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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

uma crônica após tanto tempo de ausências neste blogue


Vivem-se dias de pressa. Alguns entendem como algo bom. É bom ter pressa, asseguram. Otimiza-se o tempo. É o que muitos consideram. Sou das antigas, por mais que o tom de cor seja embotado no meio dessas palavras. Eu sei que sou um cara das antigas. Neste fim de semana fiz algo que já não fazia há alguns meses (poucos meses, confesso). Fui até a agência de correios do bairro onde moro. Postei uma correspondência. Estranho dizer isso, mas pra muita gente é coisa das antigas. Não tiro a razão, principalmente porque um e-mail sai e já chega com a resposta em questão de minutos, dependendo do destinatário. Dia desses também saltei do metrô, ali no Largo do Machado, e me encontrei (pra não dizer que me perdi!) num daqueles quiosques de flores e nem me dei conta que demorei horas entre pétalas, cores e aromas. Eu quis dar pra mim mesmo um bouquê. Nada demais, é só porque gosto de receber flores e a última vez que recebi de alguém deve ter mais de meia dúzia de anos, certamente. Enviar flores, escrever cartas e postá-las por método convencional, escrever bilhetes, ouvir “The Carpenters” e “Chicago” (pra evitar de dizer que amo ouvir Callas e Piaf), sair à frente e segurar a mão da dama quando descemos de algum lugar, visitar idosos numa instituição asilar e ganhar uma tarde inteira quando estou com eles, entre outras coisas acabam por me estereotipar como um cara com hábitos, diria, antiquados para a pressa da contemporaneidade e os costumes que nascem a partir daí.


Ninguém tem tempo pra muita coisa, tudo é resumido aos estalos e aos cliques do momento. Se escrevemos um e-mail, por exemplo, e não o respondemos em questão de minutos, horas ou, nos casos mais raros, em até um dia, entende-se que não se deu a importância devida. Esquecem, no entanto, que pessoas são pequenos mundos particulares. Eu, por exemplo, costumo demorar dias pela resposta do e-mail, salvo raras exceções. É o velho hábito das cartas convencionais arraigado aqui dentro. De telefone celular nem falo mais. Nunca conseguimos ir além de um namoro. Acabo tendo por uma espécie de necessidade, mas daquelas necessidades que não são vitais. Que fique claro.


Quando o assunto é lincado aos terrenos do coração (não falo apenas de paixão, mas de qualquer envolvimento afetivo, inclusive o fraternal), não fujo à regra dos meus sentires mais inatos. Talvez porque meu olhar lançado aos pés da vida seja absorvido pelas verdades que me vestem. É uma possibilidade, quem sabe. E como me vestem as minhas verdades? De roupas simples, tecidos modestos, nada extravagantes, mas convictos e seguros de como posso usá-los (e até onde me deixarão confortáveis). Sou daqueles que acreditam (sim, eu acredito!) nas possibilidades de amar quanto mais me ofereça, sem, contudo, me perder no processo. Não é porque se ama que se deixa de ser quem se é desde sempre! Afinal, duas estacas sustentam minhas convicções: a certeza-de-mim que é produzida pela fé e a esperança de continuar sendo-sem-fim como um produto inacabado mas que persegue um alvo, o ser cada vez mais humano. Eis por que talvez não tenha desistido até hoje de suportar os sonhos grávidos que ainda não pariram. Sou pai de muitos deles, mas ainda não posso segurar as crias. Nem todas nasceram. Algumas nem nascerão. São as paixões que me levaram ao delírio mas que, por alguma razão, se foram sem que eu notasse que não eram pra mim...


Gostaria de descortinar um parêntese e lhes revelar algumas confissões. Um cara das antigas como eu se assusta com o assédio. Sábado passado, depois de sair da festinha de aniversário divertidíssima de minha irmã, corri para me fazer presente na comemoração do aniversário de outros dois amigos. E não é que foram três os pedidos pra ficarem comigo? O último pedido foi tão insistente que me constrangeu. O pior é que o não querer, às vezes, é lido como bancar o difícil. Como assim, ficar por ficar? Como diria a retórica da blogueira Cleycianne: cadê o romance? Cadê o governo? (risos). Eu remendaria: Cadê o interesse pelo que se é? Uma outra confissão que faço tem a ver com o que espero. E o que espero? Da vida, os frutos de minha semeadura feliz. Dos projetos de vida, os sinais confirmadores de que ainda há sempre o que melhorar, sem jamais desistir. Dos terrenos do coração, uma semente que germine e se enraíze com fortável na terra que lhe acomoda, terra simples, mas umedecida de afeto que acolhe e segura na mão até perder o vigor pela idade.


Fechando os parênteses, a pergunta que me soa uma sinfonia de expectativa é o que me embala tanta certeza. Nem sempre estou certo. A prova é que já caí inúmeras vezes! E que bom que esses processos me habitam; deve ser um prisão – um adoecimento constante – crer que não se erra! Mas quero um dia poder acertar de uma maneira diferente, sabe. Olhar, sorrir, falar sem dizer palavra e finalmente encontrar uma outra resposta pra fora de mim, que venha ao encontro da minha própria e decida – ambos decidamos! – a ser resposta mútua e satisfatória. Quando virá? Não sei. Como virá? Certamente por meio de nossas verdades, nunca pelo trágico manuseio das aparências. Assim, que todos saibam pra fora das letras que não sou bonito, não tenho o melhor sorriso, não sou rico nem carrego estirpe. A vida me presenteou com a gana de persistir até tornar tudo um Dia Perfeito. Batalho sob o sol escaldante, pego ônibus e metrô, me doo, ponho cara à tapa, fui liberto pela Força esmagadora do Amor do auto-engano e do medo de ser flagrado pelos seres humanos, tenho verdadeiro horror à coisificação do ser humano e creio com todas as minhas forças que é possível abraçar todos os dias a mesma pessoa por muitos e duradouros anos, sentindo a pele ficar flácida e enrugada com o passar dos anos. O que sou? Um cara das antigas num mundo cibernético? Um ser humano, aprendiz-errante. Eis o que sou-sendo. Sim, pois os processos dentro de mim não se cumpriram. Sequer ainda encontrei os braços certos pra abraçar por toda a vida. Sem pressa, obviamente.



quarta-feira, 2 de março de 2011

Avisando que preciso de tempo...



Sabe quando você percebe que há flores não cuidadas no jardim? Sabe quando as semeaduras, por si só, não tecem a fertilidade do solo nem trazem água pra dentro das canaletas? A palavra é quase certa que me distrai. E digo quase porque sei que já me colocou de ponta a cabeça em textos afora. Ando distraído, confesso. Mas não é difícil pensar que há uma quantidade enorme de ações pra serem executadas com palavras e significado. Tenho, literalmente, uma dúzia de excelentes obras pra serem lidas, uma a uma aguardando a sua vez. Ontem, irresistivelmente, puxei das prateleiras da Saraiva a obra “Ostra feliz não faz pérola”. Quase quinze minutos devorando a obra, de pé. Segurei-me, mas não resisti. Comprei. O ‘Farelos & Sílabas’, de vez em quando, me suspira idéias e me inspira o desejo das saudades. Saudades de quem precisa atualizar as linhas, os fatos, o prazer de parir palavras...

Há flores não cuidadas nos textos que ando produzindo, quase sempre deixando-os à margem. O tempo é curto, confesso pra minha ansiedade e meu sereno desespero. Não convenço. Não começo. Não saio do papel. As palavras me traem com consentimento. Prossigo. Persisto. Nem sempre consigo. Quem não recebe meu consentimento é o tempo, que não titubeia; que, mesmo curto, avança impávido e, às vezes, impiedoso...

Debaixo da sombra das paredes nesta selva de pedra, após os contratos redigidos, mergulhei num estudo sobre a nova ortografia, projetos traçados que o meu futuro compartilhará no momento oportuno. As horas foram engolindo o tempo e o tom de meu vigor. Umas gotinhas de cansaço molharam alguns sonhos. Ao fim do dia, voltei pra casa pensativo, dentro do metrô. Meu pensamento naquele instante estava descalço, surrado pelas reflexões. E tem estado assim ultimamente...

À noite, na companhia do travesseiro e dos lençóis, tem horas que um friozinho assopra ventinhos pra lá de gelados. Acho que já era madrugada quando meu peito e algumas necessidades vitais quase morreram de frio. De repente, lembro que o pensamento voou da cama e me recordou o último ato de “La Bohème”, de Puccini, com Rodolfo gritando e soluçando por sua amada Mimi, que morria de frio no quarto. Do lado de fora de mim, no entanto, nada se comportava gélido ou morto. Ao contrário, estávamos eu e as idéias descalças e confortavelmente vivas. Estranho tudo o que disse, mas penso que somos parte de um todo, de um grande jardim dentro de nós... Deve ser por aí mesmo! Creio que me assisti criando brotos, rasgando alguma parte de mim pra folhas novas nascerem...

