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terça-feira, 11 de maio de 2010

A maio o que é de maio!


Maio atravessa o calendário sem nos fazer alarde. Corre maroto. Sapeca que só, quase alcança o meio do mês. Sorri, dá uns passos pra trás. Sabe que é apenas o quinto dos meses no ano. Brinca, volta pra frente. Pula de dez para onze dias corridos assim que ultrapassa a meia-noite. Hoje são onze, mas ainda há caminho de mais três semanas pela frente.

Num certo sentido bem familiar, maio é um mês com diversas lembranças esculpidas pelas datas natalícias. Ao menos, para minha família. Um dos sobrinhos, festejou aniversário dia quatro. Irmão, dia cinco. Mãe, dia oito. Tia, festejará oitenta no dia doze. Maio é bem peculiar mesmo.

É o mês das noivas para um monte de gente. Mês de todas as mães, as do ventre e as feitas pelos laços profundos do coração. Mês da família, alguns insistem. E quanto aos outros meses? Bom, deixemos pra lá. Maio é o mês dos trabalhadores. É o mês de heróis e heroínas. De Joana D’Arc, capturada pelos franceses e entregue aos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos à Ayrton Senna, morto durante o Grande Prêmio de San Marino. O mês tem também cores fortes em nossa História, como a negra. Foi aos treze do mês que, ao menos oficialmente, abolimos a escravatura neste país. Abolimos mesmo? Bom, deixemos por ora. Maio também foi palco de um célebre julgamento, o de Oscar Wilde no início do século passado, condenado aos vinte e sete deste mês à pena de dois anos de prisão pelo crime de “sodomia”. Apesar da enorme crítica da classe literária à época, o famoso escritor inglês teve que cumprir a pena, imposta apenas porque fruto das convenções vitorianas da época.

Maio também é o mês da luta mundial contra a homofobia, especificamente no dia dezessete. A data foi escolhida lembrando da tiragem da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) da Organização Mundial de Saúde, fato ocorrido em 1990. Se inspirado na data ou não, este é o mês dos lançamentos dos livros escritos por dois queridos amigos: “Proibido Amor” e “No caminho do arco-íris”, de Davy Alberto Rodrigues e Léa Carvalho, respectivamente.

Recentemente criado, maio também celebra aos vinte e cinco o dia nacional da adoção. E penso que muitos outros fatos já aconteceram e ainda acontecerão neste mês. Eu mesmo me sinto retornando, de certa forma, às atividades blogueiras. Fiquei duas semanas mergulhado na defesa de um julgamento, coisa de uma outra missão, diria profética, que desempenho profissionalmente.

Enfim, maio está apenas no início. Eu ando ultimamente me sentindo assim, no início. [Re]começando. A obra “Os Lusíadas”, de Camões, utiliza o “ab initio” para transformá-la “in media res”, ou seja, a técnica para começar pelo meio, e não necessariamente pelo início. Talvez tenha começado pelo meio. Talvez por isso me sinta agora no início. Há tanta coisa nova pra mim, mesmo depois dos trintinha! (risos). Bem, são meus talvezes que dialogam comigo. De talvez em talvez, certo mesmo é meu desejo de querer um final feliz ou, quem sabe, um feliz-acontecendo-sempre. Pra mim e para os mais caros. Neste e nos outros meses também.

Longe de mim ser demagogo, mas eu tenho procurado me esmerar!...


* * *

Nota de rodapé: segue logo abaixo, mais uma vez, o apelo para aqueles que desejarem doar leite integral (em pó) para as crianças soropositivas da Casa Maria de Magdala, localizada em Niterói (RJ). Aos que estiverem distantes mas quiserem ajudar, a sugestão é acessar o site da instituição filantrópica e procurar saber como doar amor.



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ser diferente é...

Tá bom, vou explicar. Não se trata desses clichês de outdoor. É que ontem, plena madrugada, em meio a um chá de limão pra curar a coriza, assistia ao drama americano “Prayers for Bobby”. Não deu jeito. As narinas entupiram de novo. Confesso, sou emotivo. Teve cena que não deu pra segurar. O retrato de uma família tipicamente americana religiosa fundamentalista e cristã. Sigourney Weaver representou bem o papel de Mary Griffith, mãe vitimada pela própria “religious education”. A fé cega a transformou [ou piorou] no que se vê durante boa parte do enredo até uma mudança de olhar [o olhar é interpretar a vida, disse uma vez neste blog] fazê-la enxergar a vida com luz. Há uma espécie de reinício. Não poderia ser diferente. Nada me soou estranho. Sei do que falo. Gostei do depoimento da Srª Griffith ao final ao dizer que desde a concepção ela, como mãe, sentia que seu filho era apenas diferente. Não houve qualquer simplismo na sentença. É preciso assistir ao filme para entender a inteireza do significado. O aprendizado dela – e de muita gente que conheço – passa, na maioria das vezes, por aquilo que a sabedoria judaica chama de vale de ossos secos [em referência à trajetória do profeta hebreu Jeremias].


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Neste [singular] Dia dos Pais...




