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domingo, 18 de março de 2012

Crônica dominical de final de verão


Cachorras, sexo e brioches – numa época de ofertas fáceis, amor é privilégio que poucos e poucas querem ter...



Estava procurando uma receita de bolo simples. Queria alguma coisa bem simples, porque de simplicidade é que a vida se torna rica (bela, quero dizer).


Daí, folheando uns artigos, encontrei uma história retratada no quadro de um psicanalista. “Por que as cachorras acabam se dando bem?”, perguntava a leitora. Aquilo me chamou a atenção. Viajei pra dentro daquele contexto e foi inevitável pensar nas letras de músicas que ouvi, aqui de casa, na noite de ontem, quando de alguma comemoração na vizinhança... Não, não enlouqueci nem soltei os meus cachorros! Souberam respeitar a lei do silêncio. Até lá, no entanto, ouvi várias vezes as letras enigmáticas sobre os seres-cachorros...


Mas o artigo me interessou neste momento de tanto protesto a que mergulhei. Protesto por perceber a ruína dos valores e da própria ética no dia a dia. E continuei lendo aqueles parágrafos até me deparar com uma letra de Gabriel, o Pensador, que na sua linguagem musical foi capaz de dizer “não inveje as cachorras...”. E por que disse isso? O articulista se adiantou em responder... “Elas ‘dão muito’... mas não levam nada... e envelhecem amarguradas.”


E prosseguiu: “Ora, até para ter plenitude de prazer sexual tem-se que ter mais do que um corpo de macho ou fêmea em atrito sexual sobre a pele. Gozo é privilegio do amor e da confiança; não do sexo.


A maioria das mulheres que conheço que ‘dão muito por aí...’, não sabem até hoje o que é prazer. Confundem a biologia animal do prazer com a plenitude dele. Aí é que tá: essa plenitude só vem do amor. Prazer sem amor existe, é verdade, mas não é profundo e nem realiza o ser.


Sexo sem amor enjoa como qualquer outra coisa...


O que faz do sexo algo sempre novo é o amor... Nunca desista do amor, pois um dia ele te achará! Portanto, cuide de você... investindo em você... se amando!”


Tenho que concordar: amor, esse ‘sentimento-dom-maior-que-meu-desejo’ está ficando cada vez mais raro, diz-se até que nestes dias tão egocêntricos a tendência é se esfriar de muitos corações. Até a Bíblia dos cristãos assegurou isso sem precisar conhecer a contemporaneidade. E eu creio. Por isso, pra mim, uma pergunta pertinente a se/me/nos fazer é a respeito do que sentimos fome.


A fome de quem almeja amar sem posse, sem controle, sem coisificar o ser que ama, mas deixando-a(o) livre pra ser com saúde emocional, deve ser a de construir caminhos de certeza. Quem se ama, por exemplo, não se angustia por ter sido esquecido(a). Quem se ama, sabe que o amor nunca nos deixará na mão, desnutridos. É desta certeza que falo. O amor existe. E a certeza de que ele existe é sempre um dos meus mais fortes alentos para viver neste mundo onde quase nada do que de fato é, é visto como sendo, pois, aqui, só vale o que parece ser. Porém, mesmo passando alguns dias ensimesmados (coisas minhas, reflexões, sonhos que mudam de cor, vontades não supridas, etc), não consigo deixar de crer no que está arraigado em mim como uma espécie de fome saciada: a certeza de que o amor é!


E quanto a fome das cachorras e dos cachorrões?


Tenho um amigo que responderia isso de uma maneira bem peculiar (sem deixar de ser sensata): que elas e que eles comam brioches já que não tem (porque não fazem questão de ter) pão-amor!


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

uma crônica após tanto tempo de ausências neste blogue


Vivem-se dias de pressa. Alguns entendem como algo bom. É bom ter pressa, asseguram. Otimiza-se o tempo. É o que muitos consideram. Sou das antigas, por mais que o tom de cor seja embotado no meio dessas palavras. Eu sei que sou um cara das antigas. Neste fim de semana fiz algo que já não fazia há alguns meses (poucos meses, confesso). Fui até a agência de correios do bairro onde moro. Postei uma correspondência. Estranho dizer isso, mas pra muita gente é coisa das antigas. Não tiro a razão, principalmente porque um e-mail sai e já chega com a resposta em questão de minutos, dependendo do destinatário. Dia desses também saltei do metrô, ali no Largo do Machado, e me encontrei (pra não dizer que me perdi!) num daqueles quiosques de flores e nem me dei conta que demorei horas entre pétalas, cores e aromas. Eu quis dar pra mim mesmo um bouquê. Nada demais, é só porque gosto de receber flores e a última vez que recebi de alguém deve ter mais de meia dúzia de anos, certamente. Enviar flores, escrever cartas e postá-las por método convencional, escrever bilhetes, ouvir “The Carpenters” e “Chicago” (pra evitar de dizer que amo ouvir Callas e Piaf), sair à frente e segurar a mão da dama quando descemos de algum lugar, visitar idosos numa instituição asilar e ganhar uma tarde inteira quando estou com eles, entre outras coisas acabam por me estereotipar como um cara com hábitos, diria, antiquados para a pressa da contemporaneidade e os costumes que nascem a partir daí.


Ninguém tem tempo pra muita coisa, tudo é resumido aos estalos e aos cliques do momento. Se escrevemos um e-mail, por exemplo, e não o respondemos em questão de minutos, horas ou, nos casos mais raros, em até um dia, entende-se que não se deu a importância devida. Esquecem, no entanto, que pessoas são pequenos mundos particulares. Eu, por exemplo, costumo demorar dias pela resposta do e-mail, salvo raras exceções. É o velho hábito das cartas convencionais arraigado aqui dentro. De telefone celular nem falo mais. Nunca conseguimos ir além de um namoro. Acabo tendo por uma espécie de necessidade, mas daquelas necessidades que não são vitais. Que fique claro.


Quando o assunto é lincado aos terrenos do coração (não falo apenas de paixão, mas de qualquer envolvimento afetivo, inclusive o fraternal), não fujo à regra dos meus sentires mais inatos. Talvez porque meu olhar lançado aos pés da vida seja absorvido pelas verdades que me vestem. É uma possibilidade, quem sabe. E como me vestem as minhas verdades? De roupas simples, tecidos modestos, nada extravagantes, mas convictos e seguros de como posso usá-los (e até onde me deixarão confortáveis). Sou daqueles que acreditam (sim, eu acredito!) nas possibilidades de amar quanto mais me ofereça, sem, contudo, me perder no processo. Não é porque se ama que se deixa de ser quem se é desde sempre! Afinal, duas estacas sustentam minhas convicções: a certeza-de-mim que é produzida pela fé e a esperança de continuar sendo-sem-fim como um produto inacabado mas que persegue um alvo, o ser cada vez mais humano. Eis por que talvez não tenha desistido até hoje de suportar os sonhos grávidos que ainda não pariram. Sou pai de muitos deles, mas ainda não posso segurar as crias. Nem todas nasceram. Algumas nem nascerão. São as paixões que me levaram ao delírio mas que, por alguma razão, se foram sem que eu notasse que não eram pra mim...


Gostaria de descortinar um parêntese e lhes revelar algumas confissões. Um cara das antigas como eu se assusta com o assédio. Sábado passado, depois de sair da festinha de aniversário divertidíssima de minha irmã, corri para me fazer presente na comemoração do aniversário de outros dois amigos. E não é que foram três os pedidos pra ficarem comigo? O último pedido foi tão insistente que me constrangeu. O pior é que o não querer, às vezes, é lido como bancar o difícil. Como assim, ficar por ficar? Como diria a retórica da blogueira Cleycianne: cadê o romance? Cadê o governo? (risos). Eu remendaria: Cadê o interesse pelo que se é? Uma outra confissão que faço tem a ver com o que espero. E o que espero? Da vida, os frutos de minha semeadura feliz. Dos projetos de vida, os sinais confirmadores de que ainda há sempre o que melhorar, sem jamais desistir. Dos terrenos do coração, uma semente que germine e se enraíze com fortável na terra que lhe acomoda, terra simples, mas umedecida de afeto que acolhe e segura na mão até perder o vigor pela idade.


