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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Observações em dois momentos



1º momento – o início da noite de ontem


Canetas repousam sobre a mesa diametralmente colocada para servir a duas dúzias de cotovelos e pernas. Olhei para o relógio de pulso, que me pulsava a chance de mais uma interrupção naquela reunião. Brinquei com a palavra parida antes de meu parto natural. Era um amigo que reclamava seu ponto de vista sobre determinada situação que não gostaria de ter vivido. Falávamos sobre o papel político que nos vestia o “sentir subversivo” contra toda ordem de intolerância na sociedade. Lembrávamos – embora eu apenas observasse – o encontro da última sexta-feira com os candidatos do PSOL ao governo do estado, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. Recalcitrantes àquele palavrar politicamente ideológico, amigos reconheciam que o fundamentalismo religioso – diferentemente do que eles nos passavam – era e é o câncer que grassa nosso país. As lembranças apenas ilustraram parte da preocupação de nossos olhares. Estratégias foram delineadas pelas manifestações tão acolhedoras de todos. Ali, todos pareciam querer a mesma coisa, embora ninguém carregasse fuzis dentro dos olhos ou do próprio coração; ao contrário, o sentir mais visível estava no doce aroma da paz. Ela, a paz, não era um ideal menino, nem um cheirinho gostosamente inalcançável, mas uma nota alta de si maior na garganta de nossa vontade. Léa falava sobre os sonhos e, dentro deles, o projeto para alfabetizar travestis. Márcio, perguntado por mim, ressaltou os convites que fez com os psicólogos para desenvolvermos o mais rápido o projeto anteriormente aprovado para dar assistência aos jovens portadores do HIV. No fim de tudo, se é que sonhos podem ter fim, lembramos o ardor que carregamos e que não cabem em outra palavra senão no amor que desejamos não apenas pra nós, mas para todos. Afinal, buarquianamente nós cremos que “dura a vida alguns instantes, porém mais do que bastante, quando cada instante é sempre." Tudo o mais foram falas e mais falas até o sinal do fim. Reunião terminada. Cafezinho quentinho na ponta dos lábios. Um abraço, dois, três. Os meus olhos, sorrindo, acolhiam e se transformavam entre tanta gente que não apenas deseja os quês da vida, mas vai e faz. O domingo continuava produtivo, [antropo]logicamente falando...


2º momento – o início do dia de hoje


Abri a janela. Olhei com olhar entreaberto para o mundo lá fora. O dia me pareceu ter amanhecido acinzentado pelos cantos. Os rabiscos pelo firmamento não mostraram os raios do sol. A preocupação foi tanta com os detalhes que as nuvens sequer notaram o campo todo preenchido, sem chance para o sol surgir e mostrar seu brilho. Instante pensativo. Barulhos no andar de baixo não me seduziram. Olhei para o relógio sobre um canto qualquer da estante no quarto, reparei que apontava a indicação para além da hora esperada. Sequer percebi os minutos. Isso é difícil de acontecer, mas tem coisas que nos escapam. Olhei novamente para o cenário das nuvens e do próprio firmamento, confessei pra mim mesmo uma reza certeira de que o dia prometia trabalho. Fui lá cumprir a promessa de granjear o pão nosso de cada dia. Fiel, cumpri prazerosamente a força do meu desejo: devorei a fome. Sim, comi. Foi bom para ambos...

sábado, 5 de junho de 2010

Embalos [da madrugada] de sábado à noite



Noitinha fria pede passagem e assenta-se, fazendo-me companhia. Somos eu e ela próximos. O mar anda meio duvidoso, rugindo seus cantos de ressaca, irrequieto com o barulho dos ventos. A natureza tem dessas coisas, a gente não controla. Aliás, o que a gente controla? A lágrima? A saudade? A perda? A ausência? O tempo? A vida? A morte? O presente? O futuro? O quê?

Não temos controle sobre quase coisa alguma. No máximo, quando queremos, a palavra não sai. O texto não sai. O beijo não sai. E tantas outras coisas também não saem...

As coisas parecem ser passageiras? – alguém pode perguntar. Talvez. Depende do que se espera e por quanto tempo se espera. Depende, portanto, de quem espera, não das coisas em si.

Ontem, comemorando o aniversário de um amigo na Lapa, sucumbi a vários momentos sobre os quais não tenho controle. A princípio, não estava disposto o suficiente. Fazia frio e havia muito cansaço sobre a pele que me veste o corpo. A hora também não me soava interessante, pois qualquer evento que inicie após às 22h já me força o [des]controle com as coisas que costumo controlar. No entanto, fui. Algumas coisas não podemos controlar. O momento seguinte é uma delas. O fato é que acabei encontrando amigos outros que não imaginava, gente com quem não falava – sequer por e-mail, carta, telegrama, nada! – desde meados de 2008! Amigos de perto ficaram felizes com minha presença, pois sabem que não sou das viradas da noite, o que aumentava mais ainda a contagiante alegria pelo ineditismo da ocasião. Entre rostos conhecidos e outros nem tanto, fui apresentado a quem não conhecia. Conversei com todos e todas, essas coisas naturais do convívio social dos seres humanos. Emocionei-me com as cores daquelas alegrias e sobretudo com as músicas cantadas ao vivo. “Como nossos pais” me retirou das mãos os aplausos antes tímidos. Há quem canta e quem interpreta. Vi quem faz os dois verbos se tornarem um só pela conjunção carnal.