Hoje, domingo com céu pra lá de azul. Cores fortes contrastando com algumas pinceladas de muitas lembranças. Todas boas, deixo bem claro. Talvez por isso mesmo, vale salientar que as lembranças que mais permearam o firmamento no azul do [meu] pensamento foram as que meu pai deixou nos anos que desfrutei de sua presença-companhia. Hoje foi mais um daqueles exercícios para revisitar meu baú de [boas] lembranças dele. Senti falta dos sabores dos seus sorrisos e das palavras de gratidão quando lhe dava aquele abraço bastante filial, uma espécie de código sob cuja identificação nos reafirmávamos pelo carinho. O carinho a nosso modo. A aparente austeridade de meu pai revelava na intimidade dos mais chegados uma comicidade ímpar. De tudo fazia piada. Éramos bons amigos. Leais e ainda assim imperfeitos dentro de nossa construção de homens. Confesso, doeu um pouco lembrar tanta coisa. Saudade tem um que dessas coisas. Às vezes, dói, né?! Há quatro meses digo que sim. E muito.

Lembrei-me de meu pai até quando decidi comprar um bouquê de flores azuis um pouquinho antes da hora do almoço. Devocionalmente, ofereci à sua memória. Eu e meus pensamentos celebramos um ritual profundamente particular, tanto que só meu “eu” participou... O primeiro Dia dos Pais sem a presença física do pai a gente nunca esquece. Porém, mesmo sem esquecer, a gente caminha sob inspiração de quem soube ter sido por ele muito amado. Foi a partir daí que lembrei-me do poder da gratidão. É tal como água banhando o sorriso das flores do jardim. Sei o quanto sorriem. Torna-se evidente quando as cores se levantam para o brilho passar. Há um viço nisso tudo. Flores. Cores. Jardins vivos de lembranças. O saldo foi positivo. Toda boa lembrança é sempre positiva.

No decorrer do dia, uma palestra com o advogado Marcelo Turra para a qual tinha me agendado a assistir. Era o final da tarde. À noite, um aniversário. Não era de pessoa, mas de pessoas. Um grupo que milita em prol de um mundo mais justo. Estive em ambos os compromissos. Foi lindo encontrar e reencontrar tanta gente amada. Eram as minhas flores com sorriso de vida. Mais uma vez, percebi viço em tudo aquilo. Flores. Cores. Vidas. Pessoas. Histórias. Aqueles jardins!

Na volta, caminhando para pegar o metrô, meu amigo Pierre aponta o deslumbre com a vista. Olho correspondendo em reverente atenção. No alto do Corcovado, um Cristo cujo coração iluminado destoava na paisagem eternizada como cartão postal desta cidade. A iluminação em homenagem ao Dia dos Pais foi a atração para milhões de pessoas que avistaram o Cristo Redentor na noite deste domingo, 9 de agosto.

Com um azul no manto e um tom diferenciado no rosto, o monumento ganhou também um “coração” de luz. “A ideia era humanizar a estátua”, explicou o idealizador do projeto, Peter Gasper. O barato de tudo era que a luz vermelha simulava artisticamente os batimentos cardíacos. Eis nos detalhes as cores e o viço que compuseram o cenário do meu Dia dos Pais. Um jardim vivo de boas lembranças e com muitos aromas de saudades...





P.S.: O texto, ainda que escrito no domingo, acabou sendo publicado no primeiro minuto desta segunda-feira por alguns problemas técnicos com a internet. Eis a razão pela qual o tempo verbal no decorrer do texto faz menção ao [presente] domingo, o Dia dos Pais.

domingo, 12 de abril de 2009

Num domingo de Páscoa tão diferente dos demais


Há muitas gentes nas ruas. Tantos rostos. Tantas histórias. Cada uma delas, porém, um universo particular. Naquele infinito que somente cada um pode desvendar – o chamado “eu” – a dimensão existencial de tudo o que vivemos e recordamos. Lembranças me povoam as constelações que cabem em meu próprio mundo. Explosões se irrompem aqui dentro e, sem nem perceber, rios caudalosos nascem sulcando os poros do rosto até formarem uma foz corrida abaixo. São chuvas, não são apenas águas. Chuvas de lágrimas. Uma e outra lembrança – talvez o conjunto delas – passando como filme aqui dentro. Imagens de meu pai, das nossas conversas, dos instantes de agonia quando queria me ver mas seu olhar se esquivava para outra dimensão bem maior que a minha. Queria ter-lhe contado tantas coisas de mim. Queria ter-lhe mostrado tantas vitórias que estão por vir. Queria ter-lhe compartilhado alguns sonhos, os mais recentes, os de hoje. Por outro lado, se o “crómos” – o nosso tempo multifacetado em horas, minutos, segundos, centésimos, e por aí vai – não convergiu para as oportunidades que delas sinto falta neste instante, sei que o “kayrós” – a dimensão pra lá de quântica, talvez pelas conseqüências de eternidade que somente a Graça pode se autoexplicar – guarda um quê de mistério com ares de certeza, fruto da fé. Um dia nos veremos para continuar o que aqui a limitação das coisas não nos permitiu. Bem, falo por ora. O pensamento engravida a lembrança em dores de parto como as das saudades. Sou um gestante em potencial assim como cada um que produz as mesmas emoções. Gestantes. Grávidos de lembranças. As dores de parto, mais uma vez, se aproximam. É hora de me aquietar por uns instantes e deixar fluir os fluxos caudalosos que me formam cascatas lindas de espontaneidade, amor e saudade de meu pai. Ontem, em meio a dor da perda, sepultei meu pai. Hoje, no domingo de Páscoa, inspiro-me pra ressuscitar todas as lembranças como sementes de afeto, as que mais gosto de semear. Como meu pai fazia. Tal pai, tal filho. Que orgulho!