Mas este mergulho pra dentro das emoções é o que me aponta a certeza do crescimento, o de me perceber vivo e produzindo novas fases dentro de mim. Este foi um tempo só meu, um tempo de certezas sendo fecundadas!

Há, porém, certezas e certezas. Uma delas é a que percorri cantos vazios e outros floridos nos meus jardins de alma. E há apelos sendo feitos tanto quanto há reivindicações justas e necessárias de um homem de quase meia-idade. E o que eu digo diante de tudo isso? “Está tudo acabado entre nós!”, como dito por Rodolfo à Mimi em “La Bohéme”? É pra ser assim?

Não, não pode ser assim!

Eu preciso conduzir a roda viva da vida por entre os cantos que aprecio e por aqueles outros não percorridos. E que se dane se atravessei os anos distraidamente, cego-de-mim, se engoli etapas, se me recusei a dançar com a vida quando mais jovem, se tanta coisa eu quis em outros tempos mais obscuros de negação de minhas verdades, se tanta coisa que não é nada se eu comparar ao que ainda pode ser e me fazer cada vez mais feliz!

Não quero terminar o texto e ficar triste ou perplexo!

Eu só peço um tempo, uma necessidade latejante de reavaliar algumas coisas, catar folhas secas e limpar as cores vivas de minha natureza. Desde ontem a idéia me persegue: eu preciso cuidar {mais} de mim e das {muitas} ações que nascem de meu ânimo e de minha esperança particular. Dessa vez até meu corpo e todo o imenso coral de testosterona que por ele canta, me pedem atenção!...

Quero dar-me tempo pra umas coisas e nem tanto pra outras. Decidi que perco a inteireza do necessário tempo nos programas de relacionamento social. Necessário pra mim, quero dizer. Não irei excluir o twitter e o facebook {tal como o fiz com o Orkut há mais de um ano atrás}, mas um afastamento premeditado e coerente com os rumos que desejo me conduziriam ao tempo que quero de volta pra mim. É um reinvestimento do tempo que me concedo. Nada muito novo, já tomei medidas assim outras vezes. Decidi que preciso de reajustes, algumas podas, uns amassos firmes!

Sair aos poucos, de fininho, à francesa, é interessante? Quem sabe... Eu ainda não sei, apenas considero.

Só não quero pegar os amigos de surpresa. Talvez, por isso mesmo, cuide pra que essas idéias germinem em palavras exatas, nada furtivo ou incoerente com o carinho que sinto pelo que faço e por todos os amigos que tenho no universo virtual. Talvez o faça para os próximos dias, quem sabe depois do Carnaval ou do sono que se perdeu na cama...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Crônicas do mundo virtual – I



Quero construir uma casa bem segura, mas não dispenso o conforto. Uma casa tão linda quanto firme, é o que preciso. Obviamente, beleza e conteúdo são decorações que dependerão apenas de meu olhar. As paredes precisam ser altas e ter bom prumo. O telhado não precisa ser clássico, mas experiência nas tempestades é uma virtude indispensável. Preciso de material para começar a tornar tudo realidade, dar forma e formosura ao sonho. Um amigo me indica coisas interessantes a bom preço. Só tem um probleminha: a quantidade de promessas “fakes” é enorme, o que exigirá paciência monástica e uma capacidade absurda de discernimento das propostas, das chantagens e até das apelações. Preocupado e ao mesmo tempo curioso, entrei. Vamos ver no que dá, pensei. Como há de tudo na vitrine indicada! Tem material que a gente jura ser sólido, mas se dissolve num simples gesto de contrariedade. Tem ainda aqueles materiais cujo mostruário é pura jura de tudo o que você estiver precisando. Eles juram que serão a melhor aquisição feita por você. Não agüentam um tranco, o produto quebra pela falta de consistência. É apenas ‘pra inglês ver’. Vi alguns outros querendo a todo custo ser peças de uma casinha feliz, bem estilo família. Pura malandragem, logo percebi. Só estão querendo sair da vitrine e contabilizar mais um 'consumidor' desatento. É, a lei do mercado não perdoa os desavisados... Pareço frio com o teor da palavra, mas ninguém duvida que para muitos pessoas são coisas. E coisas-pessoas se garantem em meras estatísticas de consumismo, coisa de gente diluída no próprio ser, sabemos. A regra é não ter regra. Se alguns não se importam em ser coisas-pessoas, tudo o mais se apequena. Rodando por todas as seções, caminhando por ‘ene’ corredores, dos mais simples aos luxuosos, a constatação é que um bom material rarissimamente se encontrará por aqui. Estoque esgotado. Sem previsão de reposição. Dei-me conta dos elementos encontrados nas esquinas da natureza, produtos que se podem olhar e até tocar por fora das vitrines. Madeira de lei, virtude que enobrece. Material sólido para uma casa firme. Elementos personalizados, únicos. Produto de incomparável qualidade. Estão lá. Às vezes, bem pertinho de nosso território. E é seguindo as setas de minha intuição que continuarei meu rumo. E meus sonhos. E minhas esperanças. E tantas certezas famintas de concretude. Tenho uma casa pra construir! Por aqui, só de passagem. E olhe lá!

Adeus, vitrines!


Nota de rodapé: estou voltando e farelando sílabas aos poucos, pegando tijolinhos e poeirinhas de pão de cada vez, montando o texto sobre meus sonhos, untando as letras com saudades e tantas outras coisas que nem sei... Há quantos meses não postava por aqui! Estou surpreso!...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um terceiro momento


Estou vendo os cabelos brancos refletidos no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes. Eles despontam entre os tímidos cachos e se esguicham por sobre o castanho escuro [ainda] predominante. Pensando na possibilidade de uma invasão deles – o que seria prazerosamente bem-vindo! – é que se percebe a dimensão do finito sobre as coisas e do infinito sobre o que nos constitui. Não me refiro ao envelhecimento, o que é tão natural quanto a sede, a fome e o frio. Penso exatamente no percurso do processo, na trajetória de como até aqui se chega. Alegrias, prazeres, lágrimas, soluços, medos, culpas, fugas, prisões, iras, bravuras, covardias, insurgências, tensões, milagres, coisas inexplicáveis e outras tão lógicas que nem se dão valor, a princípio...

Os pés caminham na direção do pseudo-fim, divago num olhar pra dentro. A existência nem sempre é precisa, afirmo pra mim mesmo no mergulho do silêncio. Há dias em que pareço voar, voar. Há momentos em que nem sei por que sinto saudade, a tal vontade de refazer o percurso na própria existência (por lembrança, por fé ou por nostalgia). É coisa do pensamento, eu sei. Mas bem pode ser coisa da vida, a danada que firma o chão sobre o qual caminho. De olhos antes fechados, agora abertos, eu vou. E sou. Maior do que o pensamento. Mais altaneiro que os olhos. Assim, fecundo, de mansinho, de pé até este momento...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Observações em dois momentos



1º momento – o início da noite de ontem


Canetas repousam sobre a mesa diametralmente colocada para servir a duas dúzias de cotovelos e pernas. Olhei para o relógio de pulso, que me pulsava a chance de mais uma interrupção naquela reunião. Brinquei com a palavra parida antes de meu parto natural. Era um amigo que reclamava seu ponto de vista sobre determinada situação que não gostaria de ter vivido. Falávamos sobre o papel político que nos vestia o “sentir subversivo” contra toda ordem de intolerância na sociedade. Lembrávamos – embora eu apenas observasse – o encontro da última sexta-feira com os candidatos do PSOL ao governo do estado, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. Recalcitrantes àquele palavrar politicamente ideológico, amigos reconheciam que o fundamentalismo religioso – diferentemente do que eles nos passavam – era e é o câncer que grassa nosso país. As lembranças apenas ilustraram parte da preocupação de nossos olhares. Estratégias foram delineadas pelas manifestações tão acolhedoras de todos. Ali, todos pareciam querer a mesma coisa, embora ninguém carregasse fuzis dentro dos olhos ou do próprio coração; ao contrário, o sentir mais visível estava no doce aroma da paz. Ela, a paz, não era um ideal menino, nem um cheirinho gostosamente inalcançável, mas uma nota alta de si maior na garganta de nossa vontade. Léa falava sobre os sonhos e, dentro deles, o projeto para alfabetizar travestis. Márcio, perguntado por mim, ressaltou os convites que fez com os psicólogos para desenvolvermos o mais rápido o projeto anteriormente aprovado para dar assistência aos jovens portadores do HIV. No fim de tudo, se é que sonhos podem ter fim, lembramos o ardor que carregamos e que não cabem em outra palavra senão no amor que desejamos não apenas pra nós, mas para todos. Afinal, buarquianamente nós cremos que “dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastante, quando cada instante é sempre." Tudo o mais foram falas e mais falas até o sinal do fim. Reunião terminada. Cafezinho quentinho na ponta dos lábios. Um abraço, dois, três. Os meus olhos, sorrindo, acolhiam e se transformavam entre tanta gente que não apenas deseja os quês da vida, mas vai e faz. O domingo continuava produtivo, [antropo]logicamente falando...