Entre sorrisos e palavras, gargalhadas e conselhos dados, alegrei-me com a oportunidade do encontro e com a dádiva da vida sobre quem aniversariava. Quando tudo, enfim, preencheu seu lugar no baú das memórias vividas naquela madrugada, despedi-me sob a intensidade das cores daquelas alegrias. Tudo tinha valido a pena até então. E como tudo concorre para lições que aprendemos no incontrolável das coisas, saí a passos gratos daquele bar. Do lado de fora, o friozinho ainda dava o ar de graça. Mas não estava sozinho com minha própria companhia. Um ventinho na consciência me sussurrava a certeza de que ainda havia um pedacinho de noite pra me consolar sob o edredon...

Já que falei em lições que aprendemos, uma delas é que o fluxo da vida não pode ser controlado. É necessário que não consigamos controlá-lo! E assim é com o que não depende de nós. No meu caso, pra quem não estava muito a fim sequer de sair, o cansaço emudeceu diante da emoção do que não esperava. É bom demais não me sentir deus em momento algum. Meus embalos se afirmam no chão do que me estabelece. No baú das memórias, bom mesmo é a essência da simplicidade nas coisas. Como aprendi com meus pais. Sem pretensão alguma, não é que os ecos da canção de Belchior foram comigo para o edredon?! É, bons ecos! E como me ensinam mesmo depois do amanhecer!...

“É por isso que não quero falar das coisas que aprendi nos discos... quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa...”



domingo, 30 de maio de 2010

Notinhas do ainda-acontecendo final de semana


Final de semana em pleno gerúndio, ou seja, acontecendo. Talvez por isso esteja agitado, senão vejamos. Sepultamento do pai de amigos de infância na manhã de sexta. À noite, pra despairecer, Teatro de Arena em Copacabana, assistindo ao brilhante texto do professor, filósofo e dramaturgo português Vicente Sanches na peça “África!”. Sábado ao lado de amigos numa programação de alto nível com os professores Luiz Ribeiro e Fátima Almeida, da PUC/Rio, ocasião em que conheci o ex-BBB Jean Wyllys, que, por sinal, é um ser humano carismático e inteligente. Claro, não ficam pra trás o Serginho Viula, que teve ótima participação no debate, nem o Marcinho Retamero, que conduziu tudo com brilhantismo e academicismo inigualáveis.

Entre um e outro dia neste final de semana, ainda arranjei tempo, numa tarde dessas qualquer, ao lado de uma amiga, para cumprir cabalmente minha Missão junto aos idosos de uma instituição asilar. Tudo, diga-se, movido pelo inconfundível prazer de fazer o que me faz bem. Pra mim o amor também carrega esses apelidos, o de fazer o bem sem esperar algo em troca.

Como se vê, meu final de semana até agora não teve balada, bebedeira, nem sequer sacudi o esqueleto ao som de DJ famoso algum. Se bem que, de tempos pra cá, sinto meu relógio biológico cada vez mais resoluto e carrancudo quanto à necessidade de dormir (nem que seja no início da madrugada). Por outro lado, não que todas essas coisas não sejam, de alguma forma, proveitosas (é fato que gosto não se discute, respeita-se!), mas é que a cada dia me dou mais conta que o que me faz bem acaba me lançando para outros rumos. Segui-los, torna-me mais diferente a cada dia. Diferente entre os diferentes e diferente entre os iguais. Diferença não é superioridade, é bom que se saliente pra não exacerbar pretensas vaidades.

Após o debate de ontem à noite [o que o Jean Wyllys também participou], amigos me convidaram para uma esticada numa pizzaria e, de quebra, no aconchego da madrugada, nos braços de uma balada. Recusei a ambos movido pela falta de vontade, o que não deixa de ser sintoma da liberdade que me possui. Minha vontade era a de estar em casa saboreando algumas obras, não entre paredes barulhentas e ao som de hit algum. Ando numa paixonite aguda pelos livros e, particularmente, por uma obra sobre a qual me debruço em pesquisa. Leio até o sono me convidar para ‘nossa’ cama. E assim ocorreu, literalmente. Levei-o pra cama comigo (ou vice-versa, confesso não me lembrar!). Falo do sono, o único que me corteja com êxito.

Por falar em côrte, o Viula e meu amigo chileno Jorgito ainda insistem na tese de doutorado de que estoy solo por mi própio deseo. Era o que diziam no coquetel pós-debate de ontem. Eles sabem que discordo disso. Considerando que os meses têm passado tão rapidamente [ao menos essa é a minha impressão!]; considerando que os programas noturnos que abocanham as horas típicas da madrugada não me chamam mais a atenção; considerando que algumas oportunidades surgem muito mais na “night” que ao longo do dia; considerando que sex appeal é algo que definitivamente não me pertence, creio que dificilmente alguma coisa mudará no reino da Dinamarca. Enquanto não muda, porém, segue o domingo-pé-de-cachimbo com a oportunidade vestida do momento “hoje”. E hoje é o dia pra continuar conjugando verbos no gerúndio até que o final de semana espoque na segunda-feira, aquela acerca da qual o Garfield e milhares de brasileiros não gostam muito.

Bom, tô de saía pra mais uma aulinha no projeto Betel. Domingo ainda promete... É isso, ao menos por agora. Bom domingo a todos!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

[Im]possibilidades reais de uma noite de domingo


Chego em casa, ontem à noite, vindo de uma reunião que celebrou, entre outros fatos tão abençoadores pra mim, os 12 anos de união conjugal de duas amigas que-ri-das. Como disse o Lord, outro amigo muito estimado [e engraçado] que falou coisas lindas na reunião, “eu vejo que é possível!”. Imediatamente me veio à mente o slogan: "Yes, we can!" – cantarolado ao êxtase pelos correligionários de Barack Obama nas últimas eleições norte-americanas. E quem duvida que seja possível? Falando de possibilidades, afirmo que eu creio na maior delas: o amor!

