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quarta-feira, 28 de março de 2012

Crônica dos sonhos que não vivi e...


Dentro de uma garrafinha cabe tanta coisa que até um desavisado acreditaria. Fiz a experiência ainda há pouco. Tudo bem, fiz a mesma experiência momentos antes do instante que se passou; aliás, tenho feito já há certo tempo. Pra meu alimento, a esperança de viver todos os dias de forma única, de modo que cada dia carregue consigo um sabor próprio, se desdobra numa força-motriz que mexe com as pernas e produz passos distintos e de cada vez. Um dia não carrega as mesmas impressões que o anterior por mais que o olhar se turve, ensina a sabedoria dos simples. Quem é que se desespera com o amanhã quando se faz do agora uma certeza risonha?

Uma certeza é uma pérola achada. Uma verdade pessoal pode muito bem servir como desdobramento da esperança que se crê. Tem verdade que de tão introjetada na pele da certeza acaba robustecendo o alimento-fé. Rezam as cartilhas das tradições mais antigas que fé é um dom, o dom de acreditar mesmo quando todos os cenários reais se mantêm inalterados. Intactos. Desfavoráveis, por um ponto de vista. À vista de todas estas coisas, porém, maior que o dom que falei e a própria esperança que amadurece no pé, avisto pra dentro de mim um pé-de-amor. Dizem que é árvore difícil de se cuidar, mas eu não acredito em todas as coisas só porque me disseram. Afinal, a sabedoria da verdade é como tesão. O que pertence ao universo do outro é do outro. Bem, nem sempre é assim. Quem sou eu pra julgar os interesses alheios, mas há que se pensar nas muitas possibilidades de evitar o inevitável. No entanto, ao cabo de um tempo, tudo em vão. Inevitável é inevitável, assim como amor é amor em qualquer língua, corpo e paixão. Não gostaria de abrir parêntese algum. Não creio que se deva fazer correções quando se tempera o texto com a palavra amor. Amor é amor e ponto final. Ou não. Há reticências também e muita continuidade pelo tempo afora.

Nem todas as coisas são previsíveis, eu sei. Há coisas que nos acometem sem que esperemos. Quantos não receberam visitas inesperadas? Quantos não abriram correspondências sem saber direito acerca do remetente? Quem nunca teve a estranha sensação de ter sido observado para além de um simples olhar na rua? E se eu começar a falar de sentimentos, fu...! Deu e dará pano pra muita manga, das verdes às maduras. Esperar tem lá seus encantos (eu que o diga!), mas nem todas as coisas se esperam que aconteçam no exato momento da chegada do Senhor Tempo, o Mestre da Razão, aluno dileto na Escola-vida, matriculado desde sempre e com as melhores notas. O que, particularmente, anoto bem embaixo das sombras do pé-de-amor são algumas certezas bem pessoais, mas não posso contá-las todas. Indiscrição não é meu forte. Sou fraco para algumas coisas, sobretudo as que me fazem bem só de saber que existem. Todavia, segredo não é apenas uma senha. Pode ser também uma troca de olhares correspondidos mas que não se pode fazer alarde. Silêncio algumas vezes é imperativo à própria sobrevivência... Não é bem pela inveja, se bem que ela é uma merda - é como intimidade, às vezes! -, talvez muito mais pela incerteza do que se poderia interpretar fora do texto.

Viver é como escrever um texto com linhas muito estranhas e nem sempre retas. A interpretação que mencionei no parágrafo anterior tem a ver com os enredos já construídos, anos antes, por outros protagonistas. Você, eu, cada um de nós pode ser um travessão no texto. Nada que se explique, mas fica lá. É notório. No entanto, imprevisível. Você anda descalço pelas areias molhadas da praia e sente o carinho das ondas beijando os dedos mínimos depois de ter beijado todos os outros. É algo diferente. Mais ainda quando o instante se parte em mil pedaços, daí alguma coisa aparece boiando na mente. Não, no olhar! Uma garrafinha sendo carregada pelo sopro dos ventos até Vossa Senhoria: você. O detalhe é que não se trata de mais um daqueles episódios tristes de lixo lançado ao mar. É uma garrafinha repleta de sonhos. Altamente simbólica a presença de uma garrafinha de vidro bem transparente (porque o que sei e o que sinto não traz dúvidas pra mim mesmo... eu sei o que quero!).

Mas, convenhamos: é ou não é algo inexplicável – ao menos para os mortais que conhecemos as coisas pela metade? Quem conhecerá a outra metade senão os oráculos do Futuro?

O que surpreende é a curiosidade de ler no rótulo que abraça o vidro da garrafinha: “São seus”. Meus? A pergunta acaba sofrendo com o olhar duvidoso, uma vergonha pra quem disse ter fé. Sofrimento porque a pergunta soa confusa e ao mesmo tempo questionadora. Se são meus por que estão pra fora de mim? Pior, presos dentro de uma garrafinha de vidro? E que sonhos são estes que não sei mas que se lê serem meus? Nada que não se possa saber de imediato ou aos poucos, depende.

Tudo na vida depende de alguma coisa, de algum esforço, de um estado de ser ou saber ser. Daí, decorre espocar a rolha rumo à sua própria liberdade de papel cumprido. Segurar firme a garrafinha e avistar a despedida feliz da rolha no vaivém das ondas, sempre por cima delas, tem lá seus significados pueris.

E o que há por dentro da tal garrafinha? Uns versos musicais, presumo de início. Presunção, às vezes, não é empáfia. Isto, porém, não vem ao caso agora. Um outro questionamento que me sobre ao coração é sobre os sonhos. Afinal, sonhos são para ler ou para viver? Nem um nem outro verbo, conjugo com o pensamento. Sonhos são para sonhar e aguar as terras e as raízes do coração. Mas os versos estão lá como nutrientes daquelas terras e segredos revelados naquela garrafinha. Li e reli a ciranda daquelas palavras incontáveis vezes. Inevitável foi sussurrar com a voz afiada da alma tratar-se de versos musicais. Não sei, a sua musicalidade poética acabou falando mais alto. Lembrei de uma canção, acho que furtando um cadinho daqueles versos pra mim: “eu corro pro mar pra não lembrar você e o vento me traz o que eu quero esquecer. Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar, nos teus braços é o meu lugar... Contemplando as estrelas, minha solidão, aperta forte o peito, é mais que uma emoção...”. Uma canção que noutro dia ouvi e pareceu de carne e osso. Eu vi a canção!

Privilégio saber que algumas canções não apenas se ouvem, mas se vêem! Os versos musicais que o digam!