2º momento – o início do dia de hoje


Abri a janela. Olhei com olhar entreaberto para o mundo lá fora. O dia me pareceu ter amanhecido acinzentado pelos cantos. Os rabiscos pelo firmamento não mostraram os raios do sol. A preocupação foi tanta com os detalhes que as nuvens sequer notaram o campo todo preenchido, sem chance para o sol surgir e mostrar seu brilho. Instante pensativo. Barulhos no andar de baixo não me seduziram. Olhei para o relógio sobre um canto qualquer da estante no quarto, reparei que apontava a indicação para além da hora esperada. Sequer percebi os minutos. Isso é difícil de acontecer, mas tem coisas que nos escapam. Olhei novamente para o cenário das nuvens e do próprio firmamento, confessei pra mim mesmo uma reza certeira de que o dia prometia trabalho. Fui lá cumprir a promessa de granjear o pão nosso de cada dia. Fiel, cumpri prazerosamente a força do meu desejo: devorei a fome. Sim, comi. Foi bom para ambos...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Meus sentires nesse retorno



Vai me ver com outros olhos ou com os olhos dos outros? (Leminski)

Um mês e meio se passou. As palavras não emudeceram, saibam disso. É que tem horas que a gente cala pra se ouvir mais. Por outro lado, há tantas formas de se fabricar uma palavra. A escrita é apenas uma delas. O caracter é outra na dimensão informatizada. Há palavras que não se dizem, mas se percebem. É nítido. É evidente. Quantas vezes disse tantas palavras em meio ao burburinho de apenas-olhares!... Calei-me por aqui, nessas terras, mas me fiz ouvir em outras. O twitter é só mais uma delas. O e-mail [como tenho usado ultimamente!] é outra terra que frequentemente recebe as pegadas de minha presença e de meus suores...

O fato é que estive ausente de um canal que me fascina e por intermédio do qual tantas portas se abriram. Portas de entrada para gente do bem. Semeadores de vida na vida de quem os lê. Assim é que sinto o clima “humano” na blogosfera. Falava dia desses com amigos a respeito do sentir a humanidade. Aliás, ontem também falei numa aula em pleno domingo. Sentir a humanidade é pra quem tempo de ouvir o outro. Às vezes soa contraditório falar exatamente disso dentro de uma perspectiva no planeta “world wide web”, fica meio raso, sei disso, afinal, a internet é um mundão sem porteiras. Pessoas entram e saem tais como as informações. Costuma-se não ter tempo para ouvir. As usual as natural... Mas, convenhamos, o contraditório está em nos fazermos gente que para e ouve em meio à multidão que apenas passa, não semeia nada porque não traz nada para oferecer ao outro.

Tenho buscado sentir o outro na sua dimensão histórico-sócio-cultural. Minha pretensão é tanta que diria ser um exerciciozinho de amor pela humanidade. Tudo bem, ando meio que abusado ultimamente. Não é nada premeditado. Acontece. Por outro lado, não é olhar o outro com quaisquer outros olhos. Não! Já vivi isso numa parte de mim que se foi com um novo florescer de idéias e de transformações no ser. É olhar com vontade de entender, acolhendo, ainda que. E quando falo em acolhimento não afirmo que concordo com tudo o que olho e entendo (ou não). É apenas lançar um bom olhar sobre o outro, de modo que ele não seja “o inferno” de Sartre nem o “lobo” de Hobbes. Seja apenas o que é pra mim, o que fará toda a diferença.

No entanto, olhar o outro com os olhos dos outros é o que fomenta o mecanismo sórdido das nivelações de um humano para outro. Aqui, pelo licença aos desavisados para me referir às nivelações que nutrem o “status quo” do universo dos preconceitos. Apenas para ilustrar o que acabei de dizer, na semana passada meu amigo Márcio Retamero – que lançará seu segundo livro daqui a duas semanas -, dizia num editorial: “reduzir a pessoa humana à sua orientação sexual é de uma violência atroz! Dia desses eu lia uma manchete de um jornal do nordeste: ‘Gay em Alagoas é morto’; nunca li: ‘Heterossexual carioca é preso’, ‘Mulher heterossexual paulista é assassinada’. Por que reduzir uma pessoa à sua orientação sexual? Porque o preconceito usa dos rótulos para denegrir, reduzir e rebaixar socialmente.”

Então, pra mim, que sou um carioca tão limitado e com tanto caminho pela frente a percorrer, que, embora tendo caminhado até aqui em segurança, já foi vítima de preconceito e do que atualmente se convencionou chamar bullying, já foi traído muitas vezes por mim mesmo (porque o outro, o qualquer outro, apenas foi o que foi pela minha desatenção em não observar que o mundo não é um eterno comercial de margarina e que pessoas nem sempre falam com palavras, mas com pequenos gestos, ou seja, na perspectiva da lição ensinada pelo pedagogo Jesus quando afirmou que “pelos frutos os conhecereis”), ter mudado radicalmente minha maneira de pensar o mundo, a vida, as pessoas e sobretudo a mim mesmo – a tal “metanoia”, palavrinha traduzida por “conversão” – é que me estimula a percorrer neste caminho, caminhando com vontade de aproximação. É o ter tempo para ouvir ao qual me referi no início dessas palavras. É o construir pontes, e não muralhas, conforme li na obra de Colin Higgins, “Ensina-me a viver”, clássico dos anos setenta que acabou virando peça de teatro e filme.

Gozado que escrevi tudo isso em meio a um ar de ceticismo pelo desenhar das nuvens que anunciam um temporal daqueles. Sim, pesquisas indicam que a próxima legislatura no Congresso Nacional tende a ser a mais fundamentalista de toda a história, considerando o avanço do fundamentalismo religioso que se candidatou nos TREs (tanto nos que concorrem pela primeira vez quanto nos que desejam se manter em seus cargos eletivos). Num próximo texto explicarei melhor as minhas razões. De antemão, saiba-se, é legítimo que um fundamentalista se candidate e seja eleito. Entretanto, não é legítimo que faça de sua legislatura uma orquestração para olhar o outro com o olhar da religião, a qual sempre divide [pois só o amor constrói, liga qualquer coisa!], impedindo que muitos avanços alcancem uma parcela da população da qual faço parte. Mas, no final das contas, penso que tudo isso apenas sirva como [mais uma] lição para eu aprender a ter cuidado com meu olhar, sabendo que “não se colhem uvas dos abrolhos”. É o que disse, sou apenas um aprendiz com muito o que caminhar pela frente...


Notinha de rodapé:

A imagem acima foi proposital. Busquei a autoria para a questão dos créditos, mas não a encontrei. Achei-a provocativa num texto que li, no original em inglês, falando sobre impressões equivocadas que temos sobre algumas coisas que apenas aparentam ser. Mas não são. Ou, quem sabe, são muito maiores que a imagem. Reduzir o que alguém é a uma imagem é coisa de publicitário. Não deveria ser assim no cotidiano. Jefferson Lessa, no brilhante texto Medo de ser, publicado ontem no jornal O GLOBO, fazendo referência ao bullying pelo qual passou, traduz o cotidiano como feito de muitas e pequenas coisas que deveriam ser levadas em conta (ao invés de um rótulo). É por aí...

sábado, 5 de junho de 2010

Embalos [da madrugada] de sábado à noite



Noitinha fria pede passagem e assenta-se, fazendo-me companhia. Somos eu e ela próximos. O mar anda meio duvidoso, rugindo seus cantos de ressaca, irrequieto com o barulho dos ventos. A natureza tem dessas coisas, a gente não controla. Aliás, o que a gente controla? A lágrima? A saudade? A perda? A ausência? O tempo? A vida? A morte? O presente? O futuro? O quê?

Não temos controle sobre quase coisa alguma. No máximo, quando queremos, a palavra não sai. O texto não sai. O beijo não sai. E tantas outras coisas também não saem...

