quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Apontamentos sobre o pós-carnaval e o baile de máscaras


- I –

Minha amiga Iraydes costuma dizer que “o ano de fato começa quando o carnaval acaba”. Ela tem razão. Dia desses tentei resolver uma pequena questão no âmbito da Prefeitura, mas praticamente todos os funcionários estavam em férias. O que restou para me atender, apesar da boa vontade do menino, não sabia como fazer o serviço. Cheguei a ajudá-lo na redação do documento, enquanto ele digitava o que pedia. No final das contas, pediu-me para voltar num outro momento. Ele definitivamente não sabia fazer, foi o que intuí. Ok. Esperei o carnaval terminar. Pode ser que os funcionários mais experientes estejam de volta de suas férias. No Tribunal Federal não foi diferente. Diferente mesmo foram apenas o enredo e o nome dos personagens. Fico pasmo como tudo pára nessa época.


- II –

Só não fico pasmo pelo que já vejo ao longo de muito tempo. A presença dos seres que insistem em andar “fantasiados” – leia-se mascarados – pelo restante do ano a fora. Tô pensando nisso há algum tempo, procurando entender os porquês. Partindo do princípio que a alma humana é um complexo universo de histórias, tensões e sentimentos os mais variados, sei que a formação e os ambientes sociais e familiares afetam – e muito! – o comportamento latente de todos. Não há exceções. Somos um amalgamento constante. Um gerúndio.

Sören Kierkegaard certa vez disse que a vida é um baile de máscaras. Caio Fábio, a quem admiro pela trajetória e sobretudo por amar os conteúdos do Evangelho sem aderir a partido religioso algum, disse uma vez que o papel de cada um é descobrir-se nesta existência, retirando, uma a uma, as máscaras que ao longo da vida vamos colocando (ou permitindo serem colocadas). O problema, segundo ele, é que para muitos, esconder-se atrás das máscaras é apenas um questão de proteção ou de diversão inexaurível e viciante. Sim, acaba virando um vício do ser, a tal ponto que sem as máscaras muitos não suportam e morrem. Assim, para a maioria, sem o personagem, acaba a pessoa.

A moral é a grande máscara. E os moralistas são o que detém o maior número de disfarces. Muitos – se maioria ou não, não sei – existem assim. Daí, para muitos, catástrofes que lhes roubem as “máscaras” os deixam em estado de desespero, visto que sem a máscara eles não possuem um rosto próprio, algo que a própria pessoa reconheça para si e como sua, e não apenas como um reflexo da imagem que os outros devolvem para você mesmo, supostamente acerca de quem você – ou qualquer um – aparenta ser para eles.

Desse modo, vende-se a imagem, e alimenta-se dela. Mas no dia em que as máscaras são tiradas, muitos não conseguem mais viver, pois neles não há uma vida própria, mas apenas uma existência fabricada para consumo no Baile de Fantasias, que é a existência da maioria.

Tudo isso é muito triste, mas quem vive nesse Baile de Fantasias não tem idéia do que faz de mal à sua própria alma.

Pobre do auto-enganado que pensa que as máscaras o salvarão!

Viver na simplicidade – que é a verdade de cada um –, respirando sem disfarces sobre o rosto, deveria ser o desejo de todos os homens. Quem não deseja viver assim, insistindo no carnaval fora de época, corre um grande perigo. O de viver sem sentido sobre um chão arenoso e infrutífero para o ser. Como ensina Caio, orador e psicanalista, é preciso tirar da cara a máscara. Do contrário, pode-se vir a perder a coisa mais sagrada e preciosa de um homem - o poder unificador da personalidade, e a capacidade abençoada de se tornar alguém que seja realmente quem se é de verdade.

Esta é apenas uma reflexãozinha para iniciarmos o ano com desejos elevados dentro da gente. Iniciarmos o ano? Sim! Afinal, tal como aprendi com minha amiga acerca de quem falei no início do artigo, também sou destes que crêem que é depois do carnaval que as coisas engrenam. Com ou sem máscaras? Ah, isso é com cada um. Sei apenas de mim e de como é bom sentir a brisa tocando nosso próprio rosto!...

14 comentários:

Rond disse...

A vida é um baile de máscaras, basta saber quais são verdadeiras.

Tuh eh um cara mto inteligente...pow, pegou na veia. Essa tbm eh minha primeira visita!
Muitas ainda virão!

Abração!

Mãezinha, Anna Maria disse...

Meu filho lindo, amei seu texto, que coisa mais linda!

Tudo que você escreve e comenta sobre as máscaras é verdade e como tenho pena dessas pessoas que vivem uma vida mascarada.
A gente para viver uma vida verdadeira não pode definitivamente usar ou possuir máscaras. Conheço uma infinidade de pessoas que dizem "eu sou evangélica" e estão debaixo de muitas máscaras.
- Máscaras de fingimento, de orgulho, de egoísmo, de poder pelo dinheiro, enfim, não preciso enumerar porque senão se tornaria cansativo demais o meu comentário.
Você, meu filho, sabe o que a mãe pensa dessas pessoas as quais convivi durante uns 7 anos e hoje pela Graça Maravilhosa eu me livrei de tudo, me limpei e hoje faço tudo sem precisar usar máscaras para fingir aquilo que realmente não sou.

