quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Transformações nos mundos que habitamos



Mudanças, quem não as quer? Gozado, mas tem muita gente que não curte mudar nada. Nem a si mesmo. São as pessoas em-si-mesmadas com o que têm ou são. Em geral, quase sempre, são pedradas. Mas mudança faz parte do processo natural de transformação das coisas. Não é devaneio algum afirmar que o homem difere dos demais animais pela capacidade de mudança do mundo ao redor.

Mudamos, ou pelo menos deveríamos mudar, positivamente o mundo ao redor. Nem sempre é assim, é verdade. A Mãe Natureza que o diga. Seu pior inimigo é justamente a ação do homem.

O mundo hoje, por exemplo, amanheceu com fatos novos frutos da mudança que se impõe na História. Os americanos elegeram o primeiro presidente negro de sua História. Barack Hussein Obama, o senador democrata. Duvido que alguém há algum tempo atrás, quando da ocupação dos EUA no Iraque de Saddam, iria crer se afirmasse profeticamente que um dia a América iria ter o seu próprio Hussein. Na Casa Branca, como o 44º presidente. Não menos interessante seria pensar, há muitos anos atrás, que este país um dia iria eleger um presidente sindicalista e torneiro mecânico. "A vida é uma peça de teatro sem ensaios", dizia Chaplin.


"Mudanças se fazem necessárias quando o mundo – o nosso mundo – pede fôlego de verdade e paz conosco mesmos."

Mas não é apenas o mundo de fora que muda. O de dentro também. Todos mudamos. Bem, todos deveríamos ter o prazer de mudar. O que aprendi é que a mudança no mundo interior afeta o mundo exterior. A sacada não foi só minha, mas de São Paulo séculos antes de mim. “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”, ensinava o cara, convicto que um interferia no outro.

Mudanças acontecem diariamente no pensar, no agir, no sentir a vida com suas tonalidades. Mudanças surgem com as ebulições de novas idéias, algumas escolhidas a dedo para serem novos planos de vida. Mudanças se fazem necessárias quando o mundo – o nosso mundo – pede fôlego de verdade e paz conosco mesmos.

Já fiz tantas mudanças que não seria louco de contá-las. Pra quê? São inúmeras. São constantes. São vitais dentro do processo de amadurecimento e equilíbrio com a vida. Deixei tanta coisa pra trás. Deixei de curtir determinados estilos musicais e até programas de TV. Deixei de acreditar em contos de fadas da contemporaneidade. Passei a enxergar alguns sapos no lugar de príncipes. Aprendi a discernir o “ser” da “aparência de ser”, se bem que o aprendizado é constante. Tornei-me menos ansioso, porém profundamente mais sentimental. Deixei a ingenuidade do discurso absoluto, fosse qual fosse. Abri-me para a verdade-do-outro, como aprendi uma vez com Marília Pêra. Conheci lugares e pessoas que, em razão de “como” cria, eram desimportantes noutras épocas. Passei a identificar sinais de enfermidades no ser, o que, pra mim, só existiam em razão da matéria. Tanto em relação a mim quanto em relação aos queridos próximos. Descri completamente dos caminhos que estimulam a virtualidade como chão seguro. Salvando-se raríssimas exceções, hoje só piso nos solos que se podem tocar. Mesmo. O mal antes tão distante, passou a mostrar-se bem diante dos meus olhos. Nas ruas. No trabalho. Nos que se diziam amigos sem nunca terem sido. Nos que falavam de amor sem nunca terem conhecido o amor.

Vejo que mudanças ocorreram sob diversos ângulos. Isto sem falar nas quedas, nos tropeços, nas frustrações, nas paixões não correspondidas, etc. Quero ainda mudar tantas coisas hoje e no amanhã. Eu sei, eu sei, lembrei que ontem escrevi sobre o saber aquietar-se com o cada dia. Trata-se, porém, de um ideal salutar para minha própria História. E quem é que não quer o que faz bem? Sendo assim, eu quero mudar sempre.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O que nos basta no agora


Para começar bem um dia com ventura estonteante, após as ondas procelosas nos oceanos-de-mim, inquietando-me com barcos e velas, ouvi-me dizer no canto das sereias: “eu não preciso passar por isso”.