Fechando os parênteses, a pergunta que me soa uma sinfonia de expectativa é o que me embala tanta certeza. Nem sempre estou certo. A prova é que já caí inúmeras vezes! E que bom que esses processos me habitam; deve ser um prisão – um adoecimento constante – crer que não se erra! Mas quero um dia poder acertar de uma maneira diferente, sabe. Olhar, sorrir, falar sem dizer palavra e finalmente encontrar uma outra resposta pra fora de mim, que venha ao encontro da minha própria e decida – ambos decidamos! – a ser resposta mútua e satisfatória. Quando virá? Não sei. Como virá? Certamente por meio de nossas verdades, nunca pelo trágico manuseio das aparências. Assim, que todos saibam pra fora das letras que não sou bonito, não tenho o melhor sorriso, não sou rico nem carrego estirpe. A vida me presenteou com a gana de persistir até tornar tudo um Dia Perfeito. Batalho sob o sol escaldante, pego ônibus e metrô, me doo, ponho cara à tapa, fui liberto pela Força esmagadora do Amor do auto-engano e do medo de ser flagrado pelos seres humanos, tenho verdadeiro horror à coisificação do ser humano e creio com todas as minhas forças que é possível abraçar todos os dias a mesma pessoa por muitos e duradouros anos, sentindo a pele ficar flácida e enrugada com o passar dos anos. O que sou? Um cara das antigas num mundo cibernético? Um ser humano, aprendiz-errante. Eis o que sou-sendo. Sim, pois os processos dentro de mim não se cumpriram. Sequer ainda encontrei os braços certos pra abraçar por toda a vida. Sem pressa, obviamente.



quarta-feira, 2 de março de 2011

Avisando que preciso de tempo...



Sabe quando você percebe que há flores não cuidadas no jardim? Sabe quando as semeaduras, por si só, não tecem a fertilidade do solo nem trazem água pra dentro das canaletas? A palavra é quase certa que me distrai. E digo quase porque sei que já me colocou de ponta a cabeça em textos afora. Ando distraído, confesso. Mas não é difícil pensar que há uma quantidade enorme de ações pra serem executadas com palavras e significado. Tenho, literalmente, uma dúzia de excelentes obras pra serem lidas, uma a uma aguardando a sua vez. Ontem, irresistivelmente, puxei das prateleiras da Saraiva a obra “Ostra feliz não faz pérola”. Quase quinze minutos devorando a obra, de pé. Segurei-me, mas não resisti. Comprei. O ‘Farelos & Sílabas’, de vez em quando, me suspira idéias e me inspira o desejo das saudades. Saudades de quem precisa atualizar as linhas, os fatos, o prazer de parir palavras...

Há flores não cuidadas nos textos que ando produzindo, quase sempre deixando-os à margem. O tempo é curto, confesso pra minha ansiedade e meu sereno desespero. Não convenço. Não começo. Não saio do papel. As palavras me traem com consentimento. Prossigo. Persisto. Nem sempre consigo. Quem não recebe meu consentimento é o tempo, que não titubeia; que, mesmo curto, avança impávido e, às vezes, impiedoso...

Debaixo da sombra das paredes nesta selva de pedra, após os contratos redigidos, mergulhei num estudo sobre a nova ortografia, projetos traçados que o meu futuro compartilhará no momento oportuno. As horas foram engolindo o tempo e o tom de meu vigor. Umas gotinhas de cansaço molharam alguns sonhos. Ao fim do dia, voltei pra casa pensativo, dentro do metrô. Meu pensamento naquele instante estava descalço, surrado pelas reflexões. E tem estado assim ultimamente...

À noite, na companhia do travesseiro e dos lençóis, tem horas que um friozinho assopra ventinhos pra lá de gelados. Acho que já era madrugada quando meu peito e algumas necessidades vitais quase morreram de frio. De repente, lembro que o pensamento voou da cama e me recordou o último ato de “La Bohème”, de Puccini, com Rodolfo gritando e soluçando por sua amada Mimi, que morria de frio no quarto. Do lado de fora de mim, no entanto, nada se comportava gélido ou morto. Ao contrário, estávamos eu e as idéias descalças e confortavelmente vivas. Estranho tudo o que disse, mas penso que somos parte de um todo, de um grande jardim dentro de nós... Deve ser por aí mesmo! Creio que me assisti criando brotos, rasgando alguma parte de mim pra folhas novas nascerem...

Mas este mergulho pra dentro das emoções é o que me aponta a certeza do crescimento, o de me perceber vivo e produzindo novas fases dentro de mim. Este foi um tempo só meu, um tempo de certezas sendo fecundadas!

Há, porém, certezas e certezas. Uma delas é a que percorri cantos vazios e outros floridos nos meus jardins de alma. E há apelos sendo feitos tanto quanto há reivindicações justas e necessárias de um homem de quase meia-idade. E o que eu digo diante de tudo isso? “Está tudo acabado entre nós!”, como dito por Rodolfo à Mimi em “La Bohéme”? É pra ser assim?

Não, não pode ser assim!

Eu preciso conduzir a roda viva da vida por entre os cantos que aprecio e por aqueles outros não percorridos. E que se dane se atravessei os anos distraidamente, cego-de-mim, se engoli etapas, se me recusei a dançar com a vida quando mais jovem, se tanta coisa eu quis em outros tempos mais obscuros de negação de minhas verdades, se tanta coisa que não é nada se eu comparar ao que ainda pode ser e me fazer cada vez mais feliz!

Não quero terminar o texto e ficar triste ou perplexo!

Eu só peço um tempo, uma necessidade latejante de reavaliar algumas coisas, catar folhas secas e limpar as cores vivas de minha natureza. Desde ontem a idéia me persegue: eu preciso cuidar {mais} de mim e das {muitas} ações que nascem de meu ânimo e de minha esperança particular. Dessa vez até meu corpo e todo o imenso coral de testosterona que por ele canta, me pedem atenção!...

Quero dar-me tempo pra umas coisas e nem tanto pra outras. Decidi que perco a inteireza do necessário tempo nos programas de relacionamento social. Necessário pra mim, quero dizer. Não irei excluir o twitter e o facebook {tal como o fiz com o Orkut há mais de um ano atrás}, mas um afastamento premeditado e coerente com os rumos que desejo me conduziriam ao tempo que quero de volta pra mim. É um reinvestimento do tempo que me concedo. Nada muito novo, já tomei medidas assim outras vezes. Decidi que preciso de reajustes, algumas podas, uns amassos firmes!

Sair aos poucos, de fininho, à francesa, é interessante? Quem sabe... Eu ainda não sei, apenas considero.

Só não quero pegar os amigos de surpresa. Talvez, por isso mesmo, cuide pra que essas idéias germinem em palavras exatas, nada furtivo ou incoerente com o carinho que sinto pelo que faço e por todos os amigos que tenho no universo virtual. Talvez o faça para os próximos dias, quem sabe depois do Carnaval ou do sono que se perdeu na cama...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Crônicas do mundo virtual – I



Quero construir uma casa bem segura, mas não dispenso o conforto. Uma casa tão linda quanto firme, é o que preciso. Obviamente, beleza e conteúdo são decorações que dependerão apenas de meu olhar. As paredes precisam ser altas e ter bom prumo. O telhado não precisa ser clássico, mas experiência nas tempestades é uma virtude indispensável. Preciso de material para começar a tornar tudo realidade, dar forma e formosura ao sonho. Um amigo me indica coisas interessantes a bom preço. Só tem um probleminha: a quantidade de promessas “fakes” é enorme, o que exigirá paciência monástica e uma capacidade absurda de discernimento das propostas, das chantagens e até das apelações. Preocupado e ao mesmo tempo curioso, entrei. Vamos ver no que dá, pensei. Como há de tudo na vitrine indicada! Tem material que a gente jura ser sólido, mas se dissolve num simples gesto de contrariedade. Tem ainda aqueles materiais cujo mostruário é pura jura de tudo o que você estiver precisando. Eles juram que serão a melhor aquisição feita por você. Não agüentam um tranco, o produto quebra pela falta de consistência. É apenas ‘pra inglês ver’. Vi alguns outros querendo a todo custo ser peças de uma casinha feliz, bem estilo família. Pura malandragem, logo percebi. Só estão querendo sair da vitrine e contabilizar mais um 'consumidor' desatento. É, a lei do mercado não perdoa os desavisados... Pareço frio com o teor da palavra, mas ninguém duvida que para muitos pessoas são coisas. E coisas-pessoas se garantem em meras estatísticas de consumismo, coisa de gente diluída no próprio ser, sabemos. A regra é não ter regra. Se alguns não se importam em ser coisas-pessoas, tudo o mais se apequena. Rodando por todas as seções, caminhando por ‘ene’ corredores, dos mais simples aos luxuosos, a constatação é que um bom material rarissimamente se encontrará por aqui. Estoque esgotado. Sem previsão de reposição. Dei-me conta dos elementos encontrados nas esquinas da natureza, produtos que se podem olhar e até tocar por fora das vitrines. Madeira de lei, virtude que enobrece. Material sólido para uma casa firme. Elementos personalizados, únicos. Produto de incomparável qualidade. Estão lá. Às vezes, bem pertinho de nosso território. E é seguindo as setas de minha intuição que continuarei meu rumo. E meus sonhos. E minhas esperanças. E tantas certezas famintas de concretude. Tenho uma casa pra construir! Por aqui, só de passagem. E olhe lá!