Pois, bem. Ao chegar em casa, um telefonema. Aliás, dois. Perdão, três. O segundo deles foi uma espécie de “S.O.S.” alertado por outro casal de amigos. Me informaram que estavam se dirigindo na companhia de outra amiga à Baixada Fluminense, lá pelas tantas da noite, pois a mãe de uma amiga em comum [e que eu conheço desde a adolescência], tinha acabado de expulsar a filha de casa pelo fato de ser lésbica. Segundo as informações, ela [a filha] foi agredida de todas as formas. Tinha lesões sobre a pele e outras na alma que só o tempo ajudará a cicatrizar.

- O que vocês vão fazer na Baixada Fluminense a esta hora? – perguntei.

- “Vamos levar a L_______ na casa da namorada dela, em São João de Meriti. Mas não se preocupe, a gente tá cuidando dela, tá aqui ao nosso lado.” - respondeu um dos meus amigos no celular, tentando me tranquilizar.

Sentei na minha cama e me perguntei: alegrias e dores na mesma noite. Como tudo isso [ainda] é possível!?

[...]

Lembrei-me que em agosto do ano passado um casal de amigos [A_____, 19; R_____, 21] teve que fugir de suas respectivas casas, pois os pais – ambos líderes evangélicos – descobriram o romance dos filhos. Na minha modesta opinião, os pais fizeram tudo o que pais não poderiam ter feito. Resultado: saíram da cidade, fugiram para o Rio de Janeiro. Encontrei-me com eles assim que desembarcaram na Rodoviária. Eu e um grupo de amigos os ajudamos, de início. Hoje estão bem, já conseguiram restabelecer a amizade dos pais e [...] bastante felizes [...] certos que “o amor é mais forte que a morte”, parafraseando um texto bíblico.

[...]

Preciso ligar para L______, saber como está, se precisa de [...], essas coisas que amigos demonstram quando se faz necessário...


Nota de rodapé: os versos de Virginia Woolf inseridos na imagem foram propositais para este post.

sábado, 8 de agosto de 2009

No encontro, eis-nos achados




Há um preço que poucos pagam, nem tanto pelo valor em si mas muitas vezes porque o que é caro requer um esforço muito grande pra se conquistar. Penso exatamente na liberdade. Não a vejo como mera palavra, mas um estado de ser o qual é visto pelas lentes da autoconsciência. Quem se sabe livre deseja ardentemente liberdade pra si e para os outros. Não existe espaço algum para manifestações egoísticas do ser. Quem se sabe livre, enche-se de indignação quando assiste alguém escravo. É tal aquele que se sabe perdoado. Invariavelmente, derramará perdão (pois a autoconsciência do prazer que causa é algo pra ser compartilhado). Tudo o mais é assim quando o ser não é egoísta...

Pensando um pouco no que o ser da gente é capaz de promover quando sabe compartilhar a alegria de um encontro, lembro-me da história muito antiga de uma dona de casa extremamente pobre que, certo dia, resolveu fazer uma faxina daquelas com o propósito de encontrar o que lhe era caro. No caso dela, uma moeda perdida e o significado emprestado a ela (a moeda). Tratava-se de seu tesouro pessoal. Era-lhe como tábua de salvação para, quem sabe, muitos apuros de ordem material. Não era qualquer coisa. Não era sequer “coisa”, uma “res” (do latim). Nada disso. Era um pedaço significativo da costura de muitos sonhos. Os sonhos daquela pobre mulher. O barato da história é que termina com o encontro da dona de casa com seu tesouro. Mais que isso, a alegria dela ao celebrar o tal encontro. Dizem que chamou a vizinhança da comunidade onde morava e os seus amigos discerniram que os sonhos daquela mulher não seriam sonhos em vão. Ali todos se viam nivelados pela necessidade e também pela alegria. Tanto foi que a alegria de uma foi a alegria da galera toda. O prazer de uma acabou contagiando a muitos.

Fico pensando na liberdade quando veste o ser humano de esperança e fé. Aqui, por favor, não me leiam com significados vinculados a qualquer religiosidade. É a fé que impulsiona a crer na possibilidade, no potencial que existe em nós. Pois, então, quando o ser humano se liberta impossível que mudanças não sejam acarretadas pelo processo. Quando são visivelmente boas, muitos compartilham da realidade de tais mudanças (até quem nunca gostou da gente). Afinal, não se esconde a candeia debaixo do alqueire. O que é luz sempre iluminará pelo simples e ao mesmo tempo majestoso exercício de viver.

Penso que o maior legado que a gente pode oferecer pra nós mesmos é a própria liberdade. Liberdade pra ser. Liberdade pra promover a construção de uma casa alicerçada na verdade. A maior de todas, creio, a verdade do ser.

Estas linhas são rascunhadas e ao mesmo tempo pinceladas do encontro tido com os amigos da Comunidade Betel nesta última quinta-feira. Assentados numa reunião que realizamos cada qual foi pondo suas próprias considerações acerca de si e das mudanças advindas no entendimento de sua liberdade. Mas, diga-se, a liberdade a partir da verdade. Lágrimas. Alegrias. Retrospectivas. Confissões. Uma satisfação contagiante pela serenidade e pela desinstitucionalidade do momento. Ninguém ali quis mostrar-se perfeito. Antes, pelo contrário, era o privilégio de se saber humano e acolhido no encontro dos semelhantes imperfeitos que fazia a diferença.

