Algumas semanas fora, mas não propriamente fora da cidade ou do país. Sabe aquelas coisas que nos ocorrem sem que nos preparemos por completo? Fato é que ninguém sabe o que nos reserva o momento seguinte. Talvez por isso seja tão inquietante. Alguns defendem que não é diferente com o tema “morte”. Mas esse não é nem de longe o que me propus nestas linhas parideiras. Quando falei das coisas para as quais não encontramos espaço no nosso comum, referia-me a realidades que nem sempre são personagens protagonistas de nosso cotidiano. Aliás, não o são da maioria das pessoas. Nunca parei pra pensar nisso, mas tive a leitura íntima dos fatos quando o que veio a ocorrer foi justamente um problema de saúde no coração de meu pai. Foi a partir daí que comecei a ressignificar certas coisas, algumas das quais valores. Mergulhei fundo pra dentro da incerteza, nadei nas águas gélidas da tristeza vendo meu pai desfalecido, premeditando morte. E foi lá naquele oceano em mim que entendi que era preciso ressignificar muita coisa. A começar em mim, perpassando pelos meus diletos conceitos. Ressignificar.
Precisei cuidar de meu pai durante toda a convalescência. Sim, ressignifiquei tanta coisa que até alguns papéis, temporariamente (e por uma justa causa) se inverteram. Penteava seus cabelos brancos, brincava com os penteados que inventava, dave-lhe banhos gostosos, levava-lhe água e os remédios nas horas certas. O tempo afastado daqui, quero dizer, destas linhas me trouxe inúmeras lições ante ao que assisti pelas andanças em diversas clínicas e até num hospital da rede pública (o primeiro lugar para onde o levei quando desfaleceu). O enfrentamento de problemas, sobretudo os inesperados, sejam eles de que natureza forem, são por si mesmos uma grande oportunidade. A gente só entende de fato quando mergulha de cabeça nesta grande “oportunidade” dita problema. Trata-se do mergulho ao conhecimento de nossos limites. Gozado, lembrei de uma obra que li e que falava que os chineses é que estão certos quando no seu idioma apreendem de uma mesma palavra – “crise” – o termo “oportunidade”. Posso lhes dizer que não tem como não concordar com os orientais. De fato o que ocorre, na prática, é isso mesmo. Oportunidade. A palavra carrega sua própria raiz etimológica. Estas raízes são “chose de la vie”, diria Deise, minha amiga que teima em só falar francês quando se encontra comigo.
Considerando as coisas que nos acometem sem [nos] esperar – porque nem tudo é previsível justamente pra não esmaecer diante de um simplismo existencial -, a cada dia me convenço que a vida é sim uma espécie de roda-gigante. Hoje estou bem; já amanhã nunca se sabe. Aliás, alguém aqui arriscaria dizer o que nos revela o minuto seguinte? Pura redundância, o minuto seguinte é o que será. Quanto a ele, não importa. Importa o “como” se deve enfrentá-lo (ou como enfrentaremos). Isto é o que acaba prevalecendo no final de todas as coisas [in]esperadas.
Tinha falado de ressignificados justamente ao pensar nessas coisas. Ressignificar a vida. Os problemas. As adversidades. A própria existência. “Como” acaba sendo muito mais epidérmico do que um “por que” inquiridor, é o que penso. Um revela certo cuidado com o que de fato é sem se importar com as razões periféricas; o outro, apenas um pré-qualquer-coisa com vistas a uma explicação desejada.
Quase sempre é preciso dispor-se de alguns saltos para se ver a mesma situação com o mesmo tamanho que todos os mortais a vêem todos os dias. É a tal capacidade de ver-se no tamanho que se é que dignifica a paisagem – toda ela – enquanto se percorre a estrada-vida. Há quem afirme que o belo é o que se torna comum, sem perder a sua grandeza. Chegar até aqui não é tão fácil, bem sei, há que se ter ousadia e acuidade desmedidas para discernir todas estas realidades.
Vi de perto como muitos são relegados a segundo e terceiro planos nas emergências dos hospitais. Tudo a que assisti não passou de um retrato daqueles em 3x4. Desde aquelas duas jovens a quem ajudei com algumas informações e que traziam seu pai quase desfalecido, pedindo um colchonete que fosse para o pai deitar-se (e que acabou sendo atendido ‘em parte’ por uma enfermeira que, após a insistência das jovens, trouxe dois cobertores), àquela outra que, indignada, me contava que seu pai estava internado há dois dias sentado na emergência porque não tinha mais vaga em leito algum. Sequer na enfermaria. E olha que a coisa estava apenas em 3x4. Fico imaginando como não se dá o retrato desta miséria sob o aspecto “macro” da coisa.
