Mostrando postagens com marcador Gente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gente. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma crônica sem pretensão alguma de matar a sede


Sabe quanto tempo um plástico dura pra se decompor? Não sei dizer exatamente, mas é coisa de séculos! A resistência do material frente às intempéries e a todas as demais formas de erosão natural é algo que me chama a atenção. A coisa dura porque é resistente. E é resistente porque sua constituição – aquilo que realmente é desde o âmago! – favorece a integridade do material por anos e anos.

Nesse calor de matar carioca, tão acostumado aos quarentinha graus dos verões, não tenho outra alternativa senão me refugiar nos pensamentos. Eles me refrescam. É a explicação. Fico mergulhado em mil pensamentos sobre a descartabilidade e a resistência nas relações – qualquer uma, desde que humana – enquanto giro lentamente a garrafa de água mineral nas minhas mãos. O plástico, a sua textura e sua utilidade me inspiram numa série de vaivens de idéias e de algumas projeções também. Eu mesmo queria ser assim, mais resistente às intempéries por natureza. Mas não sou. Isso é bom, não chega a ser ruim. Saber que, diferentemente das garrafinhas de água mineral, preciso desenvolver meu potencial para criar possibilidades e assim caminhar por elas, acaba me pondo no meu eixo original. Ser humano é reinventar-se, é renascer a cada inconstância, é desabrochar sem perder a gana de florescer, tenha ou não tenha mais primaveras na estação. Acho que o eixo se equivale a tudo isso...

Mas nem tudo que é plástico é garrafinha. A maior prova disso está no mundo das virtualidades, o universo pra dentro do qual o limite de uma relação está a um toque dos dedos. É pelos caracteres que o programa impinge na tela que muita gente constrói seus encantos e suas muralhas. Eu, por exemplo, que sou forte, gostoso, acabei de pintar meus olhos de azul (baratinho, baratinho, graças ao photoshop!) e retocar uma dezena de imagens só pra ficar com peitoral definido, cabelinho empinado em gel e óculos rayban. Tá vendo só! Eu me pegaria, caso me desse mole. Olhando para as imagens, a imaginação instiga a curiosidade. Não agüentei e acabei pegando MSN e facebook da criatura, no caso, eu mesmo (ou o “suposto eu”). Não poderia perder a chance de ficar comigo mesmo, justifico-me. Depois que me vi de cuequinha branca numa pose pra lá de sedutora, as cabeças pensaram ao mesmo tempo e a uma só velocidade: deve ser um tesão na cama! ‘Quero você!’, me disse a mim mesmo num bate-papo pelas madrugadas. ‘Você é um carinha raro, tudo o que sempre esperei!’, reafirmei pra parecer mais convincente. Não é que deu certo!? Marcamos nosso primeiro encontro neste final de semana! Tudo transcorreu conforme o ritmo dos processos que nós mesmos construímos, alguns mais sagazes nessa caçada; outros, menos. E, casos mais raros, alguns mais ingênuos e românticos demais, coisas fora de moda na vanguarda dos relacionamentos plásticos. Que tolice! “Un non-sens absurde”, me diria a perspicaz Simone de Beauvoir. Obviamente tudo isso não passa de uma ficção pra lá de absurda. Por outro lado, absurdo ou não, a gente vai plastificando nossas relações {e nossos relacionamentos} à medida que adere esse ‘modo de existir’ como estanque às carências photoshopadas. Nem sempre somos água mineral, somos garrafinhas plásticas mesmo!

Hoje, esperando um carro na rua, encontrei-me com Fernanda. Nome fictício, claro. Não somos amigos, mas nos tornamos muito próximos pelas razões do dia a dia: a gente mora no mesmo bairro, temos vários amigos em comum e costumamos pegar ônibus juntos. Conversa vai e vem, ela me pergunta se poderia tirar uma dúvida sobre questões de direitos de herança e doação de imóvel. Tiradas as dúvidas, me conta sobre o desejo de fazer testamento em prol de sua companheira de vinte anos de relação. Explicando-lhe sobre direitos homoafetivos, nos ativemos ao ponto crucial de todos aqueles relatos: o carinho, o respeito e o companheirismo, fruto daquele amor que ardia duas décadas depois de iniciado. Tem segredo?, quis perguntar, mas desisti pela certeza da resposta que é particular de cada um. Cada um precisa saber, no mínimo, se está disposto a um relacionamento que mostre a cara {e o coração!} sem photoshop. “Sabe qual o segredo?”, ela me perguntou para surpresa de minha discrição. Gostaria de saber, respondi. “É saber que uma igualzinha a que eu tenho não encontrarei mais!”, resumiu na sua poesia de valor.

Claro que não iria esmiuçar aquela história, até porque não sou psicanalista nem teria razão pra fazê-lo mesmo que o fosse. Precisei saltar antes dela, acabei me despedindo e felicitando-lhe pela certeza de ter encontrado alguém de verdade, de carne e osso, de pele cansada e olheiras nas noites mal dormidas, de coração pulsante nas euforias e nos limites da emoção, de acertos e de equívocos que ultrapassam o desejo instintual numa madrugada e o frisson dos gemidos paridos nos vaivens dos quadris. Na pressa, na hora de saltar, esbarrei e deixei cair a garrafinha de água mineral. Ela se adiantou, segurou e me devolveu. “Cuidado pra não cair de novo!” E completou em seguida: “É assim que digo pra mim mesma quando estou nos braços da mulher que escolhi pra amar!”. Hã? Como assim? “A gente cai em tentação todo o dia, mas não é por isso que eu vou largar meu investimento mais seguro, a minha vida!”, filosofou. Ela é a sua vida?, perguntei só pra questionar. “Não, eu é que não encontro vida, vida de verdade, longe do prazer da companhia dela!”. Sorri. Saí com a garrafinha vazia mas com os pensamentos mergulhados em mil idéias. Alcei voo numa certeza enquanto atravessava a Avenida Passos, no Centro. Amores de plástico não matam a sede durante toda a estação. É preciso ser água mineral pra nós mesmos e para os outros. Com ou sem gás? Ah, isso já dá pano e letra pra uma nova crônica...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Meus heróis morreram de “overdose” (de talento)


Numa semana em que me entristeço com tantos fatos que se entrelaçam com o cotidiano da cidade e do país, tento destemperar a existência com os episódios mais recentes dos noticiários. E antes que alguém suponha que destemperar é abstrair, afirmo que não. É retirar o excesso, o que desequilibra. Casos de bullying em várias cidades. Assassinatos do lado de fora das janelas de nossas casas. Atos covardes em toda a parte. Crescimento do fundamentalismo religioso nos cenários do Poder Político. Intolerância gerando desamor sob vários graus. Oquidão dos seres que se coisificaram tanto que, de tão fúteis, nada restou.