Adeus, vitrines!


Nota de rodapé: estou voltando e farelando sílabas aos poucos, pegando tijolinhos e poeirinhas de pão de cada vez, montando o texto sobre meus sonhos, untando as letras com saudades e tantas outras coisas que nem sei... Há quantos meses não postava por aqui! Estou surpreso!...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um terceiro momento


Estou vendo os cabelos brancos refletidos no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes. Eles despontam entre os tímidos cachos e se esguicham por sobre o castanho escuro [ainda] predominante. Pensando na possibilidade de uma invasão deles – o que seria prazerosamente bem-vindo! – é que se percebe a dimensão do finito sobre as coisas e do infinito sobre o que nos constitui. Não me refiro ao envelhecimento, o que é tão natural quanto a sede, a fome e o frio. Penso exatamente no percurso do processo, na trajetória de como até aqui se chega. Alegrias, prazeres, lágrimas, soluços, medos, culpas, fugas, prisões, iras, bravuras, covardias, insurgências, tensões, milagres, coisas inexplicáveis e outras tão lógicas que nem se dão valor, a princípio...

Os pés caminham na direção do pseudo-fim, divago num olhar pra dentro. A existência nem sempre é precisa, afirmo pra mim mesmo no mergulho do silêncio. Há dias em que pareço voar, voar. Há momentos em que nem sei por que sinto saudade, a tal vontade de refazer o percurso na própria existência (por lembrança, por fé ou por nostalgia). É coisa do pensamento, eu sei. Mas bem pode ser coisa da vida, a danada que firma o chão sobre o qual caminho. De olhos antes fechados, agora abertos, eu vou. E sou. Maior do que o pensamento. Mais altaneiro que os olhos. Assim, fecundo, de mansinho, de pé até este momento...

sábado, 28 de agosto de 2010

Devaneios, o meu e o nosso Bem



Eu penso todas as vezes vir aqui, deitar sobre uma linha imaginária e sonhar palavras, significados, sinais, qualquer coisa que instigue o momento a ponto de modificá-lo. Penso, mas me retraio. Deixo para o instante chamado depois. Os meus dias, melhor, as minhas últimas semanas foram carregadas de frutos penosos de trabalhos e outras atividades que sobrecarregaram a minha carga natural das coisas e de mim mesmo. Sobrecarga já é um peso só na palavra, dá nó só de ler! Não deveria ser assim. Carga, por si só, já denota o peso das coisas. Imagina, então, a sobrecarga!

Palavras, palavras e palavras... Na vida se aprende que somos mais que a palavra, mais que os signos das coisas, mais que qualquer emblema... somos o que somos, e isto transcende, salta para além do olhar de quem quer que seja. Maior do que nós somente o Bem que fecunda a terra e dá crescimento aos nossos sonhos. Maior do que nós é quase um eufemismo, mas dá no mesmo. Somos o que somos, e isto é o que importa.

Bem, isto é o que deveria importar. Mas nem sempre [se] é assim. Os dias passam, os costumes vão e vem num tricoteio efêmero do tempo, e, no entanto, as mentes pouco absorvem as certezas mais óbvias. Afinal, eu sou o que sou mas não sou sozinho! Há vida na terra, dentro em mim e – pasmem, desavisados! – fora de mim também!

E se há vida pro lado de fora, há jardins que não foram plantados por mim – embora deles possa até cuidar, quem sabe... Eis a questão: há mundos pra todos os cantos e pra todos os lados. O meu. O seu. O dele. O dela. O daquele outro ainda indecifrável. O daquela sequer aparecida, mas certo que existirá. E por que não sabemos as lições mais simples da sobrevivência? Por que ignorar qualquer outro universo para além de mim/de nós? Por que a verdade soa sempre como o último grão sobre o prato diante dos famintos?

[Instante mudo, falta palavra exata, nem precisa, basta a pausa...]

Por que, heim? Sei lá! A gente é assim, coisa de nossa pretensão, dos quereres que a gente [sobre]carrega. Cansei disso há algum tempo, só não cansei de mim. Eu preciso de sonho pra sobreviver, pra tocar em frente, pra continuar querendo além de. Querer faz bem. Bem faz querer o Bem!

Eu quero apenas um cafezinho ao pé da varanda. Quero, se possível, as horinhas de descuido para ouvir histórias, qualquer uma delas. Quero o sabor de família na quentura da xícara, aquela que a gente pega sem levantar os dedinhos, mas, às vezes, nem se importando se um deles faz graça e se arrebita frente aos demais. Quero na simplicidade a sua companhia, mostrando presença e força no silêncio da naturalidade das coisas. Quero observar a família do jeitinho que é, assim como eu também sou, mas sem querer mudar nada em mais ninguém. Quero lançar sobre o sonho o cuidado de ser sem sobrecargas, sem cobranças, sem lembranças, desde que esperanças...

Mas se minhas últimas semanas foram tão cheias, já nem peço mais licença para deitar nestas linhas e fechar os olhos pra fora de mim. Quero mergulhar naqueles sabores ditos ainda há pouco. Quero experimentá-los com a quentura do cafezinho vespertino recém saído do bule. De prazer em prazer as palavras vão vindo a convite do tempo, que não para, mas faz dengo na medida em que as coisas ficam mais leves, mais equilibradas e maiores que nós. Bem maiores que nós. Como é cada um de nós... É por isso que vim, vi e venci (a preguiça, a saudade de rever o carinho de todos, o tempo que não me dispunha, o vácuo, o lapso temporal...). Isto me faz um bem danado!


Nota de rodapé: saudades de vir aqui, de roubar letras, de correr em disparada, de trepar na cerca e fugir fabricando as minhas próprias palavras. Gosto de inventar a rebeldia. Gosto tanto quanto o cafezinho aos pés da varanda... basta me convidar na leitura que eu sigo mais as palavras!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Meus sentires nesse retorno



Vai me ver com outros olhos ou com os olhos dos outros? (Leminski)

Um mês e meio se passou. As palavras não emudeceram, saibam disso. É que tem horas que a gente cala pra se ouvir mais. Por outro lado, há tantas formas de se fabricar uma palavra. A escrita é apenas uma delas. O caracter é outra na dimensão informatizada. Há palavras que não se dizem, mas se percebem. É nítido. É evidente. Quantas vezes disse tantas palavras em meio ao burburinho de apenas-olhares!... Calei-me por aqui, nessas terras, mas me fiz ouvir em outras. O twitter é só mais uma delas. O e-mail [como tenho usado ultimamente!] é outra terra que frequentemente recebe as pegadas de minha presença e de meus suores...

O fato é que estive ausente de um canal que me fascina e por intermédio do qual tantas portas se abriram. Portas de entrada para gente do bem. Semeadores de vida na vida de quem os lê. Assim é que sinto o clima “humano” na blogosfera. Falava dia desses com amigos a respeito do sentir a humanidade. Aliás, ontem também falei numa aula em pleno domingo. Sentir a humanidade é pra quem tempo de ouvir o outro. Às vezes soa contraditório falar exatamente disso dentro de uma perspectiva no planeta “world wide web”, fica meio raso, sei disso, afinal, a internet é um mundão sem porteiras. Pessoas entram e saem tais como as informações. Costuma-se não ter tempo para ouvir. As usual as natural... Mas, convenhamos, o contraditório está em nos fazermos gente que para e ouve em meio à multidão que apenas passa, não semeia nada porque não traz nada para oferecer ao outro.

Tenho buscado sentir o outro na sua dimensão histórico-sócio-cultural. Minha pretensão é tanta que diria ser um exerciciozinho de amor pela humanidade. Tudo bem, ando meio que abusado ultimamente. Não é nada premeditado. Acontece. Por outro lado, não é olhar o outro com quaisquer outros olhos. Não! Já vivi isso numa parte de mim que se foi com um novo florescer de idéias e de transformações no ser. É olhar com vontade de entender, acolhendo, ainda que. E quando falo em acolhimento não afirmo que concordo com tudo o que olho e entendo (ou não). É apenas lançar um bom olhar sobre o outro, de modo que ele não seja “o inferno” de Sartre nem o “lobo” de Hobbes. Seja apenas o que é pra mim, o que fará toda a diferença.