Não são exatamente palavras brincando de ciranda, embora pareçam no primeiro olhar. Os versos são realmente musicados e a lembrança de fato existiu. O rótulo da garrafinha não se equivocou, por mais que eu não entenda todas as coisas justamente porque conheço em parte as coisas neste instante. São meus sonhos sim, não duvido. Certeza é uma roupa que não tem lado avesso, dos dois lados é sempre tecida de fé. São meus não em razão de possessividade pronominal. O lance é pra lá de gramatical. É visceral. É expectativa que engravida a esperança pra um Futuro que ainda não conheço.

Os sonhos, de repente, não passam de justificativa pro texto. Sei lá, tem palavras que a gente não encontra significado léxico. Acima das palavras apenas esta sombra que jaz ao redor do tudo que há debaixo do pé-de-amor. Meu pensamento. Minha lembrança. Meu desejo. Minha esperança.

O mar não foi exatamente o mar, mas uma visão pessoal de mundo. Algo inifinito e que carrega surpresas inesperadas como o vaivém das ondas que levam rolhas e outras dimensões de nossos desejos...

E a tal garrafinha, o que poderá ter sido? Ah, isso não conto não. Tem coisas indecifráveis para o olhar alheio. Já disse que sou discreto, só não tinha assegurado.

Eu prefiro dizer que coisas indecifráveis nada tem a ver com cifras musicais. São notas ou símbolos que poucos traduzem. É tal qual o fruto maduro da fé, o qual nasce na hora que tem que nascer. É tal qual fatos que não se vêem mas que nos seduzem com abraço apertado das convicções nuas e das alegrias só nossas. Bom repetir: Só nossas. Pra sempre nossas, mesmo que somente o Futuro esteja hábil a afirmar categoricamente qualquer coisa pra lá do instante chamado agora. É pra sempre porque tem a ver com os desejos indecifráveis de alma. É o que cabe dentro de uma garrafinha chamada “ser”, o ser indivíduo, o ser amante, o ser apaixonado, o ser e não meramente “estar”. Há muita diferença entre um e outro. Assim é cada dia que nasce aqui dentro e lá fora do olhar da gente. Assim é com o conteúdo de cada garrafinha que chega ou que um dia chegará pra gente entregue pelo Senhor Tempo.

Há coisas que sei, outras que estou aprendendo a saber debaixo do pé-de-amor. Só sei que garrafinhas com cifras indecifráveis chegam quando tudo se encontra descalço em nossa vida. Sem entraves nos pés, nos dedos, na mente e no coração... Prontas para serem totalmente nossas, definitivamente!


quinta-feira, 22 de março de 2012

Do que se pode fazer para não ser



Posso passar uma vida inteirinha brincando de ser feliz, e, dependendo do ambiente onde esteja plantado, aprender a sobreviver com as máscaras que me fazem ser ‘aceito’ no mundo que escolhi viver...


Posso ser de todas as cores porque, no fundo no fundo, não é a cor da pele que importa, e sim a da maquiagem no grande palco chamado Vida... sobrevive e se dá bem quem aprendeu a arte de ser cínico, matando leões todos os dias sem que ninguém perceba tal carnificina que ocorre pelo lado de dentro da alma...


Posso não entender algumas coisas, posso até invejar os que não passam pelos mesmos porquês que eu, posso dar golpes desesperado por me dar bem, custe o que custar, até fazer terceiros e terceiras para sempre infelizes e traumatizados na condição de vítimas de minha covardia. Eu sei que posso! Tantos não podem... e fazem?!


Posso atravessar todas as fases da vida até atingir as cãs e colecionar nas mãos os calos de tantos golpes desferidos contra mim mesmo... quem se importa? Posso sobreviver em meio a tantas estratégias que nem me dou conta neste momento... até empedrar de vez!


Onde o ser humano que um dia existiu?


O que fiz com as chaves de felicidade que um dia me foram entregues pelo Dom da Vida?


Onde a alma que gozava saúde no ser e aninhava sonhos de criança – lembrando que da simplicidade delas é o Reino dos céus - ?


É possível que algum dia, nos limites do último fôlego, às portas de uma Grande Viagem, uma Voz desfira o golpe final: “- Insano, hoje pedirão tua vida... e tudo o que você empreendeu em ações e omissões diárias de esvaziamento de si mesmo, pra que te serviu?”


Posso tantas coisas, mas e a mais simples delas? Viver e não meramente existir? Abrir portas com as chaves que um dia recebi de um par de mãos, não lembro de Quem, acho que sei o Nome, mas fiquei confuso se ainda me reconhece ou não?


Na dúvida, se ela - a tal dúvida - ainda existe em meio a tanto esvaziamento – eis um bom sinal, nem tudo está perdido! – o que fazer para deixar de não-viver e ressuscitar do pó das cinzas?


Eu acho que sei! – Você sabe?


Como o poeta que não morre, o conselho de Drummond é apenas uma mãozinha:


“Chega mais perto e contempla as palavras, cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?”


O poeta pergunta pra mim, coisa inexplicável mas que dá pra sentir numa simples releitura... talvez por isso eu acredite que é pra mim que pergunta, não sei se é pra mais alguém. É como se me dissesse, clamando pela poesia – que não é pedra, mas clama! -, se ainda estou com as chaves que um dia recebi daquelas mãos de Alguém cujo Nome nem mais sei após tantos descaminhos pra longe de mim, me pedindo pra abrir as portas que fechei não vivendo, não sendo, não eu até não-sei mais de mim...


Eis o ponto crucial! Alguma coisa bem firme me assegura que aquela Voz pode esperar... o Amor sempre espera porque tudo espera. Tanto o pronome quanto o advérbio esperam tal qual o Amor que espera porque tudo crê... E se crê de todas as formas é porque, no final das contas, o Amor jamais acaba.


Ainda não é tarde demais...


O que faço deste ser humano que achou que podia a vida inteira pra longe de mim mesmo?


O que qualquer ser humano ainda pode fazer se assim viveu (ou morreu) a vida inteira?


Dos outros não sei; quanto a mim, está decidido:


Onde eu coloquei o raio dessas chaves!?

domingo, 18 de março de 2012

Crônica dominical de final de verão


Cachorras, sexo e brioches – numa época de ofertas fáceis, amor é privilégio que poucos e poucas querem ter...



Estava procurando uma receita de bolo simples. Queria alguma coisa bem simples, porque de simplicidade é que a vida se torna rica (bela, quero dizer).


