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quarta-feira, 28 de março de 2012

Crônica dos sonhos que não vivi e...


Dentro de uma garrafinha cabe tanta coisa que até um desavisado acreditaria. Fiz a experiência ainda há pouco. Tudo bem, fiz a mesma experiência momentos antes do instante que se passou; aliás, tenho feito já há certo tempo. Pra meu alimento, a esperança de viver todos os dias de forma única, de modo que cada dia carregue consigo um sabor próprio, se desdobra numa força-motriz que mexe com as pernas e produz passos distintos e de cada vez. Um dia não carrega as mesmas impressões que o anterior por mais que o olhar se turve, ensina a sabedoria dos simples. Quem é que se desespera com o amanhã quando se faz do agora uma certeza risonha?

Uma certeza é uma pérola achada. Uma verdade pessoal pode muito bem servir como desdobramento da esperança que se crê. Tem verdade que de tão introjetada na pele da certeza acaba robustecendo o alimento-fé. Rezam as cartilhas das tradições mais antigas que fé é um dom, o dom de acreditar mesmo quando todos os cenários reais se mantêm inalterados. Intactos. Desfavoráveis, por um ponto de vista. À vista de todas estas coisas, porém, maior que o dom que falei e a própria esperança que amadurece no pé, avisto pra dentro de mim um pé-de-amor. Dizem que é árvore difícil de se cuidar, mas eu não acredito em todas as coisas só porque me disseram. Afinal, a sabedoria da verdade é como tesão. O que pertence ao universo do outro é do outro. Bem, nem sempre é assim. Quem sou eu pra julgar os interesses alheios, mas há que se pensar nas muitas possibilidades de evitar o inevitável. No entanto, ao cabo de um tempo, tudo em vão. Inevitável é inevitável, assim como amor é amor em qualquer língua, corpo e paixão. Não gostaria de abrir parêntese algum. Não creio que se deva fazer correções quando se tempera o texto com a palavra amor. Amor é amor e ponto final. Ou não. Há reticências também e muita continuidade pelo tempo afora.

Nem todas as coisas são previsíveis, eu sei. Há coisas que nos acometem sem que esperemos. Quantos não receberam visitas inesperadas? Quantos não abriram correspondências sem saber direito acerca do remetente? Quem nunca teve a estranha sensação de ter sido observado para além de um simples olhar na rua? E se eu começar a falar de sentimentos, fu...! Deu e dará pano pra muita manga, das verdes às maduras. Esperar tem lá seus encantos (eu que o diga!), mas nem todas as coisas se esperam que aconteçam no exato momento da chegada do Senhor Tempo, o Mestre da Razão, aluno dileto na Escola-vida, matriculado desde sempre e com as melhores notas. O que, particularmente, anoto bem embaixo das sombras do pé-de-amor são algumas certezas bem pessoais, mas não posso contá-las todas. Indiscrição não é meu forte. Sou fraco para algumas coisas, sobretudo as que me fazem bem só de saber que existem. Todavia, segredo não é apenas uma senha. Pode ser também uma troca de olhares correspondidos mas que não se pode fazer alarde. Silêncio algumas vezes é imperativo à própria sobrevivência... Não é bem pela inveja, se bem que ela é uma merda - é como intimidade, às vezes! -, talvez muito mais pela incerteza do que se poderia interpretar fora do texto.

Viver é como escrever um texto com linhas muito estranhas e nem sempre retas. A interpretação que mencionei no parágrafo anterior tem a ver com os enredos já construídos, anos antes, por outros protagonistas. Você, eu, cada um de nós pode ser um travessão no texto. Nada que se explique, mas fica lá. É notório. No entanto, imprevisível. Você anda descalço pelas areias molhadas da praia e sente o carinho das ondas beijando os dedos mínimos depois de ter beijado todos os outros. É algo diferente. Mais ainda quando o instante se parte em mil pedaços, daí alguma coisa aparece boiando na mente. Não, no olhar! Uma garrafinha sendo carregada pelo sopro dos ventos até Vossa Senhoria: você. O detalhe é que não se trata de mais um daqueles episódios tristes de lixo lançado ao mar. É uma garrafinha repleta de sonhos. Altamente simbólica a presença de uma garrafinha de vidro bem transparente (porque o que sei e o que sinto não traz dúvidas pra mim mesmo... eu sei o que quero!).

Mas, convenhamos: é ou não é algo inexplicável – ao menos para os mortais que conhecemos as coisas pela metade? Quem conhecerá a outra metade senão os oráculos do Futuro?

O que surpreende é a curiosidade de ler no rótulo que abraça o vidro da garrafinha: “São seus”. Meus? A pergunta acaba sofrendo com o olhar duvidoso, uma vergonha pra quem disse ter fé. Sofrimento porque a pergunta soa confusa e ao mesmo tempo questionadora. Se são meus por que estão pra fora de mim? Pior, presos dentro de uma garrafinha de vidro? E que sonhos são estes que não sei mas que se lê serem meus? Nada que não se possa saber de imediato ou aos poucos, depende.

Tudo na vida depende de alguma coisa, de algum esforço, de um estado de ser ou saber ser. Daí, decorre espocar a rolha rumo à sua própria liberdade de papel cumprido. Segurar firme a garrafinha e avistar a despedida feliz da rolha no vaivém das ondas, sempre por cima delas, tem lá seus significados pueris.

E o que há por dentro da tal garrafinha? Uns versos musicais, presumo de início. Presunção, às vezes, não é empáfia. Isto, porém, não vem ao caso agora. Um outro questionamento que me sobre ao coração é sobre os sonhos. Afinal, sonhos são para ler ou para viver? Nem um nem outro verbo, conjugo com o pensamento. Sonhos são para sonhar e aguar as terras e as raízes do coração. Mas os versos estão lá como nutrientes daquelas terras e segredos revelados naquela garrafinha. Li e reli a ciranda daquelas palavras incontáveis vezes. Inevitável foi sussurrar com a voz afiada da alma tratar-se de versos musicais. Não sei, a sua musicalidade poética acabou falando mais alto. Lembrei de uma canção, acho que furtando um cadinho daqueles versos pra mim: “eu corro pro mar pra não lembrar você e o vento me traz o que eu quero esquecer. Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar, nos teus braços é o meu lugar... Contemplando as estrelas, minha solidão, aperta forte o peito, é mais que uma emoção...”. Uma canção que noutro dia ouvi e pareceu de carne e osso. Eu vi a canção!

Privilégio saber que algumas canções não apenas se ouvem, mas se vêem! Os versos musicais que o digam!

Não são exatamente palavras brincando de ciranda, embora pareçam no primeiro olhar. Os versos são realmente musicados e a lembrança de fato existiu. O rótulo da garrafinha não se equivocou, por mais que eu não entenda todas as coisas justamente porque conheço em parte as coisas neste instante. São meus sonhos sim, não duvido. Certeza é uma roupa que não tem lado avesso, dos dois lados é sempre tecida de fé. São meus não em razão de possessividade pronominal. O lance é pra lá de gramatical. É visceral. É expectativa que engravida a esperança pra um Futuro que ainda não conheço.

Os sonhos, de repente, não passam de justificativa pro texto. Sei lá, tem palavras que a gente não encontra significado léxico. Acima das palavras apenas esta sombra que jaz ao redor do tudo que há debaixo do pé-de-amor. Meu pensamento. Minha lembrança. Meu desejo. Minha esperança.

O mar não foi exatamente o mar, mas uma visão pessoal de mundo. Algo inifinito e que carrega surpresas inesperadas como o vaivém das ondas que levam rolhas e outras dimensões de nossos desejos...

