavra dita. Os enganos crescem à medida da indiferença. Sim, pois nada sentir – ser indiferente ao que se sente – não é tratar com a real importância o que nos invade o momento, a palavra, o significado ou qualquer coisa que não seja mera aparência, mas fato. Ato. Raiz. Verbo. Conjugação de sabores. A água da gente.



Nota: abrindo a cortina da janela do meu quarto e assistindo o sereno da fria madrugada cair, ponho pra dentro dos goles o gosto justo da água desta minha terra. Palavras pra guardar nesta madrugada de sábado para domingo. Bom domingo a todos!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Bilhetes na geladeira





Pra inspirar as novas reflexões de 2009...
Pra digerir verdades como o que deve ter sentido.
Um ponto. Um til. Um quê. Tudo tem o devido sentido.
O que não se sabe também. Só não se sabe, mas tem. A vida teima e prossegue.


E...


O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma
flor


O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor




_______ Nando Reis, in “Relicário”


...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Significados de Cecília Meirelles


"No mistério do Sem-Fim,

equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,

e, no jardim, um canteiro:

no canteiro, urna violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,

a asa de urna borboleta.



(...)somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim"

Cecília Meirelles

...



1ª Nota: Ontem, gratidão, amigos, ligações nutritivas e sentimentos afins. Comemorar-se o natal é sempre rico de qualquer coisa, até das que não esperamos. Falo acerca do meu natal. Hoje, “day after”, um calor em gotas serelepes brincando de escorrega pela minha fronte. Terno e gravata será que combinam com este clima abaixo do Equador? Numa sala fria e tão sublime o tom grave de um Tribunal. Eu, o cliente e três policiais militares. Uma condenação.


2ª Nota: De lá, uma viagem até um novo mundo. Encantei-me com aquele universo; na verdade, um oceano de oportunidades. Um orfanato. Para minha surpresa, dia de festa. Crianças, muitas delas. Palhaço. Brincadeiras. Eu, dentro de uma gravata, nadava pela observação pra dentro dos meus mergulhos. Dona Sidnay, a diretora, e dona Márcia, assistente social, pessoas com coração na mão. Amei conhecer a instituição “Solar Bezerra de Menezes” e o que fazem com tantas crianças carentes [ou, segundo me disseram, “em risco social”]. A razão de parar ali? Boa pergunta e duas rápidas respostas: a tangível tinha a ver com a entrega de um ofício a mando de uma juíza criminal; a intangível tinha a ver com a Providência. Uma questão de necessidade para os meus olhos, posso afirmar [pois só eu sei quais são minhas necessidades vitais]. Luz espalhada na ponta dos dedos, quiçá em todo o coração. Um desejo simples que fiz àquelas mulheres. Amei aquele lugar de oceano!


3ª Nota: 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao falar em comemoração, não olho para governantes nem para países. Olho para pessoas, a começar pelo olhar de minha contribuição própria... O que faço, estou fazendo, irei fazer, é preciso fazer? Penso na resposta. Depois da lavoura trabalhada, retornarei com o arado. Estou ocupado na messe...


4ª Nota: Genial a evolução do texto e as sacadas com o interstício temporal em “Capitu”, mini-série para TV baseada na obra de Machado de Assis.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Em homenagem ao azul de ontem...




“Existe cor sem forma? Boa pergunta... Não existe! Posso ser um pontinho mas também posso tomar as proporções de uma grande área de cor...”


(Extraído de uma das obras expostas na Nova Arte Nova, no CCBB do Rio de Janeiro)


...


Tarde (super) agradável em boas companhias. Entre tantos lucros, o saber-me em profuso diálogo de olhares. E mais: dia 10/12 marquei encontro com Elisa Lucinda e Maria Rezende no projeto “Poesia no Jardim da Filosofia”. O tema do debate para o qual me convidei é “A fala da poesia: o deleite da palavra”. Projeto com a curadoria da filósofa Viviane Mosé, lindamente sábia, como sempre...


...

sábado, 29 de novembro de 2008

Auto-exame



“A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia”

Alice Ruiz


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Chuvinha esfria os verbos da noite. As orações estão molhadas como as ruas. Ainda bem que estou em casa. Titãs me fazem companhia: “Pra dizer adeus”

Logo esta canção!