Daí, folheando uns artigos, encontrei uma história retratada no quadro de um psicanalista. “Por que as cachorras acabam se dando bem?”, perguntava a leitora. Aquilo me chamou a atenção. Viajei pra dentro daquele contexto e foi inevitável pensar nas letras de músicas que ouvi, aqui de casa, na noite de ontem, quando de alguma comemoração na vizinhança... Não, não enlouqueci nem soltei os meus cachorros! Souberam respeitar a lei do silêncio. Até lá, no entanto, ouvi várias vezes as letras enigmáticas sobre os seres-cachorros...


Mas o artigo me interessou neste momento de tanto protesto a que mergulhei. Protesto por perceber a ruína dos valores e da própria ética no dia a dia. E continuei lendo aqueles parágrafos até me deparar com uma letra de Gabriel, o Pensador, que na sua linguagem musical foi capaz de dizer “não inveje as cachorras...”. E por que disse isso? O articulista se adiantou em responder... “Elas ‘dão muito’... mas não levam nada... e envelhecem amarguradas.”


E prosseguiu: “Ora, até para ter plenitude de prazer sexual tem-se que ter mais do que um corpo de macho ou fêmea em atrito sexual sobre a pele. Gozo é privilegio do amor e da confiança; não do sexo.


A maioria das mulheres que conheço que ‘dão muito por aí...’, não sabem até hoje o que é prazer. Confundem a biologia animal do prazer com a plenitude dele. Aí é que tá: essa plenitude só vem do amor. Prazer sem amor existe, é verdade, mas não é profundo e nem realiza o ser.


Sexo sem amor enjoa como qualquer outra coisa...


O que faz do sexo algo sempre novo é o amor... Nunca desista do amor, pois um dia ele te achará! Portanto, cuide de você... investindo em você... se amando!”


Tenho que concordar: amor, esse ‘sentimento-dom-maior-que-meu-desejo’ está ficando cada vez mais raro, diz-se até que nestes dias tão egocêntricos a tendência é se esfriar de muitos corações. Até a Bíblia dos cristãos assegurou isso sem precisar conhecer a contemporaneidade. E eu creio. Por isso, pra mim, uma pergunta pertinente a se/me/nos fazer é a respeito do que sentimos fome.


A fome de quem almeja amar sem posse, sem controle, sem coisificar o ser que ama, mas deixando-a(o) livre pra ser com saúde emocional, deve ser a de construir caminhos de certeza. Quem se ama, por exemplo, não se angustia por ter sido esquecido(a). Quem se ama, sabe que o amor nunca nos deixará na mão, desnutridos. É desta certeza que falo. O amor existe. E a certeza de que ele existe é sempre um dos meus mais fortes alentos para viver neste mundo onde quase nada do que de fato é, é visto como sendo, pois, aqui, só vale o que parece ser. Porém, mesmo passando alguns dias ensimesmados (coisas minhas, reflexões, sonhos que mudam de cor, vontades não supridas, etc), não consigo deixar de crer no que está arraigado em mim como uma espécie de fome saciada: a certeza de que o amor é!


E quanto a fome das cachorras e dos cachorrões?


Tenho um amigo que responderia isso de uma maneira bem peculiar (sem deixar de ser sensata): que elas e que eles comam brioches já que não tem (porque não fazem questão de ter) pão-amor!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Prioridades modernas______________


Fiquei quarenta dias e quarenta noites {numerologia oriental hebraica pra significar toda uma existência}, andando pra lá e pra cá pelas ruas mais movimentadas com uma placa bem visível no peito, que dizia:


“Oferece-se um coração. Nota: segue envelopado por um corpo emocionalmente saudável.”


Resultado de toda essa, digamos, pesquisa de campo:


75% quiseram saber sobre como é fisicamente o corpo, quero dizer, os ditos atributos do corpo, não se importando nem um pouco com a questão emocional.


20% quiseram saber -- ou provar, é o mais coerente! -- como é o currículo em termos de experiências e habilidades com as posições que o corpo oferece, não se importando com o emocional, desde que não mostrasse de cara tratar-se de um louco ou psicótico.


3% deixaram contato, mas fizeram questão de frisar que seria apenas pra um “lance legal”, "sem compromisso". Assim fizeram, digamos, de maneira bem capitalista -- porque até as relações sociais e afetivas acabaram sendo vistas pelos tais como oferta, demanda, distribuição, lucratividade e preço -- mas estes também não se preocuparam com o emocional. Havendo acumulação de capital (prazer, por exemplo),
laissez-faire...


2% apenas olharam, esboçaram gestos tímidos ou não e até pararam, mas não conseguiram se comunicar por muito tempo, seja pelo armário do tipo “blindado” em que estavam, seja pela pressa que permeia o método convencional do fast-food-living.


0% se importou com o coração ou com qualquer coisa a ele correlata. Questão de prioridade, não necessariamente falta de interesse imediata...


Eu voltei pra casa, assim, pensativo... A propósito, o coração recusa estar em oferta. É alguma coisa quase idealista diante de tanto capitalismo e pouca importância com o que realmente pode mudar uma história... pra melhor!





sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma crônica sem pretensão alguma de matar a sede


Sabe quanto tempo um plástico dura pra se decompor? Não sei dizer exatamente, mas é coisa de séculos! A resistência do material frente às intempéries e a todas as demais formas de erosão natural é algo que me chama a atenção. A coisa dura porque é resistente. E é resistente porque sua constituição – aquilo que realmente é desde o âmago! – favorece a integridade do material por anos e anos.

Nesse calor de matar carioca, tão acostumado aos quarentinha graus dos verões, não tenho outra alternativa senão me refugiar nos pensamentos. Eles me refrescam. É a explicação. Fico mergulhado em mil pensamentos sobre a descartabilidade e a resistência nas relações – qualquer uma, desde que humana – enquanto giro lentamente a garrafa de água mineral nas minhas mãos. O plástico, a sua textura e sua utilidade me inspiram numa série de vaivens de idéias e de algumas projeções também. Eu mesmo queria ser assim, mais resistente às intempéries por natureza. Mas não sou. Isso é bom, não chega a ser ruim. Saber que, diferentemente das garrafinhas de água mineral, preciso desenvolver meu potencial para criar possibilidades e assim caminhar por elas, acaba me pondo no meu eixo original. Ser humano é reinventar-se, é renascer a cada inconstância, é desabrochar sem perder a gana de florescer, tenha ou não tenha mais primaveras na estação. Acho que o eixo se equivale a tudo isso...