E a tal garrafinha, o que poderá ter sido? Ah, isso não conto não. Tem coisas indecifráveis para o olhar alheio. Já disse que sou discreto, só não tinha assegurado.

Eu prefiro dizer que coisas indecifráveis nada tem a ver com cifras musicais. São notas ou símbolos que poucos traduzem. É tal qual o fruto maduro da fé, o qual nasce na hora que tem que nascer. É tal qual fatos que não se vêem mas que nos seduzem com abraço apertado das convicções nuas e das alegrias só nossas. Bom repetir: Só nossas. Pra sempre nossas, mesmo que somente o Futuro esteja hábil a afirmar categoricamente qualquer coisa pra lá do instante chamado agora. É pra sempre porque tem a ver com os desejos indecifráveis de alma. É o que cabe dentro de uma garrafinha chamada “ser”, o ser indivíduo, o ser amante, o ser apaixonado, o ser e não meramente “estar”. Há muita diferença entre um e outro. Assim é cada dia que nasce aqui dentro e lá fora do olhar da gente. Assim é com o conteúdo de cada garrafinha que chega ou que um dia chegará pra gente entregue pelo Senhor Tempo.

Há coisas que sei, outras que estou aprendendo a saber debaixo do pé-de-amor. Só sei que garrafinhas com cifras indecifráveis chegam quando tudo se encontra descalço em nossa vida. Sem entraves nos pés, nos dedos, na mente e no coração... Prontas para serem totalmente nossas, definitivamente!


quinta-feira, 22 de março de 2012

Do que se pode fazer para não ser



Posso passar uma vida inteirinha brincando de ser feliz, e, dependendo do ambiente onde esteja plantado, aprender a sobreviver com as máscaras que me fazem ser ‘aceito’ no mundo que escolhi viver...


Posso ser de todas as cores porque, no fundo no fundo, não é a cor da pele que importa, e sim a da maquiagem no grande palco chamado Vida... sobrevive e se dá bem quem aprendeu a arte de ser cínico, matando leões todos os dias sem que ninguém perceba tal carnificina que ocorre pelo lado de dentro da alma...


Posso não entender algumas coisas, posso até invejar os que não passam pelos mesmos porquês que eu, posso dar golpes desesperado por me dar bem, custe o que custar, até fazer terceiros e terceiras para sempre infelizes e traumatizados na condição de vítimas de minha covardia. Eu sei que posso! Tantos não podem... e fazem?!


Posso atravessar todas as fases da vida até atingir as cãs e colecionar nas mãos os calos de tantos golpes desferidos contra mim mesmo... quem se importa? Posso sobreviver em meio a tantas estratégias que nem me dou conta neste momento... até empedrar de vez!


Onde o ser humano que um dia existiu?


O que fiz com as chaves de felicidade que um dia me foram entregues pelo Dom da Vida?


Onde a alma que gozava saúde no ser e aninhava sonhos de criança – lembrando que da simplicidade delas é o Reino dos céus - ?


É possível que algum dia, nos limites do último fôlego, às portas de uma Grande Viagem, uma Voz desfira o golpe final: “- Insano, hoje pedirão tua vida... e tudo o que você empreendeu em ações e omissões diárias de esvaziamento de si mesmo, pra que te serviu?”


Posso tantas coisas, mas e a mais simples delas? Viver e não meramente existir? Abrir portas com as chaves que um dia recebi de um par de mãos, não lembro de Quem, acho que sei o Nome, mas fiquei confuso se ainda me reconhece ou não?


Na dúvida, se ela - a tal dúvida - ainda existe em meio a tanto esvaziamento – eis um bom sinal, nem tudo está perdido! – o que fazer para deixar de não-viver e ressuscitar do pó das cinzas?


Eu acho que sei! – Você sabe?


Como o poeta que não morre, o conselho de Drummond é apenas uma mãozinha:


“Chega mais perto e contempla as palavras, cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?”


O poeta pergunta pra mim, coisa inexplicável mas que dá pra sentir numa simples releitura... talvez por isso eu acredite que é pra mim que pergunta, não sei se é pra mais alguém. É como se me dissesse, clamando pela poesia – que não é pedra, mas clama! -, se ainda estou com as chaves que um dia recebi daquelas mãos de Alguém cujo Nome nem mais sei após tantos descaminhos pra longe de mim, me pedindo pra abrir as portas que fechei não vivendo, não sendo, não eu até não-sei mais de mim...


Eis o ponto crucial! Alguma coisa bem firme me assegura que aquela Voz pode esperar... o Amor sempre espera porque tudo espera. Tanto o pronome quanto o advérbio esperam tal qual o Amor que espera porque tudo crê... E se crê de todas as formas é porque, no final das contas, o Amor jamais acaba.


Ainda não é tarde demais...


O que faço deste ser humano que achou que podia a vida inteira pra longe de mim mesmo?


O que qualquer ser humano ainda pode fazer se assim viveu (ou morreu) a vida inteira?


Dos outros não sei; quanto a mim, está decidido:


Onde eu coloquei o raio dessas chaves!?

domingo, 18 de março de 2012

Crônica dominical de final de verão


Cachorras, sexo e brioches – numa época de ofertas fáceis, amor é privilégio que poucos e poucas querem ter...



Estava procurando uma receita de bolo simples. Queria alguma coisa bem simples, porque de simplicidade é que a vida se torna rica (bela, quero dizer).


Daí, folheando uns artigos, encontrei uma história retratada no quadro de um psicanalista. “Por que as cachorras acabam se dando bem?”, perguntava a leitora. Aquilo me chamou a atenção. Viajei pra dentro daquele contexto e foi inevitável pensar nas letras de músicas que ouvi, aqui de casa, na noite de ontem, quando de alguma comemoração na vizinhança... Não, não enlouqueci nem soltei os meus cachorros! Souberam respeitar a lei do silêncio. Até lá, no entanto, ouvi várias vezes as letras enigmáticas sobre os seres-cachorros...


Mas o artigo me interessou neste momento de tanto protesto a que mergulhei. Protesto por perceber a ruína dos valores e da própria ética no dia a dia. E continuei lendo aqueles parágrafos até me deparar com uma letra de Gabriel, o Pensador, que na sua linguagem musical foi capaz de dizer “não inveje as cachorras...”. E por que disse isso? O articulista se adiantou em responder... “Elas ‘dão muito’... mas não levam nada... e envelhecem amarguradas.”


E prosseguiu: “Ora, até para ter plenitude de prazer sexual tem-se que ter mais do que um corpo de macho ou fêmea em atrito sexual sobre a pele. Gozo é privilegio do amor e da confiança; não do sexo.


A maioria das mulheres que conheço que ‘dão muito por aí...’, não sabem até hoje o que é prazer. Confundem a biologia animal do prazer com a plenitude dele. Aí é que tá: essa plenitude só vem do amor. Prazer sem amor existe, é verdade, mas não é profundo e nem realiza o ser.


Sexo sem amor enjoa como qualquer outra coisa...


O que faz do sexo algo sempre novo é o amor... Nunca desista do amor, pois um dia ele te achará! Portanto, cuide de você... investindo em você... se amando!”


Tenho que concordar: amor, esse ‘sentimento-dom-maior-que-meu-desejo’ está ficando cada vez mais raro, diz-se até que nestes dias tão egocêntricos a tendência é se esfriar de muitos corações. Até a Bíblia dos cristãos assegurou isso sem precisar conhecer a contemporaneidade. E eu creio. Por isso, pra mim, uma pergunta pertinente a se/me/nos fazer é a respeito do que sentimos fome.