As coisas parecem ser passageiras? – alguém pode perguntar. Talvez. Depende do que se espera e por quanto tempo se espera. Depende, portanto, de quem espera, não das coisas em si.

Ontem, comemorando o aniversário de um amigo na Lapa, sucumbi a vários momentos sobre os quais não tenho controle. A princípio, não estava disposto o suficiente. Fazia frio e havia muito cansaço sobre a pele que me veste o corpo. A hora também não me soava interessante, pois qualquer evento que inicie após às 22h já me força o [des]controle com as coisas que costumo controlar. No entanto, fui. Algumas coisas não podemos controlar. O momento seguinte é uma delas. O fato é que acabei encontrando amigos outros que não imaginava, gente com quem não falava – sequer por e-mail, carta, telegrama, nada! – desde meados de 2008! Amigos de perto ficaram felizes com minha presença, pois sabem que não sou das viradas da noite, o que aumentava mais ainda a contagiante alegria pelo ineditismo da ocasião. Entre rostos conhecidos e outros nem tanto, fui apresentado a quem não conhecia. Conversei com todos e todas, essas coisas naturais do convívio social dos seres humanos. Emocionei-me com as cores daquelas alegrias e sobretudo com as músicas cantadas ao vivo. “Como nossos pais” me retirou das mãos os aplausos antes tímidos. Há quem canta e quem interpreta. Vi quem faz os dois verbos se tornarem um só pela conjunção carnal.

Entre sorrisos e palavras, gargalhadas e conselhos dados, alegrei-me com a oportunidade do encontro e com a dádiva da vida sobre quem aniversariava. Quando tudo, enfim, preencheu seu lugar no baú das memórias vividas naquela madrugada, despedi-me sob a intensidade das cores daquelas alegrias. Tudo tinha valido a pena até então. E como tudo concorre para lições que aprendemos no incontrolável das coisas, saí a passos gratos daquele bar. Do lado de fora, o friozinho ainda dava o ar de graça. Mas não estava sozinho com minha própria companhia. Um ventinho na consciência me sussurrava a certeza de que ainda havia um pedacinho de noite pra me consolar sob o edredon...

Já que falei em lições que aprendemos, uma delas é que o fluxo da vida não pode ser controlado. É necessário que não consigamos controlá-lo! E assim é com o que não depende de nós. No meu caso, pra quem não estava muito a fim sequer de sair, o cansaço emudeceu diante da emoção do que não esperava. É bom demais não me sentir deus em momento algum. Meus embalos se afirmam no chão do que me estabelece. No baú das memórias, bom mesmo é a essência da simplicidade nas coisas. Como aprendi com meus pais. Sem pretensão alguma, não é que os ecos da canção de Belchior foram comigo para o edredon?! É, bons ecos! E como me ensinam mesmo depois do amanhecer!...

“É por isso que não quero falar das coisas que aprendi nos discos... quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa...”



quarta-feira, 2 de junho de 2010

Um [novo] verbo: twittar


Confesso que ainda estou aprendendo sobre o tal programa Twitter. Confesso que Orkut e MSN não me seduzem há séculos, tanto que não os tenho. Confesso que fui atraído porque o programa não é de conversação, o que não me agrada, e sim de troca de informações. Confesso que a sede por informações é o que mais me convenceu da utilidade (eu as seleciono por categorias e temas). Confesso que, às vezes, me perco nas ferramentas (apesar de tão simples), mas até que o meu twitter já deu uma melhorada básica. Confesso que os poucos caracteres me exercitam o dom. Confesso que é viciante nos primeiros dias. De uma certa forma, confesso que fico mais ‘antenado’ agora sobre vários assuntos (trânsito na minha cidade, meteorologia, promoções musicais – amo ganhar CDs! –, promoções literárias – adoro ganhar livros! -, shows, exposições e peças em cartaz no momento, cancelamentos de shows, os projetos que estão sendo votados neste instante e até quantos compareceram nas sessões da Câmara e do Senado, as novas leis promulgadas, resultados de jogos, etc). Confesso, por sua vez, que há muita coisa que não vem ao caso (informações sem nexo algum, bobagens, etc). Confesso que é preciso ter discernimento e bom senso pra não perder-se lendo tanta coisa. Não somos máquinas. Somos seres com um tempo apropriado para nosso aprendizado. Por falar nisso, eis uma pérola que captei neste instante das praias twitteiras de um dos autores que mais admiro (suas obras me fazem um bem daqueles!):


“Nós não somos máquinas. Somos seres da natureza (...) .É perigoso introduzir pressa num corpo que tem suas raízes na lentidão da natureza.”

Rubem Alves



Notinhas de rodapé: Já coloquei o link do meu twitter no texto. Acho que vou colocá-lo mais destacado na barrinha ao lado. Ainda decidirei sobre a conveniência ou não. E, como não poderia deixar de ser: um excelente feriado de Corpus Christi a todos!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Palavras em boas companhias



Em meio ao resfriado que me tomou no início da semana, lenços e descongestionantes não se separaram de mim desde domingo. Fez-se necessário. Melhorei ou, quem sabe (e sei!), estou ficando bem melhor. Juro (sem atchins!). Mesmo!

Sei que parece clichê, mas só parece, eu tava mesmo é com saudades de vir aqui. Trabalhos. Defesas escritas. Alguns probleminhas, ups, oportunidades de crescimento para aprender a resolver. Tudo isso foi formando uma espécie de caldo que venho tomando. Depois de vários dias “ausente”, separei tempo e, dentro dele, alguns e-mails para responder. Há muitos outros. Assim como há alguns comentários no post anterior que merecem um sinal de vida, uns farelinhos para alimento da resposta. Inobstante, rabisco umas frases e as engravido de significados particulares desde sábado passado, quando voltava do teatro. O trabalho ainda requer acabamento.

Por falar em acabamento, resolvi deletar uma narrativa que preparei para postar aqui. Sabe quando você acha que o que escreveu não tinha muito sentido? Mas, para evitar comentários, só adianto que o tema não era nada novo, apenas minha insatisfação com o comportamento delivery dos humanos que buscam fast companhia. É que saí do teatro, estive num barzinho na Lapa, acompanhado de amigos. Invoquei-me com as investidas deselegantes. Sim, sim e sim! Sou chato com essas coisas, não me adequo a esta cultura e tenho plena consciência que a maioria de meus pares discordará de mim, fazendo-me motivo de motejo. Este é o preço a pagar por ser diferente entre os diferentes. Acabei mudando de bar, pois tinha plena consciência do que me propus ao aceitar o convite para sair com amigos. Infelizmente, a coisa se repetiu. Só não perdi a noite porque as cenas do “O amante do Girassol” [Bravo! Bravo!] me inspiraram – assim como ainda me inspiram! – a não semear no vento... no vento!


Nos dias seguintes, assisti com certo interesse ao filme “Pecado na carne” e, na posição de observador-aprendiz, ao espetáculo musical “Vicente Celestino – A voz orgulho do Brasil”, no Teatro Ginástico. Acompanhado de amigas, fizemo-nos necessários uns para com os outros e, além da apreciação às artes, ponderamos sobre muitas questões nos campos profissional e afetivo. Falamos muito sobre companhias e a arte de saber ser boa companhia como necessidade, inicialmente, pra si mesmo (pois quem não se gosta não terá muitos frutos a apresentar para os demais a quem supostamente vir a gostar); logo depois, para os outros.

Em casa, fiquei pensando sobre o que soa necessário no vestir do sangue. Sim, o que se faz necessário quando o que se quer é mais que presença? Rabisquei diversos pensamentos, mas resolvi não publicá-los. São pensamentos. Desculpem a confissão, mas esses a gente semeia é pelo lado de dentro...

O que se faz necessário numa boa companhia?

Que seja presente. Que esteja atenta às necessidades do momento. Que tenha bom senso.

Que não ultrapasse limites, mas acolha sem posse. Em outras palavras: que saiba o seu lugar. Que acredite, pois confiança é um sentir legítimo. Que erre de vez em quando, mas naturalmente. Nada soa mais artificial que o empedramento do comportamento e a maquiagem de heroísmo. Ser humano é ser frágil e forte, gigante e pequeno, mestre e aprendiz.

Que leia-perceba-discirna quando a verdade soar coerente com a trajetória (que é bem mais que o momento dela, seja ele qual for). Que sorria e que chore, sem medos para atravessar as margens do mesmo rio-sentimento. Que se dê chances, sejam elas quais forem. Dar-se chance é abrir janelas. Quanto mais abertas, maior a circulação de ares-sentimentos-fragores-de-vida.