Mas nem tudo que é plástico é garrafinha. A maior prova disso está no mundo das virtualidades, o universo pra dentro do qual o limite de uma relação está a um toque dos dedos. É pelos caracteres que o programa impinge na tela que muita gente constrói seus encantos e suas muralhas. Eu, por exemplo, que sou forte, gostoso, acabei de pintar meus olhos de azul (baratinho, baratinho, graças ao photoshop!) e retocar uma dezena de imagens só pra ficar com peitoral definido, cabelinho empinado em gel e óculos rayban. Tá vendo só! Eu me pegaria, caso me desse mole. Olhando para as imagens, a imaginação instiga a curiosidade. Não agüentei e acabei pegando MSN e facebook da criatura, no caso, eu mesmo (ou o “suposto eu”). Não poderia perder a chance de ficar comigo mesmo, justifico-me. Depois que me vi de cuequinha branca numa pose pra lá de sedutora, as cabeças pensaram ao mesmo tempo e a uma só velocidade: deve ser um tesão na cama! ‘Quero você!’, me disse a mim mesmo num bate-papo pelas madrugadas. ‘Você é um carinha raro, tudo o que sempre esperei!’, reafirmei pra parecer mais convincente. Não é que deu certo!? Marcamos nosso primeiro encontro neste final de semana! Tudo transcorreu conforme o ritmo dos processos que nós mesmos construímos, alguns mais sagazes nessa caçada; outros, menos. E, casos mais raros, alguns mais ingênuos e românticos demais, coisas fora de moda na vanguarda dos relacionamentos plásticos. Que tolice! “Un non-sens absurde”, me diria a perspicaz Simone de Beauvoir. Obviamente tudo isso não passa de uma ficção pra lá de absurda. Por outro lado, absurdo ou não, a gente vai plastificando nossas relações {e nossos relacionamentos} à medida que adere esse ‘modo de existir’ como estanque às carências photoshopadas. Nem sempre somos água mineral, somos garrafinhas plásticas mesmo!

Hoje, esperando um carro na rua, encontrei-me com Fernanda. Nome fictício, claro. Não somos amigos, mas nos tornamos muito próximos pelas razões do dia a dia: a gente mora no mesmo bairro, temos vários amigos em comum e costumamos pegar ônibus juntos. Conversa vai e vem, ela me pergunta se poderia tirar uma dúvida sobre questões de direitos de herança e doação de imóvel. Tiradas as dúvidas, me conta sobre o desejo de fazer testamento em prol de sua companheira de vinte anos de relação. Explicando-lhe sobre direitos homoafetivos, nos ativemos ao ponto crucial de todos aqueles relatos: o carinho, o respeito e o companheirismo, fruto daquele amor que ardia duas décadas depois de iniciado. Tem segredo?, quis perguntar, mas desisti pela certeza da resposta que é particular de cada um. Cada um precisa saber, no mínimo, se está disposto a um relacionamento que mostre a cara {e o coração!} sem photoshop. “Sabe qual o segredo?”, ela me perguntou para surpresa de minha discrição. Gostaria de saber, respondi. “É saber que uma igualzinha a que eu tenho não encontrarei mais!”, resumiu na sua poesia de valor.

Claro que não iria esmiuçar aquela história, até porque não sou psicanalista nem teria razão pra fazê-lo mesmo que o fosse. Precisei saltar antes dela, acabei me despedindo e felicitando-lhe pela certeza de ter encontrado alguém de verdade, de carne e osso, de pele cansada e olheiras nas noites mal dormidas, de coração pulsante nas euforias e nos limites da emoção, de acertos e de equívocos que ultrapassam o desejo instintual numa madrugada e o frisson dos gemidos paridos nos vaivens dos quadris. Na pressa, na hora de saltar, esbarrei e deixei cair a garrafinha de água mineral. Ela se adiantou, segurou e me devolveu. “Cuidado pra não cair de novo!” E completou em seguida: “É assim que digo pra mim mesma quando estou nos braços da mulher que escolhi pra amar!”. Hã? Como assim? “A gente cai em tentação todo o dia, mas não é por isso que eu vou largar meu investimento mais seguro, a minha vida!”, filosofou. Ela é a sua vida?, perguntei só pra questionar. “Não, eu é que não encontro vida, vida de verdade, longe do prazer da companhia dela!”. Sorri. Saí com a garrafinha vazia mas com os pensamentos mergulhados em mil idéias. Alcei voo numa certeza enquanto atravessava a Avenida Passos, no Centro. Amores de plástico não matam a sede durante toda a estação. É preciso ser água mineral pra nós mesmos e para os outros. Com ou sem gás? Ah, isso já dá pano e letra pra uma nova crônica...

domingo, 4 de abril de 2010

A todos e a todas neste domingo


Passo por aqui como quem se achega, acena aos amigos, aproxima-se e se assenta o mais próximo. Faço do momento – como sempre me é oportuno - o encontro. E numa espécie de encanto, mágico e sublime pela oportunidade de vir aqui, rabisco palavras extraídas do pensamento pra sorrir nas letras o desejo do que [me] apelido de ‘agora’: feliz Páscoa a todos!

Mesmo sabendo que a data celebra a Tradição cristã nas leituras históricas da paixão, morte mas sobretudo Ressurreição do Cristo, permanece a boa intenção de revisitarmos lições de amor com alguém que só amou. E ponto final.

Se foi condenado por justamente amar, sobretudo os excluídos daquela sociedade (publicanos, samaritanos, meretrizes, leprosos, cobradores de impostos à Roma, etc – e, por extensão, a qualquer que se sinta rejeitado ou excluído), já é um outro aspecto que me foge ao interesse do instante. Quero apenas enfatizar naquele exemplo, muitos e muitos outros – de todas as épocas! – que só amaram e receberam em si mesmos os frutos de tão elevada conjugação verbal-relacional!

Amar nem sempre é fácil, todos sabemos. Amar, às vezes, dói. Há gente que ama e é compreendida. Há gente que ama e não é compreendida. Amar não deveria ter limites, pois quem ama de verdade, ama pela decisão de amar apesar de. Amar traz sempre bons frutos, mesmo que os espinhos machuquem ao longo do processo de frutificação. Por isso mesmo o “amar” não é pra menininhos e menininhas tolos, é pra gente que sabe o que ta fazendo. Como diz meu amigo Márcio Retamero, “a vida não é um comercial de margarina!”. Neste sentido, amar é para os fortes, para os teimosos e perseverantes. É também para os declarados loucos pela incompreensão racional que relativa todas as coisas, mas não consegue relativizar o amor. Amar é. Cada um decida o quê!

Amar é afeto... é acolhimento... é respeito... é refrigério... é perdão e reconciliação... é dar nova chance e sempre dar nova chance... é aprender nas virtudes e nos limites... é Ressurreição e Vida em nós, e é tanta coisa a partir disso!

