segunda-feira, 20 de abril de 2009

Os minutos, os sons e as cores de domingo




Olhando o relógio, um ímpeto enaltece a vontade só pra soltar as horas. Fico imaginando como os ponteiros se comportariam na liberdade. Tantos anos engessados, de início, suponho que se recusariam a saltar rumo ao ‘kayrós’, o tempo sem dicotomias ou quaisquer frações cronológicas. O engessamento faz parte das rotinas. Não apenas a dos ponteiros. Vou vendo que nem todo o começo (ou recomeço) é fácil. Cambaleantes, tanto eles quanto nós ainda insistimos no caminhar trôpego. As coisas parecem rodar, rodar. É o desacerto procurando ritmo pra acertar. Os joelhos vacilam. Do nada, põem-se de pé. O despertar é assim mesmo. Um pouco preguiçoso. Sem muitos sonhos pra estimular. Há uma epiderme sobre os ossos que nos belisca e nos faz crer que essa vida anda. Sente. Segue. Tal como os dias. Um após o outro. Cada um singular como tem que ser. As horas, já soltas, também dão contam do recado. Sinto este mistério se desvendando. A coisa em si reveste-se em significado e em importância. Saber que em qualquer um de nós as coisas caminham rumo ao que nos propomos é um sabor a mais na degustação do prazer. Que mais importaria? Se sonhos, que sigam com asas pra chegar mais rápido. Se realidade daquela tipicamente nua, que siga plantada com chance de enraizamento.

Em meio ao desabrochar dos minutos em total cumplicidade com a existência, uma breve permissão para um vôo abaixo da epiderme. A dimensão em profunda metamorfose de realidade para sonho. Levei-me pra ver a mostra de arte contemporânea “Vertigem” com OSGEMEOS. Aqueles personagens amarelos me protagonizaram minutos ao lado das fábulas mágicas que denunciam o mundo de tristezas e alegrias. Tudo isto, diga-se, através de um olhar primoroso de transparência e ingenuidade. Dei-me de presente algumas cores para as paredes do meu coração. Voltei menos incomodado. Bem, até certo ponto. Já que tinha me proposto mergulhar pra dentro das águas oníricas, nada melhor que encerrar as horas assistindo O fabuloso destino de Amelie Poulin. Pra quê! Extravasei meus ecos aprisionados entupindo os poros antes abertos com lágrimas avulsas. Não poucas porque o momento – ah, este momento! – me seduz com acenos de “live and let it go!”. Queria ser daqueles que constroem frases raras e, portanto, perfeitamente sadias – como falou Henry Thoreau num de seus poemas – só pra sinalizar que aquele final acabou levando todo o meu estoque de projeções pessoais. Não sei porque acabei citando o poeta pacifista Thoreau. Talvez porque meus dias andam na certeza de “uma vida de cada vez” ou, como gosto, de um minuto sem pressa das horas...

Manhã de domingo. Dia de feira livre. Gosto daqueles vaivéns de olhares, ora furtivos, ora atentos, sobre as frutas, sobre os legumes e sobre as tabelinhas riscadas de giz e cifrões. As cores estão por toda a parte. Os meus olhos se distraem com tantos retalhos de detalhes. Eles formam uma colcha multicolorida de gente, de corpos, de folhas, de talos, de cheiros e de um céu de anil estirado sobre nós. Que cenário! Crianças nos carrinhos de bebês. Senhoras apressadas e tagarelas. Senhores com gravidade e ares de circunspecção. Gente que deu bom dia ao dia. Gente que mal acordou. Gente solta de si mesma. Gente acorrentada pelas horas. A cada aproximação, ‘bom dias’ pra plural nenhum botar defeito. Mais uma vez voltei pra casa com mãos impregnadas de odores e bolsos fartos de sons.

Pausa para o almoço. Em seguida, antes que os odores desapareçam, corro pra rabiscar algumas linhas. Uma necessidade de liberdade como a que vi nas ruas da feira me sacode pra pingar cores no texto. Lembrei-me das cores que ganhei pela manhã. Tudo de graça como são o sorriso franco e o aperto de mão dos cavalheiros. Uma idéia de última hora resolve aparecer antes do ponto final. Pego pequenos objetos. Um par de óculos escuros e uma câmera pra ser mais preciso. Corro pra rua e faço sinal para o táxi. Salto ao lado do Copacabana Palace. Os lábios já sentem o sabor do mar. Atravesso o calçadão e me disponho na direção do maior divã do mundo. Por descuido – ou mera intuição, sei lá! – olho para o relógio e não vejo os ponteiros por lá. Sorrio por dentro imaginando que eles também devam estar em bom lugar. Livres do tempo.


