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terça-feira, 18 de maio de 2010

O debate sobre o Estatuto das Famílias na CCJ da Câmara Federal


Um debate bastante polarizado dominou o clima da audiência pública sobre o Estatuto das Famílias na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) na quarta-feira passada, 12/05/2010, em Brasília, reconhecida pela cultura local como a terra dos Candangos. O Estatuto engloba diversos projetos de lei (PL 674/07 e 2285/07, entre outros) e, em alguns deles, existe a regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo e da adoção feita por esses casais.

Críticos e defensores da união civil de homossexuais colocaram seus argumentos diante do plenário lotado, onde evangélicos contrários à união de pessoas do mesmo sexo estavam em maioria.

Para tentar chegar a um acordo, o presidente da CCJ e relator do Estatuto das Famílias, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), disse que diante de tantas diferenças e dúvidas, vai tentar encontrar um meio termo. Hã? “Meio termo”? Não me peçam pra imaginar o que poderá sair desse estatuto franksteinizado...

Para o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis, não se trata de casamento, mas sim de garantir direitos civis. "Envolve essa questão da herança, de planos de saúde, de adoção. Nós queremos nem menos nem mais, queremos direitos iguais. Nós não queremos é o casamento, nesse momento não é a nossa pretensão. O que nós queremos são os direitos civis".

Toni Reis citou declarações das organizações das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Americanos (OEA) para defender o direito ao reconhecimento da união civil e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Ele destacou que o Governo Lula também apoia a reivindicação e mencionou o programa Brasil sem Homofobia, coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. E argumentou ao final: "O Brasil é um Estado laico e queremos o que a Constituição preconiza, direitos civis".

O pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, questionou se outros comportamentos poderiam, futuramente, virar lei. "Então vamos liberar relações com cachorro, vamos liberar com cadáveres, isso também não é um comportamento?" O pastor foi muito aplaudido durante sua exposição. Malafaia afirmou que conceder os diretos civis é a porta para depois aprovarem o casamento. Ele defendeu que a família é o homem, a mulher e a prole, sendo que a própria Constituição defende esse desenho familiar.

Na mesma linha crítica, o pastor da Igreja Assembleia de Deus, Abner Ferreira afirmou que o Estatuto das Famílias seria, na verdade, o Estatuto da Desconstrução da Família. Segundo ele, ao admitir a união de pessoas do mesmo sexo, a proposta pretende destruir o padrão da família natural, em vez de protegê-la. Ele disse que todas as outras formas de família são incompletas e que toda manobra contrária à família natural deve ser rejeitada.

A vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Maria Berenice Dias, afirmou que o fato de a Constituição proteger a união entre homem e mulher não significa que uniões homoafetivas também não possam ter direitos na esfera civil.

Ela avaliou que o debate foi para a esfera ideológica. "Estou sentindo nesse espaço um clima de muito medo, de muito revanchismo, pouco técnico, pouco científico, pouco preparado”, observou. “As pessoas estão se deixando dominar por posições religiosas muito ferrenhas, e confesso que não sei porque têm medo que simplesmente se assegure direitos aos homossexuais, se assegure a crianças terem um lar", acrescentou.


Maria Berenice Dias citou decisão recente do Superior Tribunal de Justiça, que reconheceu a adoção feita por duas mulheres, e afirmou que a união homoafetiva não ameaça a família. "Argentina, Uruguai, México e Canadá são alguns dos países que reconhecem essas uniões. Quem conhece esses lugares sabe que, por lá, a família vai muito bem, obrigada", disse. Aliás, diga-se, não apenas por lá, mas em pelo menos 17 países pelo mundo.

Ontem, 17 de maio, no dia mundial de combate à homofobia, o presidente de Portugal , Aníbal Cavaco Silva, anunciou em cadeia nacional a promulgação da lei que autoriza o mesmo tratamento das uniões homo às hetero. Particularmente, saltou aos olhos seu pronunciamento ao dizer que estaria deixando de lado suas “convicções pessoais” como católico praticante para pensar mais elevado em outros temas nacionais: “sinto que não deveria contribuir para prolongar inutilmente esse debate, que só serviria para aumentar as divisões entre os portugueses e tirar a atenção dos políticos dos graves problemas que nos afetam”.