Tal como iniciei, assim me despeço: Feliz Páscoa! A todos e a todas!


Notas de rodapé: em memória de meu paizinho que me deixou na Páscoa passada, mas ressurgiu numa força estupendamente inspiradora nas boas lembranças, nos aprendizados que agora discirno na pele como bom filho que ele um dia me disse com todas as letras que sou...

Uma homenagem ao poema que é verso rezado na esperança, uma lição que me inspirou neste momento. A oração de São Francisco de Assis na bela voz da diva Ana Carolina.




Queridos, estamos na tarde de domingo de Páscoa. Preciso sair para uma palestra que darei daqui a instantes sobre o Evangelho nas letras de Renato Russo, na Comunidade Betel do Rio de Janeiro. Praia de Botafogo, 430, sobreloja, Rio de Janeiro, bem em frente à paradisíaca Enseada de Botafogo. Beijão em todos!

Alguns vão perceber que a imagem acima já foi tema de artigo no ano passado. Ok, vocês venceram... rs. Páscoa pra mim tem tudo a ver com vida e a celebração que fazemos dela. Eis a razão de ser da imagem na ilustração deste post. Ela exemplifica o sentido que empresto ao tema. Ah, sim, a imagem original intitula-se “Heartbeat”. Retirei-a de um postcard, mas não continha os dados do autor.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cyber-amor

Falando mais sobre os processos de relacionamento na virtualidade a professora Ana D”Araújo escreveu um artigo interessante; na verdade, é o retrato do que se vê na construção cotidiana dos afetos [frágeis] pela telinha do PC. Segue uma palhinha de um pequeno trecho em duas imagens logo abaixo.




Quem estiver a fim de ler o restante do artigo, clique aqui.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ensino e desejo





Uma lição temperada:

A lição de um grande Mestre era: "Onde você coloca o sal?”
E os discípulos passaram a refletir...


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Para 2010...

Meu desejo é que neste ano o amor se fortaleça no coração dos amantes e que tal força devolva as pessoas à vida com a simplicidade do sal e da luz. Ou seja, com sabor e boas obras.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O mundo ainda caminha no aprendizado


Depois das indignações a que me permito nesta liberdade que me dou [falo dos posts a seguir], a certeza que ainda aprendemos a lição mais básica ensinada pelo Cristo: o amor, que, a contrário do que muitos pensam, não é plena aceitação do outro; antes, é respeito pelo direito que o outro tem de coexistir, acolhendo-o dentro do que se espera do respeito. E isto, diga-se, ainda que se tenham pontos de vista diferentes. Verdades próprias e acerca das quais não se abra mão. Até aí, a paz prevalece. Entretanto, é quando nossa verdade precisa ser a verdade do outro a qualquer custo que o respeito é ferido. Por mera conseqüência, o conflito elimina a paz, que, por sua vez, estanca o processo de semeadura do amor. Sem sementes de amor o mundo se torna um vasto campo de individualismos se auto-destruindo. Os “ismos” só não podem é contra o amor. A lição ainda faz parte da aula. E assim vamos caminhando...


Nota: imagem colhida dos Out Games, na Dinamarca, 2009.

domingo, 12 de abril de 2009

Num domingo de Páscoa tão diferente dos demais


Há muitas gentes nas ruas. Tantos rostos. Tantas histórias. Cada uma delas, porém, um universo particular. Naquele infinito que somente cada um pode desvendar – o chamado “eu” – a dimensão existencial de tudo o que vivemos e recordamos. Lembranças me povoam as constelações que cabem em meu próprio mundo. Explosões se irrompem aqui dentro e, sem nem perceber, rios caudalosos nascem sulcando os poros do rosto até formarem uma foz corrida abaixo. São chuvas, não são apenas águas. Chuvas de lágrimas. Uma e outra lembrança – talvez o conjunto delas – passando como filme aqui dentro. Imagens de meu pai, das nossas conversas, dos instantes de agonia quando queria me ver mas seu olhar se esquivava para outra dimensão bem maior que a minha. Queria ter-lhe contado tantas coisas de mim. Queria ter-lhe mostrado tantas vitórias que estão por vir. Queria ter-lhe compartilhado alguns sonhos, os mais recentes, os de hoje. Por outro lado, se o “crómos” – o nosso tempo multifacetado em horas, minutos, segundos, centésimos, e por aí vai – não convergiu para as oportunidades que delas sinto falta neste instante, sei que o “kayrós” – a dimensão pra lá de quântica, talvez pelas conseqüências de eternidade que somente a Graça pode se autoexplicar – guarda um quê de mistério com ares de certeza, fruto da fé. Um dia nos veremos para continuar o que aqui a limitação das coisas não nos permitiu. Bem, falo por ora. O pensamento engravida a lembrança em dores de parto como as das saudades. Sou um gestante em potencial assim como cada um que produz as mesmas emoções. Gestantes. Grávidos de lembranças. As dores de parto, mais uma vez, se aproximam. É hora de me aquietar por uns instantes e deixar fluir os fluxos caudalosos que me formam cascatas lindas de espontaneidade, amor e saudade de meu pai. Ontem, em meio a dor da perda, sepultei meu pai. Hoje, no domingo de Páscoa, inspiro-me pra ressuscitar todas as lembranças como sementes de afeto, as que mais gosto de semear. Como meu pai fazia. Tal pai, tal filho. Que orgulho!

Sei que há brotos nascendo aqui no meu peito - um processo natural quando se rega tais sementinhas. É por isso mesmo que este "fim" não termina aqui. Até breve!




Nota 1: Como diz a letra de uma canção, “a saudade eterniza a presença de quem se foi”. Perdas Necessárias. Quanta verdade!

Padre Fábio de Melo - Perdas necessárias (Com. Transforme em Jardins!)






Nota 2: aos que não entenderam as razões de meu silêncio, aos que cogitaram mil coisas, aos que souberam e compreenderam, aos que telefonaram pra oferecer o coração, aos que semearam palavrinhas por e-mail e outros recursos, aos que rezaram (tanto em silêncio quanto em letras engravidadas de sentimentos), aos que, mesmo sem entender, foram eloqüentes no silêncio e se mostraram presentes do mesmo modo, um punhado de gratidão espalmado na direção de todos. É dado de coração, ainda que pela mão deste ser saudoso, mas convicto que a paz é o melhor lugar pra se estar.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Pardais, profetas e bons olhos


Enquanto os principais da religião dividem, separando os despojos do que imaginam lhes pertencer, sonho orações de paz, salgando meus próprios universos com sentido. Pago um real pelo algodão doce azul e o devoro como quem agradece a Deus pelo preço de ser como os pardais.