Enfim, o cenário não é de chuva, mas também não é de céu de brigadeiro. É de realidade mesmo. Com toda a expressão de seus matizes.

Pensando nas coisas boas que me transportavam para os melhores anos, revisitei a memória à procura de coisas ou pessoas pra recordar. Lembrei dos cadernos de poesia que escrevia aos montes na adolescência. Lembrei das pilhas de livros que faziam parte de meu cardápio diário (literatura nacional e estrangeira). Engraçado, não sei por que mas adorava livros de auto-ajuda). Lembrei dos ratinhos brancos que criei. Lembrei da febre pelos álbuns de figurinhas, fosse qual fosse. Lembrei dos programas de rádio nas ondas curtas e das correspondências que recebia de amigos de várias partes do mundo. Como estarão hoje em dia? É apenas uma perguntinha retórica sem muitas pretensões...

Pois, então. Neste embalo saudosista, esta semana me lembrei com uma puta saudade dos 21 anos de partida do Laurinho Corona. Vivia meus idos de adolescente quando o vi partir. Era um ator carismático, sorridente e dotado de uma beleza que *#@! encantava a muitos, senão a todos. Excelente profissional, fez par com excelentes atrizes contemporâneas. Dancin’ Days (1978), era par da personagem de Glória Pires. Em 1984, se não me engano, fez o personagem Rodrigo em Bete Balanço, par romântico da personagem de Débora Bloch. Mas foi nas telenovelas que se destacou. Marina, Baila Comigo, Elas por Elas, Louco Amor, Corpo a Corpo e Direito de Amar. A última foi Vida Nova, de 1988, no papel de um imigrante português que namorava uma judia brasileira, interpretada por Deborah Evelyn. Além das novelas, gostava bastante do programa Globo de Ouro, que ele apresentava nos anos 80.

Laurinho foi uma das primeiras personalidades brasileiras a morrer de complicações decorrentes do vírus da AIDS. O personagem na novela Vida Nova teve um final apressado com uma viagem para Israel, por causa da doença do ator. A última cena mostrava um carro preto partindo numa noite chuvosa, ao som de um poema de Fernando Pessoa, declamado em off pelo próprio ator.

Os boatos de que estaria com AIDS surgiram em janeiro de 1989, quando pediu afastamento de Vida Nova, na qual era protagonista, alegando estafa. Voltou dois meses depois, muitos quilos mais magro e com uma visível queda de cabelo. Logo em seguida mudou-se para a casa dos pais, isolando-se até mesmo dos amigos. Quando o estado de saúde piorou, foi internado, mas os pais proibiram o hospital de dar qualquer informação à imprensa sobre o estado de saúde do filho.

Depois de nove dias internado, partiu... e se eternizou em nossa memória. Um ano após a partida de Laurinho, foi o poeta Cazuza quem partiu em condições semelhantes... Poderia parar por aqui, mas aqueles idos me deixou órfão de heróis vestidos de humanos talentosos. Um ano após Cazuza, foi a vez de Freddie Mercury, astro iluminado do Queen nos deixar...

As constelações foram aumentando sobre nossas cabeças e, paradoxalmente, se silenciando nos céus de nossos tempos, nos idos de minha adolescência e início de juventude...

Hoje, são todas elas (as constelações) mar de doces lembranças. Isso pra mim é reequilibrar o caldo da existência com bons temperos. Por mais que meus heróis tenham morrido de “overdose” de talento e por mais que meus atuais inimigos estejam no Poder, meu mais insistente desejo é sempre trazer à memória o que pode me dar esperança!




Notinha de rodapé:

Por falar em esperança, começaremos aqui no Rio de Janeiro, no projeto Betel, uma série de encontros com candidatos a cargos eletivos que defendem programas em prol da diversidade. O primeiro deles será o Jean Wyllys. Portanto, quem estiver pelo Rio, não custa aparecer na Praia de Botafogo, 430, 2º andar, domingo, 25/07, às 17h30. Apareça(m)! Quero dar um abraço nos meus leitores por lá!

domingo, 30 de maio de 2010

Notinhas do ainda-acontecendo final de semana


Final de semana em pleno gerúndio, ou seja, acontecendo. Talvez por isso esteja agitado, senão vejamos. Sepultamento do pai de amigos de infância na manhã de sexta. À noite, pra despairecer, Teatro de Arena em Copacabana, assistindo ao brilhante texto do professor, filósofo e dramaturgo português Vicente Sanches na peça “África!”. Sábado ao lado de amigos numa programação de alto nível com os professores Luiz Ribeiro e Fátima Almeida, da PUC/Rio, ocasião em que conheci o ex-BBB Jean Wyllys, que, por sinal, é um ser humano carismático e inteligente. Claro, não ficam pra trás o Serginho Viula, que teve ótima participação no debate, nem o Marcinho Retamero, que conduziu tudo com brilhantismo e academicismo inigualáveis.

Entre um e outro dia neste final de semana, ainda arranjei tempo, numa tarde dessas qualquer, ao lado de uma amiga, para cumprir cabalmente minha Missão junto aos idosos de uma instituição asilar. Tudo, diga-se, movido pelo inconfundível prazer de fazer o que me faz bem. Pra mim o amor também carrega esses apelidos, o de fazer o bem sem esperar algo em troca.