O abraço da brisa me torna cúmplice da paisagem, me lança pra dentro do cenário. Aceito-o de bom grado. A esta altura os passos não me pedem nada. Seguem com as horas. A tarde de domingo fala por meio de tantos detalhes. Cachorrinhos. Carrinhos de bebês. Cadeiras de rodas. Estátua viva. Corredores apressados. Ciclistas concentrados. Mulheres bonitas. Homens, igualmente. Casais apaixonados. Vendedores hippies. Policiais atentos. Um grupo de MPB cantando Ana Carolina. Um salva-vidas. Um surfista abaixando o zíper do traje. Um casal de garis varrendo as marcas pretas e brancas do calçadão. Turistas como as areias da praia. Muitos idiomas. Muitos dedos em riste para cada canto. Garotos exibindo seu futebol de areia. Rapazes em saques e defesas espetaculares nas redes de vôlei. Assisto a uma partida sem qualquer necessidade senão a de não ter necessidades. Capturo imagens, qualquer uma que venha emprestar significado. De um instante a outro já estou no meio dos pescadores junto à colônia de pesca de Copacabana. Idosos conversam libertando o passado. Assento-me num daqueles bancos bem ao lado do Forte. Uma roda gigante bem ao fundo saúda a campanha para os jogos olímpicos na cidade. Mais uma vez, algumas capturas com a câmera. Olho gente me olhando. Escuto os sons dos outros. Uma orquestra empresta e recolhe sons. Tudo acaba em troca. Passo na porta da Paróquia da Ressurreição. Da rua avisto que uma missa prossegue, mas são as pessoas com caras felizes que me chamam a atenção. Mais à frente, o Arpoador. A dimensão das coisas torna-se tão enaltecida que me comove. É o entardecer fazendo solos com assovios das brisas e rabiscando de dourado o firmamento. Aquilo, pra mim, me encanta como canto de sereias. Flashes e mais flashes. Muitos casais. Eles são casais, não importando se héteros ou gays. São muitos corações trocando segredos em meio àquelas pedras. Pulando de pedra em pedra, atinjo o topo. Muitos olhares fitos para o espetáculo do entardecer. Quase todos assentados nas poltronas imaginárias. Refestelo-me numa das pedras e também troco segredos de liquidificador. Eu comigo mesmo. Eu com os céus sobre mim e os céus dentro de mim. Fiz as minhas preces sem pedidos, questão de costume. Olhei a espuma do mar tomando banho nas ondas. Sorri mais uma vez por dentro com tanta gente serenada ao redor de mim. Fiquei por ali enamorando o firmamento até que Alguém apagou a luz da tarde pra acender estrelas...
...

Nota: apenas para os que ainda não assistiram ao filme ao qual me referi (e para que o mergulho se aproxime do significado das palavras que pari logo acima), trecho do final que me encantou sob os sons de “La Valse d’Amelie”.



7 comentários:

Alex&Elisa disse...

Que bom que os ventos são outros... Bons ventos de mudança pra ti...

Abraços

Marcia Cristina Epifanio Filipe disse...

Querido amigo,

Têem dores q demoram a passar, mas com o tempo vão deixando um tom leve de saudade!
Só agora me recuperei para te escrever estas linhas, pois o que passamos juntos a 9 dias ainda me abalam um pouco. Mas sei q logo tudo isso vai passar.
Conte sempre com esta amiga que vc sabe apesar de nossas rusgas de vez em quando, te ama muito e q esta aki para o q der e vier.
Bjos.

Mãezinha, Anna Maria disse...

Filho, só você para desenhar e colocar cores em tantas linhas deste texto. Fico a cada dia admirada com a sua capacidade de escrever, de lembrar tantas coisas bonitas, passadas numa manhã de domingo, naquela feira perto de sua casa, agora uma função sua, fazendo a feira para sua mãezinha Isabelita. Que amor filial...

Gosto de ver como você esta se saindo um perfeito "dono de casa".

Revendo a minha vida, me reconheço agora uma perfeita "bombeira", "eletricista" e outras coisas mais que era função do paizão nicaraguense...

Voltando ao que escreveu, percebi muitas cores, suspiros numa tarde no Arpoador... o divã que tem sido ultimamente, um recanto para você fazer suas preces, sem pedidos, rever o que está dentro do seu coração, sentir a Presença, pois ela está sempre ao seu lado para tudo.

Não preciso dizer que me encantou ver a sua foto, com um olhar bem distante, com "aquela" camisa azul que ficou linda em você!

Gostaria de dizer muito mais, mas quando começo, não me dá vontade de parar.
Fico por aqui torcendo por você, sempre orando e pedindo ao Pai (Presença) para estar sempre perto de você, em todas as situações.

Um beijo enorme...
Um abraço bem apertado...
Um xêro de mãe que está saudosa.
Anna Maria

[Farelos e Sílabas] disse...

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Três pessoas inteiras. Não há metade senão as duas que se completam, formando, cada um, um-inteiro.

Este bilhetinho é apenas pra expressar que é bom, muito bom contar com a mão estendida que o pensamento de vocês me traz na minha direção.

Voltarei com mais palavras daqui a pouco. Beijão em todos!

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Serginho Tavares disse...

Eu não vi o filme mas conheço o fabuloso amigo Cardo.

E isto não tem preço.

Dany disse...

Esse filme é simplesmente espetacular... uma ótima pedida pra encerrar o dia!
Bjs

Robson disse...

Amelie? hmmm tocou profundamente no meu ponto fraco amigo...
bjão

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