Hoje não fui assistir ao espetáculo da Árvore de Natal da Lagoa. Várias atrações. Bem em frente à janela do apartamento de William Bonner e Fátima Bernardes... Mas a chuva insistia em regar as nuvens. Pois, então: elas cresceram tanto que ficaram pesadas. Algumas, obesas, desabaram...



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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

É no repente, é de repente


Se a palavra esmaga e se agiganta, se a sílaba não alimenta nem põe de pé e a vida esbraveja letras soltas ao vento...



“É no sangue, é no povo, é no tipo, é na raça,
É no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça,
É no pão, é no doce, é no bolo, é na massa:
É na massa, é no bolo, é no doce, é no pão”
(extraído dos versos cantados do repentista Dimas Batista)



que o caminho se refaz no passo seguinte, na volta por cima, lá de cima, onde o que é grande fica tão pequeno, submisso numa nova idéia...



Nota: Hoje, 19 de novembro, é dia do cordelista. O cordel, pra quem não sabe, é de inestimável importância na manutenção das identidades locais e das tradições literárias regionais, um grande incentivo à manutenção do folclore nacional. Entre os educadores é pacífico o entendimento que a literatura de cordel, pelo fato de poder ser lida em sessões públicas e de atingir um número elevado de exemplares distribuídos, é de grande ajuda na disseminação de hábitos de leitura e na luta contra o analfabetismo.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Do lado de cá da liberdade


– I –

Não tenho muitos direitos, apenas os suficientes. Não quis meu banho de sol. Hoje choveu mais do que previa os homens do tempo. Não me alimentei do que me empurraram à porta; os sonhos têm sido meu prato predileto. De minha própria companhia me empanturrei nos últimos dias. No começo passei mal. Hoje passo bem. E a cada passo a estrada encurta...



– II –

Não quis as chaves das celas. Tampouco aceitei suborno. A vida é melhor aqui fora do que nos presídios da mentira. Se fugisse, morreria de desgosto. Que me tapem a boca. Ingênuo é quem limita a verdade aos sons da voz.



– III –

Não me chame pelo meu nome. Não me faça refém de mim. Se te disse que sou uma multidão, acredite! Não vês que estou muito ocupado com a vida?


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Das lentes do meu verso


Vejo pessoas nas ruas, pelas ruas, das ruas, algumas nuas, a maioria não. O que falta é o que é. O que sobre é o que aparenta. O reflexo distorce, amplia e multiplica a imagem que era. Reflexo sem nexo. A hora voa, o minuto some e o segundo é perplexo. Tantos passos, tantas pressas, tudo tão rápido. É beijo, é aperto, é amplexo, é dor sem nexo. O ser humano é um código, mas eu não sou deus pra decifrar...



“O meu código de acesso, é imenso
É nexo, é dor, é flor
É côncavo, é complexo
É denso, é afago, é amplexo
É o ninho do verso de amor”


Zélia Duncan in “Código de Acesso”


sábado, 8 de novembro de 2008

Conjugando diagnósticos




Sou um isso.
Meu viço é a vida.
Meu vício é o viver.
Amar até a palavra.
Fecundar significados.

Sou uma senda.
Um caminho só meu.
Uma vírgula na terra molhada,
sementes brotando, idéias paridas.
O vento acaricia a cortina ainda branca.

Sou uma voz na exceção.
Uma nota em fé, bem lá, a si,
a sós, bemóis, em paz, qualquer sílaba.
Uma história inacabada, o tropeço, a ênfase.
O arrepio do vento consola a cortina na janela...



terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que nos basta no agora


Para começar bem um dia com ventura estonteante, após as ondas procelosas nos oceanos-de-mim, inquietando-me com barcos e velas, ouvi-me dizer no canto das sereias: “eu não preciso passar por isso”.

A vida vale toda a espera, seja ela qual for, aprendendo nos segundos de todas as fases a lição que um dia o Senhor das Histórias – nas palavras do filósofo Rubem Alves – calhou a ensinar: “não vos inquieteis com o dia de amanhã - o futuro que ainda não veio -; basta a cada dia o seu próprio mal”.