Que saiba satisfazer os legítimos desejos do coração ou ao menos tente, pois ousar é também mostrar-se presente. Que construa – palavras, uma história ou o próprio momento -, seja como faz um bom pedreiro ou um dedicado artífice. Que produza sons nas suas sinfonias mais viscerais, nunca o barulho, restrito apenas aos címbalos que retinem pela desafinação do amor.

Por fim, que seja – e que não aparente ser – qualquer coisa, mas seja com louvor dos próprios suores no caminhar. Que caminhe semeando, não importa de que caminho desde que seja sincero. Se, porventura, houver pedras, que desvie e continue seguindo. E semeando. Pra mim, isto se faz necessário.


Nota de rodapé: os créditos para a segunda imagem são para André Bernardo. Imagem extraída do original (em cores) “Left Alone”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Rabiscos de mim


Eu não sou pra fazer média. Eu não sou pra tecer juízos. Eu não sou pra estabelecer parâmetros. Eu não sou de muitas pretensões. Tenho tão pouco, mas o que tenho e sou é somente meu. Não houve furto, cópia ou imitação...

Eu não sou imediatista. Eu não sou exclamativo. Eu não sou de poucas horas. Eu não sou pra ocupar meros instantes. Eu não sou de rompantes. Eu não sou de casuísmos. Eu não sou de não-me-toques. Eu não sou das meia-verdades. Só a minha que me veste sob medida!

Eu não sou das noitadas sem sentido. Eu não sou superlativo ou absoluto. Eu não sou das histórias ditas mirabolantes. Eu não sou dos caminhos que os outros seguem, vão-com-os-outros. O que não sou, não sou. É fácil. Não há mistério. É só vir e ver.

Eu não sou o que esperam. Eu não sou amante dos extremos. Eu não sou solitário. Eu não sou pra casar. Eu também não sou pra ficar. Como se vê, não sou clichê! Considero tudo isso metódico e formatado, um reducionismo pobre que não me serve. Eu sou o que sou pra mim e para os campos...

Quer saber? Eu não sou pra-qualquer-coisa, só sei amar. E porque amo, não maltrato. Não faço da vida ou dos humanos meus rascunhos descartáveis. Gosto de papéis, rabiscos e rascunhos. Mas sei distingui-los das pessoas e de suas importâncias...

Eu não sou simplista, mas apenas simples. E tenho história. Começo, meio e um dia o recomeço. Não o fim, porque sei amar. O amor jamais acaba. Nem ele, nem seus promovedores...

Eu sou apenas assim. E nessa constatação prossigo. Procuro um campo fértil. Não qualquer um! Que seja de idéias e sentimentos profundos. Minha vocação é [ser]mear...

* * *

A nota de rodapé é para o caos provocado pela chuva...



Chove sem parar neste Rio de Janeiro. Chove todo tipo de chuva. É água, e não pouca. É sangue. É choro. É homem. É mulher. É criança e velho também. A chuva cai e molha o caos pela cidade. Vidas se foram água abaixo, que desolação!

De tanto que chove, é enchente engolindo as ruas, é desmoronamento amassando as histórias, é grito que a terra encobriu, é de luto que muitas casas se vestem... É tanta coisa, mas não preciso ligar a TV pra ver. Por aqui também chove sem parar. Eu falo do lado de fora da tela. Falo e me molho com a solidariedade comovente...

Não farei perguntas retóricas. Não questionarei as autoridades civis. Estupefação pelos que constroem casas nas encostas? Indignação por conta da população que teima em lançar garrafas pet, papéis e sacos plásticos os mais variados nos rios e nos bueiros? Estranheza pela inabilidade – ou omissão! – das políticas públicas de prevenção? Numa mata em chamas, ou antes, submersa nas águas de abril, salvemos os pássaros e todos os animais. Sejam os racionais, os irracionais e também os incompetentes. Depois, quando a chuva parar, aos sermões – para aqueles que o queiram – e às reivindicações necessárias.

São 22 horas. Ainda estou encharcado, triste e comovido.


quinta-feira, 25 de março de 2010

Considerações em meio ao breu


Ficar sem energia elétrica é horrível! Senti na pele de ontem pra hoje. Foram mais de 15 horas sem a tal energia. Que situação horrorosa, sobretudo ao considerar que esta noite fez mais um daquele calorzão tipicamente carioca, ou seja, calor e umidade te banhando de transpiração plena madrugada! Sim, eram duas horas da madrugada e eu... banhado em suor, literalmente... @#%&!

Sei dos meus direitos. Uma questão de obrigação profissional. Aliás, insatisfeito com o fato, já fiz as devidas reclamações. Não apenas isso, já digitei minha petição que será encaminhada nesta tarde ao setor de protocolo da concessionária LIGHT S/A, a responsável por esse transtorno. Não sei no que vai dar, ainda é uma dúvida. Não posso me calar, é o que sei com todas as certezas pelas quais transpiro.

Mas-porém-toda-a-vida-é-possível...

Em meio ao breu, ouvindo música ao celular até altas horas, fiz uma daquelas minhas sutis viagens no mar dos pensamentos. Falta de luz é um problema sério. Horrível, melhor dizendo. Fiquei pensando como deve ser estratosfericamente horrível não ter luz própria. Tem gente que sobrevive assim, vivendo apagada. Pior, às vezes, vivendo na sombra da luz produzida por outros. Sanguessugas de luz. Sanguessugas da luz alheia, eis o que são!

Sanguessugas de luz? Toc toc toc! Sai pra lá!

Viver uma vida assim não é vida, mas sobrevida. Tem gente que passa pela existência sem se dar conta que não viveu. O que mais fez foi apenas não-ser, sobrevivendo às custas das energias dos outros. Eu enxergo alguns desses seres nos “ólatras” da vida, que sugam o que podem nas suas taras existenciais, fazendo do outro [pessoa, vício ou objeto] o sentido em si mesmo. Poderia falar de muitos outros seres [invejosos, gananciosos, maquiavélicos, pérfidos, etc], mas não quero me expressar mais do que deveria. Até mesmo as palavras recuam quando tento propor uma frase a mais. O ‘tema’ não i-LUZ-mina sequer o texto. Digamos, serve apenas de alerta, de mera observação da realidade. Que triste realidade! Fiat lux, diziam os romanos! Haja luz!


Notinhas de rodapé:

[1] Ontem, meus pais completariam 49 anos de casados. Bodas de Heliotrópio (?), acabei descobrindo na net. Papai partiu nos meus braços. Não houve tempo para uma despedida formal. Isso é coisa de Hollywood e de final de novela à la Janete Clair. Foram várias despedidas, muitas nem percebi. Coisas da vida, a gente aprende aos pouquinhos...

[2] Hoje, 25 de março, é exatamente o dia da rua tão famosa lá em Sampa. Alguém saberá o porquê da data?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mudanças e transforma-[ações]

Domingo encontrei-me com um antigo aluno, na verdade, um amigo daqueles que a gente não vê há algum tempo. Chegamos a trabalhar juntos numa ONG há três anos atrás. Após o papo habitual de como-vai-isso e como-anda-aquilo, recebi uma sentença: “Você está muito melhor agora!”. Como assim? Perguntar não ofende, principalmente quando eu mesmo me perguntei logo depois que ele se foi. Não costumo ser curioso, por isso não quis perguntar a ele os motivos da sentença. Parecia claro falar de mudanças em mim. Mudanças pra melhor, disse. Outra pergunta me ecoou nos porões da alma: e como deveria ser antes ou, quem sabe, como aparentava ser antes?

Gozado como a gente muda conforme a sede de verdade. Minha sede era pela minha verdade. Considerando o ambiente familiar, passei anos e anos vivendo a verdade imposta pra mim. Inquestionável, num certo ponto. E por quê? Apenas porque algumas construções são difíceis de serem derribadas. Quando a gente constrói idéias sobre fé, moral, verdade, absolutizando o sentido conferido a elas, pouco espaço sobra para o pensar diferente. A coisa rola simplesmente porque é assim, e, em sendo assim, ‘funciona’. É uma espécie diazepânica de comodismo.