Ante o caos na rede pública de saúde (que começa pelo desvalor dado à pessoa), felizes os que podem pagar pela rede privada como foi o caso de meu pai. Tudo isso é muito triste, tão triste que não encontra resposta na obviedade dos discursos políticos tentando explicar o inaceitável. Ano após ano os Tribunais de Contas dos Estados aprovam as contas das secretarias – entre elas, as de saúde – como se os recursos estivessem realmente sendo aplicados. Em suma, tudo paira tão fantasioso como os tijolos amarelos da estrada que levava Dorothy até a Cidade das Esmeraldas em “O Mágico de Oz”. Perdoem-me a comparação, a obra de Lyman Frank Baum não mereceria tamanha infâmia!

Mas não quero perder de vista o tom da esperança. Mergulhado naquele oceano com inúmeras ondas bravas de descaso e de um arrogante “selfismo”, assistindo a cenas que nunca imaginei assistir tão perto da realidade, lembro-me de um enfermeiro que me atendeu. Não sei o nome dele. Não perguntei, sequer tinha cabeça pra isso naquele instante. Fiquei de 7h até às 20h numa emergência vendo como aquele rapaz lidava com os doentes, como consolava os familiares, como se importava e como o toque – apenas o toque – tranqüilizava os desesperados. É isso. Importar-se. Aproximar-se e tocar. O mundo seria menos caótico se houvesse mais pessoas se importando com o que fazem e como fazem. Aquele jovem esguio e de olhar lânguido, cabelos compridos e passos curtos e rápidos, pareceu-me um beija-flor numa floresta em chamas.
Passado tudo aquilo a que assisti, a certeza que me restou veio como tábua de salvação naquele universo bravio. Senti-me convidado a rever o significado que cada coisa dita importante – vida, saúde, família, carinho, atenção, etc – acaba tendo quando o minuto seguinte se torna nossa realidade deste instante. A isto chamarei de ressignificar valores. Sinto-me ressignificando muita coisa aqui dentro enquanto escrevo. No final das contas, minha conclusão não é “concluível”. Em meio a tanta ressignificação sei que o que me ocorre é como uma conjugação em gerúndio. Um processo cujas ações povoam o lado de dentro. O que virá a partir daí somente o tal minuto seguinte revelará. Sem pressa. Sem todas as certezas. O “como” acontecerá é o que importa!
Nota: sementes de gratidão para todos aqueles e todas aquelas que souberam dos fatos antes que o publicasse e me regaram com águas de consolo e carinho. O beijo há de impingir o que até agora não seguiu nos últimos agradecimentos, estejam certos!
Precisei cuidar de meu pai durante toda a convalescência. Sim, ressignifiquei tanta coisa que até alguns papéis, temporariamente (e por uma justa causa) se inverteram. Penteava seus cabelos brancos, brincava com os penteados que inventava, dave-lhe banhos gostosos, levava-lhe água e os remédios nas horas certas. O tempo afastado daqui, quero dizer, destas linhas me trouxe inúmeras lições ante ao que assisti pelas andanças em diversas clínicas e até num hospital da rede pública (o primeiro lugar para onde o levei quando desfaleceu). O enfrentamento de problemas, sobretudo os inesperados, sejam eles de que natureza forem, são por si mesmos uma grande oportunidade. A gente só entende de fato quando mergulha de cabeça nesta grande “oportunidade” dita problema. Trata-se do mergulho ao conhecimento de nossos limites. Gozado, lembrei de uma obra que li e que falava que os chineses é que estão certos quando no seu idioma apreendem de uma mesma palavra – “crise” – o termo “oportunidade”. Posso lhes dizer que não tem como não concordar com os orientais. De fato o que ocorre, na prática, é isso mesmo. Oportunidade. A palavra carrega sua própria raiz etimológica. Estas raízes são “chose de la vie”, diria Deise, minha amiga que teima em só falar francês quando se encontra comigo.
Considerando as coisas que nos acometem sem [nos] esperar – porque nem tudo é previsível justamente pra não esmaecer diante de um simplismo existencial -, a cada dia me convenço que a vida é sim uma espécie de roda-gigante. Hoje estou bem; já amanhã nunca se sabe. Aliás, alguém aqui arriscaria dizer o que nos revela o minuto seguinte? Pura redundância, o minuto seguinte é o que será. Quanto a ele, não importa. Importa o “como” se deve enfrentá-lo (ou como enfrentaremos). Isto é o que acaba prevalecendo no final de todas as coisas [in]esperadas.