Dedicado a todos os amigos que me amam e são correspondidos:



“Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim...”
Vinícius de Moraes





Nota: a imagem acima intitula-se “Heartbeat” (batida do coração). Autoria desconhecida. Um êxtase para quem curte o segundo-eternidade de cada gesto terno e simples.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Encontros e despedida: uma questão lispectoriana




Ontem, dia de finados. O congestionamento fica incalculável pelas ruas nas quais preciso trafegar. A resposta não sobe estranha à razão. Moro no bairro onde se concentram estranhamente quatro cemitérios, o maior do estado, um religioso, um israelita e outro com a pompa de ter sido o primeiro vertical do país. Policiamento ostensivo é reforçado. Camelôs e flores dão brilhos e cores à la Joãozinho Trinta. Mas o dia tem um ar grave pra se respirar diante desses cenários. Prefiro sair daqui, buscar novos ares fora do bairro. Caminhando, vejo no chão um desenho que parte o lúgubre ao meio. Um desenho de amarelinha, a brincadeira que não se vê mais nos pés de ninguém. Sorrio, mas prossigo. Entro no ônibus. Encontro conhecidos até lá. Aceno educadamente. Assento. Viajo. Salto. Caminho. Encontro amigos. Encontro abraços. Encontro uma notícia triste. Alguém que conheci há uns meses atrás veio a falecer. Sepultamento nesta segunda-feira. Trinta e poucos anos de existência. Preocupo-me com as causas. Amigos me respondem. Meningite. Reunimo-nos e fizemos uma prece. Adrielly, o primeiro transexual que conheci de perto. Chamavam-na “dama da cozinha”. Disseram que preparava excelentes quitutes. Nunca deles provei. Pouco conversamos, mas tenho boas recordações. Discreta – o que nunca imaginei encontrar numa “trans” para ignomínia minha –, elegante, temente a Deus e de poucas palavras. Um obliquoso antagonismo no estereótipo homicida que nos habita. Pra muitos juízos de plantão, uma imoral. “Perdida”, no linguajar da religião e de seus adeptos tão cheios de coisa-alguma-pra-deus.

Puxei uma folha qualquer na memória e comecei a rabiscar uma reflexão sobre o que seria imoral no sentir-pensar de nossos dias. Na volta, caminhando pelas ruas do Centro, preferi traduzir as palavras em idéias que não se calam diante de perguntas famintas. No silêncio, pus poesia como degelo nas tristezas. E fiz com que elas se tornassem mensagens pregadas num varal. Não que resolvesse expor minhas palavras, idéias ou, quem sabe, fragilidades masculinas. Não temo por isso. É que decidi interagir comigo mesmo. Publicamente. Tem vezes que penso que tudo se ergue tão transitório à razão. A vida. A idéia. A paixão. Quem chega e quem vai. Nós apenas conjugamos enquanto vivemos.

O verbo existe de per si. "No princípio era o verbo", assevera a epifania no primeiro capítulo do Evangelho de João. Sabedoria antiga que ensina o que a vida traz: o verbo sempre esteve presente... Hoje sou eu quem não estou para muitas palavras, sejam verbos, sujeitos ou predicados.

Em memória de Adrielly


O homem? A mulher? O em-si? O pra-si? O fruto parido? O fruto proibido? A mão na púbis? O pé na bunda? A boca no falo? O descompasso? O lapso? A tortura? O menor salário? Os juros ou as taras? A mordaça ou o fio dental? A interjeição ou o cuspe? A provocação ou a desistência? A sedução ou a fuga covarde? A nudez ou a vergonha não castigada? O homicídio ou o suicídio? A morte em vida ou a vida sem sentido? O abuso ou a omissão? O tapa na cara ou o que se faz antes? E o que não se faz quando deveria tê-lo feito? O que é imoral? Com que olhos se vê o que é moral? Suspiro. Olho as horas. Observo o semáforo. Atento, atravesso a rua. Entre tanta gente que me esbarra não há nada que me espante...

Seguindo pela rua, telepaticamente, a voz e o sotaque de Clarice surgem como chuva de papel picado:


"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."

Eu me agacho e cato minha resposta nos pedacinhos em branco que ainda escreverei...

...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

É pelo olho






“Beleza e glória das coisas é o olho que põe. Bonito é o
desnecessário. É pelo olho que o homem floresce”
Manoel de Barros

...


Se os olhos forem bons, todo o corpo reluzirá. E vestirá verde-esperança. E tomará a certeza. E porá vento em cada esquina pra refrescar o tempo. E fará do encontro apenas o instante pra quando outros chegarem. E nada mais importará: se dia ou dias, quem dirá?


Você diria?

...

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