Como se vê, meu final de semana até agora não teve balada, bebedeira, nem sequer sacudi o esqueleto ao som de DJ famoso algum. Se bem que, de tempos pra cá, sinto meu relógio biológico cada vez mais resoluto e carrancudo quanto à necessidade de dormir (nem que seja no início da madrugada). Por outro lado, não que todas essas coisas não sejam, de alguma forma, proveitosas (é fato que gosto não se discute, respeita-se!), mas é que a cada dia me dou mais conta que o que me faz bem acaba me lançando para outros rumos. Segui-los, torna-me mais diferente a cada dia. Diferente entre os diferentes e diferente entre os iguais. Diferença não é superioridade, é bom que se saliente pra não exacerbar pretensas vaidades.

Após o debate de ontem à noite [o que o Jean Wyllys também participou], amigos me convidaram para uma esticada numa pizzaria e, de quebra, no aconchego da madrugada, nos braços de uma balada. Recusei a ambos movido pela falta de vontade, o que não deixa de ser sintoma da liberdade que me possui. Minha vontade era a de estar em casa saboreando algumas obras, não entre paredes barulhentas e ao som de hit algum. Ando numa paixonite aguda pelos livros e, particularmente, por uma obra sobre a qual me debruço em pesquisa. Leio até o sono me convidar para ‘nossa’ cama. E assim ocorreu, literalmente. Levei-o pra cama comigo (ou vice-versa, confesso não me lembrar!). Falo do sono, o único que me corteja com êxito.

Por falar em côrte, o Viula e meu amigo chileno Jorgito ainda insistem na tese de doutorado de que estoy solo por mi própio deseo. Era o que diziam no coquetel pós-debate de ontem. Eles sabem que discordo disso. Considerando que os meses têm passado tão rapidamente [ao menos essa é a minha impressão!]; considerando que os programas noturnos que abocanham as horas típicas da madrugada não me chamam mais a atenção; considerando que algumas oportunidades surgem muito mais na “night” que ao longo do dia; considerando que sex appeal é algo que definitivamente não me pertence, creio que dificilmente alguma coisa mudará no reino da Dinamarca. Enquanto não muda, porém, segue o domingo-pé-de-cachimbo com a oportunidade vestida do momento “hoje”. E hoje é o dia pra continuar conjugando verbos no gerúndio até que o final de semana espoque na segunda-feira, aquela acerca da qual o Garfield e milhares de brasileiros não gostam muito.

Bom, tô de saía pra mais uma aulinha no projeto Betel. Domingo ainda promete... É isso, ao menos por agora. Bom domingo a todos!


sábado, 27 de março de 2010

Lembro-me como se fosse ontem...

Sua composição poética me fascinava na adolescência. Não que não me fascine mais, mas naquela época tudo tinha um outro sabor. O sentido tão forte envolto nas palavras, seus significados como leituras da nossa alma, o tom que ele emprestava a cada em-TOM-nação, tudo isso me compunha um misto de admiração e perplexidade. Era assim que me sentia ao ser absorvido pelas canções de Renato Russo. Hoje, exatamente hoje, no dia que o teatro e o circo festejam a data em suas comemorações, nosso poeta rock n’ roll completa 50 anos. Sim, diante dele o verbo faz sentido é no presente! Ele completa – e não completaria – cinquentinha porque antes de qualquer coisa não morreu, sequer foi enterrado ou cremado, como queiram os exigentes com suas canções!

Sua mensagem se entrelaça a história de uma geração ao estilo ‘coca-cola’, como ele dizia. Anos oitenta, muita coisa estava em [re]construção. “Diretas Já”, por exemplo, tinha ocorrido há menos de um ano quando nasceu o primeiro álbum da “Legião Urbana”. O cenário social era o de muitos questionamentos. A vontade era a de explodir uma revolução, mas não de armas, e sim de ideologias re-VITAL-izadas. “Que país é este?”, a gente cantava e se perguntava. “Tempo perdido” era mais um dos muitos questionamentos que nos fazíamos. E assim correram os versos de sua poesia pra dentro daqueles anos que me construiram a adolescência...

"Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto" foi outro exemplo de como me fez bem saber que havia luz naquilo que cantava. Aprendia como um bom pupilo os versos que me ensinavam, aconselhando: “Lembra e vê que o caminho é um só”. Sim, eu me debruçava sobre a letra devorando cada verso com a atenção devotada a uma prece. Chorei ao cantá-la muitas vezes. “Meninos e meninas” me fascinou de cara, pois me surpreendia saber que havia gente neste mundo cantando suavemente seus segredos mais íntimos sem se importar. Ca#&*lho! Sem se importar! Era o que queria pra mim: não me importar.

Mas eu ainda me importava com muita coisa, nem tinha maturidade suficiente pra bancar o preço de nada – ou quase nada. Verdade é que, não poucas vezes, eu me sentia um refém trancado pelo lado de dentro. Não havia em mim naqueles anos um desbravamento épico o suficiente pra realizar o gesto mais simples e mais extraordinário, que era me abrir para a vida. A minha própria, sem intervenções de qualquer natureza. No meu caso, como se não bastassem as corriqueiras no universo adolescente, o fardo da carga religiosa. Mas eu chorei muitas vezes com outras canções, como, aliás, ainda espero chorar ao som de muitas outras. Sou fiel à minha natureza deliciosamente humana. Fiel e feliz, diga-se.

“Hoje eu já sei que sou tudo que preciso ser, não preciso me desculpar e nem te convencer”, era o que diria hoje para aquele jovem iniciante, puro e sonhador que fui.

Na faculdade, em meio aos livros da biblioteca [naquele tempo a internet era artigo de luxo, o jeito era pesquisar nos livros!], arranhava um italiano insosso porém coberto de prazer para meu paladar musical. “Strani Amore” e “La Solitudine” iam e voltavam comigo, dentro do ônibus. Nariz grudado no vidro da janela, olhava absorto o ‘nada’. Em meio ao movimento do ônibus, cantava as canções de “Equilíbrio Distante”. Eu mergulhava no mais profundo dos meus sentimentos. Era delicioso [me] saber que ali naquelas canções eu encontrava mais sentido [pra não dizer Evangelho] sobre a vida do que nas mensagens que ouvia dos púlpitos.