Gostei muito desse pedacinho: "Viver na simplicidade – que é a verdade de cada um –, respirando sem disfarces sobre o rosto, deveria ser o desejo de todos os homens".

Isto mesmo, devemos viver na simplicidade e na beleza do amor de um pelo outro. É tão gratificante quando agimos assim!...

Como o mundo seria melhor se não houvesse tantos "mascarados"!

Sim filhote, vamos iniciar o ano com com o rosto limpo, sem nenhuma máscara e sempre à serviço do outro, nosso irmão.

Um beijo, meu filho e que Deus continue te abençoando e te dando sabedoria para escrever sempre neste maravilhoso "farelos e sílabas".

[...]..."é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”."

Uber Expresso disse...

Engraçado, porque estava exatamente nesse momento pensando nisso...na vida, vida simples, nos conhecer, não se perder nesse mundo louco... olhar para dentro, saber das suas verdades, não ser sequestrado por outro, pelos desejos dos outros, saber quem és, saber dizer não quando quer dizer não e sim quando sim..enfim... ando meio que refletindo sobre isso também... muito bom texto... Beijos Roberta.

Daniel Savio disse...

Mas um pergunta, apesar de usarem as mascaras a tal ponto que nõa podem viver sem elas, não deveriamos pensar que este é o rela rosto desta pessoa (e não o seu rela sentimentos)?

Fique com Deus, menino Daniel.
Um abraço.

Ricardo Calmon disse...

Bela cronica,meu bom escriba,daria um belo roteiro cinematográfico,ou um tema magnívo em script forma,vida exalas assim como ética e realidade!

Tu és ESCRIBA!

Merci pelo comentario gentil e veradeiro!
te abraço!

Viva La Vida!

Priscila Bispo - disse...

Rapaz, parabéns pelo blog e, em especial, pelas palavras que são os verdadeiros farelos que se transformam em alimento-pão de nossas reflexões.

[Farelos e Sílabas] disse...

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Rond:

Eis o xis da questão, saber quais são as verdadeiras. Um exercício e tanto. Quanto a cada um que busque sempre os sinais de simplicidade, pois tudo o que for simples é verdadeiro...

Venha muitas outras vezes. Sê bem-vindo!

Abração, meu rapaz!

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[Farelos e Sílabas] disse...

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Mãe:

São tantos os disfarces e tantos os auto-enganos, né?! Viver, já dizem os sábios, é correr risco...

Façamos a nossa parte, abraçando a verdade de sermos quem de fato somos, descansando na certeza de que seja-lá-quem-eu-for, “nenhuma condenação há”!

Beijos daqueles limpos de coração!

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[Farelos e Sílabas] disse...

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Roberta:

Não se perder. Não se diluir com o excesso. Encontrar-se consigo mesmo. Amadurecer durante a caminhada. Reconhecer a vida como uma estrada. Conhecer limites e virtudes. Ir e seguir, nunca desistir. Tantos verbos, tantas ações... veja quantos desafios de ser humano!

Estamos em pleno gerúndio, caminhando... isso é importante!

Obrigado pela presença-presente, Roberta!

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[Farelos e Sílabas] disse...

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Daniel:

De jeito algum, meu rapaz! O fato de não viver sem elas não pode se confundir com o “real”, posto que real é o que se é, e não o que mascaradamente se pode mostrar. O auto-engano mora justamente aí. É uma faca de dois gumes daquelas que só fere quem a manuseia...

Quisera todos aprendessem a descansar na certeza de que o verdadeiro em nós – falo de essência, de alicerce no ser – é o que promove cura, libertação, adequação e sentido no ser. Não de uma hora para outra. É preciso entender que cada qual é um universo com tempo e histórias diferenciadas...

De qualquer forma, menino Daniel, eis na sua pergunta um apontamento reflexivo. Gostei! É viver ou morrer a morte do engano: that’s the question!

Abraços daqueles reais, verdadeiros!


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[Farelos e Sílabas] disse...

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Ricardo:

Meu xará, tu é que é gentil na boa semeadura das palavras!

Abraço-te de volta! Feliz pela visita!

Sim, viva(s) a vida!

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[Farelos e Sílabas] disse...

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Priscila:

Menina, eu é quem te agradeço por vires ao campo, tocares na terra e sulcá-la no aprendizado das boas sementes!

Sê bem-vinda! Sempre!

Beijo!

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Priscila Bispo - disse...

Você é uma doçura!

[Farelos e Sílabas] disse...

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rs... um cavalheiro, diria!

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