Desde as primeiras redações lá na fase do primário, na escola, dizia pra mim mesmo que os pardais são a melhor expressão de liberdade. Pardais morrem quando engaiolados. Simplesmente não sabem sobreviver pra fora da liberdade. Os anos passaram como folhas. Cresci, mas continuo pensando a mesma coisa.

Diante do Santuário da Existência, celebro a Vida, relembrando as lições do profeta da Selva, Chico Mendes, que tanto amou o meio-ambiente que se doou por inteiro. Ontem, vinte anos se passaram desde que o profeta se foi pra voltar e permanecer. Ontem, apenas um sindicalista em favor dos nativos, da mata e dos seringais. Um “perturbador da ordem”, diziam os algozes. Hoje, lição no livro da escola, tema de redação para a Universidade, reserva do Governo Federal, nome do maior projeto articulado de reflorestamento, entre tantos outros frutos que se dão mundo afora.

É como numa das lições de Jesus: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” [Jo 12,24].

Olho pelo vidro da janela, não vejo o caos. Há cores, muitas e variadas. Apresso-me a abrir a janela, sinto as oportunidades. Há muitos pardais contando histórias para quem está atento. Há muitos profetas em atividade.

Pra quem ergue o dedo com o peso dos anéis de sinete, não vendo nada de bom exceto os inimigos a destruir, eis uma oração cantada por um desses muitos pardais que insistem na beleza: Nando Reis. Se, ainda assim, após a leitura, o coração continuar a perder o romance na vida, resta a lição narrada por São Lucas: “Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas” [Lc 11,35].



Nando Reis - espatódea






Que tenhamos bons olhos na vida porque a vida é breve, mesmo na eternidade!

Feliz Natal a todos!

Que haja sempre lugar
pra mais um!




...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Não tenha medo do amor


Se sem amor nada aproveita, então, sem amor não há vida, pois, caso qualquer coisa gerasse vida, o amor seria apenas uma outra alternativa de vida como existência.

O amor não é romântico e nem fantasioso. O amor lida com o que é; sem ficção. Nele cabe o romance quando essa é a relação, mas suas bases são bases de verdade e realidade.

Quem ama não possui e nem é possuído. O amor não é um encontro de serpentes famintas engolindo uma a outra. Amar o inimigo é uma decisão, assim como amar a mulher que um dia se amou e se ama.

Muitas vezes ouço as pessoas dizerem que querem um amor. Penso:

Não quer amor nada. Quer apenas um Pet para possuir e ser possuído.

Afinal, quem ama não quer nunca um amor, pois pode amar a todos, indiscriminadamente.

Quem quer um amor quer uma posse, quer um objeto, quer um domínio de propriedade humana.

Cada dia mais é minha convicção que aquele que cresce em amor cresce em tudo na vida; da mente aos atos de vida verificável.

Quem quer expandir a mente deve amar, pois, somente no amor pode-se crescer para atingir o que quer que seja nosso maior potencial nesta vida e na vida porvir.


É triste ver que as pessoas creiam que o amor é apenas um confeito de bolo fraterno e humano, sem que vejam que o amor é a própria vida, e que um ser humano estará tanto mais vivo quanto mais amar com o único amor que existe em projeção eterna: o amor de Deus, que é aquele que tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta; e que jamais acaba.

O amor pode mudar de configuração conforme a relação. Porém, uma coisa que o amor não sabe é desamar. Não há mistério. Sim! Vida é amor; e quem ama está no caminho de todas as coisas.

O amor é a síntese única de tudo o que faz a existência acontecer.


Caio Fábio
(extraído e adaptado)



quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sintaxe na vida real


Queria ser freira. Desistiu. Tornou-se professorinha de religião - catequista infantil. Alegrias pueris para uma mulher-aprendiz. Um dia, porém, o conheceu. Ele, um jovem professor. As missas não perdiam. Era lá que mais se viam. Ambos muito equilibrados nos seus conceitos de pureza. Nos canais irrigados de sangue, os corpos acendiam. No sangue, rios de vida. Como os mistérios do terço, as fases da lua e dos corpos. Nada demais senão duas geografias. Eis o mistério daquela fé! O calor. O desejo. O tesão. O encontro. O fruto da moral: a culpa. Assustados, tão infantis, se puniram. Romperam o elo daqueles mistérios. Rezas não adiantaram. Nem adiantariam; afinal, não era pra ser. Os amigos se comoveram. Era o que todos mais queriam para eles. E eles queriam?



Ela, perdida nas dúvidas, procurou-se nos anos seguintes. O melhor de tudo, encontrou-se. A melhor amiga lhe ofereceu o peito. O calor mais puro que a moral. Ela aceitou. Confusa, se confessou. Absolvida pelo desejo, se entregou. À amiga perguntou: somos amigas ou amantes? Entre, vamos conversar. Ela entrou...




Conheceram-se num madrigal. Ele a ouviu cantar. Ela o ouviu declamar. Apaixonaram-se. Naquele jardim tão bem cuidado felicidade crescia. Na estação própria um filho lhes nasceu. O lar sorriu até que ele perdeu o emprego. Não durou muito ela o vitimou. Introspectivo, depois de todas as respostas, emudeceu. Tempos depois, um novo amanhã e um novo emprego. Apenas uma fagulha de sol. Pouco a pouco tudo esfriava. A cama e a poesia não declamavam mais rimas. Sequer gemidos verdadeiros. Sombras noturnas cobriram o jardim. No emprego se firmou. Amizades construiu. Um amigo em especial. Histórias parecidas. Nos diários revelados uma poesia pelo olhar. Versos de tão parecidos, germinados iguais. Sob aquelas folhas, uma camada de tinta original. Feliz, reconstruiu-se por dentro. Por fora, a aparência do mesmo cenário. Aparentemente, nada diferente. O filho, no entanto, o maior tesouro. Do casamento apenas uma folha perdida na gaveta. Poeiras também...



Três anos se passaram. Seus versos cada vez mais iguais. Suas camadas de tinta, mais e mais originais. Certo dia, ergueu-se diante da janela do quarto. Abriu as cortinas. Convidou os feixes de luz. Retirou todas as peças de roupa. Ficou apenas com a sua própria. O seu “eu”. Pegou a moto e partiu. Descobriu que continuaria a ser com ou sem casamento. De fato, como sempre o foi, é...




sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sobre caminhos, deuses e o amor


Halloween, o dia das bruxas invade a cultura brasileira. Invade sim; afinal, não faz parte de nosso rico tesouro folclórico. A palavra Halloween tem origem na religião católica. É uma contração da expressão “Ali Halliows Eve”, no inglês atual, “All Hallows Eve”, que significa “Véspera do Dia de Todos os Santos”. Com o passar dos tempos, a comemoração do Halloween, tornou-se mais conhecida na América após a emigração escocesa, em 1840.