Era um estudante cheio de sonhos quando ele partiu pra eternizar seus ricos versos em nós. Foi cremado no cemitério pertinho de minha casa. Eu não quis me despedir porque acreditava que um profeta jamais morreria. Ele era um dos meus profetas prediletos. Minha devocional neste início de sábado é a lição inspirada no capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, escrita em grego no 1º século, cantada em versos de Renato Russo nos muitos outros séculos à frente:

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos,
sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos,
sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem
todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte.
Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos,
sem amor eu nada seria
.

Parabéns, Renato, profeta renascido dos versos que me construíram homem, humano, cidadão, poeta, proseador, sonhador e alguém de fé na vida! “Olho pra trás, lembro-me como se fosse ontem. Não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo. Temos todo o tempo do mundo...”.

Não repare nas minhas lágrimas, mas é exatamente nisso que penso-rezo-oro-acredito! Axé, shalom, amém e amém!


Notas de rodapé:

[+] Marcinho Retamero, meu amigo de caminhada, como foi lindo e surpreendente ver [mais uma vez!] que temos a mesma sin-TOM-nia. Sem nos confessarmos nada, escrevemos sobre o mesmo profeta com muitas impressões semelhantes! Seu artigo me emocionou!

[+] Fiquei mais saudosista de ontem pra cá. Sei lá, recordar me dá este sentimento revisitante dos meus baús. Piorou um pouco depois de ter assistido às maravilhosas Nathália Thimberg e Rosamaria Murtinho em "Sopros de Vida", no teatro CCBB.


terça-feira, 16 de março de 2010

Impressões do retorno

Silêncio rompido



Para a cultura ocidental o silêncio nem sempre é valorizado. Silenciar é se fechar. Silenciar chega a ser incomodar. Mas eu gosto do silêncio pelas muitos benefícios, sobretudo quando o que mais quero é me ouvir. Ouvir-se é um exercício e tanto. Nos barulhos pra fora de nós pouca gente reconhece os que carrega dentro de si. Mas não é sobre o silêncio propriamente que vou semear palavras nestas linhas. É apenas pra afirmar que meu silêncio não impediu de voltar aqui pra marcar uma das minhas mais prazerosas necessidades: escrever sobre meus sons e sobre minhas impressões do dia a dia.

Que falta que faz


Acreditem se quiser, mas desde domingo estava sem energia elétrica em casa. 48h. Este foi o decurso de todo o calvário. É f%#@! É absolutamente tedioso não conseguir realizar várias – milhares! – de tarefas em casa, sequer carregar o celular pra voltar a ter comunicação com seres do planeta Terra ou, ainda, me inteirar dos meus e-mails e do que rolava no mundo em que habito. Um saco! Culpa de quem? Ah, sei lá! Fujo um pouco desses clichês caça-às-bruxas. Prefiro falar em ‘responsabilidade’. Mas não agora. Não por este canal.

O que queria era apenas mostrar como a ausência é mais instigante que o silêncio. Ausentar-me do mundo, pela [ir]responsabilidade dos que detêm os direitos sobre serviços e concessão desses serviços, é mais complicado que o silêncio em meio ao mundo barulhento. Horrível é a sensação de desconexão com os apelos da existência.

Sobrevivendo como E.T.


Tudo bem, sei que pareço divagar sobre uma prancha de surf em meio ao nada. Mas é que eu tenho pensado bastante ultimamente na minha ‘extraterrestrialidade’. Foi exatamente assim que me senti ao ler um artigo de um blogueiro falando sobre aqueles que na sua opinião eram ‘otários’. Pior, os comentários ecoavam um coro gregoriano de ‘sins’ (porque um ‘sim’ apenas é para os otários), concordando com tudo o que o texto dizia. Obviamente a minha impressão é apenas reflexo do meu olhar sobre aquele texto, por isso não irei apontá-lo indo ao encontro do que abomino, a síndrome da caça-às-bruxas. Cada um tem a liberdade de pensar o que quiser, penso. Posso não concordar – e cá estou pra isso! - , mas respeito.

Meu último post falava sobre outro tema controverso e acerca do qual é duro o exercício do respeito, mesmo em meio à divergência. Homofobia. Costumo dizer sempre que o que mais desejo é o respeito, e não necessariamente a concordância. Creio assim porque me aninho no pensamento de que todos têm o mesmo direito que eu de opinar como fruto do livre pensamento. Mas a minha opinião é apenas minha, não pode servir de verdade pra mais ninguém. Ao menos, não de forma goela abaixo... Lincando o que digo com o que abordei no parágrafo lá em cima, minha ‘extraterrestrialidade’ me apontou que talvez eu seja um otário de verdade. Sei lá, não sigo o fluxo do que chamam naturalidade.

Por exemplo: poderia estar descrevendo aqui – como é comum a muitos, e isso não é crítica – fatos relacionados a fins de semana incrivelmente calientes, gozados – sem duplo sentido! – em meio à ferveção e a tudo o que qualquer corpitcho equilibrado e são gostaria: diversão, azaração e curtição (com ou sem ‘finalmentes’). Talvez um dia, quem sabe, ainda descreva. (rs) Meus últimos três finais de semana, por exemplo, não foram o que se poderia chamar ‘diversão’ ou menos ainda ‘azaração’. Ao lado de uma amiga, visitei idosos em asilo (sem que nenhum deles fosse meus parentes), brinquei, sorri e sobretudo ouvi suas histórias de épocas que não vivi. Levei biscoitinhos e fui chamado de ‘lindinho’ e ‘anjinho’ pelas minhas fãs octogenárias e nonagenárias. Sei que meu risco é ser taxado de E.T. Afinal, convenhamos, quem se proporia a largar tardes de três sábados consecutivos pra cutrir um programa desses? Tudo bem, eu assumo que sou um desses! No último final de semana, por exemplo, depois das visitinhas de praxe no asilo, corri para pegar um debate sobre esquizofrenia e exclusão social. Fui ao debate (que foi precedido pela apresentação do filme “O Solista”) não porque sofra de esquizofrenia, mas porque o tema ‘exclusão’ sempre me aguça a participação. Noutro dia foi a prefeitura de Maricá, cidade próxima a Região dos Lagos, que me contactou para participar de um debate sobre “Diversidade e inclusão". Pois bem, embora tendo chegado atrasado ao filme, só deu mesmo pra rever amigos e me espantar com a participação fervorosa das pessoas que tiveram a mesma idéia e compareceram naquele lugar. Conheci algumas para as quais fui apresentado, troquei idéias e impressões, bebi com amigos e voltei pra casa. Exausto.