Tinha falado de ressignificados justamente ao pensar nessas coisas. Ressignificar a vida. Os problemas. As adversidades. A própria existência. “Como” acaba sendo muito mais epidérmico do que um “por que” inquiridor, é o que penso. Um revela certo cuidado com o que de fato é sem se importar com as razões periféricas; o outro, apenas um pré-qualquer-coisa com vistas a uma explicação desejada.
Quase sempre é preciso dispor-se de alguns saltos para se ver a mesma situação com o mesmo tamanho que todos os mortais a vêem todos os dias. É a tal capacidade de ver-se no tamanho que se é que dignifica a paisagem – toda ela – enquanto se percorre a estrada-vida. Há quem afirme que o belo é o que se torna comum, sem perder a sua grandeza. Chegar até aqui não é tão fácil, bem sei, há que se ter ousadia e acuidade desmedidas para discernir todas estas realidades.
Vi de perto como muitos são relegados a segundo e terceiro planos nas emergências dos hospitais. Tudo a que assisti não passou de um retrato daqueles em 3x4. Desde aquelas duas jovens a quem ajudei com algumas informações e que traziam seu pai quase desfalecido, pedindo um colchonete que fosse para o pai deitar-se (e que acabou sendo atendido ‘em parte’ por uma enfermeira que, após a insistência das jovens, trouxe dois cobertores), àquela outra que, indignada, me contava que seu pai estava internado há dois dias sentado na emergência porque não tinha mais vaga em leito algum. Sequer na enfermaria. E olha que a coisa estava apenas em 3x4. Fico imaginando como não se dá o retrato desta miséria sob o aspecto “macro” da coisa.
Ante o caos na rede pública de saúde (que começa pelo desvalor dado à pessoa), felizes os que podem pagar pela rede privada como foi o caso de meu pai. Tudo isso é muito triste, tão triste que não encontra resposta na obviedade dos discursos políticos tentando explicar o inaceitável. Ano após ano os Tribunais de Contas dos Estados aprovam as contas das secretarias – entre elas, as de saúde – como se os recursos estivessem realmente sendo aplicados. Em suma, tudo paira tão fantasioso como os tijolos amarelos da estrada que levava Dorothy até a Cidade das Esmeraldas em “O Mágico de Oz”. Perdoem-me a comparação, a obra de Lyman Frank Baum não mereceria tamanha infâmia!

Mas não quero perder de vista o tom da esperança. Mergulhado naquele oceano com inúmeras ondas bravas de descaso e de um arrogante “selfismo”, assistindo a cenas que nunca imaginei assistir tão perto da realidade, lembro-me de um enfermeiro que me atendeu. Não sei o nome dele. Não perguntei, sequer tinha cabeça pra isso naquele instante. Fiquei de 7h até às 20h numa emergência vendo como aquele rapaz lidava com os doentes, como consolava os familiares, como se importava e como o toque – apenas o toque – tranqüilizava os desesperados. É isso. Importar-se. Aproximar-se e tocar. O mundo seria menos caótico se houvesse mais pessoas se importando com o que fazem e como fazem. Aquele jovem esguio e de olhar lânguido, cabelos compridos e passos curtos e rápidos, pareceu-me um beija-flor numa floresta em chamas.
Passado tudo aquilo a que assisti, a certeza que me restou veio como tábua de salvação naquele universo bravio. Senti-me convidado a rever o significado que cada coisa dita importante – vida, saúde, família, carinho, atenção, etc – acaba tendo quando o minuto seguinte se torna nossa realidade deste instante. A isto chamarei de ressignificar valores. Sinto-me ressignificando muita coisa aqui dentro enquanto escrevo. No final das contas, minha conclusão não é “concluível”. Em meio a tanta ressignificação sei que o que me ocorre é como uma conjugação em gerúndio. Um processo cujas ações povoam o lado de dentro. O que virá a partir daí somente o tal minuto seguinte revelará. Sem pressa. Sem todas as certezas. O “como” acontecerá é o que importa!
Nota: sementes de gratidão para todos aqueles e todas aquelas que souberam dos fatos antes que o publicasse e me regaram com águas de consolo e carinho. O beijo há de impingir o que até agora não seguiu nos últimos agradecimentos, estejam certos!

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