A fome de quem almeja amar sem posse, sem controle, sem coisificar o ser que ama, mas deixando-a(o) livre pra ser com saúde emocional, deve ser a de construir caminhos de certeza. Quem se ama, por exemplo, não se angustia por ter sido esquecido(a). Quem se ama, sabe que o amor nunca nos deixará na mão, desnutridos. É desta certeza que falo. O amor existe. E a certeza de que ele existe é sempre um dos meus mais fortes alentos para viver neste mundo onde quase nada do que de fato é, é visto como sendo, pois, aqui, só vale o que parece ser. Porém, mesmo passando alguns dias ensimesmados (coisas minhas, reflexões, sonhos que mudam de cor, vontades não supridas, etc), não consigo deixar de crer no que está arraigado em mim como uma espécie de fome saciada: a certeza de que o amor é!


E quanto a fome das cachorras e dos cachorrões?


Tenho um amigo que responderia isso de uma maneira bem peculiar (sem deixar de ser sensata): que elas e que eles comam brioches já que não tem (porque não fazem questão de ter) pão-amor!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

só mais um conto de Dona Vida_____________



- Olha só que florzinha mais bonitinha que eu tô vendo... {risos}

- É, mas essa florzinha aqui não abre em qualquer plantinha nem pra qualquer jardim...

- Mas eu sou uma plantinha fiel.

- Duvido!

- Olha, não duvida que eu provo...

- Então, prova! {risos}


* * *

Quatro semanas depois o lance acabou. Dona Vida bateu à porta certo dia e os chamou para passear no chão da realidade, nua e crua, debaixo dos percursos naturais e do sol escaldante... Tudo era bonitinho demais, perfeitinho demais...

Dona Vida não perdoa: sem raiz, não há plantinha nem florzinha que dure muito tempo!

Que o digam o verão e seus amores passageiros... a internet e suas quimeras de pura projeção...



sábado, 4 de fevereiro de 2012

meu lado B________________



Comida pegando fogo de tão quente. Pergunto: pra quê? Como curtiria os excessos? Imagina um pão entupido de manteiga, margarina ou lá que seja maionese. Mais uma vez pergunto: pra quê? Não é melhor o equilíbrio? Outra coisa, gente sem-noção. Não curto. Acho que não preciso explicar os porquês. Sem-noção é adjetivação de inconveniência. Dispensável, todos entendem (exceto os sem-noção, esses nunca respeitam os limites do outro). Até que gosto da noite (juro!), mas a madrugada pra mim só tem sentido se for pra dormir ou mergulhar nos braços amantes. Nos últimos longos tempos, tem servido apenas para dormir... Quando quero a quietude como inspiração, busco o momento em qualquer lugar apropriado, e não ao socorro precípuo da madrugada. Não curto de jeito nenhum os lugares altos, o odor impregnado de nicotina, a louça largada dentro da pia, bem como meias furadas, chá de boldo (embora ame chás!), arroz queimado, bolo solado, remédios pra dormir, remédios de qualquer jeito, pássaros engaiolados, insetos, livros de auto-ajuda, paisagens sem árvores, fé sem atitude, atitude sem viço de coerência, música eletrônica, roda de pagode, ambientes sem janelas, quartos escuros, escada sem corrimão, chats (um saco!), unhas grandes, pêlos rapados, tintura no cabelo, andar de moto, atravessar ruas com sinal aberto, calor em excesso, frio em excesso, duvidar em excesso e o exceder no excesso. Embora tenha falado dos excessos, convenhamos, não oferece prazer ao paladar um pão sem manteiga. Conveniências à parte, que se registre que gosto de samba e dos batuques de percussão! No entanto, não é assim que me coloco ante os partidos de direita, os guetos como diminuição geográfica identitária e o Deus implacável da religião. Saiam de retro! Distância quero de toda forma de mentira, de toda forma de covardia, bem como da preguiça, do descaso, da grosseria, das verdades impostas, da meia-verdade, do egoísta, do ególatra, de gente problemática, de gente que diz mas não faz e de gente que ultrapassa o direito da existência do outro. Não gosto também de gente que se vitimiza só pra buscar uma atenção como esmola. Penso que é tão insuportável quanto o ser vaidoso (não pela estética, mas em razão do sentir-se superior aos demais). No desafio do que não curto, afirmo que não suporto projeções: o cara é, por exemplo, mentiroso e crê que todos são assim também. A mulher é infiel e crê que todas e todos são assim também. Isso pra mim é projeção. Pra mim não é questão de mau-gosto e sim de injustiça para com quem não for assim. Crianças adultas e homens infantilizados também não me soam bem. Há que se respeitar as estações da vida sem medo de ser o que se é em cada uma delas. Passaria o dia inteiro pensando em muitas outras coisas que não me atraem (às vezes, até me causam indignação) e cuja lista entesa como um arco e flecha: tudo o que é “fake”, a desesperança, a VIL-olência, a sequidão de sonhos, os estereótipos, os barulhos inchados de desrespeito, a aridez de idéias, o não-ser, etc. O que, todavia, colocaria como "top of tops", ou seja, como o que me causa maior distanciamento do meu bem-querer, seria o amor sem entrega e o amor como produto (pra não dizer "coisa") de um capitalismo internalizado como uma espécie de “modo de ser com as pessoas”. Há que se ter respeito. O outro – o qualquer outro para além de minhas fronteiras! – pode ser alguém com aspirações completamente diferentes... Pelo que já me expus, dei-me como cara à tapa a muita gente. Um aviso, porém: não me leia interpretando pra si o que é apenas meu próprio olhar de mundo, de vida, de mim mesmo... De repente, você curte pão ensopado de margarina e não tá nem aí para as taxas de colesterol LDL ou HDL, bebe em excesso, curte um bom pagode na roda de amigos, troca de namorado(a) como quem troca de camisa, enxerga o amor como mera satisfação fisiológica e até se esconde nos estereótipos pra se auto-proteger. "Cada um no seu quadrado", canta a sabedoria simples das massas. No entanto, em meio às linhas entrelaçadas do meu pensamento exposto nu e cru, eis-me numa leitura-de-mim conforme meus próprios sinais em forma de letras e na textura de palavras. Eis-me sendo assim no lado B da vida (sobre o lado A, antagônico a este, o das minhas paixões e curtições, direi mais tarde em outros tecidos de palavras costuradas)!



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

uma crônica após tanto tempo de ausências neste blogue


Vivem-se dias de pressa. Alguns entendem como algo bom. É bom ter pressa, asseguram. Otimiza-se o tempo. É o que muitos consideram. Sou das antigas, por mais que o tom de cor seja embotado no meio dessas palavras. Eu sei que sou um cara das antigas. Neste fim de semana fiz algo que já não fazia há alguns meses (poucos meses, confesso). Fui até a agência de correios do bairro onde moro. Postei uma correspondência. Estranho dizer isso, mas pra muita gente é coisa das antigas. Não tiro a razão, principalmente porque um e-mail sai e já chega com a resposta em questão de minutos, dependendo do destinatário. Dia desses também saltei do metrô, ali no Largo do Machado, e me encontrei (pra não dizer que me perdi!) num daqueles quiosques de flores e nem me dei conta que demorei horas entre pétalas, cores e aromas. Eu quis dar pra mim mesmo um bouquê. Nada demais, é só porque gosto de receber flores e a última vez que recebi de alguém deve ter mais de meia dúzia de anos, certamente. Enviar flores, escrever cartas e postá-las por método convencional, escrever bilhetes, ouvir “The Carpenters” e “Chicago” (pra evitar de dizer que amo ouvir Callas e Piaf), sair à frente e segurar a mão da dama quando descemos de algum lugar, visitar idosos numa instituição asilar e ganhar uma tarde inteira quando estou com eles, entre outras coisas acabam por me estereotipar como um cara com hábitos, diria, antiquados para a pressa da contemporaneidade e os costumes que nascem a partir daí.