A vida vale toda a espera, seja ela qual for, aprendendo nos segundos de todas as fases a lição que um dia o Senhor das Histórias – nas palavras do filósofo Rubem Alves – calhou a ensinar: não vos inquieteis com o dia de amanhã - o futuro que ainda não veio -; basta a cada dia o seu próprio mal”.



Dedicado a todos os amigos que me amam e são correspondidos:



“Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim...”
Vinícius de Moraes





Nota: a imagem acima intitula-se “Heartbeat” (batida do coração). Autoria desconhecida. Um êxtase para quem curte o segundo-eternidade de cada gesto terno e simples.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Encontros e despedida: uma questão lispectoriana




Ontem, dia de finados. O congestionamento fica incalculável pelas ruas nas quais preciso trafegar. A resposta não sobe estranha à razão. Moro no bairro onde se concentram estranhamente quatro cemitérios, o maior do estado, um religioso, um israelita e outro com a pompa de ter sido o primeiro vertical do país. Policiamento ostensivo é reforçado. Camelôs e flores dão brilhos e cores à la Joãozinho Trinta. Mas o dia tem um ar grave pra se respirar diante desses cenários. Prefiro sair daqui, buscar novos ares fora do bairro. Caminhando, vejo no chão um desenho que parte o lúgubre ao meio. Um desenho de amarelinha, a brincadeira que não se vê mais nos pés de ninguém. Sorrio, mas prossigo. Entro no ônibus. Encontro conhecidos até lá. Aceno educadamente. Assento. Viajo. Salto. Caminho. Encontro amigos. Encontro abraços. Encontro uma notícia triste. Alguém que conheci há uns meses atrás veio a falecer. Sepultamento nesta segunda-feira. Trinta e poucos anos de existência. Preocupo-me com as causas. Amigos me respondem. Meningite. Reunimo-nos e fizemos uma prece. Adrielly, o primeiro transexual que conheci de perto. Chamavam-na “dama da cozinha”. Disseram que preparava excelentes quitutes. Nunca deles provei. Pouco conversamos, mas tenho boas recordações. Discreta – o que nunca imaginei encontrar numa “trans” para ignomínia minha –, elegante, temente a Deus e de poucas palavras. Um obliquoso antagonismo no estereótipo homicida que nos habita. Pra muitos juízos de plantão, uma imoral. “Perdida”, no linguajar da religião e de seus adeptos tão cheios de coisa-alguma-pra-deus.

Puxei uma folha qualquer na memória e comecei a rabiscar uma reflexão sobre o que seria imoral no sentir-pensar de nossos dias. Na volta, caminhando pelas ruas do Centro, preferi traduzir as palavras em idéias que não se calam diante de perguntas famintas. No silêncio, pus poesia como degelo nas tristezas. E fiz com que elas se tornassem mensagens pregadas num varal. Não que resolvesse expor minhas palavras, idéias ou, quem sabe, fragilidades masculinas. Não temo por isso. É que decidi interagir comigo mesmo. Publicamente. Tem vezes que penso que tudo se ergue tão transitório à razão. A vida. A idéia. A paixão. Quem chega e quem vai. Nós apenas conjugamos enquanto vivemos.

O verbo existe de per si. "No princípio era o verbo", assevera a epifania no primeiro capítulo do Evangelho de João. Sabedoria antiga que ensina o que a vida traz: o verbo sempre esteve presente... Hoje sou eu quem não estou para muitas palavras, sejam verbos, sujeitos ou predicados.

