quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Que canção você é?

Quando era moleque e assistia a desenhos animados (queria de volta o tempo pra isso!), me intrigava uma pergunta que era célebre nos episódios de amnésia. Não importava a cena. Se houvesse amnésia lá vinha ela, a tal perguntinha: “Quem sou eu?”. Aliás, vinha quase sempre com outra não menos conhecida. “Onde estou?”. Parece bobagem, mas a pergunta é pertinente para qualquer um de nós. Acho que todos, alguma vez na vida, deveriam se fazer esta pergunta: quem sou eu? O lance é que muita gente não sabe quem é. São vários os fatores pra que isso ocorra. Nada de detalhes. O processo de “desindividuação” acontece quase sempre a partir do estado de consciência. É quando neguinho vai deixando de ser ingênuo, vai crescendo, deixando de lado a primeira infância.

Pensava rapidamente sobre isso enquanto relembrava algumas obras que li. Mario de Andrade dizia que era trezentos, "trezentos-e-cincoenta, mas que um dia afinal se toparia consigo mesmo. O processo de auto-conhecimento é gozado. A gente faz uma viagem alucinante por uma vida toda pra perceber que as maiores raízes em nós estavam na simplicidade dos anos, das coisas, da vida. Muita gente vai concordar comigo quando traduz o que viveu como uma trilha sonora. Que canção poderia expressar nossa mais profunda raiz? Qual canção afinal somos nós? “É preciso saber viver?”, “Como nossos pais?” Não me diga que alguém aqui ousará dizer “Yellow brick road”! A minha canção não é propriamente uma canção concreta, fixa, com identificação. É apenas uma canção. Sons, notas e lembranças da infância. São os sons combinados de briga de pardais me acordando. Sons das maritacas no abacateiro da dona Melita, minha vizinha portuguesa. Sons das canções que minha mãe inventava pra eu adormecer. Sons dos remos das canoas nas águas do cais, bem aqui na antiga Colônia de Pescadores Z-5. Sons dos temporais de granizo nos telhados de zinco da saudosa dona Melinha. Sons dos ventos nas árvores da Escola Comandante Armando Pinna. Foi lá que estudei dos 6 aos 9 anos de idade. Acredito que a combinação deles todos daria minha canção...

Sabe o que tô lendo neste momento? Anotações de uma agenda de 1993. Juro pra vocês que não guardo todas as agendas! (rs...) Falta de espaço. As mais anotadas eu guardei sim. A de 1993 se encaixa neste perfil. E tá registrado em julho um trecho de uma obra que li na época. Velho hábito. Coincidência ou não, estão lá as palavras da velhinha que amei sem conhecer. Catherine Doherty de Hueck, uma poetisa russa e que morou no Canadá por anos a fio. Quem é ligado a movimentos católicos deve conhecê-la por suas obras ou palestras. Sempre achei-lhe muito louca. No bom sentido, diria. De tão louca, profundamente humana. Uma graça! E são exatamente dela as anotações que registrei há 15 anos da obra “Alma da minha vida”: “eu sou uma canção solta no espaço, tão solta que o vento apanha e leva a grande altura! Mesmo que ande no chão, filha da terra, fechada nesta carne do meu corpo, eu sou canção sugada pelo vento e colhida por Deus, na eternidade.” Ela guardou os melhores sons pra se auto-definir. Se fez canção solta ao vento. Isso é que é raiz profunda! Isso é que é um “eu sei quem sou” com tons de encantamento. Boa resposta a de Catherine! E você, que canção te descreve?

Um comentário:

Mãezinha mineira disse...

Filhote este texto me emocionou, sabe porque? Você se lembra que quando te conheci, em 2000, eu sempre mandava para você alguns textos pequenos (frases) dessa poetisa russa Catherine Doherty de Hueck. O paizão tinha vários livros dela e depois da sua morte foi dividido alguns livros dele para os filhos e os dessa autora o Paulinho levou com ele.
Ela era realmente uma pessoa muito humana. Cheguei a ler 2 livros dela, inclusive este onde você tirou este pequeno texto “eu sou uma canção solta no espaço, tão solta que o vento apanha e leva a grande altura! Mesmo que ande no chão, filha da terra, fechada nesta carne do meu corpo, eu sou canção sugada pelo vento e colhida por Deus, na eternidade.”

Me fez chorar, me lembrando do paizão certa ocasião, no curso que fazíamos no ISI (Instituto Santo Inãcio)sobre a Teologia Pastoral. Ele levou um livro dela para citação de um trabalho que iríamos fazer em um retiro espiritual.
Até breve, meu filho querido.
Beijos, mãezinha

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