No entanto, olhar o outro com os olhos dos outros é o que fomenta o mecanismo sórdido das nivelações de um humano para outro. Aqui, pelo licença aos desavisados para me referir às nivelações que nutrem o “status quo” do universo dos preconceitos. Apenas para ilustrar o que acabei de dizer, na semana passada meu amigo Márcio Retamero – que lançará seu segundo livro daqui a duas semanas -, dizia num editorial: “reduzir a pessoa humana à sua orientação sexual é de uma violência atroz! Dia desses eu lia uma manchete de um jornal do nordeste: ‘Gay em Alagoas é morto’; nunca li: ‘Heterossexual carioca é preso’, ‘Mulher heterossexual paulista é assassinada’. Por que reduzir uma pessoa à sua orientação sexual? Porque o preconceito usa dos rótulos para denegrir, reduzir e rebaixar socialmente.”

Então, pra mim, que sou um carioca tão limitado e com tanto caminho pela frente a percorrer, que, embora tendo caminhado até aqui em segurança, já foi vítima de preconceito e do que atualmente se convencionou chamar bullying, já foi traído muitas vezes por mim mesmo (porque o outro, o qualquer outro, apenas foi o que foi pela minha desatenção em não observar que o mundo não é um eterno comercial de margarina e que pessoas nem sempre falam com palavras, mas com pequenos gestos, ou seja, na perspectiva da lição ensinada pelo pedagogo Jesus quando afirmou que “pelos frutos os conhecereis”), ter mudado radicalmente minha maneira de pensar o mundo, a vida, as pessoas e sobretudo a mim mesmo – a tal “metanoia”, palavrinha traduzida por “conversão” – é que me estimula a percorrer neste caminho, caminhando com vontade de aproximação. É o ter tempo para ouvir ao qual me referi no início dessas palavras. É o construir pontes, e não muralhas, conforme li na obra de Colin Higgins, “Ensina-me a viver”, clássico dos anos setenta que acabou virando peça de teatro e filme.

Gozado que escrevi tudo isso em meio a um ar de ceticismo pelo desenhar das nuvens que anunciam um temporal daqueles. Sim, pesquisas indicam que a próxima legislatura no Congresso Nacional tende a ser a mais fundamentalista de toda a história, considerando o avanço do fundamentalismo religioso que se candidatou nos TREs (tanto nos que concorrem pela primeira vez quanto nos que desejam se manter em seus cargos eletivos). Num próximo texto explicarei melhor as minhas razões. De antemão, saiba-se, é legítimo que um fundamentalista se candidate e seja eleito. Entretanto, não é legítimo que faça de sua legislatura uma orquestração para olhar o outro com o olhar da religião, a qual sempre divide [pois só o amor constrói, liga qualquer coisa!], impedindo que muitos avanços alcancem uma parcela da população da qual faço parte. Mas, no final das contas, penso que tudo isso apenas sirva como [mais uma] lição para eu aprender a ter cuidado com meu olhar, sabendo que “não se colhem uvas dos abrolhos”. É o que disse, sou apenas um aprendiz com muito o que caminhar pela frente...


Notinha de rodapé:

A imagem acima foi proposital. Busquei a autoria para a questão dos créditos, mas não a encontrei. Achei-a provocativa num texto que li, no original em inglês, falando sobre impressões equivocadas que temos sobre algumas coisas que apenas aparentam ser. Mas não são. Ou, quem sabe, são muito maiores que a imagem. Reduzir o que alguém é a uma imagem é coisa de publicitário. Não deveria ser assim no cotidiano. Jefferson Lessa, no brilhante texto Medo de ser, publicado ontem no jornal O GLOBO, fazendo referência ao bullying pelo qual passou, traduz o cotidiano como feito de muitas e pequenas coisas que deveriam ser levadas em conta (ao invés de um rótulo). É por aí...

sábado, 5 de junho de 2010

Embalos [da madrugada] de sábado à noite



Noitinha fria pede passagem e assenta-se, fazendo-me companhia. Somos eu e ela próximos. O mar anda meio duvidoso, rugindo seus cantos de ressaca, irrequieto com o barulho dos ventos. A natureza tem dessas coisas, a gente não controla. Aliás, o que a gente controla? A lágrima? A saudade? A perda? A ausência? O tempo? A vida? A morte? O presente? O futuro? O quê?

Não temos controle sobre quase coisa alguma. No máximo, quando queremos, a palavra não sai. O texto não sai. O beijo não sai. E tantas outras coisas também não saem...

As coisas parecem ser passageiras? – alguém pode perguntar. Talvez. Depende do que se espera e por quanto tempo se espera. Depende, portanto, de quem espera, não das coisas em si.

Ontem, comemorando o aniversário de um amigo na Lapa, sucumbi a vários momentos sobre os quais não tenho controle. A princípio, não estava disposto o suficiente. Fazia frio e havia muito cansaço sobre a pele que me veste o corpo. A hora também não me soava interessante, pois qualquer evento que inicie após às 22h já me força o [des]controle com as coisas que costumo controlar. No entanto, fui. Algumas coisas não podemos controlar. O momento seguinte é uma delas. O fato é que acabei encontrando amigos outros que não imaginava, gente com quem não falava – sequer por e-mail, carta, telegrama, nada! – desde meados de 2008! Amigos de perto ficaram felizes com minha presença, pois sabem que não sou das viradas da noite, o que aumentava mais ainda a contagiante alegria pelo ineditismo da ocasião. Entre rostos conhecidos e outros nem tanto, fui apresentado a quem não conhecia. Conversei com todos e todas, essas coisas naturais do convívio social dos seres humanos. Emocionei-me com as cores daquelas alegrias e sobretudo com as músicas cantadas ao vivo. “Como nossos pais” me retirou das mãos os aplausos antes tímidos. Há quem canta e quem interpreta. Vi quem faz os dois verbos se tornarem um só pela conjunção carnal.

Entre sorrisos e palavras, gargalhadas e conselhos dados, alegrei-me com a oportunidade do encontro e com a dádiva da vida sobre quem aniversariava. Quando tudo, enfim, preencheu seu lugar no baú das memórias vividas naquela madrugada, despedi-me sob a intensidade das cores daquelas alegrias. Tudo tinha valido a pena até então. E como tudo concorre para lições que aprendemos no incontrolável das coisas, saí a passos gratos daquele bar. Do lado de fora, o friozinho ainda dava o ar de graça. Mas não estava sozinho com minha própria companhia. Um ventinho na consciência me sussurrava a certeza de que ainda havia um pedacinho de noite pra me consolar sob o edredon...

Já que falei em lições que aprendemos, uma delas é que o fluxo da vida não pode ser controlado. É necessário que não consigamos controlá-lo! E assim é com o que não depende de nós. No meu caso, pra quem não estava muito a fim sequer de sair, o cansaço emudeceu diante da emoção do que não esperava. É bom demais não me sentir deus em momento algum. Meus embalos se afirmam no chão do que me estabelece. No baú das memórias, bom mesmo é a essência da simplicidade nas coisas. Como aprendi com meus pais. Sem pretensão alguma, não é que os ecos da canção de Belchior foram comigo para o edredon?! É, bons ecos! E como me ensinam mesmo depois do amanhecer!...

