sábado, 6 de setembro de 2008

Quando hoje despertei...


Ao abrir os olhos outro par de olhos me observava dormir. Tentando entender a aparente miragem diante de mim, esbocei umas palavras em tom grave. Não muitas. Apenas as de praxe.
- Quem é você?
- “Sou Josué”.
- Ah, é?
- "É",
me respondeu sem cerimônia alguma.

Virei-me para o outro lado da cama. O sono era mais forte que meu desejo de acordar. Claro, sabia estar diante de meu sobrinho de três aninhos. Minha irmã tinha aparecido pela manhã bem cedo. O mágico de tudo isso foi a insistência dele mesmo sabendo que eu talvez não acreditasse na única realidade daquele instante: ele estava diante de mim. Eu parecia não me importar. Não se deu por satisfeito. Ele queria que eu me importasse. E não fez por menos. Pulou na minha cama, arrumou-se ao meu lado e pegou a sobra do meu travesseiro. Num ar blasé desses que nem se importam com a receptividade, deu suas ordens. Ele era muito mais do que eu pudesse imaginar:

- “Conta a historinha das formiguinhas pra mim!”
- Claro, respondi em meio a gemidos desconexos de puro sono. E prossegui, revirando-me na direção dele:

- Tinha umas formiguinhas no jardim, fui iniciando sem me preocupar com a crítica na minha falta de criatividade literária. Pois bem, as formiguinhas queriam brincar ao invés de trabalhar. Quando imaginavam qual o tipo de brincadeira, sabe o que apareceu no meio daquele jardim? – perguntei.
- “Não”, respondeu sem tirar os olhos do teto do quarto.
- Uma borboleta colorida. Foi quando uma das formiguinhas resolveu perguntar: ‘Oi, borboleta! Quer brincar com a gente?’
- ‘Que nada!’, a borboleta respondeu em tom de deboche. Mas concluiu: ‘Vocês nem têm asas! Eu só gosto de brincar de voar!’
- “É?”,
foi o questionamento monossilábico do meu sobrinho.
- É, elas são assim mesmo. Só porque têm asas. Voar é muito bom. E a gente voa sempre que quer. Elas é que não sabem desse segredo...

Concluí, a meu modo, aquela historinha sem pé nem cabeça - ao menos pra mim. O maior barato é que ele gostou. E o pior de tudo é que nem abri os olhos. A inspiração foi surgindo em meio a sussurros de palavras adormecidas. Este foi meu início de manhã de sábado. Claro, depois tive que brincar e assistir ao DVD dos esquilinhos. Não me perguntem o nome. Coisas de tio, não liguem para meu relato de hoje.

7 comentários:

Mãezinha, Anna Maria disse...

Ô filho, me emocionei lendo este relato lindo, infantil... Sabia que quando a Luiza tinha a idade, mais ou menos do Josué, ela vinha prá cá aos domingos e eu fazia sempre uma comidinha gostosa para ela, uma espécie de sopa, pois tinha uma preguiça danada de mastigar. Pois bem, todas as vezes, na hora de dar a tal sopinha, eu tinha que contar uma historinha que inventei e era justamente sobre "2 formiguinhas", só que não havia borboletas e sim aquele "tatuzinho bolinha" e ela acabava comendo tudo.
Hoje, agora... fiquei imaginando... Ela virou uma mocinha e eu acabei não tendo mais histórias prá contar a não ser uma história recente, bem triste.
Meu anjo, você é lindo demais e muito especial. Continue escrevendo, pois assim a mãe pode, pelo menos, ter notícias suas.
Um beijo grande.
Su madrezita

ladyneide disse...

Cardo!
Q lindooooo! E digo mais...
Que belo despertar!!!

O Josué é um fofo!(rs)
Fico rindo aqui só de imaginar aquele par de "olhos de jabuticabas", te encarando como quem diz: "como assim?! Eu tô aqui e quero brincar com vc agora!" Hahaha...

Não podemos negar q Ele tão pequenino sabe o que quer, e o mais interessante viver o momento, " tá nem aí" se o tio tá com sono, rs ... diferentemente de nós adultos, sempre estressados com o que passou ou preocupados com o que está por vir.
Bom demaisss ser criança, ela sabe viver um momento de cada vez! :)

As crianças têm uma capacidade lúdica imensa para imaginação.
Elas adoram ouvir historinhas, e o mais legal é que se encantam e encontram divertimento nas coisas mais simples.

Ô tio Cardo! Como não ligar pra este relato maravilhoso!!!!

Hoje o beijo vai para o meu vagalumaninho lindoooo...e um montão de beijokinhas para o Josué muiiito FOFO!!!

