domingo, 28 de setembro de 2008

Memórias de quem não irá nunca: Clarice


Sábado colorido de várias tonalidades de chumbo. Tal como a vida. Mas, e daí? Eu amo viver nem que seja pra aguardar o renascimento, quando houver. Sim, estou embriagado de Clarice Lispector. Resolvi apresentá-la a uma amiga (a outra já a conhecia). Encontro marcado. Horas e ponteiros na nossa direção. Nós fazemos o tempo. Não, não precisa avisar aos que não souberem. Parei de me importar, o que eu preciso é o agora. De fato, Clarice mexe com a gente. Dá uns nós em qualquer sílaba, quem disse que palavra também não engasga? Eu fico mudo quando a linguagem me destrói. Às vezes sou vencido pela palavra. Emudeço. Tem gente que saberá do que falo.

Não imaginava que iria me apaixonar mais ainda pela aura de Clarice. Ela é danada (“arretada”, como escreve acerca dela meu Serginho), mas dana-se quem pensa o contrário. É dessas que nos esclarece: ‘eu sei o que faço neste mundo: incumbida!’ Não há como não querer senti-la. Mergulhei no seu mundo durante três horas na exposição do Centro Cultural Banco do Brasil. Vi seus retratos particulares, catei os detalhes nos seus documentos, perscrutei seu título de eleitor, a seção em que votava, o passaporte, os boletins, cartõezinhos do INSS, cartas escritas aos 21 anos de idade ao presente Getúlio Vargas pedindo que fosse-lhe deferido o pedido de naturalização como brasileira (o que foi aceito). Encantei-me com a sintonia que nós dois – ela e eu – temos em nossa peculiar história: graduamos no mesmo curso e na mesma Faculdade Nacional de Direito, nasci no dia em que ela deixou de existir (embora o seja sempre, o que é mui diferente), só mudando o ano. Ela costumava emendar o texto da mesma forma que eu no final de meus escritos (crônicas e poesias), sempre puxando setinhas com caneta e bagunçando o coreto de tal forma que ninguém – exceto nós mesmos – entenderíamos os nossos originais. Amei o carinho dela para com o filho caçula, lá pelos idos de 1969, quando o menino ainda era adolescente e fazia intercâmbio nos EUA: “A pessoa que mais te quer neste mundo”, assim assinava no final das cartas cobertas de maternidade. “Não traga gato para este apartamento, exceto se já estiver treinado para os pipis” – foi o bilhete escrito à caneta numa margem de outra correspondência para o filho Paulinho. Ria nos detalhes. Nem me importava com os demais vendo minha autenticidade incorrigível – a liberdade de ser-me. Ouvi-a dizer que, certa feita, pegou um táxi e foi até a Feira dos Nordestinos, no Campo de São Cristóvão, só para sentir o clima do que precisava para uma próxima obra. Pois ao sair da exposição, não é que passei pelo mesmo lugar! Mas nada poderia sentir pela exaustão do que já tinha absorvido. Digerir Clarice não causa náuseas. É um empanturramento satisfatório. Eu é que o diga na constatação da palavra: ela está, nunca foi!


Nota: na imagem acima, Clarice durante a entrevista. Maravilhoso poder ouvi-la num telão enorme. Sentados em puffs ou espalhados pelo chão, como foi meu caso, a maioria dos visitantes se emocionou durante muitas de suas falas e divagações. Que vontade de aplaudi-la. Contido e já de pé, preferi simplesmente suspirar e dizer: sou teu fã, louca em absoluta sanidade perfeita!

5 comentários:

mãezinha, anna maria disse...

Filho querido, tudo isto que você escreveu é maravilhoso, é emocionante. Ah, se eu morasse perto de você, eu estaria presente também ao Centro Cultural do Banco do Brasil para apreciar junto com você essa maravilha. Eu sempre gostei de enviar pensamentos dela para as pessoas. Tem um que gosto muito e encontro nos cartões das Paulinas "Não se preocupe em entender, viver ultrapssa qualquer entendimento"!
Filho, se algum dia você for a São Paulo procure visitar o Museu da Língua Portuguesa e lá você terá oportunidade de ver muita coisa de Clarice. Ela amava a língua portuguesa e como não dizer que ela já se sentia uma ucraniana brasileira.
Estive lá com Paulinho. Neste museu tem um espaço enorme com várias gavetas onde estão guardados os documentos, carteiras, manuscritos etc... e me emocionei abrindo aquelas gavetas e podendo apreciar os documentos dela.
Fiquei muito feliz por você, pois sei o quanto você é culto e gosta de escrever.
Um beijo grande no seu coração.
Sua mãezinha mineira, ANNA MARIA

sérgio sandes disse...

Dá-me a Tua Mão

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.(Clarice Lispector)

Um xêro danado amado...
Mergulhar na Clarice é o mesmo que beber o azul do mar...

Ps.: Sempre em boas companhias...

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Verdade, Serginho. É como o azul do mar pra dentro de nossa imensidão oceânica. Tenho aprendido contigo a "sentir Clarice". Obrigado pelas aulas nas entrelinhas!

Um abraço no teu mar, arretado meu!

P.S.: Boa semana. Tudo irá concorrer para teu bem, você verá!

...

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Veja só, mãe! A dica é excelente. Sou doido pra conhecer esse Museu. Amigos meus aqui do Rio estiveram no mês passado, até me convidaram a ir com eles, mas não pude.

Pois a tal exposição a que vistes foi justamente a que veio pra cá. Fiquei horas puxando cada gaveta e me perdendo nos minutos ao ver cada documento. Tanto que preferi sentar-me às cadeiras dispostas na frente das gavetas. Um bom caldo de Clarice, foi o que tomei nas bordas e no profundo do pensamento!

Em cada um deles...

Aprendendo contigo a viver intensamente,

Hijito

...

Pastor Márcio Retamero disse...

Eu não sabia, até ler este post, que tínhamos em comum o amor por Clarice!

A conheci ainda adolescente, fomos apresentados pelo meu "professor na arte de viver", D. Marcos Barbosa, quando eu ainda era um "secundarista" do S. Bento. Foi D. Marcos que traduziu "O Pequeno Príncipe" e outras obras famosas. Me apresentou uma a uma e através dele, pude amar Clarice, Dostoiéviski, Tolstoi, Machado...saudades do meu professor!

Saudades de Clarice!

Saudades de você, grande amigo!

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