“É por isso que não quero falar das coisas que aprendi nos discos... quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa...”



segunda-feira, 31 de maio de 2010

O absurdo da liberdade, os limites do amor


Não é não. Sim é sim. Possibilidades são sempre caminhos. Aonde levam? É preciso descobrir. Descobertas se fazem enquanto se caminha. Enquanto se vive. Seres em “vegetação” ambulante não caminham, por isso não vivem. Viver é diferente de existir. Há pessoas que vivem; outras, apenas existem. Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Parece simples. É apenas “uma” regra de “um” processo biológico tido padrão. Na existência há padrões estabelecidos. Na vida, nada é estabelecido a não ser por quem se lança a descobrir. Eu queria ter uma escada que me levasse, algumas vezes, para lugares acima de minhas possibilidades. Delírio. Eu não posso querer soluções mágicas. A vida tem ensinado que é preciso se lançar e voar. É voando que se perde os medos. Clarice tinha razão, é absurdamente adorável voar sem medos. E daí? É preciso fazer apenas aquilo que [me] der na telha. Às vezes, também não é preciso nada. Basta um olhar. O olhar convence o sábio de muita coisa. Nem todas as coisas precisam ser ditas. Vive-se em alto e bom som! Quem vive seguro de si aprende, mesmo sem saber, que a máxima do 1º século, devotada a São Paulo, tem toda a razão de ser: “feliz é o homem que não se condena naquilo que ele mesmo aprova!”. Liberdade é a plena certeza do que se tem e do que se quer. No entanto, liberdade também é o nome do medo de muita gente. Liberdade é subir até as nuvens e não ter medo sequer das quedas. Elas são inevitáveis pra quem sai do lugar. Sim, basta ir adiante. É na queda que a gente reaprende a ficar de pé. Isso se dá desde criancinha, seria diferente agora? Mas o barato de viver é não saber o dia de amanhã. O totalmente desconhecido é estimulante. Quem espera por algo que já se tem? E assim, de acertos e equívocos, a gente monta um castelo dentro das nossas planícies. Mas não me chamem pra me encastelar definitivamente. Nada de definitivos aqui embaixo! A vida é um gerúndio que escorre para além do possível. É bem provável que nem mesmo o texto se encerre aqui. Reflexo do meu caminhar, seguro, porém desconhecedor do que virá depois. Nem mesmo o amor é definitivo, ou seja, preso aos limites, encerrado e pronto. A morte seria um definitivo à vida? Quem disse? Eu creio é em vida sem fim. Quem acaba é espetáculo. A vida deve continuar! Se no corpo ou na memória, cada qual decida enquanto pode discernir as coisas. A vida não tem tempo a perder. Só perde tempo quem apenas existe.



Quem vive, e vive no gozo da liberdade, sobe para além das nuvens. Vai além das chuvas e dos temporais. Lá em cima o sol é constante. Ele, definitivamente, nasce para todos e todas. O “definitivo” aqui é apenas a certeza de como lá em cima as coisas são diferentes. O buraco é mais embaixo lá em cima! Lá em cima é acima do quê? De meus limites. O perfeito amor lança fora toda a proposta de limite, inclusive o medo de ser. É por isso que o amor jamais acaba. Havendo profecias, elas passarão. O amor é apenas eterno, mas até o conceito de eternidade não o encaixota. O amor é! É porque não tem tempo de durar. Quem tem tempo é quem tem amarras, portanto, não goza da total liberdade. Liberdade é o não-tempo? Não, é antes o benefício de quem não está nem um pouco aí para o que é, para o que ainda não é e para o que não é. É tal como o amor, que deveria ser o chão desta vida, mas, às vezes a gente faz de teste inconsciente dos nossos próprios limites. Mas a gente não agüenta o amor. Ele é sempre além de nós, para acima da escadinha que eu imagino e que leva para não-sei-onde, mas só sei que é acima dos meus próprios limites – os limites de minha própria consciência. Quem dera todos vivessem nos limites de suas próprias consciências! E o que passar disso? É abismo. Para nós. Não para o amor. Mas que cada um descubra isso enquanto caminha. Eu sigo o meu próprio caminho. Adiante de mim, a tal escadinha e o desconhecido amanhã. Subirei assoviando porque o melhor desta liberdade chamada vida é viver cantando esperanças. Uma delas? A de que o sol me aguarda lá em cima!




Nota de rodapé: Um texto que parece ter sido psicografado, dada a velocidade da vontade de fabricar palavras que surgiram do nada, após ter terminado um trabalho. Em dois ou três minutinhos, eis o conjunto delas – as palavras. Um sentimento de dever cumprido me toma neste momento ao saber que a inspiração desceu e, brincando, voltou a subir a tal escadinha para além das nuvens – os limites da consciência.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O debate sobre o Estatuto das Famílias na CCJ da Câmara Federal


Um debate bastante polarizado dominou o clima da audiência pública sobre o Estatuto das Famílias na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) na quarta-feira passada, 12/05/2010, em Brasília, reconhecida pela cultura local como a terra dos Candangos. O Estatuto engloba diversos projetos de lei (PL 674/07 e 2285/07, entre outros) e, em alguns deles, existe a regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo e da adoção feita por esses casais.

Críticos e defensores da união civil de homossexuais colocaram seus argumentos diante do plenário lotado, onde evangélicos contrários à união de pessoas do mesmo sexo estavam em maioria.

Para tentar chegar a um acordo, o presidente da CCJ e relator do Estatuto das Famílias, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), disse que diante de tantas diferenças e dúvidas, vai tentar encontrar um meio termo. Hã? “Meio termo”? Não me peçam pra imaginar o que poderá sair desse estatuto franksteinizado...

Para o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis, não se trata de casamento, mas sim de garantir direitos civis. "Envolve essa questão da herança, de planos de saúde, de adoção. Nós queremos nem menos nem mais, queremos direitos iguais. Nós não queremos é o casamento, nesse momento não é a nossa pretensão. O que nós queremos são os direitos civis".

Toni Reis citou declarações das organizações das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Americanos (OEA) para defender o direito ao reconhecimento da união civil e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Ele destacou que o Governo Lula também apoia a reivindicação e mencionou o programa Brasil sem Homofobia, coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. E argumentou ao final: "O Brasil é um Estado laico e queremos o que a Constituição preconiza, direitos civis".

O pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, questionou se outros comportamentos poderiam, futuramente, virar lei. "Então vamos liberar relações com cachorro, vamos liberar com cadáveres, isso também não é um comportamento?" O pastor foi muito aplaudido durante sua exposição. Malafaia afirmou que conceder os diretos civis é a porta para depois aprovarem o casamento. Ele defendeu que a família é o homem, a mulher e a prole, sendo que a própria Constituição defende esse desenho familiar.

Na mesma linha crítica, o pastor da Igreja Assembleia de Deus, Abner Ferreira afirmou que o Estatuto das Famílias seria, na verdade, o Estatuto da Desconstrução da Família. Segundo ele, ao admitir a união de pessoas do mesmo sexo, a proposta pretende destruir o padrão da família natural, em vez de protegê-la. Ele disse que todas as outras formas de família são incompletas e que toda manobra contrária à família natural deve ser rejeitada.

A vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Maria Berenice Dias, afirmou que o fato de a Constituição proteger a união entre homem e mulher não significa que uniões homoafetivas também não possam ter direitos na esfera civil.

Ela avaliou que o debate foi para a esfera ideológica. "Estou sentindo nesse espaço um clima de muito medo, de muito revanchismo, pouco técnico, pouco científico, pouco preparado”, observou. “As pessoas estão se deixando dominar por posições religiosas muito ferrenhas, e confesso que não sei porque têm medo que simplesmente se assegure direitos aos homossexuais, se assegure a crianças terem um lar", acrescentou.


Maria Berenice Dias citou decisão recente do Superior Tribunal de Justiça, que reconheceu a adoção feita por duas mulheres, e afirmou que a união homoafetiva não ameaça a família. "Argentina, Uruguai, México e Canadá são alguns dos países que reconhecem essas uniões. Quem conhece esses lugares sabe que, por lá, a família vai muito bem, obrigada", disse. Aliás, diga-se, não apenas por lá, mas em pelo menos 17 países pelo mundo.

Ontem, 17 de maio, no dia mundial de combate à homofobia, o presidente de Portugal , Aníbal Cavaco Silva, anunciou em cadeia nacional a promulgação da lei que autoriza o mesmo tratamento das uniões homo às hetero. Particularmente, saltou aos olhos seu pronunciamento ao dizer que estaria deixando de lado suas “convicções pessoais” como católico praticante para pensar mais elevado em outros temas nacionais: “sinto que não deveria contribuir para prolongar inutilmente esse debate, que só serviria para aumentar as divisões entre os portugueses e tirar a atenção dos políticos dos graves problemas que nos afetam”.

No sítio da Câmara Federal [Agência Câmara de Notícias] do dia 12 de maio de 2010 é possível ver como o assunto mexe com os ânimos da fé de muitos – isso mesmo, a coisa está sendo reduzida à esfera religiosa! -, pois os comentários postados pelos internautas reproduzem o quantitativo de opiniões sob a mesma vertente ideológica. Os mais recentes comentários diziam, entre outras coisas:

“Uma coisa é respeitar o homossexual e não ter preconceitos quanto à sua opção sexual, assim como fazemos com os fumantes no tocante à opção de fumar, ninguém deve discriminá-los. Outra coisa é dizer que o fumo faz bem à saúde. Respeitar as opções não quer dizer que todas as opções sejam iguais. A opção de não fumar é melhor que a de fumar e a opção heterossexual é melhor que a homossexual”, assina Bruno.