Ninguém tem tempo pra muita coisa, tudo é resumido aos estalos e aos cliques do momento. Se escrevemos um e-mail, por exemplo, e não o respondemos em questão de minutos, horas ou, nos casos mais raros, em até um dia, entende-se que não se deu a importância devida. Esquecem, no entanto, que pessoas são pequenos mundos particulares. Eu, por exemplo, costumo demorar dias pela resposta do e-mail, salvo raras exceções. É o velho hábito das cartas convencionais arraigado aqui dentro. De telefone celular nem falo mais. Nunca conseguimos ir além de um namoro. Acabo tendo por uma espécie de necessidade, mas daquelas necessidades que não são vitais. Que fique claro.


Quando o assunto é lincado aos terrenos do coração (não falo apenas de paixão, mas de qualquer envolvimento afetivo, inclusive o fraternal), não fujo à regra dos meus sentires mais inatos. Talvez porque meu olhar lançado aos pés da vida seja absorvido pelas verdades que me vestem. É uma possibilidade, quem sabe. E como me vestem as minhas verdades? De roupas simples, tecidos modestos, nada extravagantes, mas convictos e seguros de como posso usá-los (e até onde me deixarão confortáveis). Sou daqueles que acreditam (sim, eu acredito!) nas possibilidades de amar quanto mais me ofereça, sem, contudo, me perder no processo. Não é porque se ama que se deixa de ser quem se é desde sempre! Afinal, duas estacas sustentam minhas convicções: a certeza-de-mim que é produzida pela fé e a esperança de continuar sendo-sem-fim como um produto inacabado mas que persegue um alvo, o ser cada vez mais humano. Eis por que talvez não tenha desistido até hoje de suportar os sonhos grávidos que ainda não pariram. Sou pai de muitos deles, mas ainda não posso segurar as crias. Nem todas nasceram. Algumas nem nascerão. São as paixões que me levaram ao delírio mas que, por alguma razão, se foram sem que eu notasse que não eram pra mim...


Gostaria de descortinar um parêntese e lhes revelar algumas confissões. Um cara das antigas como eu se assusta com o assédio. Sábado passado, depois de sair da festinha de aniversário divertidíssima de minha irmã, corri para me fazer presente na comemoração do aniversário de outros dois amigos. E não é que foram três os pedidos pra ficarem comigo? O último pedido foi tão insistente que me constrangeu. O pior é que o não querer, às vezes, é lido como bancar o difícil. Como assim, ficar por ficar? Como diria a retórica da blogueira Cleycianne: cadê o romance? Cadê o governo? (risos). Eu remendaria: Cadê o interesse pelo que se é? Uma outra confissão que faço tem a ver com o que espero. E o que espero? Da vida, os frutos de minha semeadura feliz. Dos projetos de vida, os sinais confirmadores de que ainda há sempre o que melhorar, sem jamais desistir. Dos terrenos do coração, uma semente que germine e se enraíze com fortável na terra que lhe acomoda, terra simples, mas umedecida de afeto que acolhe e segura na mão até perder o vigor pela idade.


Fechando os parênteses, a pergunta que me soa uma sinfonia de expectativa é o que me embala tanta certeza. Nem sempre estou certo. A prova é que já caí inúmeras vezes! E que bom que esses processos me habitam; deve ser um prisão – um adoecimento constante – crer que não se erra! Mas quero um dia poder acertar de uma maneira diferente, sabe. Olhar, sorrir, falar sem dizer palavra e finalmente encontrar uma outra resposta pra fora de mim, que venha ao encontro da minha própria e decida – ambos decidamos! – a ser resposta mútua e satisfatória. Quando virá? Não sei. Como virá? Certamente por meio de nossas verdades, nunca pelo trágico manuseio das aparências. Assim, que todos saibam pra fora das letras que não sou bonito, não tenho o melhor sorriso, não sou rico nem carrego estirpe. A vida me presenteou com a gana de persistir até tornar tudo um Dia Perfeito. Batalho sob o sol escaldante, pego ônibus e metrô, me doo, ponho cara à tapa, fui liberto pela Força esmagadora do Amor do auto-engano e do medo de ser flagrado pelos seres humanos, tenho verdadeiro horror à coisificação do ser humano e creio com todas as minhas forças que é possível abraçar todos os dias a mesma pessoa por muitos e duradouros anos, sentindo a pele ficar flácida e enrugada com o passar dos anos. O que sou? Um cara das antigas num mundo cibernético? Um ser humano, aprendiz-errante. Eis o que sou-sendo. Sim, pois os processos dentro de mim não se cumpriram. Sequer ainda encontrei os braços certos pra abraçar por toda a vida. Sem pressa, obviamente.



quarta-feira, 2 de março de 2011

Avisando que preciso de tempo...



Sabe quando você percebe que há flores não cuidadas no jardim? Sabe quando as semeaduras, por si só, não tecem a fertilidade do solo nem trazem água pra dentro das canaletas? A palavra é quase certa que me distrai. E digo quase porque sei que já me colocou de ponta a cabeça em textos afora. Ando distraído, confesso. Mas não é difícil pensar que há uma quantidade enorme de ações pra serem executadas com palavras e significado. Tenho, literalmente, uma dúzia de excelentes obras pra serem lidas, uma a uma aguardando a sua vez. Ontem, irresistivelmente, puxei das prateleiras da Saraiva a obra “Ostra feliz não faz pérola”. Quase quinze minutos devorando a obra, de pé. Segurei-me, mas não resisti. Comprei. O ‘Farelos & Sílabas’, de vez em quando, me suspira idéias e me inspira o desejo das saudades. Saudades de quem precisa atualizar as linhas, os fatos, o prazer de parir palavras...

Há flores não cuidadas nos textos que ando produzindo, quase sempre deixando-os à margem. O tempo é curto, confesso pra minha ansiedade e meu sereno desespero. Não convenço. Não começo. Não saio do papel. As palavras me traem com consentimento. Prossigo. Persisto. Nem sempre consigo. Quem não recebe meu consentimento é o tempo, que não titubeia; que, mesmo curto, avança impávido e, às vezes, impiedoso...

Debaixo da sombra das paredes nesta selva de pedra, após os contratos redigidos, mergulhei num estudo sobre a nova ortografia, projetos traçados que o meu futuro compartilhará no momento oportuno. As horas foram engolindo o tempo e o tom de meu vigor. Umas gotinhas de cansaço molharam alguns sonhos. Ao fim do dia, voltei pra casa pensativo, dentro do metrô. Meu pensamento naquele instante estava descalço, surrado pelas reflexões. E tem estado assim ultimamente...

À noite, na companhia do travesseiro e dos lençóis, tem horas que um friozinho assopra ventinhos pra lá de gelados. Acho que já era madrugada quando meu peito e algumas necessidades vitais quase morreram de frio. De repente, lembro que o pensamento voou da cama e me recordou o último ato de “La Bohème”, de Puccini, com Rodolfo gritando e soluçando por sua amada Mimi, que morria de frio no quarto. Do lado de fora de mim, no entanto, nada se comportava gélido ou morto. Ao contrário, estávamos eu e as idéias descalças e confortavelmente vivas. Estranho tudo o que disse, mas penso que somos parte de um todo, de um grande jardim dentro de nós... Deve ser por aí mesmo! Creio que me assisti criando brotos, rasgando alguma parte de mim pra folhas novas nascerem...

Mas este mergulho pra dentro das emoções é o que me aponta a certeza do crescimento, o de me perceber vivo e produzindo novas fases dentro de mim. Este foi um tempo só meu, um tempo de certezas sendo fecundadas!