No sítio da Câmara Federal [Agência Câmara de Notícias] do dia 12 de maio de 2010 é possível ver como o assunto mexe com os ânimos da fé de muitos – isso mesmo, a coisa está sendo reduzida à esfera religiosa! -, pois os comentários postados pelos internautas reproduzem o quantitativo de opiniões sob a mesma vertente ideológica. Os mais recentes comentários diziam, entre outras coisas:

“Uma coisa é respeitar o homossexual e não ter preconceitos quanto à sua opção sexual, assim como fazemos com os fumantes no tocante à opção de fumar, ninguém deve discriminá-los. Outra coisa é dizer que o fumo faz bem à saúde. Respeitar as opções não quer dizer que todas as opções sejam iguais. A opção de não fumar é melhor que a de fumar e a opção heterossexual é melhor que a homossexual”, assina Bruno.

“Definitivamente essa proposta de regulamentar a união de homossexuais é uma desonra aos preceitos da palavra de Deus para o homem e a mulher pois contraria e se opõe à santidade do nosso Deus”, assina Robervanda.

Um tal de Vanderlei foi mais tirânico, pois disse: “Vivemos na democracia. Em outras palavras, a maioria do povo governa ou decide como deve ser o governo. As minorias devem acatar o que a maioria determinar. Este é o princípio básico da democracia. Existem países que não existe a democracia. Será que lá é melhor?”.

Daí, pergunto: vivemos num país ideal no qual as pessoas são respeitadas por aquilo que são ou vivemos num país do “ainda-não” em que se é necessário lutar com as armas da cidadania plena para o respeito à dignidade da pessoa humana? Sim, pois é preciso avisar aos desavisados que homossexualidade não é “opção”, ou seja, não é escolha de ninguém em sã consciência psíquica sofrer diante de um padrão heterossexista, o ter que passar por esse achincalhe ou, para os que se curvam ao letrismo dos dogmas de natureza moral e tirânica, o padecer pela escravidão ao medo da danação eterna!


Os debates, obviamente, ainda não levaram a muitos passos dado o abismo entre as posições suscitadas. De qualquer forma, ficam aqui as implicações sobre o cenário dos fatos que se discute em nosso Parlamento. Vale a pena ficar calado e permitir que a omissão seja a chave para abrir as portas do retrocesso no campo das relações sociais e jurídicas existentes? Ou será que alguém duvida das manobras articuladas pelos segmentos fundamentalistas religiosos junto aos seus pares eleitos graças aos seus “e$forço$” eleitoreiros?

Na semana passada assistimos chocados ao acinte da malta dos perversos transfigurados em defensores da família [a família na obsolescência do entendimento deles!], comparando comportamentos qualificados como doenças ou distúrbios psíquicos pela OMS e as orientações sexuais. Sim, a disseminação do mal foi tão acintosa e certa de impunidade que ousou verborragiar a estupidez sem máscara alguma: gays e pedófilos, gays e necrófilos, gays e zoófilos foram assemelhados na cara dura diante de uma Comissão de Constituição e Justiça! A arrogância de um deles, aplaudida pela maioria ortodoxa religiosa ali presente, foi tanta que deu seu recado às lideranças partidárias, trazendo o debate para o contexto político das eleições presidenciais:

"Eu ouvi os homossexuais fazerem aqui pronunciamentos dizendo que o presidente os indicou para a ONU, que o presidente os apoia totalmente, então nós evangélicos, que representamos 25% da população, temos que pensar muito bem em quem vamos votar para presidente da República", avisou do alto de sua insolência o suposto porta-voz de ¼ do eleitorado nacional.