A verdade quando inserida num ambiente de acolhimento pelo outro se torna uma ferramenta de Graça que promove a comum-UNIÃO. E a coisa não ficou só entre nós, houve um ajuntamento de lembranças acerca de muitos outros seres humanos, os quais foram lembrados. Falou-se das necessidades do país, a sede de justiça e de conscientização política. Falou-se dos que não caminham na verdade e se dissolvem sendo muitos ‘eus’. Solidarizamo-nos com os agentes do Bem neste mundo, independente do que sejam, do que tenham ou no que creiam. Lembramo-nos do Gabriel Buchmann, brasileiro que buscou conhecer o mundo a partir da miséria para melhor servir como gestor, porém foi encontrado morto nesta semana, no Malawi. Foram momentos muito enriquecedores pra mim. Como disse na ocasião, aprendemos uns com os outros no encontro, mesmo no silêncio que tal encontro algumas vezes provoca. Silêncio, todavia, não silencia os ecos da alegria.

E foi justamente neste cenário de alegrias e recordações que nosso grupo – falamos emprestando o sentido de ‘família’ àquele ajuntamento – completou três anos de existência. Senti-me como a tal dona de casa que vibrou com seus vizinhos pela moeda que tinha encontrado.

Olhando fixamente nos olhos dos que ali estavam presentes, percebi que todos éramos os donos e as donas de casa daquela velha história contada por Jesus nos Evangelhos. Ali, cada qual havia se achado em algum momento na trajetória da vida. Cada qual havia discernido mudanças significativas em si e a partir de si no encontro. Penso que sejam valores imensuráveis frutos dessa tal liberdade igualmente imensurável! Que tesouro!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Aos amigos com carinho


Comemora-se hoje o dia do amigo. A data nunca foi celebrada antes por mim, talvez porque não sinta (sentia) necessidade. Amigos os temos diariamente por perto, ainda que não os vejamos todos os dias. Sabermos que os temos e que estão próximos (apesar das geografias) encurta qualquer distância dentro das lembranças. Amigos de verdade tornam o significado mais robusto de algumas certezas bem pessoais. De tão chegados, vão ficando parecidos com as figuras mais próximas da gente, aquelas parentais.

Por conjugarem o amor de uma maneira fraterna, amigos acabam entendendo as nossas intempéries. Ao jeito deles, mas entendem. A importância que assumimos uns para com os outros torna o essencial absolutamente compreensível, mesmo que os contornos adjacentes de nossas escolhas nem sempre se encaixem no que se espera. Quem se importa, em se tratando de amigos? É no silêncio eloqüente da presença que a gente mais faz bem uns aos outros. Amigos sabem muito bem que isto não depende de concordar ou não concordar. Essas outras “questões” nem nos importam. O saber que se está presente, que podemos contar, isso sim é o que dá sentido ao que a gente sente quando sabe que se tem amigos nos capítulos de nossa história... isso faz toda a diferença!

E antes que termine o baile com as palavras do texto, válido reafirmar que um dos benefícios da contemporaneidade é saber-se que há, além dos amigos reais, os reconhecidamente virtuais. Embora não seja a regra, sou testemunha ocular da premissa que grandes amizades iniciaram a partir dos teclados. Portanto, a estes e àqueles, a todos, enfim: abraços rendidos em afeto neste dia do amigo!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O alimento de nossas histórias: sonhos materializados de domingo




Final de semana com sol trazido no coração, como bem disse esses dias um amigo-mais-que-querido. Domingo, então, sem comentários. Ele despontou por trás dos montes pra cintilar luz nas paisagens que fazem desta cidade maravilhosa duas vezes. Água de côco no Arpoador, caminhadas no calçadão e nas calçadinhas, almoço com estrelas (presença querida também tem esse nome!), presentes trocados, fotos, bons humores disfarçados de “maus humores”, risos-de-nós, risos-desatadores, risos para a vida, toques, tatos, “xêros”, exposição “Nova-arte-nova”, no CCBB, muitas palavras faladas, pensadas, olhadas, até escritas. Nada disso, porém, se comparado ao privilégio de materializar os sonhos em alguns momentos – todos eles eternizados no instante que se foi – ao lado de pessoas a quem estimamos.

Hoje foram três pessoas que saíram de sua própria história para a minha. A cada uma, porém, a singularidade de páginas recém-começadas ou de obras com muitos e bons capítulos. Destas, duas são chamadas por mim como "Serginho". Ambas especiais na sua “arte”. Todas elas, contudo, profundamente acometidas pela delícia de ser amigas, cada uma a seu tempo.

Ao Leo e ao “primeiro Serginho” quero deixar o registro do finalzinho do abraço – isto porque os abraços iniciam com a vontade, ficam a maior parte do tempo presas no corpo de quem abraçamos, mas há sempre uma pequena parte que cabe na lembrança (esta, por sinal, levada conosco aonde quer que estejamos). Se soletrasse os superlativos que trago no peito, ficariam impublicáveis. A vontade era – e é – que tudo se transformasse em energia para catapultar sonhos maiores ainda em realidades pra alimentar a alma. Quem sabe... Hoje, definitivamente, saí alimentado pela presença. Sim, soletrei fatos e me percebi redescobrindo que a presença constante é necessária, ainda que no pensamento. Diariamente. Claro, discernindo com a razão que o limite é sempre “a vez do outro”. Às vezes, como hoje, o limite foi “estar-com-do-lado-de-dentro”... Sei que é feio, mas enchi a pança das delícias e dos olhares!