Amoooo vocês! :)

Sérgio Roberto Sandes disse...

Lindo...
Fez-me lembrar de dois trechos do Caio Fernando Abreu:

Trecho de "Os dragões não conhecem o paraíso":
"É dificil aprisionar os que tem asas"

E o outro é que num sábado de manhã, ainda aquecido pelos abraços da cama, podemos nos pegar pensando assim:
"Tenho dias lindos, mesmo quietinhos"


O segredo está de fato na simplicidade...

Xêro

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Madrezita, seu relato é que me emociona. "Tatuzinho bolinha" nas historinhas da nossa princesinha que cresceu? Dessa não sabia. Lembre-se, no entanto, que foram tesouros depositados. Claro, a simplicidade é sempre um tesouro!

A mãe fez sua parte. Isso é o que li de melhor no relato. Isso é fabuloso (legal que continua a ocorrer até hoje, e com muitos outros sujeitos-alvos deste seu amor).

Seu coração é um mundo, tanto de histórias-aprendizados quanto de sonhos que ainda acontecem na teimosa Esperança no viver).

Beso!

P.S.: Ontem, sem sua licença, mostrei seu torpedo para dois amigos meus. É que um deles, para minha surpresa, disse na hora de um abraço: "- Conta pra mim o final da história das formiguinhas!?". Respondi-lhe que minha Madrezita já tinha pedido antes dele, bem no comecinho da manhã... rs...

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Neidinha e Serginho, meus poetas-no-viver,

A resposta é uma só porém a leitura e o significado será diferenciado ante cada olhar. Pois bem...

Sim, Josué é um fofo. Terrivelmente falante.

“- Você ta feliz hoje?”, me perguntou. Tô sim, neném – disse. Prosseguiu: “- Você tava com saudade de mim, tava?”. “Aham, tava sim”, respondi. Logo depois, do nada, fez o convite: “- Vamo brincá de carrinho?”. Eu é que fui logo dizendo: “Mas eu primeiro tenho que ir ao banheiro”. E ele, por sua vez: “- Fazer xixi?”. Eu, de pronto: “É, também... depois é que a gente vai brincar de carrinho, tá bom?”. “- Tá bom”, foi sua resposta.

Sim, de fato, o segredo está na simplicidade. Serginho tem razão. Tudo na vida que levar as cores da verdade, podemos estar certos, é o que existe de maneira simples. O que é simples é verdade. A verdade é simples. Aliás, me lembrei dessas palavras de outro Caio, aquele acerca de quem falei ter ido na sua palestra domingo retrasado:


“Confie sempre na verdade. Ela é invencível. Confie sempre no amor. Ele é de Deus; pois Deus é amor. Confie sempre que a paz é a melhor arma e a melhor defesa.

Creia simples e tudo será maravilhoso. Creia complexo e você jamais terá alegria.”


Assim vamos levando: pondo cores na verdade que a gente veste. Isto, claro, sem nos importarmos com mais nada. Faz parte do viver simples. Assim como responder a duas almas tão distintas, porém, igualmente lindas. E olha que a gente não se conhece. A gente se reconhece. E sente. Ah, podem estar certos!

...

Sergio Viula disse...

Que coisa linda!!! Adorei teu post sobre teu sobrinho - um pequeno príncipe acordando esse belo adormecido, só que de um jeito totalmente diferente.

Tio legal é esse cara que é uma combinação de amigo, irmão e essa coisa divertida e protetora localizada entre o mundo-pai e o mundo-mãe.

Em tempos de violência sem medida contra crianças por parte dos próprios pais ou de pai e madastra, mãe e padastro, a gente tem que celebrar relacionamentos familiares lindos como esse que vc mantém com teu sobrinho.

Continue sendo esse tio do coração. Teu sobrinho nunca vai esquecer do tio que contava historinhas de última hora (não pra dormir, mas pra acordar kkk).

Beijo,
Sergio

[Farelos e Sílabas] disse...

...

Valeu, amigão!

Ele é de fato meu pequeno príncipe carioca. Sim, pois tenho um pequeno príncipe brasiliense com os mesmos três aninhos de idade. Dois sobrinhos com a mesma idade. Pena que um não veja no cotidiano como ocorre com o outro, o carioquinha.

Os dias andam violentos. Concordo contigo. Poucos sorriem como crianças. Sorrisos simples. Onde estão? É preciso semear a vida com sonhos de criança. É preciso orar com samba nas petições: “sonhar e sonhar e sonhar, na beleza de ser um eterno aprendiz”. Eu digo amém ao som da cuíca!

Beijo, meu filósofo!

...

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