“Definitivamente essa proposta de regulamentar a união de homossexuais é uma desonra aos preceitos da palavra de Deus para o homem e a mulher pois contraria e se opõe à santidade do nosso Deus”, assina Robervanda.

Um tal de Vanderlei foi mais tirânico, pois disse: “Vivemos na democracia. Em outras palavras, a maioria do povo governa ou decide como deve ser o governo. As minorias devem acatar o que a maioria determinar. Este é o princípio básico da democracia. Existem países que não existe a democracia. Será que lá é melhor?”.

Daí, pergunto: vivemos num país ideal no qual as pessoas são respeitadas por aquilo que são ou vivemos num país do “ainda-não” em que se é necessário lutar com as armas da cidadania plena para o respeito à dignidade da pessoa humana? Sim, pois é preciso avisar aos desavisados que homossexualidade não é “opção”, ou seja, não é escolha de ninguém em sã consciência psíquica sofrer diante de um padrão heterossexista, o ter que passar por esse achincalhe ou, para os que se curvam ao letrismo dos dogmas de natureza moral e tirânica, o padecer pela escravidão ao medo da danação eterna!


Os debates, obviamente, ainda não levaram a muitos passos dado o abismo entre as posições suscitadas. De qualquer forma, ficam aqui as implicações sobre o cenário dos fatos que se discute em nosso Parlamento. Vale a pena ficar calado e permitir que a omissão seja a chave para abrir as portas do retrocesso no campo das relações sociais e jurídicas existentes? Ou será que alguém duvida das manobras articuladas pelos segmentos fundamentalistas religiosos junto aos seus pares eleitos graças aos seus “e$forço$” eleitoreiros?

Na semana passada assistimos chocados ao acinte da malta dos perversos transfigurados em defensores da família [a família na obsolescência do entendimento deles!], comparando comportamentos qualificados como doenças ou distúrbios psíquicos pela OMS e as orientações sexuais. Sim, a disseminação do mal foi tão acintosa e certa de impunidade que ousou verborragiar a estupidez sem máscara alguma: gays e pedófilos, gays e necrófilos, gays e zoófilos foram assemelhados na cara dura diante de uma Comissão de Constituição e Justiça! A arrogância de um deles, aplaudida pela maioria ortodoxa religiosa ali presente, foi tanta que deu seu recado às lideranças partidárias, trazendo o debate para o contexto político das eleições presidenciais:

"Eu ouvi os homossexuais fazerem aqui pronunciamentos dizendo que o presidente os indicou para a ONU, que o presidente os apoia totalmente, então nós evangélicos, que representamos 25% da população, temos que pensar muito bem em quem vamos votar para presidente da República", avisou do alto de sua insolência o suposto porta-voz de ¼ do eleitorado nacional.

Que ninguém me entenda mal, tenho lá minhas convicções de ordem religiosa, as quais me inspiram à coexistência pacífica com todos os meus confrades [de todos os credos ou não], mas justamente porque amo os princípios pacificadores que são a essência da Igreja [aqui entendida não como termo com referência a qualquer institucionalização, mas apenas como categoria dos que são "chamados para fora" [1] do arbítrio dos deuses “Poder” e “Glória”], é que não engulo os ideais ensimesmados e absolutistas da "igreja evangélica". Sim, não engulo porque não reconheço nela – nem de longe, nem como sombra ou sereno – as marcas amorosas e portanto revolucionárias daquele que se diz o seu “inspirador”, conforme leio nos Evangelhos. Creio que somente quando o que está aí passar por uma desconstrução é que a Igreja terá chance de renascer no Brasil.

Entretanto, à vista daquilo a que todos assistimos na CCJ da Câmara, cabe-me a retórica da pergunta inspirada numa das letras do saudoso profeta cantador Renato Russo: "Que país é este?". Que país é este que nega direitos aos seus cidadãos, que faz do mais nobre Palácio das Leis neste solo um palco para “panem et circenses”, conforme nos inspiram os versos das Sátiras de Juvenal? Que país é este que transforma um debate sério num solilóquio moral-religioso desses “diabólós” [2] que fazem da fé uma bandeira política?

É pra se pensar, prezados cidadãos de bem e consortes amantes da democracia. Porque parado nem mesmo os modelos tradicionais de família em sociedade não ficam mais! Não me lembro neste instante, mas acho que o nome que se dá a isso é evolução natural das coisas. É, deve ser isso. Evolução natural. Na próxima audiência pública, não poderemos esquecer de levar isso para os “diabos-acusadores” quando emergirem lá no centro da terra dos Candangos.

Por ora, à lei e ao amor! Xô, Satanases [3] !


___________________________
Texto adaptado da reportagem de Daniele Lessa no sítio da Câmara Federal, “Religiosos, juristas e ongs divergem sobre união civil gay”, de 12/05/2010.

[1] Do original grego "ekklésia", ou seja, os "chamados para fora".

[2] Do original grego, “acusador” ou “acusadores”, "opositor", "o que lança através ou por intermédio de". Diabo.

[3] Do original grego, Satan, ou seja, "adversário".

terça-feira, 16 de março de 2010

Impressões do retorno

Silêncio rompido



Para a cultura ocidental o silêncio nem sempre é valorizado. Silenciar é se fechar. Silenciar chega a ser incomodar. Mas eu gosto do silêncio pelas muitos benefícios, sobretudo quando o que mais quero é me ouvir. Ouvir-se é um exercício e tanto. Nos barulhos pra fora de nós pouca gente reconhece os que carrega dentro de si. Mas não é sobre o silêncio propriamente que vou semear palavras nestas linhas. É apenas pra afirmar que meu silêncio não impediu de voltar aqui pra marcar uma das minhas mais prazerosas necessidades: escrever sobre meus sons e sobre minhas impressões do dia a dia.

Que falta que faz


Acreditem se quiser, mas desde domingo estava sem energia elétrica em casa. 48h. Este foi o decurso de todo o calvário. É f%#@! É absolutamente tedioso não conseguir realizar várias – milhares! – de tarefas em casa, sequer carregar o celular pra voltar a ter comunicação com seres do planeta Terra ou, ainda, me inteirar dos meus e-mails e do que rolava no mundo em que habito. Um saco! Culpa de quem? Ah, sei lá! Fujo um pouco desses clichês caça-às-bruxas. Prefiro falar em ‘responsabilidade’. Mas não agora. Não por este canal.

O que queria era apenas mostrar como a ausência é mais instigante que o silêncio. Ausentar-me do mundo, pela [ir]responsabilidade dos que detêm os direitos sobre serviços e concessão desses serviços, é mais complicado que o silêncio em meio ao mundo barulhento. Horrível é a sensação de desconexão com os apelos da existência.

Sobrevivendo como E.T.


Tudo bem, sei que pareço divagar sobre uma prancha de surf em meio ao nada. Mas é que eu tenho pensado bastante ultimamente na minha ‘extraterrestrialidade’. Foi exatamente assim que me senti ao ler um artigo de um blogueiro falando sobre aqueles que na sua opinião eram ‘otários’. Pior, os comentários ecoavam um coro gregoriano de ‘sins’ (porque um ‘sim’ apenas é para os otários), concordando com tudo o que o texto dizia. Obviamente a minha impressão é apenas reflexo do meu olhar sobre aquele texto, por isso não irei apontá-lo indo ao encontro do que abomino, a síndrome da caça-às-bruxas. Cada um tem a liberdade de pensar o que quiser, penso. Posso não concordar – e cá estou pra isso! - , mas respeito.

Meu último post falava sobre outro tema controverso e acerca do qual é duro o exercício do respeito, mesmo em meio à divergência. Homofobia. Costumo dizer sempre que o que mais desejo é o respeito, e não necessariamente a concordância. Creio assim porque me aninho no pensamento de que todos têm o mesmo direito que eu de opinar como fruto do livre pensamento. Mas a minha opinião é apenas minha, não pode servir de verdade pra mais ninguém. Ao menos, não de forma goela abaixo... Lincando o que digo com o que abordei no parágrafo lá em cima, minha ‘extraterrestrialidade’ me apontou que talvez eu seja um otário de verdade. Sei lá, não sigo o fluxo do que chamam naturalidade.