Ao “segundo Serginho” quero rabiscar aplausos pela brilhante palestra a que assisti no final da tarde. Suas gargalhadas me inspiraram com a energia dos grandes, não importa no que sejam grandes. Acima delas, porém, sua inteireza e vigor (pra não dizer força) na radicalidade do que significa “ser”. Ótimo saber que Serginho é-sendo. Saí daquele hotel com gratidão e oxigênio nos pulmões. Amei os altos papos tidos no término da palestra, as recordações, as experiências, sobretudo as palavras extremamente sinceras! Abraço de palavra intensa como aquelas gargalhadas!

Eu agradeço a Deus – ou lá o que desejem chamar “Amor-amor-que-é” – pelo valor da liberdade. Ser-se é tão desbravador quanto um vôo com braços abertos. Este domingo, na companhia desses que me são caros, foi assim. Braços abertos!



...


P.S.: Faltou você, Neidinha (pra mim), Neidoca (pro xêro).

P.S.2: Serginho II e Emanuel, vocês são muito gentis. Prazer foi meu ao conhecê-los!


...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sintaxe na vida real


Queria ser freira. Desistiu. Tornou-se professorinha de religião - catequista infantil. Alegrias pueris para uma mulher-aprendiz. Um dia, porém, o conheceu. Ele, um jovem professor. As missas não perdiam. Era lá que mais se viam. Ambos muito equilibrados nos seus conceitos de pureza. Nos canais irrigados de sangue, os corpos acendiam. No sangue, rios de vida. Como os mistérios do terço, as fases da lua e dos corpos. Nada demais senão duas geografias. Eis o mistério daquela fé! O calor. O desejo. O tesão. O encontro. O fruto da moral: a culpa. Assustados, tão infantis, se puniram. Romperam o elo daqueles mistérios. Rezas não adiantaram. Nem adiantariam; afinal, não era pra ser. Os amigos se comoveram. Era o que todos mais queriam para eles. E eles queriam?



Ela, perdida nas dúvidas, procurou-se nos anos seguintes. O melhor de tudo, encontrou-se. A melhor amiga lhe ofereceu o peito. O calor mais puro que a moral. Ela aceitou. Confusa, se confessou. Absolvida pelo desejo, se entregou. À amiga perguntou: somos amigas ou amantes? Entre, vamos conversar. Ela entrou...




Conheceram-se num madrigal. Ele a ouviu cantar. Ela o ouviu declamar. Apaixonaram-se. Naquele jardim tão bem cuidado felicidade crescia. Na estação própria um filho lhes nasceu. O lar sorriu até que ele perdeu o emprego. Não durou muito ela o vitimou. Introspectivo, depois de todas as respostas, emudeceu. Tempos depois, um novo amanhã e um novo emprego. Apenas uma fagulha de sol. Pouco a pouco tudo esfriava. A cama e a poesia não declamavam mais rimas. Sequer gemidos verdadeiros. Sombras noturnas cobriram o jardim. No emprego se firmou. Amizades construiu. Um amigo em especial. Histórias parecidas. Nos diários revelados uma poesia pelo olhar. Versos de tão parecidos, germinados iguais. Sob aquelas folhas, uma camada de tinta original. Feliz, reconstruiu-se por dentro. Por fora, a aparência do mesmo cenário. Aparentemente, nada diferente. O filho, no entanto, o maior tesouro. Do casamento apenas uma folha perdida na gaveta. Poeiras também...



Três anos se passaram. Seus versos cada vez mais iguais. Suas camadas de tinta, mais e mais originais. Certo dia, ergueu-se diante da janela do quarto. Abriu as cortinas. Convidou os feixes de luz. Retirou todas as peças de roupa. Ficou apenas com a sua própria. O seu “eu”. Pegou a moto e partiu. Descobriu que continuaria a ser com ou sem casamento. De fato, como sempre o foi, é...




terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que nos basta no agora


Para começar bem um dia com ventura estonteante, após as ondas procelosas nos oceanos-de-mim, inquietando-me com barcos e velas, ouvi-me dizer no canto das sereias: “eu não preciso passar por isso”.

A vida vale toda a espera, seja ela qual for, aprendendo nos segundos de todas as fases a lição que um dia o Senhor das Histórias – nas palavras do filósofo Rubem Alves – calhou a ensinar: não vos inquieteis com o dia de amanhã - o futuro que ainda não veio -; basta a cada dia o seu próprio mal”.



Dedicado a todos os amigos que me amam e são correspondidos:



“Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim...”
Vinícius de Moraes





Nota: a imagem acima intitula-se “Heartbeat” (batida do coração). Autoria desconhecida. Um êxtase para quem curte o segundo-eternidade de cada gesto terno e simples.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diálogo sob o lençol de estrelas



São vários minutos da manhã, diz o relógio. Trinta e sete pra ser mais exato. As horas não importam, nem mesmo elas são correntes. Há tempos deixei as correntes. Não foram todas retiradas de uma só vez. Não, não foram. Houve vácuo e, no meio de suas idas-e-vindas, tempos e circunstâncias, fases e nuances proporcionadas pelo crescimento das coisas em mim.

Celeste, nome fictício para uma amiga querida de longa data, gosta muito de me instigar o pensamento daquelas certezas que os bem-aventurados se alimentam: o viver com asas. Ela mesma me sugere que as coisas se agigantam dentro de nós; às vezes, diz, agigantam-se pra baixo, para além do que é visível tal como uma raiz. Estávamos, há um tempo atrás, na porta do Teatro João Caetano, diante da histórica Praça Tiradentes, no Centro do Rio, quando me chama a atenção para algo que não percebia:

- “Olha só como é bela, amigo!”