Alguns dos costumes levados pelos colonos foram mantidos. Como exemplo, temos as Jack-O-Lanterns que, feitas com nabos primitivamente, passaram a ser feitas com abóboras. Conta a lenda que um homem chamado Jack não conseguiu entrar no céu porque era muito avarento e foi expulso do inferno porque costumava pregar peças no diabo. Foi, então, condenado a vagar eternamente pela terra carregando uma lanterna para iluminar seu caminho.


“o amor à força e ao poder sobre as pessoas, impossibilita qualquer amor que sirva às pessoas. E amor que não se dá, é tudo, menos amor”

Se me perguntassem o que me ilumina os caminhos, diria tratar-se de um ponto de vista. Pra mim, o amor. Sem amor, restaria uma sobrevivência biológica. Nascer, crescer, reproduzir e morrer, envelhecendo em todo o processo desde o nascimento. Havendo amor, porém, a liberdade e a esperança me estimulam à capacidade de encanto com o que posso ser, a criar coisas a partir do sonho, a acreditar em possibilidades para além do limite, fazendo com que descubra novas cores e novos sabores em todas as coisas. Havendo amor, o chão é firme para construir aquilo que vale à pena, sendo válidas todas as coisas quando há querer-bem.


Pra mim, o amor é mais do que sentimento. É Dom que se quer achar em qualquer um(a). Como curioso que sou, buscando sempre os porquês, saí pelos caminhos que construí à procura da Fonte. E a encontrei em mim como um abraço dos ventos, o qual não vejo porém sinto, percebendo-o quando as coisas se movimentam para o bem, para a reconstrução de pavimentações esburacadas no viver de cada um. Descobri a Fonte em Deus, que por sua própria natureza não pode ser definido como “deus”, que é o Estado Essencial, Primordial, Final e Eterno de Toda Existência, conforme a descrição budista de deus-sem-eu.

Sobre tudo e todos, fora de qualquer disputa ou competição, há Aquele que diz de Si mesmo que Ele é Ele, é pessoa, é o Eu sou. Ora, esse é Deus. E é todo-poder, toda força e toda sabedoria. Entretanto, Ele diz de Si mesmo que apenas É (Eu Sou) e que É amor. Por isso, confesso, amar faz sentido quando se diz que se O conhece.

Li, certa vez, um artigo do Caio dizendo que “Deus é o Todo-Poderoso, mas isso é apenas bom porque Ele é amor; do contrário, um Deus Todo-Poderoso que não fosse antes de tudo amor, seria um perigo a toda criação. (...) aqueles que se devotam aos deuses de “poder e força” (e seus derivados, como a prosperidade, etc.) não sabem o que é amor, senão como sentimento de afinidade egoísta e pagã; posto que o amor à força e ao poder sobre as pessoas, impossibilita qualquer amor que sirva às pessoas. E amor que não se dá, é tudo, menos amor conforme o Deus que é amor.”

Na projeção de como se entende “deus”, fácil será dizer quem e como nós somos. É neste caminhar que sigo sendo iluminado. Feliz “Halloween”!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pérola do mestre





“Uma relação não é sustentada pela cama ou pela mesa, mas pela linha tênue do prazer pela conversa. Para saber se a relação vai dar certo ou não importa, antes de tudo, responder-se: serei capaz de manter diálogo com esta pessoa por muito tempo na minha vida? Sim ou não?”



Dr. Rubem Alves (catedrático de filosofia na UNICAMP, teólogo e psicanalista), no Programa do Jô, 23/10/2008.


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Eu esperaria


Há cenas e cenas. Tanto na vida real quanto na telona dos cinemas. Pra quem me conhece, já sabe, prefiro os filmes que me fazem pensar, que me estimulam no bem-sentir. Não me convidem para assistir a filmes impactantes de violência. Não curto. Não preciso ir longe ou pagar ingre$$o. Quando preciso, se é que um dia precisei, abro a janela do ônibus e assisto bem diante de meus olhos em 3D as melhores cenas de violência. Gratuitamente! Em contraposição a essa “emocionante cultura” para alguns, recolhi no meu baú de cenas memoráveis umas três. Uni-duni-três, salame-minguê, a escolhida da vez foi... Por que você não me escreveu?” (“Why didn’t you write me?”). Reparem na belíssima fotografia e sobretudo na poesia dos detalhes do texto (isso pra quem entende inglês, sorry). “Esperei por sete anos!”, diz num determinado momento. Parei e pensei: nos dias atuais poucos esperariam. Tudo é rápido demais, tudo é muito “fast” (“fast-food”, “fast-love”, “fast-sex”, “fast-friend”). Mas, e você. Por quanto tempo esperaria um amor?

sábado, 20 de setembro de 2008

Terra fértil para amar - Por Anitta Schver


Uma pessoa que admiro muito e tem muita sabedoria me disse uma vez que é preciso se preparar para encontrar um grande amor. É preciso se cuidar, estar de bem consigo, gostar de estar sozinho para aprender a lidar com uma outra pessoa.

Um relacionamento não deve completar e sim acrescentar, somar. Ninguém completa ninguém. Viemos sós ao mundo e morreremos da mesma forma. Somos seres em unidade que contribuem para o crescimento coletivo da humanidade. As pessoas dependem umas das outras, o homem vive sozinho mas não sobrevive da mesma forma. É preciso estar bem consigo para fazer o bem a alguém. É bom deixar o coração limpo e livre para chegar alguém e habitá-lo.

É importante remover as pedras, mágoas e medos que ficam no meio do caminho que trilhamos e também resolver as pendências com todas as outras pessoas de forma que você possa respirar aliviado e com leveza para poder abrir os braços para um novo amor...

Verdade, respeito e cuidado sempre. Melhor a verdade que dói do que a mentira que dói. Entre as duas opções, fique com a primeira que terá resultados positivos em breve.

