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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Assim caminha a humanidade


Uns nascem. Outros renascem. Uns sobrevivem crendo que conjugam o viver. Outros vivem e impactam. Nunca morrem, mesmo após ser dito que morreram. Estes são profetas, alguns mártires. A Humanidade, porém, é maior que todos eles. Ela, no entanto, ainda está a caminho do amor. Não que não tenha alcançado, mas que é preciso discernir individualmente sua existência nas pequenas coisas. Este processo ainda não se concluiu. Obviamente, à vista de tanto retrocesso (paradoxalmente amalgamado ao que se supõe ser progresso), há muito o que ser conquistado. Que o digam os explorados desta terra...

Por falar em humanidade, um videozinho pedagogicamente interessante pra resumir ao estilo “trash” o modus operandi da realidade:


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A quem pertence a Terra


Conversando com um amigo, ontem à noite, pertinho do Arpoador, ganhei de presente uma revista publicada em dois idiomas (português e inglês) intitulada Onda Carioca. Muito bem apresentada, fotografias extraordinárias das belezas desta cidade e um texto preciso e com um bom argumento, costurando fatos da cidade e do país. Lendo-a no caminho de volta, em meio ao gostinho de sal que sobe quando as ondas rasgam as pedras, deu pra perceber que há coisas interessantes. De relance, meus olhos bateram num artigo de duas páginas escrito por uma pessoa a quem admiro: Leonardo Boff. São muitos os motivos para admirá-lo. Falo sob o prisma do ser humano engajado que é tanto na gestação de ideias a partir do pensamento filosófico quanto na desconstrução de um "status quo" (o empedramento da religião). A teologia, no caso dele (como no do filósofo e teólogo Rubem Alves), lhe tem sido alicerce para uma sensibilidade ímpar para com os problemas de nosso lar, o planeta Terra.

Como ontem falava sobre a saída da extraordinária senadora Marina Silva (e a possível filiação ao PV), pessoa encantadora pela “sabedoria simples dos caboclos do acre”, como ela mesma disse na ocasião em que a conheci no ano passado num seminário da OAB/RJ, achei oportuno o link com o tema do papo e o artigo do mestre Boff. Pois, ele nos diz:

“A quem pertence a Terra? Ela, na verdade, pertence aos que detêm o poder, aos que controlam os mercados, aos que vendem e compram seu chão, seus bens e serviços, água, genes, sementes, órgãos humanos, pessoas feitas também mercadorias. Estes pretendem ser os donos da Terra e dispõem dela como bem entendem. Mas são donos ridículos, pois esquecem que não são donos deles mesmos, nem de sua origem nem de sua morte.

A quem pertence a Terra? Fico com a resposta mais sensata e satisfatória das religiões, bem representadas pela judaico-cristã. Nesta, Deus diz: “Minha é a Terra e tudo o que ela contém e vocês são meus hóspedes e inquilinos”. (Lv 25,23). Só Deus é senhor da Terra e não passou a escritura de posse a ninguém. Nós somos hóspedes temporários e simples cuidadores com a missão de torna-la o que um dia foi: o Jardim do Éden.” (Leonardo Boff, extraído de “A quem pertence a Terra”, edição 25, agosto de 2009, da revista “Onda Carioca, pág. 13)


Nota: a imagem acima faz parte da campanha mundial da ONG WWF pela preservação das florestas.


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Primeira Indignação


Eu me pergunto o que os homens estão fazendo do planeta! Até quando a Mãe Natureza suportará as dores com tanta agressão que lhe causamos? Dentro de nossa realidade, trazendo a responsabilidade pra bem perto, dados oficiais do próprio Governo informam que o desmatamento em junho na Floresta Amazônica alcançou uma área correspondente a metade do município do Rio de Janeiro – leia-se a segunda maior cidade do país –, onde vivo. Putz! Quanta loucura!

Pior se torna quando nos assentamos à mesa de qualquer Café e, indiferentes, nos consolamos esperando saber qual será o tamanho do desmatamento no mês de julho... Até quando?

SOS!


Nota: a imagem acima foi captada durante o mês de junho de 2009. Revela o desmatamento causado pelas madeireiras ilegais. Acima, imagem do desmatamento na Ilha de Marajó (PA).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Pardais, profetas e bons olhos


Enquanto os principais da religião dividem, separando os despojos do que imaginam lhes pertencer, sonho orações de paz, salgando meus próprios universos com sentido. Pago um real pelo algodão doce azul e o devoro como quem agradece a Deus pelo preço de ser como os pardais.

Desde as primeiras redações lá na fase do primário, na escola, dizia pra mim mesmo que os pardais são a melhor expressão de liberdade. Pardais morrem quando engaiolados. Simplesmente não sabem sobreviver pra fora da liberdade. Os anos passaram como folhas. Cresci, mas continuo pensando a mesma coisa.