Há, porém, certezas e certezas. Uma delas é a que percorri cantos vazios e outros floridos nos meus jardins de alma. E há apelos sendo feitos tanto quanto há reivindicações justas e necessárias de um homem de quase meia-idade. E o que eu digo diante de tudo isso? “Está tudo acabado entre nós!”, como dito por Rodolfo à Mimi em “La Bohéme”? É pra ser assim?

Não, não pode ser assim!

Eu preciso conduzir a roda viva da vida por entre os cantos que aprecio e por aqueles outros não percorridos. E que se dane se atravessei os anos distraidamente, cego-de-mim, se engoli etapas, se me recusei a dançar com a vida quando mais jovem, se tanta coisa eu quis em outros tempos mais obscuros de negação de minhas verdades, se tanta coisa que não é nada se eu comparar ao que ainda pode ser e me fazer cada vez mais feliz!

Não quero terminar o texto e ficar triste ou perplexo!

Eu só peço um tempo, uma necessidade latejante de reavaliar algumas coisas, catar folhas secas e limpar as cores vivas de minha natureza. Desde ontem a idéia me persegue: eu preciso cuidar {mais} de mim e das {muitas} ações que nascem de meu ânimo e de minha esperança particular. Dessa vez até meu corpo e todo o imenso coral de testosterona que por ele canta, me pedem atenção!...

Quero dar-me tempo pra umas coisas e nem tanto pra outras. Decidi que perco a inteireza do necessário tempo nos programas de relacionamento social. Necessário pra mim, quero dizer. Não irei excluir o twitter e o facebook {tal como o fiz com o Orkut há mais de um ano atrás}, mas um afastamento premeditado e coerente com os rumos que desejo me conduziriam ao tempo que quero de volta pra mim. É um reinvestimento do tempo que me concedo. Nada muito novo, já tomei medidas assim outras vezes. Decidi que preciso de reajustes, algumas podas, uns amassos firmes!

Sair aos poucos, de fininho, à francesa, é interessante? Quem sabe... Eu ainda não sei, apenas considero.

Só não quero pegar os amigos de surpresa. Talvez, por isso mesmo, cuide pra que essas idéias germinem em palavras exatas, nada furtivo ou incoerente com o carinho que sinto pelo que faço e por todos os amigos que tenho no universo virtual. Talvez o faça para os próximos dias, quem sabe depois do Carnaval ou do sono que se perdeu na cama...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma crônica sem pretensão alguma de matar a sede


Sabe quanto tempo um plástico dura pra se decompor? Não sei dizer exatamente, mas é coisa de séculos! A resistência do material frente às intempéries e a todas as demais formas de erosão natural é algo que me chama a atenção. A coisa dura porque é resistente. E é resistente porque sua constituição – aquilo que realmente é desde o âmago! – favorece a integridade do material por anos e anos.

Nesse calor de matar carioca, tão acostumado aos quarentinha graus dos verões, não tenho outra alternativa senão me refugiar nos pensamentos. Eles me refrescam. É a explicação. Fico mergulhado em mil pensamentos sobre a descartabilidade e a resistência nas relações – qualquer uma, desde que humana – enquanto giro lentamente a garrafa de água mineral nas minhas mãos. O plástico, a sua textura e sua utilidade me inspiram numa série de vaivens de idéias e de algumas projeções também. Eu mesmo queria ser assim, mais resistente às intempéries por natureza. Mas não sou. Isso é bom, não chega a ser ruim. Saber que, diferentemente das garrafinhas de água mineral, preciso desenvolver meu potencial para criar possibilidades e assim caminhar por elas, acaba me pondo no meu eixo original. Ser humano é reinventar-se, é renascer a cada inconstância, é desabrochar sem perder a gana de florescer, tenha ou não tenha mais primaveras na estação. Acho que o eixo se equivale a tudo isso...

Mas nem tudo que é plástico é garrafinha. A maior prova disso está no mundo das virtualidades, o universo pra dentro do qual o limite de uma relação está a um toque dos dedos. É pelos caracteres que o programa impinge na tela que muita gente constrói seus encantos e suas muralhas. Eu, por exemplo, que sou forte, gostoso, acabei de pintar meus olhos de azul (baratinho, baratinho, graças ao photoshop!) e retocar uma dezena de imagens só pra ficar com peitoral definido, cabelinho empinado em gel e óculos rayban. Tá vendo só! Eu me pegaria, caso me desse mole. Olhando para as imagens, a imaginação instiga a curiosidade. Não agüentei e acabei pegando MSN e facebook da criatura, no caso, eu mesmo (ou o “suposto eu”). Não poderia perder a chance de ficar comigo mesmo, justifico-me. Depois que me vi de cuequinha branca numa pose pra lá de sedutora, as cabeças pensaram ao mesmo tempo e a uma só velocidade: deve ser um tesão na cama! ‘Quero você!’, me disse a mim mesmo num bate-papo pelas madrugadas. ‘Você é um carinha raro, tudo o que sempre esperei!’, reafirmei pra parecer mais convincente. Não é que deu certo!? Marcamos nosso primeiro encontro neste final de semana! Tudo transcorreu conforme o ritmo dos processos que nós mesmos construímos, alguns mais sagazes nessa caçada; outros, menos. E, casos mais raros, alguns mais ingênuos e românticos demais, coisas fora de moda na vanguarda dos relacionamentos plásticos. Que tolice! “Un non-sens absurde”, me diria a perspicaz Simone de Beauvoir. Obviamente tudo isso não passa de uma ficção pra lá de absurda. Por outro lado, absurdo ou não, a gente vai plastificando nossas relações {e nossos relacionamentos} à medida que adere esse ‘modo de existir’ como estanque às carências photoshopadas. Nem sempre somos água mineral, somos garrafinhas plásticas mesmo!

Hoje, esperando um carro na rua, encontrei-me com Fernanda. Nome fictício, claro. Não somos amigos, mas nos tornamos muito próximos pelas razões do dia a dia: a gente mora no mesmo bairro, temos vários amigos em comum e costumamos pegar ônibus juntos. Conversa vai e vem, ela me pergunta se poderia tirar uma dúvida sobre questões de direitos de herança e doação de imóvel. Tiradas as dúvidas, me conta sobre o desejo de fazer testamento em prol de sua companheira de vinte anos de relação. Explicando-lhe sobre direitos homoafetivos, nos ativemos ao ponto crucial de todos aqueles relatos: o carinho, o respeito e o companheirismo, fruto daquele amor que ardia duas décadas depois de iniciado. Tem segredo?, quis perguntar, mas desisti pela certeza da resposta que é particular de cada um. Cada um precisa saber, no mínimo, se está disposto a um relacionamento que mostre a cara {e o coração!} sem photoshop. “Sabe qual o segredo?”, ela me perguntou para surpresa de minha discrição. Gostaria de saber, respondi. “É saber que uma igualzinha a que eu tenho não encontrarei mais!”, resumiu na sua poesia de valor.