Nós cultivamos pessoas no jardim da vida e é preciso regar as nossas flores diariamente. Elas são frágeis e delicadas, mesmo que algumas finjam que não. [Leia + aqui]

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Amores eternos


Eu acredito nos amores eternos, ainda que sejam enquanto durem. Mas duram o quanto precisam durar. Pensando na durabilidade dos amores, imediatamente me vem à mente as certezas que a gente traz. A gente acredita em nossas próprias seguranças. Isso é bom, não tenho dúvidas. Assim, amar é sempre contínuo – mesmo que a gente nem se dê conta! – e o amor um ato existencial. Pra mim, enquanto se pode dar crédito há inspiração de oxigênio e confiança. A combinação é perfeita, diriam. Eu concordo. Penso também que não depende dele, o amor, qualquer sacrifício pra se manter valente. Depende é de nós. Nós o revestimos da eternidade. E não é só de valentia que to falando. É de decisão. Quem decide amar pra sempre tem suas razões (ou seriam raízes?). Pedirei licença para encarnar o espírito shakespeariano à la Romeo e confessar que amores eternos existem sim. Quem não quer um pra si, não importa por quanto tempo?

Por isso mesmo é que sobre tudo o que guardo em amor, guardo no centro de minha vontade justamente por acreditar que é de lá – na própria consciência que impulsiona o amor a ser eterno – que as fontes de nossa existência se acomodam.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Salve, Jorge: mero pretexto para não dizer que não falei do amor


Hoje é feriado na cidade e no estado. Dia de homenagem ao santo corinthiano, ups, santo guerreiro da Inglaterra, dos Moscovitas, dos Lituanos, dos Escoteiros e por aí vai. O clima hoje no Rio de Janeiro é ameno, porém ensolarado. Céu de brigadeiro. Programas é o que não faltam, independente de fé ou crença. Cultura, afinal de contas, não está presa a estas questões.

Mas falando de São Jorge, sabe-se pela história que nasceu na Capadócia no ano de 280. No final do século III, o cristão Jorge trocou a Capadócia, na Turquia, pela Palestina, vindo a ingressar no exército de Diocleciano. Jorge logo se destacou, sendo elevado a conde e depois a tribuno militar. Tudo ia bem, até que as perseguições aos seguidores de Cristo reiniciaram. O rapaz não quis negar sua fé, fazendo com que Diocleciano se sentisse traído. O imperador, então, condenou-o às mais terríveis torturas. E Jorge conseguiu vencer a todas elas. Suportando uma dor atrás da outra, o filho da Capadócia suportou as lanças dos soldados, permaneceu firme sob o peso de uma imensa pedra, obteve a cicatrização imediata das navalhadas que recebeu e resistiu ao calor de uma fornalha de cal. A cada vitória sobre as torturas, Jorge ia convertendo mais e mais soldados. O imperador, contrariado, chamou um mago para acabar com a força de Jorge. O santo tomou duas poções e, mesmo assim, manteve-se firme e vivo. O feiticeiro juntou-se à lista dos convertidos, assim como a própria esposa do imperador. Estas duas últimas "traições" levaram Diocleciano a mandar degolar o ex-soldado em 23 de abril de 303.

Sempre gostei de histórias permeadas de heroísmo. Acho que foi em razão disso que a mitologia grega me influenciou bastante. São Jorge é um caso à parte. Não se trata de mitologia, exceto pelos acréscimos que foram dando robustez ao mistismo. O mais importante dos acréscimos tem a ver com a luta renhida do santo com um dragão a fim de salvar a filha do rei de Selena e todos os habitantes desta cidade líbia. Como tinha que ser – é o que penso –, a lenda apresenta um toque shakespeariano que completa meus apreços ao guerreiro.

Temas como “coragem”, “bravura”, “heroísmo”, entre outros correlatos, me remetem ao nosso sentir existencial sobre as virtudes. Coragem é a mais admirada universalmente. Covardia, por outro lado, a mais desprezada. Voltaire foi um dos poucos que defendeu a coragem não como virtude, mas como “uma qualidade comum aos celerados e aos grandes homens”. Mas a coragem não é moral nem imoral. Ela tanto pode servir para o bem quanto para o mal. Coragem egoísta é egoísmo. Coragem desinteressada é, no entanto, heroísmo. A coragem só é vista – pelo olhar da moral – como algo inteiramente bom quando derramada em atitude voltada para o próximo. Imediatamente me lembrei de um “caminho sobremodo excelente”, no dizer de Paulo, o apóstolo: o amor.

Kant dizia que o amor a si é a fonte de todo mal. Escrevendo a Timóteo, Paulo assegura que “o amor ao dinheiro é raiz de todos os males”. Não importa o foco, penso que o amor egoísta é o amor a seu único bem. Neste sentido, é raiz de todo o mal, pois pouco deste bem – ou nada – deseja a quem quer que seja. Uma existência em-si-mesmada é a antítese do discurso de Jesus, que, resumindo seu ensino, afirmou: “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”. O “assim como” é a parte mais difícil. E por quê? Porque requer um sentir de acolhimento tal como o que ocorreu com o Cristo. Requer, ainda, que eu me enxergue na mesma perspectiva de quem for meu próximo. Sem glórias, atitudes egoístas nem auto-ingerências.

Mas, voltando ao tema, a “coragem” é virtude baseada no fazer. Amor e Graça não são virtudes. São dons. Independem do fazer humano. Escapam à tentativa pecaminosa de dizer pra si (e pra Deus) que se está bancando essa ou aquela. Ninguém nunca banca nada em matéria de amor, menos ainda em matéria de Graça. Platão tentou reduzir o conceito de coragem ao saber (no Laques e no Protágoras) ou à opinião (na República). O saber, a sabedoria ou a opinião dão ou tiram ao medo seus objetos. Não dão coragem, dão a oportunidade de servir-se dela ou dispensá-la. Jankélévitch bem viu: “a coragem não é um saber, mas uma decisão, não é uma opinião, mas um ato”.

Escrevo estas linhas num final de manhã em pleno feriado do santo guerreiro. Idéias me pipocaram à mente. Pensei nas virtudes, mas apenas quis utilizá-las para tocar num ponto muito sensível para muitos de nós: as nossas próprias obras justificadoras de nossos atos. O ser humano – e aqui me incluo sem qualquer pudor – é naturalmente inclinado para a tentativa auto-convencedora de que as coisas ocorrem em razão de nossos esforços, ou seja, nossos méritos. Quanto engano! O “justo viverá pela fé”, lê-se em Romanos. A revolução que surge daí quando uma palavra é encarnada no Espírito do Evangelho é infinitamente maior que a coragem de São Jorge diante das lutas pelas quais passou. Nisto o “amor”, de fato, é sem comparação. Afinal, quem pode se comparar a Deus – que é Amor?


Nota: imagem artística de Gustave Moreau, intitulada “São George e o Dragão”

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