Dizem que os brasileiros costumam não ter memória dos fatos. Pode ser que muitos não tenham. Muitos se acostumam ao viver presente. Mas presente sem passado não é caminho seguro, firme. Poucos somos os que sabemos de nossos direitos. Poucos têm acesso a muitos direitos. Tudo bem, verdade que não poucos também não se preocupam com suas responsabilidades. Há direitos e deveres a todos, mas também há algo que nos une. A língua. Bem, ao menos deveria nos unir. Poucos brasileiros sabem que o país tem, ao lado da língua portuguesa, um outro idioma oficialmente reconhecido por lei federal. Libras –
Língua Brasileira de Sinais – é desde 24 de abril de 2002 o segundo idioma a que todos os cidadãos precisariam conhecer e falar. A lei, sancionada pelo ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, foi regulamentada em 22 de dezembro de 2005 pelo presidente Lula, através de
decreto. Portanto, não se trata de uma lei pra não pegar, mas de um idioma pra se aprender. Todos os brasileiros! Milhares de surdos agradecerão!
Você conhece Libras?Mais de três milhões e meio de brasileiros são surdos, você sabia disso? Uma parcela pequena, bem pequena, dos surdos são considerados oralizados. Surdos que falam Libras e português são chamados bilíngües. Considerando a oralização nos processos de bimodalismo, nada há que se compare à dimensão do universo da língua de sinais. Há muitos sinais em Libras que não tem tradução para o idioma português. Assim como a palavra
“saudade” é difícil de se explicar para um estrangeiro, o mesmo acontece com alguns sinais para um ouvinte. Nós, intérpretes de Libras, bem o sabemos!
Os surdos não apenas possuem um idioma natural, possuem também uma cultura própria. Eis a principal razão pela qual os ouvintes nem sempre são pacientes com surdos (e vice-versa). Processos de desconhecimento de suas respectivas culturas (a surda e a ouvintista). Empresas e quaisquer instituições que pretendam se abrir para oferecer oportunidades a surdos ou mesmo para atendimento ao público em geral (escolas, delegacias, bancos, cartórios, hospitais, postos de saúde, balcões de emprego, INSS e muitos outros serviços) precisam conhecer a dita
cultura surda. Aí é que está o xiz da questão. Quando aprendem o idioma, esquecem-se da "cultura" desses
"brasileiros estrangeiros". Lidar com a língua de um povo é também mergulhar no seu universo particular representado pela riqueza de sua cultura.
Mas, hoje, ficarei apenas com a dica para que alguns se despertem a conhecer o idioma. Numa outra oportunidade falarei sobre meu trabalho com cegos (de maio de 1997 a dezembro de 2000).
Nota: Na imagem acima, Filipe Machado, para quem seguem os créditos.