Por exemplo: poderia estar descrevendo aqui – como é comum a muitos, e isso não é crítica – fatos relacionados a fins de semana incrivelmente calientes, gozados – sem duplo sentido! – em meio à ferveção e a tudo o que qualquer corpitcho equilibrado e são gostaria: diversão, azaração e curtição (com ou sem ‘finalmentes’). Talvez um dia, quem sabe, ainda descreva. (rs) Meus últimos três finais de semana, por exemplo, não foram o que se poderia chamar ‘diversão’ ou menos ainda ‘azaração’. Ao lado de uma amiga, visitei idosos em asilo (sem que nenhum deles fosse meus parentes), brinquei, sorri e sobretudo ouvi suas histórias de épocas que não vivi. Levei biscoitinhos e fui chamado de ‘lindinho’ e ‘anjinho’ pelas minhas fãs octogenárias e nonagenárias. Sei que meu risco é ser taxado de E.T. Afinal, convenhamos, quem se proporia a largar tardes de três sábados consecutivos pra cutrir um programa desses? Tudo bem, eu assumo que sou um desses! No último final de semana, por exemplo, depois das visitinhas de praxe no asilo, corri para pegar um debate sobre esquizofrenia e exclusão social. Fui ao debate (que foi precedido pela apresentação do filme “O Solista”) não porque sofra de esquizofrenia, mas porque o tema ‘exclusão’ sempre me aguça a participação. Noutro dia foi a prefeitura de Maricá, cidade próxima a Região dos Lagos, que me contactou para participar de um debate sobre “Diversidade e inclusão". Pois bem, embora tendo chegado atrasado ao filme, só deu mesmo pra rever amigos e me espantar com a participação fervorosa das pessoas que tiveram a mesma idéia e compareceram naquele lugar. Conheci algumas para as quais fui apresentado, troquei idéias e impressões, bebi com amigos e voltei pra casa. Exausto.

Em casa, não consegui dormir porque a Dona In-sônia teima em querer conjunção carnal comigo todas as vezes que me deito após uma jornada cansativa na cama (ou no sofá). Nota explicativa: eu não faço amor com Dona In-sônia, mas sim com Seu-ups-meu-sono. Com a Dona In-sônia é conjunção carnal fria e mecânica mesmo! Mas isto é um outro assunto que resolvo com música e chá de camomila. Remédios, não! Detesto! Apesar dos pesares, a tal insônia me levou a escrever pensamentos. Um a um fui encerrando laudas na imaginação. Como é sobreviver em meio à minha ‘extraterrestrialidade’?... Entre um ponto e outro, teci uma listinha de manias e ‘coisas que nunca fiz’ que qualquer um terráqueo se apavoraria de se aproximar de mim ao saber que elas existem e me formam.

Mas é aquela velha história, cada qual sobrevive com as manias, os desejos e as vontades que tem. Eu só fico bolado quando leio um marciano fazendo sua verdade prevalecer sobre a opinião alheia – seja a de terráqueos, como a maioria; seja a de E.Ts, como eu! -, tal como ocorreu quando li um blogueiro falando asneiras do tipo “preocupar-se com os outros, pra quê?”, “ser fiel ao parceiro é uma otarice”, “quero mais é aproveitar porque a vida é uma só, essa história de se guardar para o amor é coisa de otário”, “o que vale na vida é a felicidade do momento, dane-se o dia seguinte”. Ficarei por aqui. Tenho ainda alguns pensamentos pra concatenar, coisas pra compartilhar depois com terráqueos incríveis como vocês!

Antes de me despedir...



Parabenizo o Grupo Arco-íris pelo brilhantismo da campanha sobre o respeito às diferenças [vídeo abaixo]. Parabenizo o pessoal da cidade norte-americana de Washington D.C., capital dos EUA, pela árdua trajetória rumo à legalização dos casamentos. Em especial, parabéns à Darlene Garner e à sua companheira, Candy Holmes [foto ao lado], teólogas e militantes dos direitos humanos, que semanas atrás jantaram na Casa Branca ao lado do presidente Obama [hum...] estarão conosco em maio num encontro aqui no Rio de Janeiro.

Ufa! Quantas impressões neste retorno!



quarta-feira, 3 de março de 2010

Preconceitos e alguns juízos intolerantes


Pensando sobre um tema muito em voga no momento – exclusão versus inclusão -, acabei me lembrando dos vários artigos e posts que li nos últimos dias sobre a questão. IN-cluir é pôr dentro de alguma coisa, é chamar pra perto. EX-cluir é justamente o contrário. Não há como forçar a barra com pretensas posições que não sejam ‘IN’ ou ‘EX’-cluir quando se fala em aceitação ou respeito à diversidade. No entanto, vale aqui questionar se toda EX-clusão é de fato oriunda da ojeriza, do descarte ou da fobia ou se é uma questão mais direcionada à ignorância (de fatos, de detalhes desses fatos ou dos outros mundos para fora do nosso-próprio).



Andei instigado a falar mais um pouco sobre essa questão em razão de vários comentários que li nas minhas viagens blogueiras por outras praias. Recentemente na mídia soube de vários ataques vindos de religiosos cristãos fundamentalistas, tanto no Brasil quanto em Uganda, vociferando seu ódio disfarçadamente puritano contra os gays. Há pouco tempo atrás um participante de um reality show foi acusado em massa pela militância LGBT por ser ‘homofóbico’. Cheguei a receber mail pedindo pra reverberar repúdio e tal. Descartei na hora. Revanchismo não leva a nada. Pior, após avaliar e discernir os fatos, separando pré-CONCEITO de ignorância (desconhecimento), não julguei que a militância tivesse razão no caso do tal participante do programa de TV. Não se trata de um achismo, mas uma convicção respaldada. Não sou amador, por isso não compro brigas sem fundamentos consistentes. Lembro-me bem do episódio envolvendo uma psicóloga aqui no Rio, que rendeu muitíssimo mais que as declarações do tal participante do reality na TV. O caso foi discutido na mídia e nas altas instâncias do Poder Judiciário e do Conselho Federal de Psicologia. O posicionamento da juíza federal na ocasião foi brilhante. Acabou me inspirando num artigo que foi veiculado por mailing de todas as militâncias país afora. Nele sim reverberei a homofobia, pois fundamentos existiam – e muitos! Os fatos falavam por si: depois de sérias advertências e várias desobediências, a tal psicóloga que se dizia vítima de um suposto e psicótico gayzismo foi seriamente ameaçada pelos órgãos competentes a perder de vez seu registro caso continuasse a semear sua intolerância, fruto do desamor. Naquele caso não se tratava de ignorância, mas de uma vontade deliberada - e insana - de aniquilamento - boçalmente dita "cura" ou "reversão" - dos gays. Todos eles!


É preciso separar os fatos e analisar as declarações em suas devidas circunstancialidades. Se assim não fosse, todos – repito: todos! – os programas humorísticos na TV e várias peças premiadas de teatro de comédia estariam na berlinda correndo sério risco de serem tirados do ar ou retirados de cartaz, situação esta que respingaria nos respectivos autores, produtores e roteiristas. E não é o que ocorre porque é preciso discernir fatos de fatos. Como se vê, não bastam a emocionalidade corporativista nem a histeria insana.

Mas vamos à análise do preconceito...


Do ponto de vista de sua origem, de sua etimologia, a palavra preconceito significa pré-julgamento, ou seja, ter idéia firmada sobre alguma coisa que ainda não se conhece, ter uma conclusão antes de qualquer análise imparcial e cuidadosa. Na prática, a palavra preconceito foi consagrada como um pré-julgamento negativo a respeito de uma pessoa ou de alguma coisa.

Um problema grave, que merece muita atenção, é a verificação dos mecanismos do preconceito. É muito raro que alguém reconheça que tem posição preconceituosa em relação a alguma coisa. Muitas vezes, o preconceituoso não percebe que age dessa forma, pois, como adverte o professor Goffredo Telles Júnior, o preconceito geralmente atua de forma sutil, sinuosa, levando uma pessoa a tomar como premissa, como ponto de partida, aquilo que deseja que seja a conclusão.

Evidentemente, o fato de alguém não gostar de alguma coisa, não desejar a companhia de uma pessoa determinada, recusar uma idéia, uma teoria ou um padrão estético, nada disso é suficiente para que se afirme que aí existe preconceito. E assim como não se deve aceitar a atitude preconceituosa, desprovida de racionalidade e sem o suporte moral de uma avaliação cuidadosa, é indispensável, também, que se respeite a liberdade de escolha de cada um.

Por isso mesmo, por exemplo, não gostar de uma escola de pintura, de um gênero musical ou mesmo de um autor ou intérprete faz parte dos atributos da liberdade humana e é direito fundamental que deve ser respeitado. Mas quem exigir - seja nos discursos, seja nas práticas - que as demais pessoas tenham as suas mesmas preferências ou idiossincrasias, afirmando sempre que tem razões objetivas para que todos o acompanhem reconhecendo certas manifestações como boas e outras como más, corre sério risco de estar dando acolhida ao famigerado preconceito.