Ontem resolvi rabiscar uns pensamentos sobre mudanças. Cheguei a compartilhar um deles, a pedido de minha querida amiga Léa, que escreve seu livrinho (como ela mesma o chama) e precisava de algum farelinho por lá. Penso que toda mudança é uma trans-FORMA-ação. Sim, uma ação que vai além de, que ultrapassa algum limite, o limite da forma original. A gente só muda o mundo quando muda o olhar do mundo da gente. Que puta viagem! E foi uma viagem dessas que fiz à procura de minhas próprias verdades. Aquelas mais suadas, porém feitas por mim e sob minhas medidas. Acreditem, tinha passado dos meus trintinha (com cara de vinte e cinco!). Não me arrependo; aliás, do que me arrependeria? Derrubei muros enormes. Não foram desde sempre. Arranquei peles que me vestiam a pele. Acho que as vesti nas muitas estações da vida. Criei tsunamis dentro de mim que nem mesmo sei como não sucumbi. Recebi adjetivações nada gentis, mas a minha sorte é que não entreguei verbos nem pronomes aos bandidos. Caí no conceito de alguns (e como festejei tudo isso! Que delícia cair do conceito de alguém! Como isso nos torna absolutamente livres, tão livres como livre deve ser um ser humano verdadeiramente humano!). Como resultado de tanta ebulição, produzi raízes gigantescas pra todos os lados! Amigos passei a tê-los em razão de simplesmente existir. Isso deve bastar aos amigos. Nada em troca. Nada pra barganhar. Não tenho amigos porque sou gentil, rico ou famoso. Tenho-os porque eu sou assim, eu-eu-mesmo e ponto. Que dádiva! Quanta liberdade!

Acho que me revolucionei. Não, estou certo que estou me refazendo. Transformando-me. Dia a dia, um pouco mais. Sinto-me nu diante da porta aberta do quarto. Sigo pela sala e debruço na janela. Avisto alguém do lado de lá. Estão me olhando da janela, a janela de seus olhares curiosos. Qualquer uma. Qualquer um. Olhando-me nu e inteiro. Quem se importa? Eu? Que nada! Já me transformei para além desse detalhe...

Por falar em transformação... uma reflexãozinha de Rubem Alves.

Há tempos não postava nada dele por aqui...


“(...) A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. (...) É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.”

terça-feira, 16 de março de 2010

Impressões do retorno

Silêncio rompido



Para a cultura ocidental o silêncio nem sempre é valorizado. Silenciar é se fechar. Silenciar chega a ser incomodar. Mas eu gosto do silêncio pelas muitos benefícios, sobretudo quando o que mais quero é me ouvir. Ouvir-se é um exercício e tanto. Nos barulhos pra fora de nós pouca gente reconhece os que carrega dentro de si. Mas não é sobre o silêncio propriamente que vou semear palavras nestas linhas. É apenas pra afirmar que meu silêncio não impediu de voltar aqui pra marcar uma das minhas mais prazerosas necessidades: escrever sobre meus sons e sobre minhas impressões do dia a dia.

Que falta que faz


Acreditem se quiser, mas desde domingo estava sem energia elétrica em casa. 48h. Este foi o decurso de todo o calvário. É f%#@! É absolutamente tedioso não conseguir realizar várias – milhares! – de tarefas em casa, sequer carregar o celular pra voltar a ter comunicação com seres do planeta Terra ou, ainda, me inteirar dos meus e-mails e do que rolava no mundo em que habito. Um saco! Culpa de quem? Ah, sei lá! Fujo um pouco desses clichês caça-às-bruxas. Prefiro falar em ‘responsabilidade’. Mas não agora. Não por este canal.

O que queria era apenas mostrar como a ausência é mais instigante que o silêncio. Ausentar-me do mundo, pela [ir]responsabilidade dos que detêm os direitos sobre serviços e concessão desses serviços, é mais complicado que o silêncio em meio ao mundo barulhento. Horrível é a sensação de desconexão com os apelos da existência.

Sobrevivendo como E.T.


Tudo bem, sei que pareço divagar sobre uma prancha de surf em meio ao nada. Mas é que eu tenho pensado bastante ultimamente na minha ‘extraterrestrialidade’. Foi exatamente assim que me senti ao ler um artigo de um blogueiro falando sobre aqueles que na sua opinião eram ‘otários’. Pior, os comentários ecoavam um coro gregoriano de ‘sins’ (porque um ‘sim’ apenas é para os otários), concordando com tudo o que o texto dizia. Obviamente a minha impressão é apenas reflexo do meu olhar sobre aquele texto, por isso não irei apontá-lo indo ao encontro do que abomino, a síndrome da caça-às-bruxas. Cada um tem a liberdade de pensar o que quiser, penso. Posso não concordar – e cá estou pra isso! - , mas respeito.

Meu último post falava sobre outro tema controverso e acerca do qual é duro o exercício do respeito, mesmo em meio à divergência. Homofobia. Costumo dizer sempre que o que mais desejo é o respeito, e não necessariamente a concordância. Creio assim porque me aninho no pensamento de que todos têm o mesmo direito que eu de opinar como fruto do livre pensamento. Mas a minha opinião é apenas minha, não pode servir de verdade pra mais ninguém. Ao menos, não de forma goela abaixo... Lincando o que digo com o que abordei no parágrafo lá em cima, minha ‘extraterrestrialidade’ me apontou que talvez eu seja um otário de verdade. Sei lá, não sigo o fluxo do que chamam naturalidade.

Por exemplo: poderia estar descrevendo aqui – como é comum a muitos, e isso não é crítica – fatos relacionados a fins de semana incrivelmente calientes, gozados – sem duplo sentido! – em meio à ferveção e a tudo o que qualquer corpitcho equilibrado e são gostaria: diversão, azaração e curtição (com ou sem ‘finalmentes’). Talvez um dia, quem sabe, ainda descreva. (rs) Meus últimos três finais de semana, por exemplo, não foram o que se poderia chamar ‘diversão’ ou menos ainda ‘azaração’. Ao lado de uma amiga, visitei idosos em asilo (sem que nenhum deles fosse meus parentes), brinquei, sorri e sobretudo ouvi suas histórias de épocas que não vivi. Levei biscoitinhos e fui chamado de ‘lindinho’ e ‘anjinho’ pelas minhas fãs octogenárias e nonagenárias. Sei que meu risco é ser taxado de E.T. Afinal, convenhamos, quem se proporia a largar tardes de três sábados consecutivos pra cutrir um programa desses? Tudo bem, eu assumo que sou um desses! No último final de semana, por exemplo, depois das visitinhas de praxe no asilo, corri para pegar um debate sobre esquizofrenia e exclusão social. Fui ao debate (que foi precedido pela apresentação do filme “O Solista”) não porque sofra de esquizofrenia, mas porque o tema ‘exclusão’ sempre me aguça a participação. Noutro dia foi a prefeitura de Maricá, cidade próxima a Região dos Lagos, que me contactou para participar de um debate sobre “Diversidade e inclusão". Pois bem, embora tendo chegado atrasado ao filme, só deu mesmo pra rever amigos e me espantar com a participação fervorosa das pessoas que tiveram a mesma idéia e compareceram naquele lugar. Conheci algumas para as quais fui apresentado, troquei idéias e impressões, bebi com amigos e voltei pra casa. Exausto.

Em casa, não consegui dormir porque a Dona In-sônia teima em querer conjunção carnal comigo todas as vezes que me deito após uma jornada cansativa na cama (ou no sofá). Nota explicativa: eu não faço amor com Dona In-sônia, mas sim com Seu-ups-meu-sono. Com a Dona In-sônia é conjunção carnal fria e mecânica mesmo! Mas isto é um outro assunto que resolvo com música e chá de camomila. Remédios, não! Detesto! Apesar dos pesares, a tal insônia me levou a escrever pensamentos. Um a um fui encerrando laudas na imaginação. Como é sobreviver em meio à minha ‘extraterrestrialidade’?... Entre um ponto e outro, teci uma listinha de manias e ‘coisas que nunca fiz’ que qualquer um terráqueo se apavoraria de se aproximar de mim ao saber que elas existem e me formam.

Mas é aquela velha história, cada qual sobrevive com as manias, os desejos e as vontades que tem. Eu só fico bolado quando leio um marciano fazendo sua verdade prevalecer sobre a opinião alheia – seja a de terráqueos, como a maioria; seja a de E.Ts, como eu! -, tal como ocorreu quando li um blogueiro falando asneiras do tipo “preocupar-se com os outros, pra quê?”, “ser fiel ao parceiro é uma otarice”, “quero mais é aproveitar porque a vida é uma só, essa história de se guardar para o amor é coisa de otário”, “o que vale na vida é a felicidade do momento, dane-se o dia seguinte”. Ficarei por aqui. Tenho ainda alguns pensamentos pra concatenar, coisas pra compartilhar depois com terráqueos incríveis como vocês!

Antes de me despedir...