Não entendi, mas questionei seguro de alguma coisa realmente linda – em se tratando de Celeste, algo embevecido de beleza etérea. O que é belo neste momento?, perguntei.

“Meu Deus! Você não consegue ver como essas árvores são belas!? Olha só o tamanho da raiz daquela ali! Eu ficaria horas contemplando... sim, gastaria horas perdida num abraço ao redor dela!”.

"o essencial que não se vende, mas se encontra em qualquer lugar pra quem sabe enxergar, e não apenas ver"

Não imaginem que seja fantasia porque, à vista do que já testemunhei em mais de uma década de amizade, estou certo que faria sim! Ela é humana demais pra se negar a própria natureza. Um ser humano imune aos conflitos da maioria.

“‘Maioria’? O que eu tenho a ver com a maioria? Dane-se a maioria. Eu quero é o instante de minha própria realidade!”, são palavras do que chamaria discipulado transpirante, algo super natural quando estou ao seu lado. O cenário se iluminava - melhor dizer que se engrandecia - durante o papo que tivemos assentados num banco da parada de ônibus.

E foi ali que filosofamos ares e olhares sobre o significado do viver satisfeito. Que conjunto de palavras desafiadoras! Sob a imensidão de um lençol azul-marinho cheio de estrelas, do outro lado da praça, quase em frente ao Teatro Carlos Gomes, tecemos nossas histórias com sementes que abríamos de sonhos acordados, falando de lutas travadas e felicidade semeada no campo do agora. O resultado nos pareceu um ‘desafio’ desses que se mata como os leões do dia a dia.

"Nem sei se ela saberia me falar do “para-si”, de Sartre, mas fato é que a sabedoria daquela mulher me dava certeza da não-necessidade."

“As pessoas estão perdendo a sensibilidade do que é essencial”, me dizia pra, logo em seguida, completar: “o essencial que não se vende, mas se encontra em qualquer lugar pra quem sabe enxergar, e não apenas ver, meu amigo.”

Embora, talvez, a resposta me parecesse óbvia – porque intimidade, de fato, ‘é uma merda’, como dizia Caetano – quis instigar o profundo daquelas palavras quando perguntei, sulcando a terra: você tem encontrado o essencial?

“Lógico!”, me respondeu com os olhos arregalados pelo espanto com o peso da simplicidade daquelas palavras. – “Lógico que sim! Glória a Deus! Eu sou uma mulher realizada porque me realizo na essência das coisas que conquisto, meu amigo!”.

E sem que perguntasse, resolveu completar o que parecia um discurso aos céus:

- “Sou realizada como indivíduo, única em todo o universo, na cama, não importa com quem desde que seja aquele a quem eu tenha querido, na minha fé que não é propriamente minha, mas eu a reconheço como Dom porque não sei existir sem o fôlego de Deus!”.

Sorria com o tom daquelas palavras. Creio também que não seria o único a sorrir diante de tanta revelação. Mal sabia ela que analisava o compasso, a melodia e o acorde daquelas palavras, quase condicionando o discurso para uma convergência ao existencialismo sartriano. Nem sei se ela saberia me falar do para-si, de Sartre, mas fato é que a sabedoria daquela mulher me dava certeza da não-necessidade. Pra quê, afinal de contas? Minha reação instintiva, sabe-se lá por qual loucura que me acendeu aquela lucidez toda, só veio a aumentar. E teve uma hora naquele 'campo do agora' que não quis mais sorrir, e pus-me a rir num ímpeto de glória com o brotar daquelas certezas. Ouvi-la parecia um despejar de coraçõezinhos cadentes chuviscando daquele lençol do céu acima de nós.

“Você está rindo do quê? De mim?!”, me questionou tomada de absurdo. Ao que respondi: não, não é de você. É da fartura de sementes!

“Quais?”, era a sua dúvida.

As que saíram de sua mão no campo deste ‘agora’, respondi-lhe mergulhando de ponta-cabeça naquela profundidade abissal.

- “Ah, bom! Pensei que você também fosse desses que não sabem enxergar o essencial... que tristeza seria, meu amigo!”


Nota: o nome fictício apenas resguarda alguém a quem não consegui contactar a tempo para autorizar a divulgação no post. Apenas isso.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Meu ontem no dia das crianças