A ignorância é uma das mais ricas sementeiras de onde nascem preconceitos. Mas a presa mais fácil do preconceito é o ignorante que não sabe e não quer saber, é aquele que está satisfeito com a sua ignorância. A intolerância, hoje tão disseminada, é mais um desses venenos. O egoísmo também anda muito próximo da intolerância, não pode ser ignorado. O egoísta não se preocupa com a justiça de suas atitudes, de suas palavras e de seu comportamento. É bom o que lhe convém e é mau o que lhe causa embaraço ou prejuízo.


Por fim, outro fator que atua na vida social como gerador de preconceitos é o medo, a começar pelo medo de si projetado no outro a quem deseja aniquilar.

O preconceito não tem justificativa moral nem jurídica e é essencialmente mau e pernicioso. E por quê? Porque o preconceito estabelece a desigualdade entre as pessoas, sacrifica valores fundamentais, justifica agressões à dignidade da pessoa humana e, por isso tudo, é expressão de uma perversão moral que deve ser, incansavelmente, denunciada e combatida.


O preconceito [a homofobia] é uma ameaça à humanidade!

O preconceito agride a igualdade essencial de todos os seres humanos e por isso é necessário criar barreiras às suas investidas. Mas de uma coisa devemos ter consciência: não basta fazer novas leis para eliminar a presença e a interferência maléfica do preconceito. Pode ser útil colocar nas leis a proibição das ações preconceituosas e criar penalidades para quem agride a dignidade humana levado por preconceito, mas, acima de tudo, é preciso que no interior de nossas consciências tenhamos um firme compromisso com a defesa da dignidade humana e da igualdade essencial de todos os seres humanos. É bom que se repita em alto som: de todos os seres humanos, iguais ou simplesmente diferentes a nós!

Inspirado na obra “Policiais, juízes e igualdade de direitos”, Dalmo de Abreu Dallari, jurista e professor universitário.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

[Im]possibilidades reais de uma noite de domingo


Chego em casa, ontem à noite, vindo de uma reunião que celebrou, entre outros fatos tão abençoadores pra mim, os 12 anos de união conjugal de duas amigas que-ri-das. Como disse o Lord, outro amigo muito estimado [e engraçado] que falou coisas lindas na reunião, “eu vejo que é possível!”. Imediatamente me veio à mente o slogan: "Yes, we can!" – cantarolado ao êxtase pelos correligionários de Barack Obama nas últimas eleições norte-americanas. E quem duvida que seja possível? Falando de possibilidades, afirmo que eu creio na maior delas: o amor!

Pois, bem. Ao chegar em casa, um telefonema. Aliás, dois. Perdão, três. O segundo deles foi uma espécie de “S.O.S.” alertado por outro casal de amigos. Me informaram que estavam se dirigindo na companhia de outra amiga à Baixada Fluminense, lá pelas tantas da noite, pois a mãe de uma amiga em comum [e que eu conheço desde a adolescência], tinha acabado de expulsar a filha de casa pelo fato de ser lésbica. Segundo as informações, ela [a filha] foi agredida de todas as formas. Tinha lesões sobre a pele e outras na alma que só o tempo ajudará a cicatrizar.

- O que vocês vão fazer na Baixada Fluminense a esta hora? – perguntei.

- “Vamos levar a L_______ na casa da namorada dela, em São João de Meriti. Mas não se preocupe, a gente tá cuidando dela, tá aqui ao nosso lado.” - respondeu um dos meus amigos no celular, tentando me tranquilizar.

Sentei na minha cama e me perguntei: alegrias e dores na mesma noite. Como tudo isso [ainda] é possível!?

[...]

Lembrei-me que em agosto do ano passado um casal de amigos [A_____, 19; R_____, 21] teve que fugir de suas respectivas casas, pois os pais – ambos líderes evangélicos – descobriram o romance dos filhos. Na minha modesta opinião, os pais fizeram tudo o que pais não poderiam ter feito. Resultado: saíram da cidade, fugiram para o Rio de Janeiro. Encontrei-me com eles assim que desembarcaram na Rodoviária. Eu e um grupo de amigos os ajudamos, de início. Hoje estão bem, já conseguiram restabelecer a amizade dos pais e [...] bastante felizes [...] certos que “o amor é mais forte que a morte”, parafraseando um texto bíblico.

[...]

Preciso ligar para L______, saber como está, se precisa de [...], essas coisas que amigos demonstram quando se faz necessário...


Nota de rodapé: os versos de Virginia Woolf inseridos na imagem foram propositais para este post.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Apontamentos de uma subcultura


Seria eu um subversor da subcultura? Trato a questão como subculturalmente, pois desde os ensinos de antropologia na faculdade, aprendi que a subcultura está intimamente ligada a grupos de pessoas com características distintas de comportamentos e credos que os diferenciam de uma cultura mais ampla da qual elas fazem parte.

Não creio que seja assim. Só por que prefiro falar de política, Kant, Foucault ou Sartre a ter que ouvir colegas admirados por Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga e Madonna?

Não creio que seja assim. Só por que gosto de futebol, assisto a programas esportivos no Sportv, no Premiere Combat, fico antenado com o que rola nos Jogos de Inverno em Vancouver e dispenso qualquer conhecimento sobre os melhores electronic-trancy-house-psy-techno-remix, onde a DJ Ana Paula se apresenta, onde o DJ-fulano-de-tal tocou na última pool?

Não creio que seja assim. Só por que detesto looks com roupas apertadas, tintura no cabelo (Argh!!!), depilação (Argh!!! Argh!!!), sobrancelha feita (Argh!!! Argh!!! Argh!!!) e ainda por cima torço o nariz se tiver que usar alguma coisa de cuja etiqueta – grife! – todos se lembrem mais que propriamente quem a vestiu?

Não creio que seja assim. Só por que entendo que promiscuidade é uma química explosiva que auto-destrói o ser, diluindo-o aos poucos, e que amor é um excelente investimento (pra vida, pra si, pra todos) e que requer seriedade, conquista e a-FIM-nidade, não havendo espaço para a auto-afirmação do desejo com o descompromisso e as apelações fast-foodianas?

Seria um subversor da subcultura ou a favor da contracultura?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quando a liberdade é só pretexto para...


Toda vez que encontro ou sinto a presença de um ser-sem-noção por perto, reajo instintivamente a não conceder liberdades demais. Há indivíduos que não sabem lidar com o “espaço do outro”. Os INTRO-metidos são assim, por isso vivem literalmente dentro, INTRO-duzidos no espaço alheio. Refletindo um pouco sobre os limites do “outro”, sobre as apropriações indevidas do direito à liberdade, viajei pra dentro de algumas cenas já vividas e outras testemunhadas por aqueles e aquelas que não sabem ficar de fora; ao contrário, sentem um frisson pelo IN-ocular de seus venenos aparentemente gentis e IN-ofensivos...


I

- É isto o que você chama de “liberdade”?
- Não entendi. O que disse?
- Liberdade pra você é fazer o que der na telha?
- O que me for necessário, e só eu sei o que é necessário em mim!
- Que liberdade fácil! Isso pra mim é libertinagem, sinto pela franqueza...
- “Isso”? Isso é apenas pra você saber que não sou você, assim como você não sou eu. Liberdade é o “como” vivo a minha própria experiência e história, responsavelmente conscientemente.
- Conheci muita gente que viveu assim e se deu mal...
- Aham, entendo. Eu também conheço muita gente “assim”, que trabalha contra a apropriação da liberdade dos outros...
- Alguma indireta?
- E desde quando você se importa com o direito dos outros?
- Direito de “dar indiretas”?
- Não. Direito de defender-me das apropriações...


II


- Posso te perguntar algo?
- Sim, claro. Pergunte.
- Eu tenho toda a liberdade pra te dizer o que quiser sem que você corra o risco de sair ferida?
- Depende...
- ?...
- É conveniente pra mim tanto quanto é pra você? Vou sair melhor depois que te ouvir?
- Bem, só você poderá dizer isso ao final...
- Você não é capaz de discernir o mínimo do que perguntei?
- Bom, é que eu gostaria que você soubesse que...
- Não, você não gostaria. Você quer. É Diferente.
- Diferente, por quê?
- Porque sua liberdade é legítima desde que não me importune no que é meu. Neste caso, a decisão de te ouvir ou não é minha. Já que você não é capaz de me responder ao que perguntei, então, não.
- Não?
- Não! Não pode me perguntar algo.
- Tudo bem. Você é livre...
- Exatamente! Uma grande conquista! Com licença...

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