Em casa, não consegui dormir porque a Dona In-sônia teima em querer conjunção carnal comigo todas as vezes que me deito após uma jornada cansativa na cama (ou no sofá). Nota explicativa: eu não faço amor com Dona In-sônia, mas sim com Seu-ups-meu-sono. Com a Dona In-sônia é conjunção carnal fria e mecânica mesmo! Mas isto é um outro assunto que resolvo com música e chá de camomila. Remédios, não! Detesto! Apesar dos pesares, a tal insônia me levou a escrever pensamentos. Um a um fui encerrando laudas na imaginação. Como é sobreviver em meio à minha ‘extraterrestrialidade’?... Entre um ponto e outro, teci uma listinha de manias e ‘coisas que nunca fiz’ que qualquer um terráqueo se apavoraria de se aproximar de mim ao saber que elas existem e me formam.

Mas é aquela velha história, cada qual sobrevive com as manias, os desejos e as vontades que tem. Eu só fico bolado quando leio um marciano fazendo sua verdade prevalecer sobre a opinião alheia – seja a de terráqueos, como a maioria; seja a de E.Ts, como eu! -, tal como ocorreu quando li um blogueiro falando asneiras do tipo “preocupar-se com os outros, pra quê?”, “ser fiel ao parceiro é uma otarice”, “quero mais é aproveitar porque a vida é uma só, essa história de se guardar para o amor é coisa de otário”, “o que vale na vida é a felicidade do momento, dane-se o dia seguinte”. Ficarei por aqui. Tenho ainda alguns pensamentos pra concatenar, coisas pra compartilhar depois com terráqueos incríveis como vocês!

Antes de me despedir...



Parabenizo o Grupo Arco-íris pelo brilhantismo da campanha sobre o respeito às diferenças [vídeo abaixo]. Parabenizo o pessoal da cidade norte-americana de Washington D.C., capital dos EUA, pela árdua trajetória rumo à legalização dos casamentos. Em especial, parabéns à Darlene Garner e à sua companheira, Candy Holmes [foto ao lado], teólogas e militantes dos direitos humanos, que semanas atrás jantaram na Casa Branca ao lado do presidente Obama [hum...] estarão conosco em maio num encontro aqui no Rio de Janeiro.

Ufa! Quantas impressões neste retorno!



quinta-feira, 20 de agosto de 2009

And the honor goes to...


Dois importantes cidadãos americanos foram homenageados na semana passada pelo presidente Barack Obama em cerimônia na Casa Branca. O político Harvey Milk e o tenista Billie Jean King receberam a Medalha Presidencial da Liberdade, maior condecoração oferecida a civis norte-americanos. Entre os homenageados um fato em comum: ativistas gays. No entanto, isto é apenas um detalhe. O fato é que não se pode negar que cada um deles foi um luzeiro naquilo a que se propôs!

O arcebispo Desmond Tutu, cidadão sul-africano, reconhecido não apenas pelo Nobel da Paz mas também pela defesa dos direitos das minorias (étnicas, religiosas e sexuais) também recebeu a homenagem.


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Numa data especial



Eu procuro por mim.
Eu procuro por tudo o que é meu
e que em mim se esconde.
Eu procuro por um saber
que ainda não sei,
mas que de alguma forma já sabe em mim.
Eu sou assim...
processo constante de vir a ser.
O que sou e ainda serei
são verbos que se conjugam
sob áurea de um mistério fascinante.
Eu me recebo de Deus e a Ele me devolvo.
Movimento que não termina
porque terminar é o mesmo que deixar de ser.
Eu sou o que sou na medida em que
me permito ser.
E quando não sou é porque o ser eu não
soube escolher.

Pe. Fábio de Melo


...





Eis que sou assim. Criado na conjugação-de-mim. Hoje, por razões óbvias, me percebo bem mais que na época da miopia. Não a que alguns, infelizmente, sofrem mas que um oftalmologista pode ajudar. A coisa era mais intrínseca. Um travessão sem muitas explicações. A página virou com o toque de minha vontade. Nas minhas mãos uma caneta com tinta escarlate. Sangue. Hemoglobinas. Vida em mim...

Obrigado.


...


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O alimento de nossas histórias: sonhos materializados de domingo




Final de semana com sol trazido no coração, como bem disse esses dias um amigo-mais-que-querido. Domingo, então, sem comentários. Ele despontou por trás dos montes pra cintilar luz nas paisagens que fazem desta cidade maravilhosa duas vezes. Água de côco no Arpoador, caminhadas no calçadão e nas calçadinhas, almoço com estrelas (presença querida também tem esse nome!), presentes trocados, fotos, bons humores disfarçados de “maus humores”, risos-de-nós, risos-desatadores, risos para a vida, toques, tatos, “xêros”, exposição “Nova-arte-nova”, no CCBB, muitas palavras faladas, pensadas, olhadas, até escritas. Nada disso, porém, se comparado ao privilégio de materializar os sonhos em alguns momentos – todos eles eternizados no instante que se foi – ao lado de pessoas a quem estimamos.

Hoje foram três pessoas que saíram de sua própria história para a minha. A cada uma, porém, a singularidade de páginas recém-começadas ou de obras com muitos e bons capítulos. Destas, duas são chamadas por mim como "Serginho". Ambas especiais na sua “arte”. Todas elas, contudo, profundamente acometidas pela delícia de ser amigas, cada uma a seu tempo.