Claro que não iria esmiuçar aquela história, até porque não sou psicanalista nem teria razão pra fazê-lo mesmo que o fosse. Precisei saltar antes dela, acabei me despedindo e felicitando-lhe pela certeza de ter encontrado alguém de verdade, de carne e osso, de pele cansada e olheiras nas noites mal dormidas, de coração pulsante nas euforias e nos limites da emoção, de acertos e de equívocos que ultrapassam o desejo instintual numa madrugada e o frisson dos gemidos paridos nos vaivens dos quadris. Na pressa, na hora de saltar, esbarrei e deixei cair a garrafinha de água mineral. Ela se adiantou, segurou e me devolveu. “Cuidado pra não cair de novo!” E completou em seguida: “É assim que digo pra mim mesma quando estou nos braços da mulher que escolhi pra amar!”. Hã? Como assim? “A gente cai em tentação todo o dia, mas não é por isso que eu vou largar meu investimento mais seguro, a minha vida!”, filosofou. Ela é a sua vida?, perguntei só pra questionar. “Não, eu é que não encontro vida, vida de verdade, longe do prazer da companhia dela!”. Sorri. Saí com a garrafinha vazia mas com os pensamentos mergulhados em mil idéias. Alcei voo numa certeza enquanto atravessava a Avenida Passos, no Centro. Amores de plástico não matam a sede durante toda a estação. É preciso ser água mineral pra nós mesmos e para os outros. Com ou sem gás? Ah, isso já dá pano e letra pra uma nova crônica...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Crônicas do mundo virtual – I



Quero construir uma casa bem segura, mas não dispenso o conforto. Uma casa tão linda quanto firme, é o que preciso. Obviamente, beleza e conteúdo são decorações que dependerão apenas de meu olhar. As paredes precisam ser altas e ter bom prumo. O telhado não precisa ser clássico, mas experiência nas tempestades é uma virtude indispensável. Preciso de material para começar a tornar tudo realidade, dar forma e formosura ao sonho. Um amigo me indica coisas interessantes a bom preço. Só tem um probleminha: a quantidade de promessas “fakes” é enorme, o que exigirá paciência monástica e uma capacidade absurda de discernimento das propostas, das chantagens e até das apelações. Preocupado e ao mesmo tempo curioso, entrei. Vamos ver no que dá, pensei. Como há de tudo na vitrine indicada! Tem material que a gente jura ser sólido, mas se dissolve num simples gesto de contrariedade. Tem ainda aqueles materiais cujo mostruário é pura jura de tudo o que você estiver precisando. Eles juram que serão a melhor aquisição feita por você. Não agüentam um tranco, o produto quebra pela falta de consistência. É apenas ‘pra inglês ver’. Vi alguns outros querendo a todo custo ser peças de uma casinha feliz, bem estilo família. Pura malandragem, logo percebi. Só estão querendo sair da vitrine e contabilizar mais um 'consumidor' desatento. É, a lei do mercado não perdoa os desavisados... Pareço frio com o teor da palavra, mas ninguém duvida que para muitos pessoas são coisas. E coisas-pessoas se garantem em meras estatísticas de consumismo, coisa de gente diluída no próprio ser, sabemos. A regra é não ter regra. Se alguns não se importam em ser coisas-pessoas, tudo o mais se apequena. Rodando por todas as seções, caminhando por ‘ene’ corredores, dos mais simples aos luxuosos, a constatação é que um bom material rarissimamente se encontrará por aqui. Estoque esgotado. Sem previsão de reposição. Dei-me conta dos elementos encontrados nas esquinas da natureza, produtos que se podem olhar e até tocar por fora das vitrines. Madeira de lei, virtude que enobrece. Material sólido para uma casa firme. Elementos personalizados, únicos. Produto de incomparável qualidade. Estão lá. Às vezes, bem pertinho de nosso território. E é seguindo as setas de minha intuição que continuarei meu rumo. E meus sonhos. E minhas esperanças. E tantas certezas famintas de concretude. Tenho uma casa pra construir! Por aqui, só de passagem. E olhe lá!

Adeus, vitrines!


Nota de rodapé: estou voltando e farelando sílabas aos poucos, pegando tijolinhos e poeirinhas de pão de cada vez, montando o texto sobre meus sonhos, untando as letras com saudades e tantas outras coisas que nem sei... Há quantos meses não postava por aqui! Estou surpreso!...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um terceiro momento


Estou vendo os cabelos brancos refletidos no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes. Eles despontam entre os tímidos cachos e se esguicham por sobre o castanho escuro [ainda] predominante. Pensando na possibilidade de uma invasão deles – o que seria prazerosamente bem-vindo! – é que se percebe a dimensão do finito sobre as coisas e do infinito sobre o que nos constitui. Não me refiro ao envelhecimento, o que é tão natural quanto a sede, a fome e o frio. Penso exatamente no percurso do processo, na trajetória de como até aqui se chega. Alegrias, prazeres, lágrimas, soluços, medos, culpas, fugas, prisões, iras, bravuras, covardias, insurgências, tensões, milagres, coisas inexplicáveis e outras tão lógicas que nem se dão valor, a princípio...

Os pés caminham na direção do pseudo-fim, divago num olhar pra dentro. A existência nem sempre é precisa, afirmo pra mim mesmo no mergulho do silêncio. Há dias em que pareço voar, voar. Há momentos em que nem sei por que sinto saudade, a tal vontade de refazer o percurso na própria existência (por lembrança, por fé ou por nostalgia). É coisa do pensamento, eu sei. Mas bem pode ser coisa da vida, a danada que firma o chão sobre o qual caminho. De olhos antes fechados, agora abertos, eu vou. E sou. Maior do que o pensamento. Mais altaneiro que os olhos. Assim, fecundo, de mansinho, de pé até este momento...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Observações em dois momentos



1º momento – o início da noite de ontem


Canetas repousam sobre a mesa diametralmente colocada para servir a duas dúzias de cotovelos e pernas. Olhei para o relógio de pulso, que me pulsava a chance de mais uma interrupção naquela reunião. Brinquei com a palavra parida antes de meu parto natural. Era um amigo que reclamava seu ponto de vista sobre determinada situação que não gostaria de ter vivido. Falávamos sobre o papel político que nos vestia o “sentir subversivo” contra toda ordem de intolerância na sociedade. Lembrávamos – embora eu apenas observasse – o encontro da última sexta-feira com os candidatos do PSOL ao governo do estado, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. Recalcitrantes àquele palavrar politicamente ideológico, amigos reconheciam que o fundamentalismo religioso – diferentemente do que eles nos passavam – era e é o câncer que grassa nosso país. As lembranças apenas ilustraram parte da preocupação de nossos olhares. Estratégias foram delineadas pelas manifestações tão acolhedoras de todos. Ali, todos pareciam querer a mesma coisa, embora ninguém carregasse fuzis dentro dos olhos ou do próprio coração; ao contrário, o sentir mais visível estava no doce aroma da paz. Ela, a paz, não era um ideal menino, nem um cheirinho gostosamente inalcançável, mas uma nota alta de si maior na garganta de nossa vontade. Léa falava sobre os sonhos e, dentro deles, o projeto para alfabetizar travestis. Márcio, perguntado por mim, ressaltou os convites que fez com os psicólogos para desenvolvermos o mais rápido o projeto anteriormente aprovado para dar assistência aos jovens portadores do HIV. No fim de tudo, se é que sonhos podem ter fim, lembramos o ardor que carregamos e que não cabem em outra palavra senão no amor que desejamos não apenas pra nós, mas para todos. Afinal, buarquianamente nós cremos que “dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastante, quando cada instante é sempre." Tudo o mais foram falas e mais falas até o sinal do fim. Reunião terminada. Cafezinho quentinho na ponta dos lábios. Um abraço, dois, três. Os meus olhos, sorrindo, acolhiam e se transformavam entre tanta gente que não apenas deseja os quês da vida, mas vai e faz. O domingo continuava produtivo, [antropo]logicamente falando...