Sei que há brotos nascendo aqui no meu peito - um processo natural quando se rega tais sementinhas. É por isso mesmo que este "fim" não termina aqui. Até breve!




Nota 1: Como diz a letra de uma canção, “a saudade eterniza a presença de quem se foi”. Perdas Necessárias. Quanta verdade!

Padre Fábio de Melo - Perdas necessárias (Com. Transforme em Jardins!)






Nota 2: aos que não entenderam as razões de meu silêncio, aos que cogitaram mil coisas, aos que souberam e compreenderam, aos que telefonaram pra oferecer o coração, aos que semearam palavrinhas por e-mail e outros recursos, aos que rezaram (tanto em silêncio quanto em letras engravidadas de sentimentos), aos que, mesmo sem entender, foram eloqüentes no silêncio e se mostraram presentes do mesmo modo, um punhado de gratidão espalmado na direção de todos. É dado de coração, ainda que pela mão deste ser saudoso, mas convicto que a paz é o melhor lugar pra se estar.

sábado, 13 de setembro de 2008

Des. Maria Berenice Dias, mulher


Maria Berenice Dias é uma jurista. Filha e neta de desembargadores, tornou-se, em 1973, a primeira mulher a ingressar na magistratura no estado do Rio Grande do Sul. A sua especialização é no julgamento de ações que envolvem o Direito de Família e Sucessões.

A desembargadora Maria Berenice Dias foi fundadora e é vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), entidade que veio a transformar o entendimento tradicional do que é uma família.

Maria Berenice Dias também é reconhecida internacionalmente por suas posturas progressistas em relação aos direitos da mulher na sociedade. Ela fundou o Jornal Mulher, o Disque Violência, entre outros projetos mais que vieram a marcar e continuam a influenciar profundamente a sociedade brasileira moderna. É autora do livro Homoafetividade - O Que Diz a Justiça, A Lei Maria da Penha na Justiça, Conversando sobre o Direito das Famílias, entre várias outras obras.

Recentemente entrevistada no Marília Gabriela Entrevista, ela conta que uma vez os colegas da faculdade da filha, diante da militância da mãe na causa homoafetiva, chegaram a questionar a sexualidade de Maria Berenice. Tomando o episódio como exemplo, diz: “Parece que não podemos defender outras causas a não ser a própria!”. Gabi elogia o trabalho da convidada e pergunta qual é sua maior vitória. A resposta: “Ter recebido o título de juíza dos afetos”.

Destacarei, ainda, outras falas que tenho desta admirável jurista na área da família:

“Todo mundo ria, porque era uma coisa completamente fora das possibilidades da época querer ser Juíza, era como se eu dissesse que queria ser astronauta.”

“Quando nasceu meu primeiro filho, me deram licença-saúde e me mandaram trabalhar depois de 30 dias. E falaram assim: Viu como mulher não pode ser Juíza mesmo?”

“Toda essa exclusão que tive ao longo de uma vida foi o que me sensibilizou para esse viés um pouco mais social, um pouco mais atento a essas discriminações.”

Certa vez, numa palestra, Maria Berenice ouviu a pergunta: "A senhora é lésbica?". A resposta veio fundamentada: "Sou lésbica, sou negra, sou vítima de violência doméstica, sou tudo aquilo que defendo e acredito". Isso resume sua trajetória corajosa para quebrar tabus. Detalhe: ela é loira, foi casada cinco vezes com homens e é mãe de três filhos.

“Não se reconhecer a possibilidade do casamento homossexual daqui a 50 anos vai soar tão absurdo como hoje soa absurdo, por exemplo, o impedimento de as mulheres votarem.”

“Sou completamente contra qualquer influência da religião, principalmente na Justiça. Acho horrível a idéia de ter o crucifixo como símbolo no Tribunal.”

“Aposto naquilo que fiz, no que plantei, e espero deixar algumas sementes”, ao falar sobre sua aposentadoria recentemente.

Por fim: “O afeto é uma realidade digna de tutela”.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Coisas de tio...


Recebo a informação que o sobrinho brasiliense passou para a UnB (Universidade de Brasília) e para a Universidade Federal de São Carlos. Parabenizei aquele “desnaturado” que não me ligou na hora. E por que deveria? Porque este tio que digita sílabas neste texto foi o mesmo que o acompanhou em dias de provas. Já um dos sobrinhos daqui do Rio entra para as Forças Armadas nesta segunda-feira. Mais outro monstrinho por quem sou apaixonado. Sim, sou tio presente. Duvida?

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