Ao Leo e ao “primeiro Serginho” quero deixar o registro do finalzinho do abraço – isto porque os abraços iniciam com a vontade, ficam a maior parte do tempo presas no corpo de quem abraçamos, mas há sempre uma pequena parte que cabe na lembrança (esta, por sinal, levada conosco aonde quer que estejamos). Se soletrasse os superlativos que trago no peito, ficariam impublicáveis. A vontade era – e é – que tudo se transformasse em energia para catapultar sonhos maiores ainda em realidades pra alimentar a alma. Quem sabe... Hoje, definitivamente, saí alimentado pela presença. Sim, soletrei fatos e me percebi redescobrindo que a presença constante é necessária, ainda que no pensamento. Diariamente. Claro, discernindo com a razão que o limite é sempre “a vez do outro”. Às vezes, como hoje, o limite foi “estar-com-do-lado-de-dentro”... Sei que é feio, mas enchi a pança das delícias e dos olhares!

Ao “segundo Serginho” quero rabiscar aplausos pela brilhante palestra a que assisti no final da tarde. Suas gargalhadas me inspiraram com a energia dos grandes, não importa no que sejam grandes. Acima delas, porém, sua inteireza e vigor (pra não dizer força) na radicalidade do que significa “ser”. Ótimo saber que Serginho é-sendo. Saí daquele hotel com gratidão e oxigênio nos pulmões. Amei os altos papos tidos no término da palestra, as recordações, as experiências, sobretudo as palavras extremamente sinceras! Abraço de palavra intensa como aquelas gargalhadas!

Eu agradeço a Deus – ou lá o que desejem chamar “Amor-amor-que-é” – pelo valor da liberdade. Ser-se é tão desbravador quanto um vôo com braços abertos. Este domingo, na companhia desses que me são caros, foi assim. Braços abertos!



...


P.S.: Faltou você, Neidinha (pra mim), Neidoca (pro xêro).

P.S.2: Serginho II e Emanuel, vocês são muito gentis. Prazer foi meu ao conhecê-los!


...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Concordâncias verbais


"Essa tribo é atrasada demais...”


(Uma amiga, anteontem, citando os versos de Gabriel O Pensador, quando lhe disse que a Igreja Cristã vê, na prática, putas, malandros, bêbados, gays, lésbicas e maus afamados em geral como subcategoria. Impossível tal subcategoria fazer parte dela enquanto subcategoria, ou seja, o paradoxo do discurso do Evangelho. Ela, perplexa, repetiu o refrão pra eu ouvir... considerei profético!).





“Nietzsche estava certo: Deus morreu! O Deus-projeção-nossa morreu!”


(Um amigo clérigo, anteontem, mostrando à sua comunidade como “Deus” pode ser encontrado em muitos rostos pedindo esmola nas esquinas, passando fome, encarcerado, vitimizado por vários preconceitos, desabrigado, nu e miserável).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pérola do mestre





“Uma relação não é sustentada pela cama ou pela mesa, mas pela linha tênue do prazer pela conversa. Para saber se a relação vai dar certo ou não importa, antes de tudo, responder-se: serei capaz de manter diálogo com esta pessoa por muito tempo na minha vida? Sim ou não?”



Dr. Rubem Alves (catedrático de filosofia na UNICAMP, teólogo e psicanalista), no Programa do Jô, 23/10/2008.


sábado, 11 de outubro de 2008

Cartólico, orgulhosamente!


Hoje, Angenor de Oliveira, nosso “Cartola”, completaria cem anos de vida.

Ao longo de seus 72 anos de vida, Cartola compôs, sozinho ou em parcerias, cerca de quinhentas canções. Seus principais parceiros: Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Noel Rosa e Dalmo Castello. Até hoje essas músicas são regravadas por vários intérpretes, tamanha é a grandeza de seus versos e melodias. "O Sol Nascerá" (uma composição do início dos anos 60), por exemplo, já teve mais de seiscentas regravações até o momento. Entre algumas antológicas gravações das músicas de Cartola estão "Alvorada no Morro" (de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho) na voz de Carlos Cachaça; "Garças Pardas" (parceria dos anos trinta de Cartola e Zé da Zilda), na voz de Clementina de Jesus; "Soldado do Amor" (de Cartola e Nuno Veloso) com Maria Creuza, e "Não Posso Viver Sem Ela" (de Cartola e Bide), com Paulinho da Viola.


Carioca do Catete, mudou-se com os pais para o Morro da Mangueira aos onze anos. Desde criança trabalhou como pintor de paredes, lavador de carros e pedreiro. Vaidoso, ganhou o apelido de Cartola quando passou a usar um chapéu coco para não sujar os cabelos de cimento.

Freqüentava as rodas de samba do morro da Mangueira e estudou somente até a quarta série do ensino fundamental, o que não o impediu de compor melodias inesquecíveis e poesias inspiradas.
Cartola foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em 1928, e responsável pela escolha das cores verde e rosa como símbolo da escola. Farelos não poderia deixar de homenagear aos cartólicos do Brasil com a lembrança do centenário do Mestre Cartola. [Leia +]


terça-feira, 7 de outubro de 2008

Aos muitos filhos


A pop star Madonna, acusada pelo Vaticano de ter um dos shows mais satânicos da História, surpreendeu os fãs ao dedicar seu hit "Like a Virgin" ao papa, durante um show em Roma.

"Eu dedico essa música ao papa porque eu sou uma filha de Deus. Todos vocês também são filhos de Deus", disse a "rainha do pop" de 50 anos de idade aos 60 mil fãs que assistiam ao show da turnê "Sticky & Sweet" no mês passado, na Itália.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

E o Nobel vai para...


"Ninguém tem o direito de direcionar o amor de Deus. Deus ama incondicionalmente a todos. Os bons, os maus, os gays, as lésbicas, os negros e os brancos. (...) Eu não concebo a idéia de que Deus diz a um filho seu: ‘Você não pode ser negro, deveria ter nascido branco!’, ou ‘Você não pode ser mulher, deveria ter nascido homem!’, ou, ainda, ‘Você não pode ser homossexual, deveria ter nascido heterossexual!’ Não penso que Deus seja assim!"


Arcebispo Desmond Tutu (prêmio Nobel da Paz de 1994, arcebispo emérito da Cidade do Cabo).


Homenagem no dia do idoso a um ser cuja alma corre, pula, trepa e rouba manga do pé.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sapatilha


"Faz judô, cara! Balé é coisa de macho. A gente sai todo quebrado, contundido, não é moleza não."