2º momento – o início do dia de hoje


Abri a janela. Olhei com olhar entreaberto para o mundo lá fora. O dia me pareceu ter amanhecido acinzentado pelos cantos. Os rabiscos pelo firmamento não mostraram os raios do sol. A preocupação foi tanta com os detalhes que as nuvens sequer notaram o campo todo preenchido, sem chance para o sol surgir e mostrar seu brilho. Instante pensativo. Barulhos no andar de baixo não me seduziram. Olhei para o relógio sobre um canto qualquer da estante no quarto, reparei que apontava a indicação para além da hora esperada. Sequer percebi os minutos. Isso é difícil de acontecer, mas tem coisas que nos escapam. Olhei novamente para o cenário das nuvens e do próprio firmamento, confessei pra mim mesmo uma reza certeira de que o dia prometia trabalho. Fui lá cumprir a promessa de granjear o pão nosso de cada dia. Fiel, cumpri prazerosamente a força do meu desejo: devorei a fome. Sim, comi. Foi bom para ambos...

sábado, 28 de agosto de 2010

Devaneios, o meu e o nosso Bem



Eu penso todas as vezes vir aqui, deitar sobre uma linha imaginária e sonhar palavras, significados, sinais, qualquer coisa que instigue o momento a ponto de modificá-lo. Penso, mas me retraio. Deixo para o instante chamado depois. Os meus dias, melhor, as minhas últimas semanas foram carregadas de frutos penosos de trabalhos e outras atividades que sobrecarregaram a minha carga natural das coisas e de mim mesmo. Sobrecarga já é um peso só na palavra, dá nó só de ler! Não deveria ser assim. Carga, por si só, já denota o peso das coisas. Imagina, então, a sobrecarga!

Palavras, palavras e palavras... Na vida se aprende que somos mais que a palavra, mais que os signos das coisas, mais que qualquer emblema... somos o que somos, e isto transcende, salta para além do olhar de quem quer que seja. Maior do que nós somente o Bem que fecunda a terra e dá crescimento aos nossos sonhos. Maior do que nós é quase um eufemismo, mas dá no mesmo. Somos o que somos, e isto é o que importa.

Bem, isto é o que deveria importar. Mas nem sempre [se] é assim. Os dias passam, os costumes vão e vem num tricoteio efêmero do tempo, e, no entanto, as mentes pouco absorvem as certezas mais óbvias. Afinal, eu sou o que sou mas não sou sozinho! Há vida na terra, dentro em mim e – pasmem, desavisados! – fora de mim também!

E se há vida pro lado de fora, há jardins que não foram plantados por mim – embora deles possa até cuidar, quem sabe... Eis a questão: há mundos pra todos os cantos e pra todos os lados. O meu. O seu. O dele. O dela. O daquele outro ainda indecifrável. O daquela sequer aparecida, mas certo que existirá. E por que não sabemos as lições mais simples da sobrevivência? Por que ignorar qualquer outro universo para além de mim/de nós? Por que a verdade soa sempre como o último grão sobre o prato diante dos famintos?

[Instante mudo, falta palavra exata, nem precisa, basta a pausa...]

Por que, heim? Sei lá! A gente é assim, coisa de nossa pretensão, dos quereres que a gente [sobre]carrega. Cansei disso há algum tempo, só não cansei de mim. Eu preciso de sonho pra sobreviver, pra tocar em frente, pra continuar querendo além de. Querer faz bem. Bem faz querer o Bem!

Eu quero apenas um cafezinho ao pé da varanda. Quero, se possível, as horinhas de descuido para ouvir histórias, qualquer uma delas. Quero o sabor de família na quentura da xícara, aquela que a gente pega sem levantar os dedinhos, mas, às vezes, nem se importando se um deles faz graça e se arrebita frente aos demais. Quero na simplicidade a sua companhia, mostrando presença e força no silêncio da naturalidade das coisas. Quero observar a família do jeitinho que é, assim como eu também sou, mas sem querer mudar nada em mais ninguém. Quero lançar sobre o sonho o cuidado de ser sem sobrecargas, sem cobranças, sem lembranças, desde que esperanças...

Mas se minhas últimas semanas foram tão cheias, já nem peço mais licença para deitar nestas linhas e fechar os olhos pra fora de mim. Quero mergulhar naqueles sabores ditos ainda há pouco. Quero experimentá-los com a quentura do cafezinho vespertino recém saído do bule. De prazer em prazer as palavras vão vindo a convite do tempo, que não para, mas faz dengo na medida em que as coisas ficam mais leves, mais equilibradas e maiores que nós. Bem maiores que nós. Como é cada um de nós... É por isso que vim, vi e venci (a preguiça, a saudade de rever o carinho de todos, o tempo que não me dispunha, o vácuo, o lapso temporal...). Isto me faz um bem danado!


Nota de rodapé: saudades de vir aqui, de roubar letras, de correr em disparada, de trepar na cerca e fugir fabricando as minhas próprias palavras. Gosto de inventar a rebeldia. Gosto tanto quanto o cafezinho aos pés da varanda... basta me convidar na leitura que eu sigo mais as palavras!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Meus heróis morreram de “overdose” (de talento)


Numa semana em que me entristeço com tantos fatos que se entrelaçam com o cotidiano da cidade e do país, tento destemperar a existência com os episódios mais recentes dos noticiários. E antes que alguém suponha que destemperar é abstrair, afirmo que não. É retirar o excesso, o que desequilibra. Casos de bullying em várias cidades. Assassinatos do lado de fora das janelas de nossas casas. Atos covardes em toda a parte. Crescimento do fundamentalismo religioso nos cenários do Poder Político. Intolerância gerando desamor sob vários graus. Oquidão dos seres que se coisificaram tanto que, de tão fúteis, nada restou.

Enfim, o cenário não é de chuva, mas também não é de céu de brigadeiro. É de realidade mesmo. Com toda a expressão de seus matizes.

Pensando nas coisas boas que me transportavam para os melhores anos, revisitei a memória à procura de coisas ou pessoas pra recordar. Lembrei dos cadernos de poesia que escrevia aos montes na adolescência. Lembrei das pilhas de livros que faziam parte de meu cardápio diário (literatura nacional e estrangeira). Engraçado, não sei por que mas adorava livros de auto-ajuda). Lembrei dos ratinhos brancos que criei. Lembrei da febre pelos álbuns de figurinhas, fosse qual fosse. Lembrei dos programas de rádio nas ondas curtas e das correspondências que recebia de amigos de várias partes do mundo. Como estarão hoje em dia? É apenas uma perguntinha retórica sem muitas pretensões...

Pois, então. Neste embalo saudosista, esta semana me lembrei com uma puta saudade dos 21 anos de partida do Laurinho Corona. Vivia meus idos de adolescente quando o vi partir. Era um ator carismático, sorridente e dotado de uma beleza que *#@! encantava a muitos, senão a todos. Excelente profissional, fez par com excelentes atrizes contemporâneas. Dancin’ Days (1978), era par da personagem de Glória Pires. Em 1984, se não me engano, fez o personagem Rodrigo em Bete Balanço, par romântico da personagem de Débora Bloch. Mas foi nas telenovelas que se destacou. Marina, Baila Comigo, Elas por Elas, Louco Amor, Corpo a Corpo e Direito de Amar. A última foi Vida Nova, de 1988, no papel de um imigrante português que namorava uma judia brasileira, interpretada por Deborah Evelyn. Além das novelas, gostava bastante do programa Globo de Ouro, que ele apresentava nos anos 80.

Laurinho foi uma das primeiras personalidades brasileiras a morrer de complicações decorrentes do vírus da AIDS. O personagem na novela Vida Nova teve um final apressado com uma viagem para Israel, por causa da doença do ator. A última cena mostrava um carro preto partindo numa noite chuvosa, ao som de um poema de Fernando Pessoa, declamado em off pelo próprio ator.

Os boatos de que estaria com AIDS surgiram em janeiro de 1989, quando pediu afastamento de Vida Nova, na qual era protagonista, alegando estafa. Voltou dois meses depois, muitos quilos mais magro e com uma visível queda de cabelo. Logo em seguida mudou-se para a casa dos pais, isolando-se até mesmo dos amigos. Quando o estado de saúde piorou, foi internado, mas os pais proibiram o hospital de dar qualquer informação à imprensa sobre o estado de saúde do filho.