Parabenizo o Grupo Arco-íris pelo brilhantismo da campanha sobre o respeito às diferenças [vídeo abaixo]. Parabenizo o pessoal da cidade norte-americana de Washington D.C., capital dos EUA, pela árdua trajetória rumo à legalização dos casamentos. Em especial, parabéns à Darlene Garner e à sua companheira, Candy Holmes [foto ao lado], teólogas e militantes dos direitos humanos, que semanas atrás jantaram na Casa Branca ao lado do presidente Obama [hum...] estarão conosco em maio num encontro aqui no Rio de Janeiro.

Ufa! Quantas impressões neste retorno!



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

[Im]possibilidades reais de uma noite de domingo


Chego em casa, ontem à noite, vindo de uma reunião que celebrou, entre outros fatos tão abençoadores pra mim, os 12 anos de união conjugal de duas amigas que-ri-das. Como disse o Lord, outro amigo muito estimado [e engraçado] que falou coisas lindas na reunião, “eu vejo que é possível!”. Imediatamente me veio à mente o slogan: "Yes, we can!" – cantarolado ao êxtase pelos correligionários de Barack Obama nas últimas eleições norte-americanas. E quem duvida que seja possível? Falando de possibilidades, afirmo que eu creio na maior delas: o amor!

Pois, bem. Ao chegar em casa, um telefonema. Aliás, dois. Perdão, três. O segundo deles foi uma espécie de “S.O.S.” alertado por outro casal de amigos. Me informaram que estavam se dirigindo na companhia de outra amiga à Baixada Fluminense, lá pelas tantas da noite, pois a mãe de uma amiga em comum [e que eu conheço desde a adolescência], tinha acabado de expulsar a filha de casa pelo fato de ser lésbica. Segundo as informações, ela [a filha] foi agredida de todas as formas. Tinha lesões sobre a pele e outras na alma que só o tempo ajudará a cicatrizar.

- O que vocês vão fazer na Baixada Fluminense a esta hora? – perguntei.

- “Vamos levar a L_______ na casa da namorada dela, em São João de Meriti. Mas não se preocupe, a gente tá cuidando dela, tá aqui ao nosso lado.” - respondeu um dos meus amigos no celular, tentando me tranquilizar.

Sentei na minha cama e me perguntei: alegrias e dores na mesma noite. Como tudo isso [ainda] é possível!?

[...]

Lembrei-me que em agosto do ano passado um casal de amigos [A_____, 19; R_____, 21] teve que fugir de suas respectivas casas, pois os pais – ambos líderes evangélicos – descobriram o romance dos filhos. Na minha modesta opinião, os pais fizeram tudo o que pais não poderiam ter feito. Resultado: saíram da cidade, fugiram para o Rio de Janeiro. Encontrei-me com eles assim que desembarcaram na Rodoviária. Eu e um grupo de amigos os ajudamos, de início. Hoje estão bem, já conseguiram restabelecer a amizade dos pais e [...] bastante felizes [...] certos que “o amor é mais forte que a morte”, parafraseando um texto bíblico.

[...]

Preciso ligar para L______, saber como está, se precisa de [...], essas coisas que amigos demonstram quando se faz necessário...


Nota de rodapé: os versos de Virginia Woolf inseridos na imagem foram propositais para este post.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Apontamentos em pleno carnaval II


Terça-feira de carnaval selou o início do fim dos festejos (não da alegria!) dos foliões. Num dia pra lá de quente, com temperatura em 41,8ºC, mais de cem blocos de rua saculejaram todos os cantos desta cidade. Entre sorrisos estampados e marchinhas na ponta da língua, multidões deram às caras, superando as estatísticas de público nos anos anteriores. Na Avenida Atlântica, altura de Ipanema, não se via o asfalto tamanha a concentração de gente. Aqui, diferentemente das outras cidades, a maior parte dos foliões fica trajado em sungas e biquínis. Afinal, não nos esqueçamos: somos uma cidade praiana e saariana! Combinação perfeita para a menor quantidade de roupa possível...

Lamentavelmente, em que pese a necessária alegria que constrói sorrisos durante o carnaval [fazendo dele o que é!], sempre surgem uns e outros tentando ganhar vantagem – infelizmente, pela violência brutal – sobre a boa vontade dos foliões. Alertado por um amigo, testemunhei o episódio de um rapaz que tinha acabado de ser atacado por ladrões durante o trajeto da Banda de Ipanema, levando-lhe o celular. Nada de anormal num relato tipicamente urbano se não fosse o fato de ter sido atingido na jugular, importante veia que faz drenagem ao cérebro. Como em todas as vezes que testemunho situações de risco contra a vida – já foram umas quatro ocasiões – instintivamente corri na direção do ferido para socorrê-lo. Não adiantaram os gritos preocupados de alguns amigos, que pediam em vão para não me aproximar daquele cenário. Tentei acalmar as pessoas que, nervosas, gritavam pedindo socorro a esmo. Enquanto isso, o rapaz esvaía em sangue diante de mim dizendo a quem o ouvia: “- Me ajudem!”. Em questão de segundos, a viatura da polícia militar se aproximou e levou o ferido banhado em sangue para o pronto-socorro. Preocupado, fiquei o final de semana sem saber notícias daquele jovem. Hoje, meu amigo Carlos Savil é que me indicou a reportagem do G1. Graças a Deus, li que o rapaz saiu do estado grave e permanece internado em franca recuperação.

A união realmente fez a força naquele episódio. Salvou não apenas um sorriso, mas a riqueza de uma vida!

Como a alegria não pode parar, lembrei agora que entramos na quarta-feira de cinzas! “O que fazer?” é apenas uma retoricazinha pra relaxar e organizar algumas tarefas domésticas.

O que sei é que logo mais o Rio de Janeiro – e o Brasil – só falará no resultado da apuração do desfile das escolas de samba do grupo especial. Enquanto isso, vou separando os e-mails para responder. Tenho, ainda, algumas obras que enfileirei para iniciar a leitura. Preciso retomar os rabiscos das minhas crônicas [segredo!]. Xi, a lista de atividades apenas começa a tomar forma antes que o cotidiano volte amanhã reivindicando seus direitos maritais...

Que ele – o cotidiano – fique na sua, quero dizer, na dele. Ainda se pode descansar mais um pouquinho por hoje. Com sorrisos nos últimos dias do horário de verão...


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Saara, a praia e um casamento feliz


Prometo que não mais falarei do excesso de calor. Sobre o verão ainda direi coisas oportunas. É uma bela estação, nada contra (lembrando que não falarei mais sobre o “excesso de calor”). Os cariocas amam. Ontem, à noite, o Arpoador estava abarrotado de gente. Onze horas da noite. Centenas e centenas de pessoas mergulhando nas águas, fazendo amor com o mar. Nas areias, rodas de samba e até bossa nova ao som de sax. Du Moscovis, o morenão global, tava por lá curtindo o banho de mar. Cissa Guimarães, a garota que quebra o côco mas não arrebenta a sapucaia, também. Quase meia-noite. Banhista algum parecia querer abandonar a praia. A iluminação especial que a Prefeitura colocou só veio a colaborar com o espírito carioca de ser...

Foi lendo uma reportagem no G1 que me estimulei a reafirmar o que vinha dizendo por aqui. Não, volto a dizer, não é do excesso de calor que falarei, mas tão somente sobre o verão carioca. O calor do Rio ultrapassou o do deserto do Saara neste verão! Como dizia a reportagem, “nem os camelos estão sofrendo tanto quanto os cariocas”. A segunda maior sensação térmica do planeta foi registrada nesta quarta-feira, no bairro de Jacarepaguá (pertinho do hollywoodiano Projac). 43,9ºC era o que registravam os termômetros. Disso, ninguém duvida. Ontem fui, na companhia de duas amigas, visitar uma idosa a quem “adotamos” num lar geriátrico. Cheguei transpirando em bicas. No termômetro em frente, do outro lado da calçada, víamos 40ºC. A sensação térmica, no entanto, era superior aos 45ºC!

- “Tome pelo menos quatro garrafinhas de água, dessas de 500ml, por dia!” – foi a recomendação de um amigo médico. Estou seguindo à risca. Não tem como não beber água em meio a tanta transpiração – leia-se perda de líquido!


Talvez por isso os cariocas estamos preferindo as praias sob o luar. Você encontra de tudo que encontraria durante o dia, do calor a gente esculpida pela natureza, dos surfistas aos camelôs. Só não encontra o sol. Faz diferença? Nem toda, a considerar a insalubridade de um sol pra lá de Saariano. O entardecer e o luar na praia realizaram um excelente casamento. Testemunhas não faltam pra confirmar o que to dizendo. Parece que a idéia se espalhou pela cidade. Casamento feliz, já reza a lenda, não consegue ser segredo pra ninguém...