Em memória de Adrielly


O homem? A mulher? O em-si? O pra-si? O fruto parido? O fruto proibido? A mão na púbis? O pé na bunda? A boca no falo? O descompasso? O lapso? A tortura? O menor salário? Os juros ou as taras? A mordaça ou o fio dental? A interjeição ou o cuspe? A provocação ou a desistência? A sedução ou a fuga covarde? A nudez ou a vergonha não castigada? O homicídio ou o suicídio? A morte em vida ou a vida sem sentido? O abuso ou a omissão? O tapa na cara ou o que se faz antes? E o que não se faz quando deveria tê-lo feito? O que é imoral? Com que olhos se vê o que é moral? Suspiro. Olho as horas. Observo o semáforo. Atento, atravesso a rua. Entre tanta gente que me esbarra não há nada que me espante...

Seguindo pela rua, telepaticamente, a voz e o sotaque de Clarice surgem como chuva de papel picado:


"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."

Eu me agacho e cato minha resposta nos pedacinhos em branco que ainda escreverei...

...

sábado, 1 de novembro de 2008

Comercial politicamente (in)correto


Porque a palavra fala mesmo não se sabendo pra que serve. E a dúvida é eloqüente, perturba como eco. Se houvesse em mim tamanha insanidade, a ponto de não querer mais viver sem ambas, como me compreender num mundo em constante mutação?



E já que duvidar é verbo no cio...



“Posso duvidar da realidade de tudo, mas não da realidade da minha dúvida.”
André Gide






Lidando com os desafios, simples ou não


Acordar cedo. Ser pontual. Sair de casa sem café da manhã. Sair de casa sem dar “bom dia” para vizinhos. Pegar objetos com a mão direita. Gostar de celular. Gostar de strogonoff. Acostumar-me com o barulho. Falar pouco. Escrever pouco. Contar fatos sem detalhes. Detalhar sem emoção. Não me emocionar com Maria Callas. Não me emocionar com boas recordações. Não teimar de vez em quando. Não sorrir quase sempre. Não fecundar palavras. Resistir a um abraço. Resistir a um olhar-do-bem. Resistir a uma releitura.

Admitir que meu time está mal. Admitir qualquer coisa sem provas. Ficar horas debaixo do sol. Não gripar quando o tempo muda. Não espirrar quando acordo. Equilibrar-me em patins e até em bicicleta. Dormir com música nos ouvidos (me dá insônia, pois quero cantar e cantar, mas não durmo). Freqüentar baladas (mesmo que seja só umazinha). Dividir espaço com fumantes em plena atividade auto-destrutiva. Assistir apenas uma vez o filme (ou a peça) que gosto. Conjugar o verbo ficar ou qualquer outro que não venha com compromisso. Interessar-me por alguém em especial que não curta Deus. Dizer “não” para quando me for solicitada ajuda ou socorro. Dizer “sim” para quando perceber que há abuso ou perversidade disfarçados de piedade. Não me alegrar com a alegria de meu próximo nem me condoer com sua tristeza. Caminhar próximo do mal e não denunciá-lo. Não respeitar o direito alheio, sobretudo o de ser-se em paz.

E ainda poderia citar mais...


O “ter que”. O “assim como”. Lidar agitadamente com o extremo. Lidar sossegadamente com a injustiça. Não lutar a luta contra qualquer vício. Perceber opinião própria na unanimidade sem naturalidade. Entender o preconceito em quem fala de amor (aliás, entender qualquer preconceito). Assistir a um ser humano sem brio. Ou em profunda miséria, inclusive a do lado de fora. Discernir a malícia do momento-encanto. Discernir a putaria do desejo necessário. Felicitar a impetuosidade desassistida. O calar-se quando se sabe correto. Compreender os motivos da coisificação humana no ser, no ter e no jogar fora. Deslumbrar-me com a sofisticação do lado de fora. Deslumbrar-me com o coisa-alguma, o qual é o que se supõe ser qualquer coisa para fora de Deus (como se, fora Dele, coisa alguma existisse).

Mas irei parar por aqui. É o bastante. Por ora.

Bom final de semana a todos!

Sigamos em paz!


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