A semana finalmente sorriu com brilho de sol! Ontem, domingão, após abraçar carinhosamente a amiga de magistério (época boa em que dava aulas!) num culto em ação de graças por sua recuperação (saúde restabelecida, graças a Deus), rever queridos aos quais não via há alguns aninhos, decidi que deveria sentir o azul do mar com os odores de sal que a Baía de Guanabara elimina nas quebras das ondas. Da calçada do Copacabana Palace já sentia o perfume do mar, foi o que comentei com um amigo e com o filhinho dele, de dois aninhos (no meu colo), que resolveram me acompanhar. Andar com criança é sempre uma festa pra mim. A areia da praia foi um picadeiro, estejam certos. Passeei pelo Leme até Copacabana. Desisti de chegar à Ipanema, pois uma multidão me impedia. Um milhão e meio de pessoas, muitas das quais colhendo assinaturas em favor da aprovação no congresso do PLC 122/2006 pela criminalização da homofobia. No metrô, ao retornar pra casa, brincando distraidamente com as duas crianças no banco à minha frente, esbocei um furtivo diálogo com a linda jovem que, sentada ao meu lado, era só sorrisos para as crianças. Quem me conhece sabe que estabeleço relações com anônimos em qualquer lugar, principalmente nas viagens e em supermercados. Ao meu lado, porém, não se tratava de alguém anônimo. Ambos – ela e eu – consultávamos o pensamento pra identificar de onde nos conhecíamos. O pensamento latejava palavras tentando colher resposta – “de onde é que eu a...”. Foi quando, numa e outra brincadeira com as crianças à frente, sorri e disse: você parece demais com alguém que não vejo há muito tempo! Ela, disputando sorrisos com os olhos, me confessa: “- Sabe que eu também tô com a impressão que te conheço, mas não sei de onde...?”. Prossigo, quase certo de quem se tratava: nossa, como você é parecida com uma amiga que conheci num evento, o nome dela é Patrícia. Ao que ela, olhiaberta (embora boquiaberta também!), confessa: “- Meu nome é Patrícia!”. Então, é você mesma! Nos vimos pela última vez no Fórum de Educadores lá na Casa de Banhos de Dom João VI (a residência de veraneio do imperador, atualmente, Museu da Limpeza Urbana da Prefeitura do Rio). “- É verdade! Jurava que te conhecia, mas sem saber de onde!”, completou. Dali em diante, abraços, beijos e diálogos repletos de frases com boas recordações. Anotei o endereço do blog e ofereci-lhe com a promessa de que aquele encontro renderia um post. Promessa é dívida. Meu final de noite ainda me surpreenderia com mais criança para um dia tão especial quanto o das crianças: meu sobrinho, de três aninhos, e minha irmã estavam lá em casa num convite para jantar feito por minha mãe. Mais brincadeiras e mais colo, levei-os até o portão. Despedimo-nos. O dia das crianças havia cumprido seu papel em mim...

Notas de rodapé:


Pá ti, Patrícia: é a imagem que guardei quando te cliquei no evento há quase dois anos atrás, lá na Casa de Banhos de Dom João VI. Homenagem pelo reencontro! Saudades dos amigos!

Quem pode, pode: aproveite a viagem e os dias em Brasília, Madrezita. Não esqueça daquele roteirinho que sugeri. Déia vai gostar de te conhecer.

Inho-inho: você (**) faz falta, arretado! Apareça!

sábado, 11 de outubro de 2008

Apontamentos com as roupas de sábado


A semana tá quase chegando ao fim. O sábado traz um solzinho típico de primavera do sudeste. Ainda tímido, talvez, chame a chuva pra companhia na parte da tarde. Cliente liga. Nem no sábado [alguns] são capazes de me entender. Tentei explicar que os reajustes de aposentadoria e do salário mínimo se dão por índices e variações diferenciadas, o que explica a defasagem. Corri até a janela. O sol é sempre uma estrela de primeira grandeza. Põe cores e calores na palheta do Planeta. Saí até a varanda pra abraçá-lo. Olhei as horas e acreditei que ainda sobra tempo pra qualquer coisa. Sempre sobre tempo quando se é amigo do tempo. Dormir cedo pra acordar mais cedo tem me ajudado no planejamento do dia. Tanto que teimei em acreditar, não é que é verdade? Preciso sair às compras na floricultura. Uma amiga de longa data ama margaridas.
Quero presenteá-la com algumas quando estiver no culto em ação de graças que fará por ocasião da recuperação no seu estado de saúde. Amanhã é dia de alguns acontecimentos aqui no Rio. Pra quem curte, a XII Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro 2008 terá largada nesta manhã (de 12/10) pelo belíssimo corredor das Praias do Leblon e Ipanema até o Aterro do Flamengo. À tarde, igualmente, pra quem curte, a 13ª Parada LGBT do Rio pela Avenida Atlântica e, certamente, uma multidão não menos numerosa que a da maratona do Rio. Esqueçamos o domingo. O hoje ainda está vestido com as roupas de sábado. Os minutos pela frente hão de me direcionar às próximas atividades. Espero que o sol possa ajudar no brilho do restante do dia. Se assim o fizer, certamente, o convite que me fiz será uma grande dica para relaxamento: caminhar até o Arpoador. Abandonar as sandálias – o traje tipicamente carioca para qualquer lugar! – e refrescar o pensamento nas espumas das ondas.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Perfeitinha, mas nem tanto


Ontem, 05 de outubro de 2008, um aniversário pouco percebido em meio ao clima de eleições municipais por todo o país. Vinte anos de Constituição, a Lei Suprema de qualquer país. A nossa trouxe tantas inovações, ampliou leques de direitos anteriormente omissos, tornou-se a mais humana de todas as constituições, pondo – pelo menos em tese – todos com os mesmos direitos e deveres, garantindo liberdade de pensamento, de ir e vir, de crença e não-crença. O mais famoso de todos os artigos é, sem dúvida, o artigo 5º, o “artigo da cidadania” em que todos somos iguais em direitos e deveres. Não queria passar em branco uma data tão importante, sobretudo se considerarmos lutas históricas para que esses direitos fossem alcançados. Não pensem as novas gerações que tudo isso caiu de bandeja nos pratos limpos diante de nós. Liberdade e igualdade vieram à custa de muito clamor e não pouco sangue...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Meritocracia instalada


Domingo me alimentei de várias formas, não apenas pelo churrasco do qual participei, mas também pelas muitas palavras que ouvi de meu amigo de caminhada, Marcinho Retamero. Não terei pretensão alguma de reproduzir ou testemunhar em letras tudo o que ouvi, mas de uma coisa sei: foi Graça pra meu viver! Primeiro, porque o lecionário litúrgico para o domingo foi justamente a parábola que me representa (a dos trabalhadores na vinha) não apenas num contexto amplo de “metanóia” (o novo pensar a vida, que, já disse uma vez, ocorre em Graça, pondo cores novas no viver), mas sobretudo no meu “infinito particular”; aliás, meu e de Marisa Monte também. Segundo, porque a trajetória de suas palavras foram delineando o que ocorre conosco – todos nós! – desde que nascemos. E eu me senti sendo cortado em pedacinhos dentro de mim mesmo.