Conselho que o Thiago Soares costuma dar aos amigos que pretendem se dedicar à dança. O brasileiro é primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres.

Nota 1: para visualizar a reportagem do brasileiro à BBC de Londres, [clique aqui]. Para visualizar o site do bailarino (em português e em inglês), basta clicar no nome logo acima.

Nota 2: na imagem acima, cena coreografada pelos bailarinos da Companhia de Dança Jair Moraes.

És fascinação


“Não acredito em doutrinas que julgam, punem. Sou um cristão fervoroso e busco propagar isso com meu trabalho. Quanto mais humano for o Cristo, mais fascinante”


Eriberto Leão, ator.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Talento nato: ouvi e gostei


Foi neste final de semana que, lendo alguns artigos da imprensa norte-americana, descobri a existência de um adolescente das bandas de lá que me encantou com sua voz, carisma e humildade. Assisti a algumas entrevistas em programas de TV norte-americanos, fiquei mais encantado ainda com o talento deste jovem. Não é à toa que foi garimpado num programa – que, por sinal, a TV brasileira já tratou de enlatar – intitulado American Idol. Por aqui, chama-se Ídolos e é exibido às terças e quartas-feiras pela Record.

Como os vídeos que disponho são, na verdade, entrevistas sem tradução para o português, não seria democrático postar nenhuma delas aqui. Saí à cata de um clip sem imagens em power point (não sou muito fã desse artifício em clips), mas não tive muito sucesso. No primeiro, sua audição na segunda fase do programa. No segundo, a canção que é febre nas rádios de lá. “Crush”. Quero apenas aqui ter a chance de mostrar um pouquinho da voz deste moleque de 16 anos de idade, David Archuleta. Pela voz e pelo carisma que tem, a gente ainda ouvirá falar mais dele.





domingo, 14 de setembro de 2008

La vie à l’Edith Piaf


"-Qual é a sua cor preferida?
-Azul
-Qual é o seu prato preferido?
-Carne enrolada.
-Aceitaria viver comportada, Sra. Piaf?
-É o que já faço.
-Quais são seus amigos mais fiéis?
-Meus verdadeiros amigos são todos fiéis.
-Se não pudesse mais cantar?
-Eu não viveria.
-Tem medo da morte?
-Menos do que da solidão.
-Costuma rezar?
-Sim, pois acredito no amor.
-Qual é a mais bela lembrança da sua carreira?
-Cada vez que a cortina se levantava.
-A mais bela lembrança como mulher?
-O primeiro beijo.
-Ama a noite?
-Sim, com muitas luzes.
-E a madrugada?
-Com um piano e amigos.
-À noite?
-É que para nós é a madrugada.
-Se fosse dá um conselho à uma mulher, qual seria?
-AME
-A uma jovem?
-AME
-A uma criança?
-AME"


Nota: Esta veio como inspira-AÇÃO nas palavras de um amigo arretado. Mais uma vez, como já ocorrido, ele saberá. Bom final de semana a todos. Fin de semaine en rose a touts mes amis!

sábado, 13 de setembro de 2008

Des. Maria Berenice Dias, mulher


Maria Berenice Dias é uma jurista. Filha e neta de desembargadores, tornou-se, em 1973, a primeira mulher a ingressar na magistratura no estado do Rio Grande do Sul. A sua especialização é no julgamento de ações que envolvem o Direito de Família e Sucessões.

A desembargadora Maria Berenice Dias foi fundadora e é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), entidade que veio a transformar o entendimento tradicional do que é uma família.

Maria Berenice Dias também é reconhecida internacionalmente por suas posturas progressistas em relação aos direitos da mulher na sociedade. Ela fundou o Jornal Mulher, o Disque Violência, entre outros projetos mais que vieram a marcar e continuam a influenciar profundamente a sociedade brasileira moderna. É autora do livro Homoafetividade - O Que Diz a Justiça, A Lei Maria da Penha na Justiça, Conversando sobre o Direito das Famílias, entre várias outras obras.

Recentemente entrevistada no Marília Gabriela Entrevista, ela conta que uma vez os colegas da faculdade da filha, diante da militância da mãe na causa homoafetiva, chegaram a questionar a sexualidade de Maria Berenice. Tomando o episódio como exemplo, diz: “Parece que não podemos defender outras causas a não ser a própria!”. Gabi elogia o trabalho da convidada e pergunta qual é sua maior vitória. A resposta: “Ter recebido o título de juíza dos afetos”.

Destacarei, ainda, outras falas que tenho desta admirável jurista na área da família:

“Todo mundo ria, porque era uma coisa completamente fora das possibilidades da época querer ser Juíza, era como se eu dissesse que queria ser astronauta.”

“Quando nasceu meu primeiro filho, me deram licença-saúde e me mandaram trabalhar depois de 30 dias. E falaram assim: Viu como mulher não pode ser Juíza mesmo?”

“Toda essa exclusão que tive ao longo de uma vida foi o que me sensibilizou para esse viés um pouco mais social, um pouco mais atento a essas discriminações.”

Certa vez, numa palestra, Maria Berenice ouviu a pergunta: "A senhora é lésbica?". A resposta veio fundamentada: "Sou lésbica, sou negra, sou vítima de violência doméstica, sou tudo aquilo que defendo e acredito". Isso resume sua trajetória corajosa para quebrar tabus. Detalhe: ela é loira, foi casada cinco vezes com homens e é mãe de três filhos.

“Não se reconhecer a possibilidade do casamento homossexual daqui a 50 anos vai soar tão absurdo como hoje soa absurdo, por exemplo, o impedimento de as mulheres votarem.”

“Sou completamente contra qualquer influência da religião, principalmente na Justiça. Acho horrível a idéia de ter o crucifixo como símbolo no Tribunal.”

“Aposto naquilo que fiz, no que plantei, e espero deixar algumas sementes”, ao falar sobre sua aposentadoria recentemente.

