quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Das lentes do meu verso


Vejo pessoas nas ruas, pelas ruas, das ruas, algumas nuas, a maioria não. O que falta é o que é. O que sobre é o que aparenta. O reflexo distorce, amplia e multiplica a imagem que era. Reflexo sem nexo. A hora voa, o minuto some e o segundo é perplexo. Tantos passos, tantas pressas, tudo tão rápido. É beijo, é aperto, é amplexo, é dor sem nexo. O ser humano é um código, mas eu não sou deus pra decifrar...



“O meu código de acesso, é imenso
É nexo, é dor, é flor
É côncavo, é complexo
É denso, é afago, é amplexo
É o ninho do verso de amor”


Zélia Duncan in “Código de Acesso”


domingo, 9 de novembro de 2008

Novembro, mês do filme nacional


Durante duas semanas de novembro, salas de exibição de todo o país vão participar de uma campanha nacional promovida pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) intitulada “Mês do Filme Nacional”. Entre 10 e 13 e 17 e 20 de novembro, os ingressos dos filmes nacionais, incluindo algumas estréias, vão custar R$ 4 (inteiro) nos cinemas que aderirem à promoção. A agência está investindo R$ 2 milhões na realização da campanha, que conta com a parceria na da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex) e da Associação e da Associação Brasileira de Exibidores de Cinema (Abracine).

Cada exibidor participante vai montar a sua programação com produções nacionais que fizeram parte do calendário 2008. A grade completa já está disponível desde 5 de novembro no site. Ao todo, mais de 300 salas de cinema de todo país se cadastraram e vão participar da campanha.

Uma ótima dica pra quem curte a sétima arte, valorizando nossos cheiros e nossas raízes. Pra mim, então, unindo o útil ao agradável (adoro promoções!), chega em boa hora para me emocionar com o filme que desejo assistir: “Orquestra dos Meninos”.


sábado, 8 de novembro de 2008

As cores de vida


O que é a vida senão seus mistérios? Neles, sorrisos, lágrimas e desencantos. Claro, os encantos também. Uma escola! Acabou de sair aqui de casa um casal querido desses que a vida nos presenteia quando menos se espera. Não os via há exatamente um ano. Moram em Cuiabá. Nada de nomes por razões que se tornarão óbvias a seguir. Vieram visitar amigos no Rio. Lembraram-se de mim. Chegaram sem avisar. Uma surpresa. Ainda bem que estava em casa quando chegaram. Fotografias tiradas antes mesmo de entrar aqui em casa. Tantas fotos que me escondi atrás das mãos espalmadas. Depois, rendido, tive que me permitir à sessão paparazzi. À contra-gosto. Em seguida, seqüência de abraços, boas-vindas e tascos graúdos de boas conversas. Dentro delas, lembranças e afetos como recheio de massa. Nostalgia como cobertura de glacê. Sorrisos como cereja pra enfeitar. A vida e seus viéses como receita pra nos questionar qualquer possibilidade... O que é de pura certeza e o que se torna incerto, diria, impossível nesta vida? Juro que não sei. Nos últimos dias confesso que tenho sabido assustadoramente cada vez menos. Quê?! Um “self decreasing”? De modo algum! É que depois de um certo tempo a gente só sabe que nada sabe. E de não-sabendo-o-que-sabe em só-sabendo-não-sabendo o aprendizado leveda...

Eles se casaram tendo um (ele) dito a outra (a ela) que era soropositivo. Isto ainda no namoro. Não houve impedimento no coração de nenhum deles. Menos ainda no dela, que não é soropositiva. Religiosos, creram nas suas convicções de que o amor realiza milagres. Eu não duvido. A vida é prova-em-si: um milagre audacioso (e inigualável) do amor. Nem a clonagem é capaz de reproduzir tamanha perfeição (no máximo, apenas a imagem; não a consciência).


"Hoje, no entanto, um sol que recusa se pôr. Foi decisão deles. Os tempos nos obedecem quando viver vale à pena."

Casados, decidiram pela gravidez. Um enredo honesto consigo mesmo pressupõe o clímax. Ela engravidou e a criança nasceu. Há mais ou menos seis meses atrás. Uma graça. Perdoem-me a estúpida redundância: uma graça desta Graça, que nos envolve o Dom da Vida. Discreto, impus a felicidade sobre qualquer curiosidade. Nada perguntei sobre saúde, tratamentos, essas coisas. Queria ouvi-los com cordial naturalidade. Estavam tão felizes que me contagiaram com tamanha perseverança e fé.

Nem sempre foi assim, pude ouvi-los. A bonança que se fez foi precedida de temporais e confusão nas regiões mais abissais do ser. Delírios e quase desistência. Solidão, medo e dor do inevitável. Hoje, no entanto, um sol que recusa se pôr. Foi decisão deles. Os tempos nos obedecem quando viver vale à pena. Por falar nisso, combinamos ao longo da semana um passeio com pôr-de-sol. Despedimo-nos. Foram-se e me deixaram numa tarde menos anuviada. Sentei-me diante do teclado, pensei com o baralho de letras próximo dos dedos e esbocei um pôr-de-sol estampado diante do que aprendi. Milagres da vida, coisas que não se repetem em qualquer um. Uma história que precisava compartilhar.

Conjugando diagnósticos




Sou um isso.
Meu viço é a vida.
Meu vício é o viver.
Amar até a palavra.
Fecundar significados.

Sou uma senda.
Um caminho só meu.
Uma vírgula na terra molhada,
sementes brotando, idéias paridas.
O vento acaricia a cortina ainda branca.

Sou uma voz na exceção.
Uma nota em fé, bem lá, a si,
a sós, bemóis, em paz, qualquer sílaba.
Uma história inacabada, o tropeço, a ênfase.
O arrepio do vento consola a cortina na janela...



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Uma parábola recontada


“Eu não possuo o meu corpo.
Como posso eu possuir com ele?
Eu não possuo a minha alma.
Como posso possuir com ela?
Possui alguém o rio que passa?
Possui alguém o vento que passa?
Possuímos nós alguma coisa?
Se nós não sabemos o que somos,
como sabemos nós o que possuímos?”
(Bernardo Soares)


Havia um homem que se dedicava a ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro era o seu prazer. O crescimento da sua fortuna lhe dava um delicioso sentimento de segurança quanto ao seu futuro. Assim, ele não gastava o que ganhava. Investia na bolsa de valores a fim de obter novos lucros e assim ter uma segurança maior ainda. Aconteceu que uns investimentos que fizera lhe deram lucros enormes, inesperados. Ele muito se alegrou e disse: “Finalmente posso parar de trabalhar. Finalmente o meu futuro está garantido. Oh, minha alma! Descansa, come, bebe, regala-te, ama...


Mas Deus lhe disse: “Como és tolo... Não és dono do teu corpo e pensas que, com esse corpo que não te pertence podes possuir alguma coisa? Hoje vão pedir a tua vida! Deverias ter gasto o que ganhaste enquanto a vida te era dada. Agora que a tua vida te é tirada, o que ajuntaste vai para outros... De que vale a um homem ganhar o mundo todo se, para ganhá-lo, deixa a sua vida no presente escorrer por entre os dedos de sua mão?

Rubem Alves, in “Quarto de Badulaques LXXV


Related Posts with Thumbnails