Diante do Santuário da Existência, celebro a Vida, relembrando as lições do profeta da Selva, Chico Mendes, que tanto amou o meio-ambiente que se doou por inteiro. Ontem, vinte anos se passaram desde que o profeta se foi pra voltar e permanecer. Ontem, apenas um sindicalista em favor dos nativos, da mata e dos seringais. Um “perturbador da ordem”, diziam os algozes. Hoje, lição no livro da escola, tema de redação para a Universidade, reserva do Governo Federal, nome do maior projeto articulado de reflorestamento, entre tantos outros frutos que se dão mundo afora.

É como numa das lições de Jesus: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” [Jo 12,24].

Olho pelo vidro da janela, não vejo o caos. Há cores, muitas e variadas. Apresso-me a abrir a janela, sinto as oportunidades. Há muitos pardais contando histórias para quem está atento. Há muitos profetas em atividade.

Pra quem ergue o dedo com o peso dos anéis de sinete, não vendo nada de bom exceto os inimigos a destruir, eis uma oração cantada por um desses muitos pardais que insistem na beleza: Nando Reis. Se, ainda assim, após a leitura, o coração continuar a perder o romance na vida, resta a lição narrada por São Lucas: “Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas” [Lc 11,35].



Nando Reis - espatódea






Que tenhamos bons olhos na vida porque a vida é breve, mesmo na eternidade!

Feliz Natal a todos!

Que haja sempre lugar
pra mais um!




...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Os quereres e os pensares na palestra da senadora


Final de semana passado estive envolvido na X Conferência Estadual dos Advogados do Rio de Janeiro. No penúltimo dia do encontro, alguns prazeres me encheram o peito de ânimo. Pude participar de alguns fóruns e debates cercado de gente que, de alguma forma, contribuiu para nossa História. Senti-me privilegiado pelos saberes que me foram compartilhados em vários temas de extrema relevância. Saúde pública e SUS. Segurança pública e forças armadas. Narcotráfico e currais eleitorais. Meio ambiente e sustentabilidade. Pois bem, neste último conheci um ser humano cativante pela força e coerência de sua simplicidade observadora. Falo da ex-ministra do meio-ambiente e atual senadora pelo estado do Acre, Marina Silva.

Durante as duas horas de debates com especialistas na área do direito ambiental, não tive como não me emocionar (ou melhor, não teve quem não se emocionasse) com a fala da senadora. Não apenas pelo seu histórico de luta e perseverança, posto que alfabetizada na adolescência, mas pela concateneidade de suas idéias ao buscar o progresso sem com isso irromper no desmando à nossa Constituição. Afinal, ela mesma assegura que a vida humana é um bem e que a promoção do bem de todos constitui um dos objetivos da nação. Tocamos no aspecto nevrálgico: os índios, os caboclos e as populações ribeirinhas com sua cultura, costumes e tradições. Mais ainda, os direitos constitucionais assegurados às terras indígenas sobre as quais a União deve “demarcar, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (art. 231 da Constituição). E inobstante a isso, declara-se que “é vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras” (§ 5º do art. 231 de nossa Constituição).

O grande problema que enfrentamos é que nossos saberes e pensares, que representam a diversidade que nos forma como nação, nem sempre convergem para aquilo que é bom para todos, e não apenas para o serviço de algum interesse. "Precisamos aprender com a sabedoria do próximo, desfazendo-nos da falsa premissa que somente a nossa é a mais importante, a que deve prevalecer", dizia ela. "Os caboclos, os kayapós, os tikunas, os yanomamis, os saterés podem não ter o conhecimento acerca dos nossos saberes, mas eles vêem e observam, ouvem e discernem, entendem e sabem o que lhes é bom ou não, importante ou não, e eles não podem ter seus saberes desprezados" – completou.

Falar de preservação ambiental virou moda hoje em dia, mas “quem sabe, faz a hora, não espera acontecer.” “É mais fácil defendermos o que está longe de nós”, dizia ela. “É mais fácil se mostrar interessado com a preservação da Amazônia do que com o Rio Tietê ou com a Baía de Guanabara. E por quê?” – perguntou-nos. “Porque o que tá perto de nós dá trabalho”. Imediatamente me lembrei de uma palavra de São João quando dizia: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. E qual a relação entre um e outro? Simples sem ser simplista. É mais fácil dizer que ama a Deus a ter que engolir a realidade da diversidade a qual muitos não amam e sequer cogitam na possibilidade de amar de fato. Sim, é mais elegante pronunciar o pai-nosso a ter que encarar o “assim como” da oração na própria pele. Amar a Deus é fácil, difícil é ter que se importar com quem está pelas esquinas do meu bairro. Amor ao estilo “laissez faire”. “Laissez faire”. Emocionado que estava, ainda me deliciei na sabedoria da parábola do caboclo e dos formigueiros contada pela senadora. Numa outra oportunidade contarei. Por ora, a certeza que só somos qualquer coisa se considerarmos a certeza do próximo, seja ele quem for, sendo também perto de nós. Discretamente enxuguei as lágrimas em meio aos aplausos demorados dos meus colegas. Toda vez que vejo beija-flores carregando água em meio à grandeza da floresta em chamas, me emociono. Naquele mesmo dia ainda teríamos um outro fórum com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.

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