sábado, 20 de setembro de 2008

Casas e varais


Sou uma casa de quintais, varandas e varais. Tudo no plural, exceto a mim mesmo que sou um só. Mas nem sempre foi assim. A gente aprende a brincar de esconde-esconde é desde pequeno. Adulto, se esconde quando pode. Se mostra quando quer. Mas o dia não clareia quintal algum se não pendurarmos o sol lá em cima. “Não se põe uma candeia sob o alqueire, mas no velador a fim de iluminar a toda a casa”, ensino clássico do Mestre no relato dos Evangelhos. É quando a gente sabe que o sol precisa ter destaque que as coisas voltam para o eixo. Planta sabe que é planta. Beija-flor sabe que é beija-flor. A gente se encontra. A casa agradece a arrumação de seus próprios espaços, inclusive de seus baús. Todos temos baús em nossas casas. Se no sótão, no porão ou nos cômodos mais acessíveis é questão própria da individualidade de cada um. Mas para arrumar baús é preciso revisitá-los. Abri-los. Encará-los de frente. Pôr nomes aos “baús”. Chamá-los pelo nome sem receios. É baú da gente, precisa mais intimidade? Ter uma casinha branca de varanda na esquina é meu sonho de quintal. Um sonho singular. Tal qual a vida, que é singular pra cada casinha, branca ou não. Mas o que dizer dos varais? São importantes. Sem varal não se pendura um sonho sequer. Nada se espera. Tudo se apressa. Sabemos que a vida não quer pressa. Todas as fases são estações. Tem seu momento próprio pra acontecer. Imagina só a lua e o sol brigando pelo mesmo espaço! Não dá. Um aquece. Outro poetiza o momento. Tem momento na vida que a coisa não é só mistério, é poesia também. Sem verso pendurado como secar as palavras molhadas depois que a gente diz ou chora? Sem varais o que resta é o quarador. Gente simples é assim. Tem varais e quarador. Complicado é que nem todos querem se agachar e aquecer seus sonhos a partir do chão, pra dentro do quarador. Querem flutuar no inatingível sem se importar se o que se quer não tem base. Falta de humildade. No varal a gente se expõe, dá cara ao tapa. Mas revida com tapa de palavra honesta. Pura e verdadeira. A coisa assim se torna até mais leve. Tão leve que sacode no vento. Sai todo o pó. Saem as dores e os medos de ser feliz. Uma casa que se preze tem estações e cores que se reaproveitam no tempo certo. Nada é disperdiçável quando se busca ser sábio. Tolos é que buscam as aparências sem se importar com o alicerce. Eu sempre gostei de cheiro de terra molhada. Este é o perfume de uma casa com varandas sorrindo para os quintais. Lá nos varais é que tudo se impregna. Duvida? Então, experimenta pôr uma palavra gratuita qualquer pra se expor. A cautela – que é fruto da prudência – é uma virtude. Outros frutos há, que beleza! No varal se penduram sonhos, palavras, esperanças e páginas em branco. Essas coisas pra escrever com calma. E as outras coisas na vida de uma casa? As outras a gente das duas uma: ou carrega junto da gente (como o amor próprio) ou semeia debaixo dos quintais pra fecundar os pés. Casa que é casa tem nos alicerces pés bem plantados. Tá na hora de ir no quintal recolher os frutos...

2 comentários:

mãezinha, anna maria disse...

Filho boa tarde!Lendo esta postagem sua me lembrei de um texto de John Stott que diz:
"Quais são segredos da vida frutífera?O primeiro segredo é a poda da planta.Deus é um jardineiro incansável,podando todo o ramo que dá fruto para que frutifique ainda mais. O segundo é a 'permanência' dos 'em Cristo' (...), é permanecermos em Cristo e Cristo em nós. Para que Ele permaneça em nós,devemos permitir que Ele assim o faça, que Ele seja cada vez mais aquilo que é: NOSSO SENHOR E O DOADOR DE NOSSA VIDA".

Porque me lembrei deste texto, simplesmente porque você fala de quintal, varandas, sonhos, beija flor,etc... e se conseguimos ter uma casa pequenina, branca, com varanda, quintal, quarador de roupas, temos também a VIDA dentro de nós e por todas essas coisas, devemos a Ele que nos deu o dom para fazermos tudo isto. Sonhar é bom, ter esperança, ser a gente mesmo.
Um beijo e um abraço bem apertado no seu coração que amo tanto.
Su madrezita, ANNITA

[Farelos e Sílabas] disse...

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Oi, mãe! Bom início de noite!

John Stott não é à toa um pensador cristão muito elogiado! Li em inglês a obra "The Cross of Christ", acho que já te falei.

Sim, temos a VIDA em nós. Isso é um Sol e tanto sobre nossa casinha branca com quintal, janela, varanda, quarador e as flores no jardim...

Te amo tanto que nem sei!

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