Depois de nove dias internado, partiu... e se eternizou em nossa memória. Um ano após a partida de Laurinho, foi o poeta Cazuza quem partiu em condições semelhantes... Poderia parar por aqui, mas aqueles idos me deixou órfão de heróis vestidos de humanos talentosos. Um ano após Cazuza, foi a vez de Freddie Mercury, astro iluminado do Queen nos deixar...

As constelações foram aumentando sobre nossas cabeças e, paradoxalmente, se silenciando nos céus de nossos tempos, nos idos de minha adolescência e início de juventude...

Hoje, são todas elas (as constelações) mar de doces lembranças. Isso pra mim é reequilibrar o caldo da existência com bons temperos. Por mais que meus heróis tenham morrido de “overdose” de talento e por mais que meus atuais inimigos estejam no Poder, meu mais insistente desejo é sempre trazer à memória o que pode me dar esperança!




Notinha de rodapé:

Por falar em esperança, começaremos aqui no Rio de Janeiro, no projeto Betel, uma série de encontros com candidatos a cargos eletivos que defendem programas em prol da diversidade. O primeiro deles será o Jean Wyllys. Portanto, quem estiver pelo Rio, não custa aparecer na Praia de Botafogo, 430, 2º andar, domingo, 25/07, às 17h30. Apareça(m)! Quero dar um abraço nos meus leitores por lá!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Meus sentires nesse retorno



Vai me ver com outros olhos ou com os olhos dos outros? (Leminski)

Um mês e meio se passou. As palavras não emudeceram, saibam disso. É que tem horas que a gente cala pra se ouvir mais. Por outro lado, há tantas formas de se fabricar uma palavra. A escrita é apenas uma delas. O caracter é outra na dimensão informatizada. Há palavras que não se dizem, mas se percebem. É nítido. É evidente. Quantas vezes disse tantas palavras em meio ao burburinho de apenas-olhares!... Calei-me por aqui, nessas terras, mas me fiz ouvir em outras. O twitter é só mais uma delas. O e-mail [como tenho usado ultimamente!] é outra terra que frequentemente recebe as pegadas de minha presença e de meus suores...

O fato é que estive ausente de um canal que me fascina e por intermédio do qual tantas portas se abriram. Portas de entrada para gente do bem. Semeadores de vida na vida de quem os lê. Assim é que sinto o clima “humano” na blogosfera. Falava dia desses com amigos a respeito do sentir a humanidade. Aliás, ontem também falei numa aula em pleno domingo. Sentir a humanidade é pra quem tempo de ouvir o outro. Às vezes soa contraditório falar exatamente disso dentro de uma perspectiva no planeta “world wide web”, fica meio raso, sei disso, afinal, a internet é um mundão sem porteiras. Pessoas entram e saem tais como as informações. Costuma-se não ter tempo para ouvir. As usual as natural... Mas, convenhamos, o contraditório está em nos fazermos gente que para e ouve em meio à multidão que apenas passa, não semeia nada porque não traz nada para oferecer ao outro.

Tenho buscado sentir o outro na sua dimensão histórico-sócio-cultural. Minha pretensão é tanta que diria ser um exerciciozinho de amor pela humanidade. Tudo bem, ando meio que abusado ultimamente. Não é nada premeditado. Acontece. Por outro lado, não é olhar o outro com quaisquer outros olhos. Não! Já vivi isso numa parte de mim que se foi com um novo florescer de idéias e de transformações no ser. É olhar com vontade de entender, acolhendo, ainda que. E quando falo em acolhimento não afirmo que concordo com tudo o que olho e entendo (ou não). É apenas lançar um bom olhar sobre o outro, de modo que ele não seja “o inferno” de Sartre nem o “lobo” de Hobbes. Seja apenas o que é pra mim, o que fará toda a diferença.

No entanto, olhar o outro com os olhos dos outros é o que fomenta o mecanismo sórdido das nivelações de um humano para outro. Aqui, pelo licença aos desavisados para me referir às nivelações que nutrem o “status quo” do universo dos preconceitos. Apenas para ilustrar o que acabei de dizer, na semana passada meu amigo Márcio Retamero – que lançará seu segundo livro daqui a duas semanas -, dizia num editorial: “reduzir a pessoa humana à sua orientação sexual é de uma violência atroz! Dia desses eu lia uma manchete de um jornal do nordeste: ‘Gay em Alagoas é morto’; nunca li: ‘Heterossexual carioca é preso’, ‘Mulher heterossexual paulista é assassinada’. Por que reduzir uma pessoa à sua orientação sexual? Porque o preconceito usa dos rótulos para denegrir, reduzir e rebaixar socialmente.”

Então, pra mim, que sou um carioca tão limitado e com tanto caminho pela frente a percorrer, que, embora tendo caminhado até aqui em segurança, já foi vítima de preconceito e do que atualmente se convencionou chamar bullying, já foi traído muitas vezes por mim mesmo (porque o outro, o qualquer outro, apenas foi o que foi pela minha desatenção em não observar que o mundo não é um eterno comercial de margarina e que pessoas nem sempre falam com palavras, mas com pequenos gestos, ou seja, na perspectiva da lição ensinada pelo pedagogo Jesus quando afirmou que “pelos frutos os conhecereis”), ter mudado radicalmente minha maneira de pensar o mundo, a vida, as pessoas e sobretudo a mim mesmo – a tal “metanoia”, palavrinha traduzida por “conversão” – é que me estimula a percorrer neste caminho, caminhando com vontade de aproximação. É o ter tempo para ouvir ao qual me referi no início dessas palavras. É o construir pontes, e não muralhas, conforme li na obra de Colin Higgins, “Ensina-me a viver”, clássico dos anos setenta que acabou virando peça de teatro e filme.

Gozado que escrevi tudo isso em meio a um ar de ceticismo pelo desenhar das nuvens que anunciam um temporal daqueles. Sim, pesquisas indicam que a próxima legislatura no Congresso Nacional tende a ser a mais fundamentalista de toda a história, considerando o avanço do fundamentalismo religioso que se candidatou nos TREs (tanto nos que concorrem pela primeira vez quanto nos que desejam se manter em seus cargos eletivos). Num próximo texto explicarei melhor as minhas razões. De antemão, saiba-se, é legítimo que um fundamentalista se candidate e seja eleito. Entretanto, não é legítimo que faça de sua legislatura uma orquestração para olhar o outro com o olhar da religião, a qual sempre divide [pois só o amor constrói, liga qualquer coisa!], impedindo que muitos avanços alcancem uma parcela da população da qual faço parte. Mas, no final das contas, penso que tudo isso apenas sirva como [mais uma] lição para eu aprender a ter cuidado com meu olhar, sabendo que “não se colhem uvas dos abrolhos”. É o que disse, sou apenas um aprendiz com muito o que caminhar pela frente...


Notinha de rodapé:

A imagem acima foi proposital. Busquei a autoria para a questão dos créditos, mas não a encontrei. Achei-a provocativa num texto que li, no original em inglês, falando sobre impressões equivocadas que temos sobre algumas coisas que apenas aparentam ser. Mas não são. Ou, quem sabe, são muito maiores que a imagem. Reduzir o que alguém é a uma imagem é coisa de publicitário. Não deveria ser assim no cotidiano. Jefferson Lessa, no brilhante texto Medo de ser, publicado ontem no jornal O GLOBO, fazendo referência ao bullying pelo qual passou, traduz o cotidiano como feito de muitas e pequenas coisas que deveriam ser levadas em conta (ao invés de um rótulo). É por aí...

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