Por fim: “O afeto é uma realidade digna de tutela”.

domingo, 23 de março de 2008

A Páscoa, o Amor e a Vitória

Feliz Páscoa a todos! Em Libras dizemos “feliz” + “coelho” + “todos”. Ontem recebi aqui em casa a visita de um amigo surdo que, por sinal, me apresentou outro surdo morador no bairro. Papo vai, papo vem, elogios quanto à desenvoltura da língua (os surdos reparam o tempo todo como os sinais são produzidos pelas mãos do interlocutor, é uma espécie de análise da fluência na língua), recebi minha primeira caixa de bombons de presente. Mas páscoa passou a ter o significado imposto pela cultura com seus hábitos e tradições. A gente vai assimilando até não perceber mais o que um dia foi o sentido original. Páscoa nunca deixou de ser festa religiosa; diga-se, a maior festa da cristandade. Maior até que Natal, Quaresma e Pentecoste em importância litúrgica. Celebra-se a ressurreição de Jesus. Numa perspectiva mais intimista, celebra-se a vida em sua plenitude.

Hoje despertei com mais algumas daquelas vontades místicas que, vez por outra, me acometem. Pensei na páscoa e no seu significado. Não me contive. Na hora em que liguei o PC pra rabiscar algumas palavras do que tô sentindo, telefone toca bem ao meu lado. Tocou por três vezes. Parentes desejando feliz páscoa. Aproveito e dou uma ligada para meu sobrinho em São Carlos. Neste ano se mudou de mala e cuia para o alojamento da Universidade Federal de São Carlos. Em seguida, ligação pra Beagá para uma segunda mãe. Papos encerrados, volto ao PC. Não consigo. Mais outra parada. Retorno ao fio da meada por pura inspiração. A família inspira.

Num tempo de pouca meditação (tudo bem, sei que não é um hábito culturalmente ocidental), pensa-se pouco no por que das celebrações que nos impomos (seja por fé, por hábito ou por força das circunstâncias de mercado). Minha consciência, que é despertada por fé em amor, me leva a considerar todas as coisas ao meu redor como algo aproveitável. Em se tratando de páscoa, um toque a mais me inspira nessa hora: a vitória sobre aquilo acerca do qual Paulo chama de “aguilhão da morte”. Não, não tentem me entender nesta hora sem perspectivas de consciência em fé. Não falo de morte como fim do ciclo biológico. Falo de morte como encerramento da consciência pela ausência do amor. “Eis por que há entre vós (...) muitos que dormem”, diz Paulo em Coríntios. O "não amar" algumas vezes pode ser "adormecer" na linguagem profética. Somente quando despertados em amor, agimos com amor. Nós não somos amor nem sabemos amar. Mas pra não dizer que não falei das flores, lembro de João e as fortes doses de amor na sua 1ª epístola: “Quem não ama, permanece na morte” [1 Jo.3,14]. Agora, ferrou tudo. Então, como é que o amor brota em nós? A coisa chega no ápice quando o mesmo João ensina: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” [1 Jo.4,19]. Alguém nos amou primeiro! A vitória sobre a morte não veio daquela cena de crucificação do Cristo. Nem menos ainda na cena da ressurreição. Tudo aquilo serviu como fatos históricos-existenciais da pessoa de Jesus de Nazaré. A vitória foi antes de tudo isso. Hã? Tá complicado? Todo aquele cenário foi apenas marco visível de uma realidade já existente “antes que o mundo fosse criado”. Não sou eu o autor dessa parada tangivelmente transcendental (por isso mesmo só entendida por fé). Paulo [no capítulo 1 de Efésios], João [no capítulo 17] e Pedro [no capítulo 1 de sua primeira epístola] fizeram essa viagem muito antes de mim como revelação de Graça. E é dentro deste contexto - que se descortina apenas por fé como sinal de Graça agindo em mim - que eu celebro a vitória sobre a morte.

Por ilação, concluo com a mesma extravagância de Paulo aos Coríntios: “O amor jamais acaba”. É verdade. Antes da criação, Amor já havia. O Amor tem vários nomes e é cultuado de várias formas. Timóteo, no capítulo 4 de sua primeira epístola, me dá os sinais que preciso pra certeza que carrego: “todas as coisas criadas por Deus são boas”. E como tudo vem Dele, até o que alguém possa achar que não vem [pela suposição de que alguma coisa foi criada fora de Deus, ou seja, que há outros “criadores”, talvez, até por medo da verdade, por ignorar fatos ou por puro preconceito], as coisas simplesmente se encaixam naquilo que é a verdade pra mim. O Amor triunfa sobre a morte e por essa razão jamais acaba. Eis a Vitória! Páscoa exala esse cheirinho de fé que nem o mais refinado chocolate poderia me dar. E já que fé é certeza, a minha é que sua Páscoa seja tão feliz quanto a minha.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Coisas pra cansar


Hoje é quarta-feira. Lápis apontados. Há muito tempo não usava lápis. Rabiscos soltos. Idéias voláteis. Idéias fixas. Idéias-pensamentos. Pensamentos-idéias. Lendo e relendo “scraps”, esses tais recadinhos cuja variante no inglês invade o nosso bom português-salve-salve! Muita coisa acerca da qual já avisei. Respostas clicadas no “enviar recado”. Um saco ser repetitivo! Por essas e outras que decidi [de novo?] sair do tal orkut. É, devo estar velho demais. Minha paciência vira produto escasso. Pra que a gente tem orkut? Peraí, deixa eu refazer a pergunta: pra que eu tenho orkut? O programa tem suas próprias respostas. Vejamos: contato profissional, namoro, amizade, blá blá blá. Então, o que eu procuro por lá? Não sei. Antes, curiosidade. Idos de 2004. Alguns “amigos” sendo adicionados. Gente aparentemente interessante. Gente aparentemente com gostos em comum. Gente aparentemente... Aparente é o que aparenta, assegura um dos seus conceitos na gramática. A virtualidade é isso. Tudo aparentemente por detrás do monitor do PC. Vai-se aceitando. Vai-se adicionando. Vai-se aumentando o círculo de amizades. Círculo? Que círculo? Não nos vemos. Não nos encontramos. Não tanta-coisa! E todas elas me cansam.

“Como é bom ver tanta gente bem em volta da minha vida...” – canta o Ira! Dessas coisas é que não me canso.

Related Posts with Thumbnails