Que ninguém me entenda mal, tenho lá minhas convicções de ordem religiosa, as quais me inspiram à coexistência pacífica com todos os meus confrades [de todos os credos ou não], mas justamente porque amo os princípios pacificadores que são a essência da Igreja [aqui entendida não como termo com referência a qualquer institucionalização, mas apenas como categoria dos que são "chamados para fora" [1] do arbítrio dos deuses “Poder” e “Glória”], é que não engulo os ideais ensimesmados e absolutistas da "igreja evangélica". Sim, não engulo porque não reconheço nela – nem de longe, nem como sombra ou sereno – as marcas amorosas e portanto revolucionárias daquele que se diz o seu “inspirador”, conforme leio nos Evangelhos. Creio que somente quando o que está aí passar por uma desconstrução é que a Igreja terá chance de renascer no Brasil.

Entretanto, à vista daquilo a que todos assistimos na CCJ da Câmara, cabe-me a retórica da pergunta inspirada numa das letras do saudoso profeta cantador Renato Russo: "Que país é este?". Que país é este que nega direitos aos seus cidadãos, que faz do mais nobre Palácio das Leis neste solo um palco para “panem et circenses”, conforme nos inspiram os versos das Sátiras de Juvenal? Que país é este que transforma um debate sério num solilóquio moral-religioso desses “diabólós” [2] que fazem da fé uma bandeira política?

É pra se pensar, prezados cidadãos de bem e consortes amantes da democracia. Porque parado nem mesmo os modelos tradicionais de família em sociedade não ficam mais! Não me lembro neste instante, mas acho que o nome que se dá a isso é evolução natural das coisas. É, deve ser isso. Evolução natural. Na próxima audiência pública, não poderemos esquecer de levar isso para os “diabos-acusadores” quando emergirem lá no centro da terra dos Candangos.

Por ora, à lei e ao amor! Xô, Satanases [3] !


___________________________
Texto adaptado da reportagem de Daniele Lessa no sítio da Câmara Federal, “Religiosos, juristas e ongs divergem sobre união civil gay”, de 12/05/2010.

[1] Do original grego "ekklésia", ou seja, os "chamados para fora".

[2] Do original grego, “acusador” ou “acusadores”, "opositor", "o que lança através ou por intermédio de". Diabo.

[3] Do original grego, Satan, ou seja, "adversário".

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

40 anos pra não esquecer


Um pesadelo cujo clímax surgiu no dia 13 de dezembro de 1968...

Os mais novos, principalmente o segmento dos alienados nesta geração contemporânea que só procuram saber acerca dos enlatadinhos como Big Brother, por quantos países a turnê “Sticky & Sweet Tour” vai passar ou qual o hit musical do verão, talvez não se interesse pela História que faz deste país o que é. Alguns falam mal, porém não fazem a menor idéia do que era viver naquela época sem a conquista da liberdade.

O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi o quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar nos anos seguintes ao golpe militar de 1964. Foi o AI-5 que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano.



Entre as muitas proibições que o ato instituiu estavam a proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política; a suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais; a aplicação da liberdade vigiada, da proibição de freqüentar determinados lugares e do domicílio determinado. Nem "Habeas corpus" poderia mais ser impetrado pra livrar ninguém de prisão. Por falar nela, qualquer um poderia ser preso [e morto] sem ter direito de saber os porquês...

Eleições diretas, passeatas, greves, parada gay, reivindicações, liberdade de imprensa, artística e musical? Hã?! Impensável!

Pra relembrar o episódio, o Centro Cultural da Caixa Econômica inaugurou a exposição “AI(s) nunca mais – Imagens que o Brasil não viu ou esqueceu”. [Leia +] Quarenta anos se passaram. Eles não podem ser esquecidos. Se liberdade era pouco pra Clarice Lispector, imaginem não tê-la nem por um momento...