Dizia ele que somos altamente meritocráticos em nossos relacionamentos (afetivos, familiares, fraternos e sociais) e conosco também. De fato, o somos. Senão, vejamos. Queremos a troca. Precisamos das carreirinhas de barganha. Satisfazemo-nos em ser recompensados. E assim o é desde os idos de jardim de infância, por exemplo, quando a professorinha promete recompensar o que se comportar e castigar o que fizer bagunça. Passa por toda a adolescência, alcança a juventude e vai se estabelecendo na vida adulta. Mais e mais... Marcinho ainda citou o brilhantismo de Freud que sacou esse “mal” em nós como projeção no outro. E assim vamos vivendo, de méritos em méritos, projetando nossa humanidade adoecida com este “sistema” para quem quer que seja o outro. Tem gente que faz isso até com Deus! A religião - e aqui se diferencia de Graça, pelo amor de Deus! - é expert no catecismo e na práxis deste tema. “Se eu me dedicar à religião, certamente, serei abençoado!”, pensam. "Eu preciso estar na igreja pra que Deus me...". Eis um genoma altamente mercantilista em nosso ser! As bênçãos, portanto, são meritocráticas também. É o tal toma-lá-dá-cá ao qual nos acostumamos e pensamos que Deus também curte. Mas, como disse, Marcinho, “Deus não é homem!”. Ele não cai nessas furadas, nessas esquisitices nossas (aprendidas desde pequenos, é verdade). Projetamos o mesmo comportamento meritocrático nos nossos inter-relacionamentos. “Ah, me dá um beijinho!... Só dou se você me der primeiro...”. “Se ela fez isso, ah, também vou fazer! Isso não vai ficar barato!”. “Me deixou aqui sozinho e foi se divertir? Não perde por esperar!”. “Tenho me esforçado pra agradá-lo e ele não tá nem aí pra mim... vou parar de me esforçar...”. “Quanto que já fiz por ela e o que ganho? Nada. Sou mesmo um otário!”. “Olha quanta gente merece um pouco mais de atenção dele e eu, que o conheço há mais tempo, sou tratado como alguém sem muita importância...”. E assim vivemos. Adoecidos. Meritocráticos. Esperando sempre receber. Viciados nisso, precisando de doses cada vez maiores conforme aumenta a doença em nós. Sem saber amar. Sem saber que amor, quando puro e verdadeiro, dá sem esperar receber. Ama-se por decisão, não por recompensa. Mesmo que a recompensa seja a atenção, o carinho ou a resposta. Quem ama, ama. Quem se sabe amado, sabe-se que é amado. É feeling, vê-se com a vida. Tudo isso faz bem. Exceto o querer em troca, não importa o quê. Graças a Deus porque Ele é Graça, e não impõe “condições” para amar. Graças a Deus por muita gente que aprendeu amar com este Amor...


Nota: “post” dedicado e inspirado nas ricas palavras de meu amigo Marcinho Retamero, pela sua garra, coragem e dedicação no anúncio do amor. Fiquei feliz em saber que ele abriu a Parada de Duque de Caxias com uma oração no alto de um trio elétrico. Isso é, no mínimo, profético! Segue, ainda, a dedicação ao Juninho, amigo que me enviou uma mensagem linda no celular dizendo o quão sensibilizado ficou com as palavras que ele também ouviu do Marcinho no mesmo dia que eu.

Conversa imaginária


O mundo precisa da alma de poetas. É por isso que, às vezes, imaginar a vida simples assim pode ser daqueles momentos em que falar, pensar ou estar com amigos de verdade faz um bem danado. Um diálogo desses bem que podia ser de verdade (pra mim, foi verdade). E pra você?

- Fala, meu arretado!
- Vixe, que surpresa! Tudo bem?
- Tudo. Tava aqui de bobeira, sentado nas pedras do Arpoador, pensei: Vou dar uma ligada [...], a primeira ligada, só pra dizer que o pôr de sol é deslumbrantemente lindo, principalmente visto daqui... algo indecifrável.
- Hã? Faz isso comigo, não...Antes de voltar ao [...] tenho que passar aí. Pecado seria não passar aí... Mas, peraí, desliga que eu te ligo em seguida.
- Claro que não, eu quis. Nem vem que não tem. Nem desligo a ligação, menos ainda o momento diante desta janela aberta no firmamento. Tá tudo on line diante de mim... e é mais lindo do que eu imaginava... um marzão azulzim da cor do céu...
- Ó meu Deus, tinha que estar aí... e vou estar! Tô indo!
- Que nada, duvido!
- Ih! Ô teimoso, tô dizendo que vou pintar esse azul com minhas cores é porque vou, não teime!
- Tá bom, mas não por não teimar. Vou te aguardar no Arpoador. Rápido que o pôr de sol pediu um tempo à lua, mas não demore. O momento é simplesmente mágico.
- Posso imaginar... deve ser um paraíso...
- E o que não é paraíso passa a ser num olhar, num sotaque... Lembrei até de uma poesia de Corinne Bailey Rae, diz assim: “...just like a star across my sky, just like an angel off the page”… cara, só liguei pra compartilhar o momento, até porque também eu queria [...].
- Tá bom, amigo, não vou incomodar sua catarse. A ligação já deve estar cara... Dia desses eu te ligo debaixo de um pôr de lua... [...]
- Valeu, poeta! [...]

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