Nota de rodapé: créditos para as lindas imagens de Dyego Rodrigues.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Frases soltas...



Não se trata de um diário. Quem sabe um registro do que me ocorreu ao longo da semana. Sejam por palavras minhas, sejam por outras que apenas ouvi. Quem sabe? Fui pinçando a memória e catando momentos. Acabei me deparando com frases e orações inteiras. Ei-las:

“Eis aqui o meu altar predileto: o do bem-viver! Sinto-me um profeta inadequadamente profeta no meu tempo com este cálice de chopp na mão!” (Ao lado de duas amigas, no Barbieri’s, noite quente na Lapa carioca). [+] “Quem foi que disse que devemos celebrar a dor como virtude? Nascemos pra felicidade. Claro, cada qual descubra pra si mesmo o que significa ser feliz...” (No escritório de um amigo, numa reunião que acabou virando divã). [+] “Detesto fazer uso dos clichês, mas língua é língua, a gente se deixa trair pela semântica. Fato é que não sou melhor do que ninguém. Por outro lado, justo é o que é justo, ou seja, não faz mal e faz parte de uma espécie de aprovação geral. Só não posso concordar com teu comportamento porque não considero justo em relação a terceiros.” (Respondendo à pergunta de um amigo sobre lances ligados à traição contumaz). [+] “Sejamos seletivos, mas, convenhamos: você é “over”!” (Um amigo ressaltando seu ponto de vista sobre certa característica que supostamente carrego). [+] “Acho gozada a tua capacidade de dizer que ama sem se envolver. Eu diria que acho apenas interessante. Se você me perguntasse se é legal, responderia que não. Não entendo amor que não alcança as vísceras!” (Numa outro momento na mesma conversa anterior com um amigo). [+] “Se o teu olhar a vida não lançar luz sobre ela, então, não é a vida que deixou de ser iluminada. Foi você que não soube interpretá-la com bondade. Nada é ruim em si mesmo. Nós projetamos pelo olhar...” (Contextualizando as palavras de Jesus para um teólogo que acabou de separar-se de seu cônjuge e que me procurou profissionalmente dia desses). [+] “Sem amor não há família, mesmo que haja um papel dizendo que há casamento ou qualquer coisa parecida” (Discorrendo sobre um texto intitulado “A zumbificação da família” ao lado de uma amiga, mãe e avó). [+] “O que importa é que nós chegamos bem!” (Tranqüilizando minha prima sobre um pequeno incidente contornável). [+] “Será que um dia também vou ter a possibilidade de...? Melhor não pensar. Todas as vezes que pensei demais, apenas pensei. Não fiz. Não tive. Não houve possibilidade!” (Silêncio eloquente do coração). [+] “Feliz aniversário! Que bom que você tá alcançando minha idade... breve teremos a mesma idade!” (Festejando no dia do niver de minha irmã. Não vale a pena dizer a resposta dela pra mim...). [+]


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Picos deste verão


42ºC. Picos de 44ºC. Picos de ensolação. Picos de sudorese. Picos de calor saariano. Firmamento que não se firma, ao contrário, esquenta sobre nós. Olhar turvo. Pele oleosa. Calor úmido. Sal e suor na boca. Obsessão por instantes de nudez. Gravata que esmaga o pescoço. Sombra que te quero sombra. Sorvete que se colhe na lanchonete. Mais sede assim que a sede passa. Água de côco no camelô da esquina. Papéis encharcados e, portanto, ilegíveis no bolso do blusão. Lenço que segura a transpiração. Ao menos, tenta. Relógios digitais em complô pelas esquinas da cidade: 44ºC durante o dia, 34ºC durante a madrugada. O pico não passou? Tudo é tão excessivo, já não entendo por qual razão. Salve, Rio de Janeiro! Salve, corpo bronzeado! Muitos picos virão! Ainda estamos na primeira semana de fevereiro... Transpiremos com um “barulho” desses!...



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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Papos, palavras e conexões de volta




- Quer dizer que voltou à internet?
- Nunca saí dela; ela sim é que, sabe-se lá por que, sumiu do mapa... Fiquei na mão.
- Na mão, é? Por falta de companhia?...
- Bobo! Consertaram minha linha e restabeleceram o sinal da internet...
- Diga-me o seguinte: então resolveu sair mesmo do Orkut?
- Já era em bom tempo! Não me arrependi. Do que me arrependeria? Amigos? Sempre os terei por perto. Digo e repito: amigos, e não “contatos”...
- Entendo... Aquilo lá tá ficando um saco mesmo... O teu telefone é o mesmo, né?
- Não mudou nada. Quando bater saudade...
- Ok. Sei como te encontrar... eu sigo meu coração! Ah, sim, antes de desligar: tá sabendo do show no Circo Voador hoje?
- Fique sabendo sim. Organizado pelo Viva Rio em prol das crianças do Haiti.
- Isso mesmo. Você vai?
- Plena terça-feira é complicado... Cara, não irei, não. Mas já que falamos da ONG Viva Rio me lembrei que fiz uma inscrição com a galera do Viva Favela, uma outra ONG interessante que produz coisas muito legais. Queria ter participado do laboratório do Loucos da Torre, que reúne escritores que cresceram em comunidades carentes. Não deu tempo. Estão finalizando o romance escrito em várias mãos. Lançarão a obra em abril.
- Cara, interessante! Depois me passe mais informações...
- Tudo bem. Também tô saindo nessa...
- Eu também. Abração, cara!
- Abraços, meu rapazinho!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Desconectado em tempo real...




Diante das atuais circunstâncias fico me perguntando pra onde ir...

Falei ultimamente sobre meu desencanto do mundo virtual. Não imaginava que viria a ser arrancado tão inesperadamente dele. Há cinco dias estou sem conexão com a internet. De férias, resta-me o PC de casa. Justamente aqui fui ter problemas com o provedor. Não envio nem recebo um único e-mail. Não respondo a ninguém. Perguntas e respostas se acumulam. Pra piorar, a linha telefônica anda baleada. Depois de alguns temporais típicos deste verão, os ruídos me impedem de ouvir e identificar as vozes. Já por duas vezes os técnicos estiveram aqui, a meu pedido. Um deles falou da oxidação já que moro a poucos minutos do mar. E daí, qual a solução – eis minha perguntinha de retórica. Aguardar uma equipe pra reparar os cabos! – eis a resposta que ouvi.

Tenho “amigos virtuais” que, à vista dos últimos e-mails que recebi [antes de ficar “ilhado”], anseiam por um simples alô. Não tenho como “chegar” até eles...

De repente o mundo virtual torna o mundo real mais trabalhoso, diria. Basta ficar desconectado do mundo por alguns poucos dias. Poucos dias?! Tem sido uma eternidade! Nem leio mais às notícias em tempo real pelo portal do G1! Não assisto a um videozinho sequer do Youtube! Na falta de conexão voltei a manusear meu velho e bom dicionário (ah, saudades do meu Michaelis on line!...). Tudo parece meio perdido. Sem direção. A pergunta ecoa pelos corredores do pensamento: aonde ir?...

Que a virtualidade possa ter seus confortos (pra evitar ser repetitivo com as facilidades) não se duvida. Tudo é mais prático. Tudo, não. Quase tudo! Insisto nas reflexões anteriores sobre os cuidados [repito a palavra "cuidados" pra que não me leiam com impressões de inimizade ao mundo virtual] que se deve ter com o coração. Relacionamentos virtuais tendem a ser, em boa parte das vezes, meras projeções. Jogo de aparências photoshopadas. Até o papo é photoshopado com as palavrinhas elegantes e politicamente corretas...

Na falta de internet, os livros e as cartas. Estou chocado com os relatos do Marcelo Quintela lá na Nigéria e o grande problema social com o misticismo das crianças “bruxificadas”. Pobres coitadas, são estigmatizadas assim por lideranças religiosas para “explicar” as mazelas familiares, incluindo-se a própria miséria. Na falta de sono nesta madrugada, a brisa do mar me visita sorrateira pela varanda de meu quarto.

Os pensamentos seguem por conexões que independem da rede internauta. São próprios. Altivos. Saudosos. Inquietos. Preciso voltar ao Jardim Botânico. Preciso de novos encantos. Preciso do aprendizado daquelas raízes. Preciso do solo da realidade, a despeito de todas as facilidades do universo virtual. Mas entre teclados e pele, sou pela pele. Sou pela paz. A dos meus desejos... É pra lá que eu vou. Com ou sem conexão direta... Bom final de semana a todos!

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