Como Miguel de Cervantes, também creio que a liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida”.



quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Treinamentos & prazeres


6h, de pé. 7h, café. 8h, pois é. Treinamento e mais treinamento nestes dias que antecedem as eleições municipais pelo país afora (exceto no Distrito Federal). O de hoje, dobrado. Manhã e tarde. Almoço? Não houve chance. Apenas um lanchinho porque não dava tempo pra sair. E já que estava na chuva, o jeito foi sorrir. E rir. E abraçar amigos também. E ouvir muitas histórias, tanto as sérias quanto as hilárias que só a Regina, nossa sarcástica chefona, e a Ana Kelly, amiga de anos e anos, poderiam contar. Tudo isso, no entanto, pra dizer que, apesar do prazer que tenho nestes treinamentos pelas bandas do Tribunal Regional Eleitoral, estou fisicamente cansado. Aliás, amigos [e]leitores, votem conscientemente. Voto nulo não é solução de nada. E aos que forem justificar, dirijam-se a qualquer local de votação para preencher o Formulário de Justificativa e levá-lo à seção eleitoral mais próxima para validação. P.S.: Já disse, mas repito: não, não sou presidente ou mesário. Estes treinam, uma vez, apenas quatro horas.

Na imagem acima:
“Sou cidadão”, por Saulo Mohana.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O jogo político I


É, o presidente Lula pensou, pensou, pensou, mas sabia desde sempre que não poderia fazer um gol contra no jogo político. Vetar um projeto com cunho social relevante como é o caso da ampliação da licença maternidade de quatro para seis meses poderia lhe custar caro. A solução encaminha-se para a sanção, mas a ampliação para seis meses ficará facultativa ao empregador privado. Claro, vantagens serão concedidas na declaração do imposto de renda para os que “aceitarem” ampliar o alcance do benefício para suas funcionárias.

Pela proposta, as empresas que aderirem à ampliação da licença-maternidade vão receber incentivos fiscais e o título de "Empresa Cidadã". A medida vale tanto para a iniciativa privada como também para o setor público federal, estadual e municipal. A medida deverá entrar em vigor apenas em 2010.

É um toma-lá-dá-cá no acerto do jogo político. As mães, com toda razão, levaram vantagem dessa vez!




O jogo político II


Não tiveram a mesma vantagem os casais homossexuais quando o que estava em jogo era o projeto de lei que disciplina e organiza o direito de adoção. A futura-quase-aceita “Lei Cléber Matos” (em homenagem ao filho do deputado João Matos, autor do projeto, que foi adotado e faleceu) não contemplou o alcance do direito aos casais estáveis homossexuais. Questão de harmonização com outras leis, disseram os líderes do PMDB e outros partidos que só assinaram o PL (projeto de lei) depois que os artigos que mencionavam a questão dos casais gays foram retirados.

"O tema não vai ser contemplado porque não houve consenso, mas ele vai tramitar como uma proposição em separado", disse Maria do Rosário (PT-RS), autora da proposta, que deve encontrar resistências: "A Casa nunca deliberou e espero que nunca venha a deliberar sobre o casamento homossexual", declarou, da tribuna, o deputado Miguel Martini (PHS-MG).

A polêmica levou o Palácio do Planalto a pedir aos líderes governistas na manhã de ontem que a votação da lei de adoção fosse adiada para o início de setembro. A solução encontrada para salvar os outros artigos foi retirar o dispositivo. A matéria ainda pode ser revista, embora com poucas chances de inverter-se o acordo político. O que não se pode rever, por se tratar de cláusula pétrea da Constituição, é a realidade de que “todos são iguais perante a lei”. Bom, ta lá escrito. Será que os parlamentares lêem a Carta Magna? Depende, diria meu amigo alter-ego. Cada caso é um caso. Depende se a leitura da Constituição não o impedirá de abarcar votos nos seus currais eleitorais...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Ius maternus


O Congresso Nacional aprovou a ampliação da licença maternidade para seis meses (ao invés dos atuais quatro meses). Calminha lá. O projeto foi encaminhado para sanção ou veto do presidente Lula. Aí é que ta o xiz da questão: se sancionar o governo perde, segundo cálculos do ministro Mantega, R$800 milhões por ano. Se vetar, eis um risco político muito grave. As mamães (e os papais) não perdoarão Lula. Lembre-se que em terra de Abrantes cada cabeça é um voto!

A César o que é de César; a Deus o que é de Deus. Às mães o que podemos dar às mães (e ao bem-estar de seus filhos também)!


Nota: fotografia de Lu Lacerda, campeã do 23º concurso de fotografia Sony em 2007. “Maternidade”.


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